A propósito de um museu da “República e da Maçonaria”

Há uns dias republiquei aqui uma notícia do “Mundo Português”, que dava conta do projecto do Dr. Aires Henriques instalar um “Museu da República e da Maçonaria” em Pedrógão Grande.

Não quero por em causa a generosidade do Dr. Henriques – que até nem conheço – em colocar uma colecção particular que até merece destaque, ao serviço do público. Contudo não percebo a fixação em relacionar a Maçonaria com a República!

Alguém imagina um “Museu da Maçonaria e da Monarquia”? O que é certo é que a Maçonaria nasceu no seio da Monarquia, expandiu-se no contexto da Monarquia e hoje, onde a Monarquia se mantém (Inglaterra, Bélgica, Holanda ou Suécia, por exemplo) é extremamente respeitada, em claro contraste com as embrulhadas em que se mete quando se arrima a si mesma de “republicana”. A Maçonaria é uma Ordem Iniciática, que busca encontrar a perfeição no interior de cada homem, fazendo dele uma melhor pedra da sociedade. Isto dito de maneira laica. Podia ser mais “taliban” e até dizer que a Maçonaria se ocupa do Espírito e não da forma, mas estaria a perder 70% dos leitores. Não há nada de essencialmente “republicano” na Ordem.

Vejamos o que nos dizem os dicionários (vide Priberam):

_____________________________________________

república (rè)
(latim respublica, domínio do Estado, a coisa pública, governo, administração pública)

s. f.
1. Coisa pública; governo do interesse de todos (independentemente da forma de governo).
2. Forma de governo em que o povo exerce a soberania, por intermédio de delegados eleitos por ele e por um certo tempo.
3. Estado que adoptou essa forma de governo.
4. Comunidade de estudantes.
5. Infrm. Casa ou agremiação em que não há ordem nem disciplina.
6. Fig. Associação de animais que vivem em comum.
república das letras: classe dos escritores ou dos homens de letras.
Deprec. república das bananas: país ou região em que não há corrupção e desrespeito pela legalidade e interesse público (expressão originalmente aplicada a países latino-americanos).

 repúblico (è)

adj.
adj.
1. Relativo aos interesses da comunidade dos cidadãos.
s. m.
2. Aquele que se interessa pelo bem geral republicano.”
______________________________________________
.
.
 

A definição do que é a república não contém uma palavra que intercepte a definição – qualquer definição – possível de Maçonaria! Extraordinário, não?

Onde a República é “o interesse de todos”, a Maçonaria, por ser um grupo particular, é o seu contrário. Ou não?

Onde a República é uma “forma de governo”, a Maçonaria é uma forma de associativismo no seu estado mais laico, nunca uma forma de governar e mesmo nunca uma forma de interferir no governo (de todos, não só de alguns).

Gostava eu de saber onde é que a Maçonaria e a República se tocam…

Fazer um “Museu da República e da Maçonaria” faz tanto sentido como fazer um “Museu da Alheira e do Carro Eléctrico”.

Anda tudo a brincar… 

.

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9 thoughts on “A propósito de um museu da “República e da Maçonaria”

  1. Caro Luís de Matos

    1. Só hoje descobri o seu blog, o que me apraz…

    Mas não vou responder à letra, porque certamente já lemos os mesmos livros e alguma coisa de história pátria e universal…
    E não estamos aqui para fazer um teste de conhecimentos, gerais ou específicos que seja…

    Mas, pegando na parte final do seu artigo, digo-lhe (a brincar) que, aproveitando a minha deixa, vá até Macedo de Cavaleiros e encontrará lá a simpática aldeia de Romeu e, uma vez aí, terá a oportunidade de comer uma boa alheira de Mirandela e um boa posta de carne mirandesa.
    Tudo isso no famosíssimo restaurante local que, mesmo na porta ao lado, no mesmo edifício, tem um ímpar Museu da Rádio e das Telecomunicações, onde poderá ver alguns dos mais antigos e raros objectos dos primeiros tempos dessas ciências do áudio e do convívio à distância entre os povos…
    Trata-se daquilo a que costumamos chamar “dois em um”: Comida e Cultura, que – como vê – podem andar a par!

    2. Falando ora a sério, lhe digo que apareça em “Villa Isaura”, que é também uma pequena unidade de alojamento no meio rural, onde terei todo o gosto em o receber e conversar consigo.

