Lançamento da “Maçonaria Desvendada” decorreu em Lisboa

Decorreu ontem o lançamento do meu livro “A Maçonaria Desvendada – Reconquistar a Tradição”, no Palácio do Barão de Quintela e Conde de Farrobo, no Bairro Alto em Lisboa. Foi um acontecimento concorrido e tive o prazer de contar com a presença de muitos amigos, alguns dos quais já não via há muito tempo. A todos o meu obrigado.

Devo igualmente agradecer à Dra. Ilda Nunes, Directora do Palácio – magnífico, diga-se – e à editora Zéfiro por ter apostado num livro que quebra muitas das regras habituais neste tipo de edição.

Deixem-me explicar. A literatura disponível sobre Maçonaria pode ser dividia em 2 campos mais ou menos simétricos. Os livros anti-maçónicos e os livros abertamente apologéticos da Maçonaria. Uma leitura descuidada das primeiras páginas do meu livro poderá dar a ideia de que se trata de um exercício de reflexão anti-maçónico. Mas nada podia estar mais longe da verdade. Definitivamente este é um dos livros mais pró-maçónico escrito na última década no nosso país. É uma reflexão há muito esperada e necessária, feita por dentro, de dentro para fora e não de fora para dentro. É uma auto-crítica. Um diagnóstico ao paciente. Verdadeiro. Sem rodeios. Sem anestesia. Nem dela o paciente precisava. É frontal como todos os Maçons devem ser frontais. Por isso pode parecer por vezes excessivo ou duro. É um risco que estou disposto a correr.

A maioria da literatura anti-maçónica é de baixo nível intelectual. Gerada por opositores cegos à Maçonaria, que não analisam factos, actos ou princípios. São livros gerados por simples sedução monetária. Ou porque o autor tem um caso pessoal a esgrimir, em que será sempre parcial e incompleto na análise. Ou por motivação religiosa (a oposição Maçonaria/Igreja não é só fomentada pela primeira). Estão em voga nos Estados Unidos diversos livros que explicam porque um Adventista não deve ser Maçon, ou porque um Mormon se deve afastar da Maçonaria, ou porque um Baptista deve recusar tal filiação. Na generalidade os argumentos são dogmáticos e negam qualquer possibilidade de reflexão livre. Não são construtivos nem o pretendem ser. Não justificam oposições nem esclarecem razões. São anti-maçónicos por princípio, antes de qualquer argumento. Ou seja, são gerados pelo preconceito, oposto à liberdade de pensamento que caracteriza o ser humano moderno. Está certo não querer ser Maçon! A Maçonaria não é para todos. Mas é necessário que se saiba justificar que razão exclui alguém – motivos que nunca poder ser de carácter religioso, a não ser que o candidato seja extremista. E os que escreves esse livros em que defendem que o crente numa determinada denominação (habitualmente cristã) não deve pertencer à Maçonaria, devem poder defender essa tese com argumentos válidos, racionalmente, de modo claro e inequívoco. Não apenas com vagos conceitos mal aprendidos nos genuflexórios da vida.

A anti-Maçonaria tem um leve odor a Idade Média, um travo a obscurantismo. Falta-lhe a superioridade intelectual da argumentação e a base da verdade. Negação por negação. Pura, simples e sistemática.

Outra caraterística dos livros anti-Maçónicos é o facto de serem escritos por quem nunca pisou o tapete de um Templo. Por quem nunca vestiu avental para saber se é ridículo ou não. São um pouco livros de eunucos que escrevem sobre sexo. Defendendo que não se faça…

Ora, o facto de se analisar até que ponto uma sociedade iniciática como a Maçonaria – que tem uma missão, um legado espiritual, uma tradição – perdeu o rumo, não tem em si nada de anti-maçónico. Explicar de que modo ela é vulnerável aos que a desrespeitam e dela se aproveitam não é ser anti-maçónico. No meu livro não sou tendenciosamente corrosivo, ignorando tudo o que a Maçonaria tem de positivo para oferecer. Ou tudo o que ela fez de positivo no passado. Nem caí na demagogia fácil de invocar os erros da Igreja (a Inquisição à cabeça) como justificação para o anti-clericalismo de há cem anos. Ou de contrapor o poder crescente do Opus Dei ao da Maçonaria. Este não é um livro sobre o Opus Dei. É um livro sobre a Maçonaria.

