Only in America…

De facto, viajar pelos Estados Unidos é uma experiência muito enriquecedora. Temos a oportunidade de entrar em contacto com todo o tipo de estupidez humana possível e frequentemente nos perguntamos por que razão um país tão liberal e avançado em tantos domínios pode ser tão atrasado e retrógado em outros…

Não me compreendam mal! Eu gosto dos Estados Unidos! O meu patrão é americano e tanto ele como os colegas que conheci na minha área profissional que tinham origem americana são pessoas fantásticas. São sumamente leais, trabalhadoras e simpáticas. O que me queixo é da inabilidade de muitos americanos médios para lidar com algumas situações, nomeadamente no seu respeito pela autoridade – o que é bom – e que neles assume a característica de simples lobotomia em muitas situações.

Um exemplo?

Esta semana fiz o check-in num hotel em Nova York. Por motivos que só eles compreendem, cada hotel por aqui tem cada vez mais a prática de bloquear o nosso cartão de crédito pela totalidade do valor da estadia, mais pelo menos 20%. Ora, infelizmente já fui “queimado” várias vezes por hotéis que o fazem (mas que não o podem fazer, pois é injustificado), entre eles no Algarve e em França. Passei a ter a prática de dar como garantia um cartão que tenho que tem um limite super-baixo de crédito (porque é na verdade um cartão de fidelidade de um retalhista espanhol!). Ora, quando os hotéis são honestos, ficam com o número e tudo corre bem. Quando o não são e pouco se importam com o cliente, chegam a ter a quantia bloqueada no saldo do cartão mais de uma semana depois de a conta ter sido liquidada! Ora, quando passamos muito tempo em viagem, usando vários hotéis em vários sítios, ocorre frequentemente que aí pelo 3º hotel mais de 3.000 euros estão bloqueados num só cartão! Isto não é nem razoável nem legal, sempre que o cliente pague a estadia e não autorize o acesso aos seus dados privados de cartão de crédito. Mas por aqui, os dados privados são uma chatice…

Regressando ao check-in, a reserva que tinha, estava garantida pelo tal cartão (como sempre), o que na Europa não dá problemas. Mas como dias antes havia estado num Hilton noutra parte de Nova York e ainda não me tinham libertado as quantias reservadas, o cartão foi declinado. Nessas ocasiões eu costumo oferecer-me para pagar a estadia completa na hora, o que em 80% dos casos resolve o problema. Foi o que fiz. Cobraram a estadia num cartão de débito (que vai directamente à minha conta), pelo que não havia mais nada a pagar. Mas no seu entender não era assim. Disseram que a reserva estava paga, mas que precisavam de bloquear no cartão de crédito à sua ordem mais 35% do valor da estadia que eu acabava de pagar. Como? Mais 35%? Porquê, perguntei. Disseram então que era para as despesas extra. Disse para bloquearem o meu telefone no quarto, os filmes porno que não uso e que no Bar – se o usasse – pagaria em cash. Isto resolve sempre os outros 20% dos casos. Mas não aqui. Ou dava um cartão de crédito para disponibilizar à sua ordem um valor de mais 35% da conta que pagara ou não me deixavam fazer o check-in. A razão? Diziam que esse crédito cobria além das despesas de extras, possíveis distúrbios que o cliente pudesse fazer no quarto! A sério! Distúrbios! Tipo lançar a TV pela janela para a piscina e coisas dessas! I kid you not! Foi o que me disseram. Isto num Marriott… Já sem saber o que argumentar (nem eu nem o colega Português que viajava comigo temos cara de Mick Jagger!), cada vez mais determinadio a não pagar mais do que o preço do quarto, resisti. Disse não ter mais cartões. Mas eles continuavam a dizer que não podiam dar-me entrada no hotel. O sistema informático (essa autoridade opressora) não o permitia. Mesmo tendo pago antecipadamente, havia que deixar um depósito adicional, caso eu fosse algum desiquilibrado. Disse que o máximo que fazia era deixar dinheiro suficiente para quaisquer despesas de bar, por exemplo, mas nada mais. Pediram então 100 USD$ em cash (ou seja, uns 85 Euros!). O quê??? Mas isso é um absurdo, protestei! Tirei uma note de 20 USD$ (uns 17 Euros) e disse que não dava mais nada. Mandaram chamar o supervisor… A autoridade… Uuuu que medo…