    Quantos às razões de “Museu da República e Maçonaria” verá que elas assentam no projecto de um “teso” que, mesmo sem dinheiro, tem procurado recolher pelo país aquilo que outros dispersaram ao longo dos tempos…

    Mais não recolhi da “maçonaria” e da “república” porque dinheiro não há!
    Se houvesse, esse projecto seria já um museu real, bem apetrechado, para mostrar a todo o mundo…

    Por exemplo, neste momento preciso de 3.000€ para comprar um busto da República portuguesa e mais 1.000€ para adquirir um bastão de cerimonial maçónico (francês).
    Ninguém me acode, vou certamente perder essas peças para outros…
    Mas a vida é assim. Como ela é, não como nós a imaginamos!

    Compreenderá, assim, que sem dinheiro para fazer o que seria mais coerente, vou ter que continuar a conviver, num mesmo espaço, com as chouriças, a maçonaria e a república!

    Um dia, certamente, pensarei num nome mais adequado para esse dito Museu!
    Mas aceito a sua sugestão. Venha ela daí!

    Saudações cordiais

    Aires Henriques

    • Estimado Aires Henriques:

      O seu comentário deixou-me muito satisfeito. Não só cita o Maria Rita e o Romeu (cresci em Mirandela!), com tem uma atitude muito bem disposta, tolerante e segura de si mesmo – muito Maçónica – relativamente à provocação que é o meu post. Pode ver bem a ironia que aplico, no sentido de mostrar que a República é um capítulo na história da Maçonaria em Portugal (cujo valor histórico não pode ser menosprezado), mas que limitar a Maçonaria Universal a este capítulo é deitar fora todo o resto do livro! E, como sabe, o livro é muito extenso!… Às vezes a ironia e a provocação são as armas que temos para por as pessoas a pensar.

      Então vamos lá por pontos:

      1. Obrigado pelo incentivo ao Blog. Logo que o meu livro esteja no mercado (mais uns dois meses), deveremos ter mais companheiros por aqui.

      No que respeita a Jerusalém do Romeu, sempre gostei de ir ao Maria Rita quando era criança. O Museu deixava-me fascinado. Ainda este Verão andei pelas terras de Mirandela, Macedo, Bragança e Mogadouro em expedição fotográfica e passei pelo Romeu. Sabe que fiquei com a ideia de que Clemente Meneres poderia ser Maçon? Ele foi o empresário que, no virar do século 19 para o 20, criou uma exploração modelo e verdadeiramente deu vida à perdida aldeia do Romeu, dando direitos aos seus trabalhadores nessa época que ainda hoje são um marco a não esquecer. Criou escolas e assistência médica gratuita, limitou as horas laborais, insistiu em empregar famílias (os homens na parte mecanizada e fabril, as mulheres no campo e nas actividades ligadas à saúde e alimentação da comunidade), instalou saneamento e construiu habitação gratuita. O prestígio que ainda chegou aos nossos dias é grande e foi enraizado numa ética de trabalho e humanismo que – creio – são valores que parecem ter tido um enquadramento maçónico. Mas estou ainda à procura de dados. Por isso, ter referido o Romeu deixa-me cheio de alegria e admiração.

      2. Conte comigo em “Villa Isaura”. Será um prazer visitá-lo e fazer um artigo que continue o que já saíu. Como percebe não tenho nada contra a sua iniciativa que disse merecer destaque. E estou curioso sobre a colecção de peças maçónicas. Quem sabe, expondo o projecto a um público mais largo, quer através deste Blog (que está desde já ao seu serviço), quer através dos contactos de amigos, possamos ajudar a financiar a compra de algumas das peças que procura juntar à colecção. Penso que a Maçonaria por vezes tem uma má reputação por estar demasiado fechada à sociedade. Um Museu, onde ela se possa dar a conhecer melhor, é sempre uma ideia a apoiar.

      Por isso, amigo Henriques, não esmoreça no projecto. Vamos procurar reunir boas vontades e interesse por ele. Embora eu tenha o tempo muito ocupado até à Páscoa, vou ver se lhe consigo fazer uma visita logo a seguir. Entretanto, o meu email pessoal é luismatos@madrid.com.

      Disponha sempre.

      Luis de Matos

  2. Caro Luís de Matos,

    Continuando a nossa conversa, iniciada noutro lado, lembrei-me de lhe dizer que as colecções de que disponho foram formadas em grande parte aquando da recolha de documentação para a elaboração, há cerca de 10 anos atrás, de uma biografia sobre o maçon Dr. Manuel Gregório PESTANA JÚNIOR, natural da Ilha do Porto Santo / Madeira.

