Traveling Mason

Quem ler o meu último post (a que se seguirá um outro com mais alguns exemplos do “Only in America”) vai pensar que eu detesto os Estados Unidos. Não é verdade. Hoje vou contar um pouco como foi a minha visita a uma Loja da Juristdição Americana do Rito Antigo e Primitivo de Memphis- Misraim.

A primeira surpresa é encontrar o Templo Maçónico na rua principal de um bairro de Nova York, perfeitamente identificado e sem qualquer tipo de restrições de acesso. A foto que podem ver é da fachada exterior. Isto seria impensável em Portugal. Mas mais! No rés-do-chão funciona um centro clínico dirigido por Irmãos, que trabalha para a comunidade do bairro. Outra coisa difícil de se ver no nosso cantinho Lusitano…

Quando entramos no Templo, surpreende o seu tamanho. Vejam uma foto do Oriente:

A um canto há um clássico órgão Hammond, que é preciso fazer arrancar como se fosse um automóvel antigo! Há lugar folgado para mais de 100 pessoas sentadas. Em algumas ocasiões reuniram mais de 350 Irmãos numa só Loja. É que por aqui as Lojas não se partem em duas ao chegar aos 25 membros. Ou aos 15, como em alguns casos. Aqui os Mestres antigos permanecem anos e anos e não deixam de participar nos trabalhos apenas porque já têm uma graduação superior ou porque estão envolvidos em Ordens colaterias como o Arco Real e outras. A Loja Mãe, a Loja original, é respeitada acima de todos os outros compromissos entretanto assumidos perante outros corpos Maçónicos. Estar presente, intervir, organizar e ajudar a organizar, participar na educação dos membros mais recentes e acompanhá-los é um dever que os Mestres mais antigos cumprem. Durante o ágape fraternal, um deles – um dos mais graduados – era precisamente aquele que cozinhava alegremente nas magníficas instalações na cave do edifício, equipadas com o melhor e mais recente em material de cozinha, anexas a uma sala de jantar de generoso tamanho.. Sujar as mãos, queimar-se ou não se poder sentar descansadamente em amena cavaqueira com os outros enquanto espera pelo repasto, não o incomodam. Não manda os Aprendizes limparem a loiça nem se queixa dos Irmãos que vão amiúde picar o prato dos queijos e dos acepipes ainda escondido.

A abertura da Loja no Rito de Memphis-Misraim é mais longa do que na maior parte dos outros ritos. Por isso não é muito apelativa a Maçons mais virados para os aspectos especulativos e pouco filosóficos da Ordem. Involve um trabalho muito ancorado nos gestos e vocalizações da religião, mais do que a militar e despachada abertura de Ritos britânicos. Há incensos e um Naos triangular no centro do pavimento da Loja. Cada movimento e cada acção é marcadamente pomposa e faz-se sem pressas. O Venerável Meste era um Irmão Russo, com um semblante férreo, já bem entrado nos 60 anos, de pose nobre e deambulação pelo Templo firme e sem hesitações. Antes de cada fala ritual interiorizava o que tinha de dizer e sentia-se a inteção da vontade criadora em cada palavra. Os Irmãos do Haiti – que trabalham num Triângulo em Brooklyn, mas que não deixam de acompanhar os trabalhos da sua Loja original – diziam no final “Isis esteve entre nós”, referindo-se à Paz profunda e à haromnia que foi possível experimentar ao longo da sessão.

Um dos Irmãos do Haiti contou como a sua irmã ficou soterrada debaixo da sua casa durante 2 dias após o recente terramoto. Passou todo esse tempo em desespero, mas gradualmente desprendendo-se do seu corpo físico. Recorda-se de sonhos e imagens vagas. A sua memória mais vincada é de um momento em que foi invadida por uma sensação muito forte, um calor que associou às línguas de fogo do Espírito Santo, que a fizeram acordar do turpor e gritar com toda a força por ajuda. Nesse preciso momento passavam ao seu lado alguns membros de uma brigada de ajuda, que a ouviram e iniciaram uma operação de resgate. Hoje ela diz que foi uma benção. Não por estar viva, mas por ter sentido aquela força inexplicável no momento certo. No único momento certo. Ouvir o Irmão do Haiti, no seu Inglês muito pronunciado de Francês, pormenorizar aquele relato que ele mesmo viveu na angústia da distância, foi um dos momentos mais marcantes desta viagem. A recolha do Tronco do dia foi entregue a um outro Irmão que viajava no final da sessão para Port-au-Prince para continuar os esforços de ajuda humanitária. O dinheiro servirá para entregar a famílias carenciadas – directamente, sem a intermediação de ninguém.

Em visita estavam Irmãos da Inglaterra, com quem foi muito interessante conversar. A Loja tinha reservada a surpresa de me fazer membro honorário e receber-me Mestre do Rito com os procedimentos rituais adequados. Assim ocorreu.

Foi uma experiência muito interessante e enriquecedora. Muitas vezes temos a mania que a Maçonaria é toda igual, toda como a que praticamos na nossa Loja. Mas não é verdade. É preciso viajar, conhecer outras Lojas, outros Irmãos, em outras partes do mundo, para poder viver o que é a Maçonaria no seu sentido mais universal. Conheci e conversei com novos amigos, com os quais eu jamais conversaria ou conheceria em circunstâncias normais. Não apenas turistas como eu, ou casuais companheiros de viagem num combóio. Não. Irmãos que juraram cumprir os princípios pelos quais eu mesmo jurei. Amigos instantâneos com os quais partilhamos muitas cogitações filosóficas e uma visão igualmente apaixonada da vida e da diversidade da Criação.

A visita à Loja Osiris, desde já minha Loja de adopção nos Estados Unidos, que procurarei frequentar sempre que os compromissos profissionais aqui me trouxerem, foi um momento de paz e de união fraternal muito gratificante.

Assim é a Maçonaria para o Maçon que está em viagem.

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