GM do GOL, António Reis, sobre o Regicídio

Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, António Reis, afirma que quer do ponto de vista ético quer do ponto vista político a maçonaria não concordou com o regicídio. E sobre o desa-parecimento do processo judicial dos regicidas observa que foi boicotado pelos próprios chefes de governo monárquicos, nomeadamente, Ferreira do Amaral e Teixeira de Sousa.

Correio da Manhã – O que levou a Maçonaria a voltar-se contra a monarquia?

António Reis – Doutrinariamente, a Maçonaria não é contra a monarquia, mas contra as monarquias absolutas e contra as ditaduras por violarem um dos grandes princípios da maçonaria que é a liberdade. A Maçonaria nasceu em Portugal durante a monarquia, em 1802, quando se fundou o Grande Oriente Lusitano, e teve como Grão-Mestres e maçons ilustríssimos monárquicos. O próprio rei D. Pedro IV foi maçon. Só começou a receber republicanos nas últimas décadas do século XIX e, sobretudo, após 1890, quando já no reinado de D. Carlos se tornou evidente o descrédito e a decadência da monarquia constitucional portuguesa. A maçonaria combateu a monarquia concreta de D. Carlos que com o governo de João Franco, de 1906 a 1908, teve uma deriva ditatorial, cuja responsabilidade pertence ao próprio rei. Foram estas circunstâncias que levaram a maçonaria a preparar o derrube da monarquia.

– Como se concretizou essa ideia?

– Em 1909, no Congresso do Partido Republicano, em Setúbal, vários maçons, como António José de Almeida e Afonso Costa, foram eleitos dirigentes e mais tarde, a 14 de Junho de 1910, no templo José Estêvão, que é o maior aqui do Palácio Maçónico, decorreu uma assembleia com centenas de maçons que criou a comissão de resistência da maçonaria, de facto uma comissão organizadora da revolução republicana.

– Mas a Maçonaria revelou-se republicana, logo em 1907, com a eleição de Magalhães Lima para Grão-Mestre…

– Sim, estou convencido de que a escolha de João Franco pelo rei para lançar um regime altamente repressivo contribuiu para fortalecer a presença republicana no Grande Oriente Lusitano Unido. A eleição de Magalhães Lima aumentou a cumplicidade evidente com o Partido Republicano. Já em vésperas do 5 de Outubro de 1910, ele desempenhou uma missão muitíssimo importante que foi a ida ao estrangeiro juntamente com Alves da Veiga e José Relvas para sensibilizar os governantes franceses e britânicos para uma revolução republicana em Portugal e garantir que eles não interviriam. Isto era particularmente importante em relação a Inglaterra por afinidades entre as famílias reais. A única exigência que os britânicos fizeram foi a integridade física da família real portuguesa, o que foi garantido pela missão.

– Como é que a Maçonaria avaliou o regicídio?

– A Maçonaria não interveio nem directa nem indirectamente nesse acto. Hoje está provado que as mortes foram obra de um pequeno grupo de carbonários que actuou à revelia da alta venda, através de uma loja especial chamada Coruja. A maçonaria condenou o regicídio pela voz de Magalhães Lima. E, já nos anos 20, o próprio João Franco no jantar das bodas de ouro do seu curso de Direito, em Coimbra, onde era condiscípulo de Magalhães Lima, afirmou alto e em bom som que este não tinha as mãos sujas do sangue do regicídio. Aliás, nem à maçonaria nem ao Partido Republicano interessava do ponto de vista político um acto que poderia reunir a classe política monárquica, como em certa medida aconteceu, e atrasar a queda da monarquia. Não, por acaso, depois do regicídio há um governo de acalmação, com políticos monárquicos moderados e o Partido Republicano chegou em Abril/Maio de 1908 a encarar a hipótese de um pacto com a monarquia. Esse acordo terá sido inviabilizado pela oposição da rainha D. Amélia.

– E quanto ao desaparecimento do processo judicial dos regicidas, que apurou a Maçonaria?

– Mesmo antes de desaparecer, o processo não andou muito para a frente e foi boicotado pelos chefes de governo monárquicos, nomeadamente, Ferreira do Amaral e Teixeira de Sousa. Quanto foi possível apurar, os mais responsabilizados nesse processo eram políticos monárquicos, nomeadamente os da dissidência do Partido Progressista, como José Alpoim e o visconde de Ribeira Brava. Foi este quem comprou as armas e municiou os regicidas. Do ponto político, o regicídio foi uma conspiração da dissidência monárquica. Tudo isto está comprovado no famoso discurso de António José de Almeida, a 3 de Junho de 1908, nas Cortes onde condena o regicídio.

“EM 1910 HAVIA 1500 MAÇONS”

“À volta de 1910, havia maçons na carbonária, mas poucos carbonários eram maçons. Havia cerca de 30 mil carbonários e, nessa altura, não mais de 1500 maçons. A sensação que eu tenho é que a carbonária desapareceu com a Implantação da República porque a mudança do regime era o seu grande objectivo e com a sua concretização deixou de fazer sentido. Dissolveu-se em pequenos grupos, como a Formiga Branca muito ligada ao partido Democrático, de Afonso Costa, os batalhões de voluntários de defesa da República, e outros grupos. Mas a carbonária, tal como se apresentava antes do 5 de Outubro, nunca mais voltou a existir.

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