    Esse trabalho biográfico, a que foi dado o título “Pestana Júnior, profeta republicano”, elaborado em colaboração com minha filha, continua aguardando publicação desde então.

    O maçon PESTANA JÚNIOR, participou na Greve Académica de Coimbra, em 1907, militou na Carbonária Coimbrã (1908-1910), foi Administrador da Câmara Municipal do Funchal (1910-1913), deputado (1911-1926), Director das Cadeias Centrais de Lisboa, Ministro das Finanças (1924/25), elemento destacado da Revolução da Madeira (1931), etc.

    Após a elaboração da referida obra biográfica foi dado continuidade ao acervo existente, o que explica – para além do que já antes foi dito – que as duas colecções (República e Maçonaria) se ligam por via dos intervenientes e dos factos históricos descritos, acabando por integrar também materiais relativos ao Estado Novo e ao período de oposição à ditadura (Reviralho).

    A ideia de base é, mais tarde, programar pequenas exposições de carácter temático, indo ao encontro das novas filosofias expositivas que apontam para mostras temporárias e mais diversificadas.

  3. Caro Luís de Matos,
    Falo-lhe noutro lado da Exposição RETALHOS DA REPÚBLICA que decorre presentemente em Castanheira de Pera, no seu Museu local, a Casa do Tempo.
    Penso que vale a pena visitá-la e demorar algum tempo na bela região da Serra da Lousã e do Rio Zêzere…
    Prevê-se que em 11 de Setembro outra exposição, sobre a República, possa ter lugar na vila da Pampilhosa da Serra, a caminho da deslumbrante albufeira de Santa Luzia, organizada por uma Associação de Juristas da região…
    De igual modo, o município de Miranda do Corvo, nas proximidades de Coimbra, tem programada uma exposição comemorativa da implantação da República para o dia 5 de Outubro de 2010, ou seja, 100 anos após a Rotunda…
    Mas não existe República sem Monarquia, pelo que alguns objectos relativos a este período, designadamente quanto à febre anticlerical e de denúncia do Ultimatum inglês não poderão ali faltar…
    Tudo faremos por issso…
    bem como por ali comer um bom pão com chouriço…
    de preferência em aldeia próxima da sede do concelho, no Café do Sr. Falcão, onde a autarquia e as forças vivas locais vêm realizando algumas interessantes tertúlias sobre tema históricos, políticos e sociais.
    Não nos podemos esquecer que Miranda, apesar de ser do Corvo, é também a terra do grande propagandista José Falcão o tal que conseguiu ver o seu manifesto para o povo assinado por Manuel Gonçalves Cerejeira, de que todos certamente também se lembram…
    Outros tempos!…
    Outras vontades!…
    Ou a juventude é mesmo atrevida?

  4. Caro Luís de Matos,

    Acabo de publicar um livro biográfico sobre um ilustre maçon e carbonário (!) da 1ª República, educado pelos padres jesuítas (!) de Campolide, de seu nome Manuel Gregório Pestana Júnior, natural do Port Santo / Madeira, nascido em 1886 e falecido em 1970, colega de Oliveira Salazar em Coimbra, bem como Ramada Curto, Carlos Olavo, Fernando Bissaia Barreto e tantos outros.
    Os demais pormenores da sua curiosa biografia constam da contracapa da obra “PESTANA JÚNIOR, PROFETA REPUBLICANO” a remeter-lhe via postal
    Pretendo enviar-lhe o livro, pelo que lhe peço o favor de me fornecer uma morada para o efeito.
    Obrigado

    Aires B. Henriques

    • Caro Aires Henriques:

      O meu endereço é:

      Luis de Matos
      Apartado 44
      2725 Mem Martins

      Logo que receba o livro faço aqui um artigo de divulgação.

      Luis de Matos

  5. Caro Luís de Matos,

    O Museu da República e da Maçonaria do Centro de Portugal está praticamente ultimado. Falta apenas colocar 3 janelas, uma calha para pendurar quadros e outra para os projectores de iluminação das vitrinas / objectos.
    As vitrinas existentes não são as melhores, mas outras não há, …nem dinheiro para as comprar.
    Como o ano do Centenário se prolonga até Outubro de 2011, penso que antes disso farei a inauguração do edifício…
    Desde já fica convidado, assim como a trazer os amigos…

  6. Pingback: Os números de 2010 « Um Blog Universátil

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