Lá veio uma senhora com ar de mázinha. “É política do Marriott só fazer o check-in a quem faz um depósito para eventuais despesas.” Tive de perguntar se era política do Marriott cobrar um serviço na íntegra (como já estava feito) e depois não o fornecer! No caso de virem a abrir restaurantes, a política da empresa incluiria pagar 100 dólares ao sentar na mesa para o caso de o cliente partir uns pratos e uns copos? Não era lógico. Simplesmente não era. Literalmente todos os hotéis que procuram forçar medidas abusivas deste tipo recuam quando se paga a conta na totalidade antes de o serviço ser fornecido (o que é igualmente lesivo para o cliente, mas retira qualquer legitimidade ao fornecedor do serviço de cobrar outros “eventuais”). Mas estes insistiam que era a política da casa. Pedi o livro de reclamações. Disseram-me que não tinham. Fiquei preplexo! O país mais “evoluído” do mundo, uma das primeiras economias mundiais AINDA NÃO SABE o que é o livro de reclamações? Por isso o serviço por aqui é tão bera, tão cutre, tão mauzinho. Quando não é mau (e em espanhol…) é tão caro que sentimos uma mão entrar na carteira e retirar pilhas de notas!… Recapitulei a situação, o absurdo dela, repeti que a estadia estava já cobrada na minha conta bancária e que, sem telefone, sem porno e sem bar, não havia onde fazer despesas, por isso era abusivo obrigar-me a fazer um depósito. Terminava oferecendo 20 dólares em depósito. Finalmente aceitaram!

Mas que raio! Se podiam aceitar a minha posição, por que razão estivemos ali num diálogo de surdos??? Não entendo! A casmurrice é uma coisa impressionante!

Minutos depois o meu colega precisou de carregar com mais algum dinheiro o telemóvel americano que comprou. Já levamos, entre os dois, 4 aparelhos de telemóveis americanos. Cada vez que cá vimos em trabalho compramos um e no final deitamo-lo ao lixo. Não somos estúpidos, gastadores ou inimigos do ambiente… Não, é que as chamadas em roaming de um número Europeu são muito caras. Claro que o que eu queria inicialmente era comprar um cartão SIM e colocá-lo no meu telemóvel, que está desbloqueado. Mas isso sou eu, que sou poupadinho e penso à Portuguesa. Eles têm cá essa opção. Um cartão SIM, só o chipzinho do cartão com um número local, SEM TELEMÓVEL custa muito próximo dos 80 euros. O mesmo, mas COM TELEMÓVEL novinho em folha de cá, custa… 11 euros (15 USD$)… Ou seja, de cada vez que a malta tem de cá vir, lá vem um telemóvel novo, com carregador de bateria, o manual, a caixa, etc. Aqui, o importante é consumir. Mais 2 telemóveis vendidos! Yupi! Ficam inutilizados se não forem carragados cada mês? Que importa?

