Convento de Cristo

A internet é um instrumento social de grande importância. A partir dele, gente com interesses semelhantes pode encontrar-se e organizar iniciativas que, de outro modo, estariam condenadas a ser limitados encontros de amigos de longa data. Uma das iniciativas que tenho o prazer de vir acompanhando e apoiando há vários anos é a de um grupo de entusiastas pela Cidade de Tomar, pelo seu património e pelas duas Ordens que foram o seu pilar histórico: a Ordem do Templo e a Ordem de Cristo.

Esse grupo, inicialmente pequeno, mas não menos dinâmico, congregou-se em redor do Blog http://blog.thomar.org e mais tarde do fórum http://forum.thomar.org. Convido os meus leitores a espraiarem-se por ambos para ter uma pequena amostra do muito que um conjunto pequeno de entusiastas pode fazer.

Pois bem, este mês de Março comemoram-se os 850 anos da fundação da Cidade de Tomar pelo Mestre dos Templários Gualdim Pais. Não querendo deixar passar a data em branco, o grupo, pela mão de um dos seus mais dinâmicos dinamizadores, o Rui, criou um ambicioso programa que incluiu uma visita nocturna ao Convento, acompanhada por actores desempenhando diversos papeis, tais como João de Castilho (o arquitecto da famosa Janela), um confrade da Ordem de Cristo e o próprio Gualdim Pais. Este, a dado momento, chamou algumas crianças da assistência e armou-as cavaleiros, num momento ao mesmo tempo muito divertido e muito simbólico.

Foi profundamente interessante poder andar pelos corredores escuros do Convento iluminados com o auxílio de lanternas que os participantes levavam. Os mais novos adoraram o ambiente de mistério e aventura quase tipo “caça ao tesouro” que seguramente criará raízes na sua imaginação e, mais tarde, os irá atrair para conhecer então a história real destes tão mitificados Cavaleiros lusitanos. Mas mesmo os mais velhos sonharam outra vez nas sombras daquela noite magnífica em que as constelação que tinham protegido Mestre Guadim quando assentou a primeira pedra da Charola, voltaram a colocar-se nos mesmos lugares, como que numa dança sagrada em que todos sabiam o seu lugar. O seu manto de veludo negro, pontuado pelos brilhantes diamantes do Boieiro, da Ursa Maior, de Sirius e outros “convidados especiais”, fizeram as delícias de todos aqueles que se deixaram extasiar nos telhados do Claustro dos Filipes, deitados no chão de pedra que parecia girar magicamente, rodando o céu ao ritmo do coração e atraindo a imaginação para um abismo de sensações e ideias em torrente.

Jantou-se por um preço que já não se encontra para este tipo de eventos (contrariamente à prática muito usada de cobrar de 75 € para cima por um par de horas de visita guiada por uma “luminária” da “nova era”…). Aqui o dinheiro conta pouco… A concluir, algumas intervenções que deram a seriedade e a gravidade histórica que o momento necessitava. Pudemos ver o resultado do estudo feito com um radar geodésico ao solo da igreja de Santa Maria do Olival, que embora não tenha revelado os tão fugidios túneis (mais tarde expostos pelas obras de arranjo ao espaço circundante por causa da nova ponte sobre o Nabão), mostrou haver várias sepulturas e detritos que vale a pena estudar mais profundamente com aparelhos mais potentes.

Uma noite inesquecível. Estavam mais de 80 pessoas (em contraste com as 6 a 8 que inicialmente compunham o grupo). Conheci muita gente nova, falei horas a fio, escutei o que outros descobriram naquele recreio que tem sido meu há tantos anos. Foi um prazer enorme, sem sobressaltos, sem stress. Foi um sábado muito bem passado em Tomar, na companhia de amigos e da família.

Só me resta terminar destacando um aspecto pouco sublinhado: a abertura que a Direcção do Convento de Cristo mostrou à iniciativa, o que lhe fica muito bem. Há que entender que as instituições dependentes do Ministério da Cultura ou das Câmaras Municipais, que existem para defender e cuidar do nosso património, não são entidades privadas que podem fazer dele o que entendem nem vedar de maneira arbitrária o acesso aos cidadãos DONOS COLECTIVOS desse património. Demasiadas vezes as entidades tutelares se comportam como se fossem proprietários e não MEUS ADMNISTRADORES DELEGADOS. Aqui vem à mente a vergonhosa “coisa” designada como “Parques de Sintra – Monte da Lua”, que mais parece a Área 51 do património sintrense. Foi refrescante ver como em Tomar a Direcção do Convento de Cristo soube abrir, mostrar e colocar ao serviço da comunidade em horas incomuns um espaço que sentimos todos – nós os que o visitamos amiúde e eles que o cuidam diariamente – no nosso coração. Por nossa parte mostrámos que somos Portugueses e não hooligans, que sabemos amar e respeitar o que nos foi deixado em herança.

Muitas vezes se diz que nascemos nus e sem posses, pobres. Que estamos destinados a abandonar este mundo igualmente pobres, deixando a riqueza material deste lado. Mas eu afirmo que não! Afirmo com toda a força das minhas goelas que NÃO! Não nascemos pobres. Nascemos Portugueses! E por isso, olhando as jóias que nos foram deixadas, com o Convento de Cristo, sabemos que nascemos RICOS. Imensamente ricos. E saberemos tratar dessa riqueza para que os nossos filhos e netos possam dizer o mesmo. Somos Portugueses… Donos de um património incomparável.

Bem haja à direcção do Convento, por cuidar tão diligentemente do que é nosso.

Volto a casa com Tomar no coração.

(ver reportagem detalhada aqui: http://blog.thomar.org/2010/03/o-sonho-de-uma-coisa-thomar.html)

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