Mas o meu colega precisava de aumentar o saldo do seu. Ligou para um número de apoio. Atendeu-o “a máquina”, aquela do “press one if you want to check your balance, press two if you want to (…), etc.” Pobre dele. Esteve intermináveis minutos a carregar em teclas, às vezes a falar em voz alta para o microfone do telemovel que parecia ignorá-lo. Escrevia o número de cartão de crédito, voltava a escrever, anulava, voltava atrás… Eu sei lá! Às tantas fez um sorriso do tipo “até que enfim!” e lá começou a falar com um operador. A coisa começou mal. O tipo do lado de lá começou a dizer algo do género “jiú ar’echpiking tu zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero (…)” e depois uns números que o meu colega não compreendeu. “Sorry… I don’t understand”, dizia ele; e do outro lado “zero, zero, zero, zero, zero (…)” e uns números!… “What?”. Finalmente fez-se luz. O operador estava a dar o seu número de empregado. Para quê, não sei. Posso imaginar, mas ninguém apanhava a coisa à primeira. Resolvido este ponto, o meu colega lá explicou que dera os dados todos ao computador, mas que não conseguira processar o pedido de comprar mais saldo. Do outro lado voltaram a pedir-lhe tudo de novo. Tudo. Os mesmos dados, o mesmo número de cartão, o mesmo nome e… desta vez queriam a morada dele nos “estates”. “Não posso dar”, dizia ele. Mas nada, sem morada não podia ser. “Mas eu só quero pôr mais um bocadinho de saldo no telemóvel”. “Não, precisamos saber o enedcereço”. E o meu colaga confuso, olhava-me encolhendo os ombros “É um telemóvel de carregar pela boca, não tem endereço! Não é dos de casa. É para falar e deitar fora!”. Nada. Ele pensou numa solução. Lembrando-se da direcção de um amigo começou “número tal da rua tal”, mas parou logo a seguir dizendo “F$%%&-#e! E eu sei lá isso agora?!”. Mas o que é que eles querem agora, perguntei eu. “O código postal, pá. Eu sei lá o código postal!” e pobre do meu colega, voltou a tentar explicar ao interlucutor. “Oiça, eu só quero carregar o meu telemóvel. Nada mais. Já dei o meu número de cartão de crédito e a autorização. Não precisam de mais nada. O que é que importa a minha direcção? Cobrem-me no cartão! Por favor!” A resposta colocou-o em desespero… A direcção e o código postal eram para mandar o recibo!… Sim, o recibo da transacção! “Mas eu não quero o recibo! Eu não sou de cá!”, chorava o meu amigo. “Pode ficar com o recibo e deitá-lo ao lixo! Esqueça! Não me interessa. Guarde o dinheiro do correio. Não quero recibo. Eu só quero carregar o telemóvel!…” Não. O sistema não deixa. Sempre o sistema. É que não deixa. Sem código postal e sem endereço para mandar o recibo não se pode processar a compra do saldo. Mas, dizia o operador, confiante no seu exemplar desempenho da cartilha pela qual aprendeu, que não permite improvisos à Portuguesa nem atalhos facilitistas, mas – dizia ele – se quiser podemos mandar o recibo para a sua morada no estrangeiro.

Desesperado, o meu amigo portuga viu a oportunidade, e mânfio que nem um malandro que decide atacar o sistema disse: “Ai sim? Pois então escreva lá: [e em português bem claro] Avenida de Xabregas à Praça dos Comabatentes da Guerra do Ultramar”. Hilariante! O gajo do outro lado nem sabia o que fazer. Eu que ía a conduzir quase que atirava o carro para o separador central da autoestrada com o riso. “Pode soletrar?”, perguntou o operador. “Claro!”, disse o meu amigo, dando-lhe uns bons 5 minutos de letras em português para formar a direcção mais estapafúrdia que conseguiu! “Código Postal: 28046-5113; Localidade: Sernozelhe – Sim, escreva lá Sernozelhe!”. Estavam nisto, com o purtuga já a gozar o coitado do operador, quando se lembrou de estender a maldade: “Por favor repita lá a direcção que é para eu ter a certeza que a escreveu certa, é que agora quero mesmo o recibozito!” e o riso foi incontralável ao ouvirmos o operador a tentar navegar pelos “comabtentes do ultramar” e o “sernozelhe” aos tropeções… “Desculpe mas estava a passar por um túnel, pode repetir?” e o gajo lá teve de repetir tudinho!… Só na América!

Mas há mais…

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