Certo, sinto-me também responsável pelo actual estado da Fraternidade. Calei muitas vezes o que não deveria ter calado. Aceitei que a mediocridade de instalasse aos poucos, tornando-se norma. Ao me ver afastado para Espanha por motivos profissionais agarrei a oportunidade de me ligar a outros Irmãos e outras Lojas num momento em que frequentar aquela que era a minha em Lisboa começava a ser francamente deprimente, quando não desesperante, face aos constantes atropelos à ética maçónica e à conduta imparcial que devem ser a linha de qualquer maçom, mais ainda daqueles que esperam ter um papel de liderança. Experimentar a clássica prova da traição – que toca a todos num dado momento do seu percurso – e ver como Irmãos de mais de uma década de percurso lado a lado negavam frontalmente a mesma fraternidade que os acolhera ao negar a mão amiga, na mais abjecta arrogância que vem de quem não tem poder, mas se julga em lugar elevado, foi transformador, reconheço-o, mas levou-me a buscar refúgio fora, longe. Levou-me a adoptar a mais fácil e imediata das soluções: aceitar o acolhimento fraterno de outros Irmãos, muitos deles como eu em Madrid por razões profissionais e longe das suas famílias, muitas vezes residentes em continentes diferentes. Inicialmente aderi a uma Loja do Rito Escocês Rectificado (RER), mas a crise de valores e liderança que o afecta no seio da Maçonaria Regular – incapaz de se decidir entre cumprir escrupulosamente a Regularidade como esta está estabelecida pela Conferência Internacional de Grão Mestres (sistema das Grandes Lojas Americanas e da Grande Loja da Inglaterra) e o embarcar em aventuras a reboque da cisão provocada em França pelo Grão Priorado das Gálias sob a orientação de Daniel Fontaine – a crise de valores e liderança do RER, dizia eu, era já manifestamente profunda em Espanha e, muito cansado da extenuante e estéril experiência nacional, acabei por aceitar o convite de um conjunto de Irmãos – todos estrangeiros, de muitas nacionalidades – para trabalhar no Rito de Emulação.

Reconheço, contudo, que ao trabalhar numa Loja onde a ambição principal é criar laços fortes entre todos, talvez por estarmos todos longe de casa, acolher Irmãos que podem apenas assistir aos trabalhos durante 4 a 6 meses, tempo das suas comissões de serviço, fazer sentir o calor da fraternidade a cada um quando no total há na Loja mais de 7 línguas naturais diferentes, foi escolher o caminho fácil. Foi deixar longe os problemas comezinhos de Lisboa e poder respirar fundo por um par de anos, vivendo uma Maçonaria muito distinta daquela carregada de testosterona e mijo almiscarado para marcar o território que caracterizava a Loja de onde vinha. Sei, por isso, que sou culpado de ter virado costas. Sou culpado de ter escolhido o pasto mais verde em vez de ajudar a rejuvenescer e carregar de verde o pasto onde fui maçonicamente criado. Sei que, embora a minha vida profissional me tenha levado para Espanha, não fui suficientemente diligente em Portugal. Não estive alerta como era minha missão como Maçon. Não encontrei as forças interiores para aguentar a tempestade e ser construtivo após a tormenta. Não fui capaz de ser suficientemente perseverante. Cansei-me das pessoas, mas agi como se me tivesse cansado da Maçonaria. Por isso escrevo aquela páginas. Por isso tenho legitimidade moral para fazer a auto-crítica necessária. Desde dentro. Autocrítica informada. E imprescindível. A viragem da década, do século e do milénio tem o seu quê de morte. Pois que não haja morte sem autópsia, nem autópsia sem uma profunda reflexão sobre as causas mortais.

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6 thoughts on “Lançamento da “Maçonaria Desvendada” decorreu em Lisboa

  1. Caro Luís de Matos,

    O tempo nigredo pode «servir» o inicio de algo mais. Ou não.
    Ainda que no teu mortificatio, se cumpra o desejo de «reforma» nas linhas desenhadas pela «pena do pavão». Ainda que a pena seja nobre, e molhada na lágrima do sentimento. E que poderoso é; o Sal que viaja no sentimento.
    Ainda assim, o poderoso albedo «salgado» pela prata merece continuação. De que serve a aurora, se o rubedo é o nascer do Sol.
    Sirva o caminho sugestivo do teu pensar, para um novo ablutio baptisma.
    Venha o senhor que se segue, venha o rubedo.

    Abraço
    Henrique

    • Estimado Henrique:

      Concordo plenamente. O meu receio é que o rubedo não se dê por falta de continuidade. Tenho tido muitos sinais de que há obreiros ardentes de desejo de trabalhar a sério, mas alguns já se afastaram há tanto tempo dos “laboratórios” por se sentirem “a mais”, que pouco ou nada podem fazer pela rectidão dos trabalhos actuais. Outros são, na sua maioria, muito novos, ainda a dar os primeiros passos, ainda com muito entusiasmo e esperança, mas o seu fôlego pode não ser suficiente até que estejam em lugar onde possam fazer a diferença. E depois nenhum deles teve ainda a sedução da medalha realizada. É uma chapa de latão, mas a medalha ecoa na mente de tal modo que transforma o ser e atrai a si a arrogância. As lições estão lá, evita a sedução quem estiver atento. Mas já se retirou tanto do que era canónico, que receio a lição já nem ser ensinada em muitos atliers. Assim vão as coisas.
      Mas, estimado amigo, se chegaste ao “Solve et Coagula” do meu livro – e o seu entendimento não é fácil, reconheço – passaste certamente pela “Ordem Invisível”. O Grande Arquitecto não dorme. Nós é que pensamos que sim, por estarmos desatentos. No silêncio e na Esperança estão a nossa força.

  2. Tinha uma muito vaga ideia do que era a Maçonaria, a curiosidade chegou por ter ouvido um comentário em que se dizia que a mesma , seria uma seita brasileira perigosa, que os seus membros quando saíam eram assassinados.
    Tinha a vaga ideia que era gente de “princípios”, aqueles da civilização ocidental, humanistas, mas não mais.
    Existia um livro em casa sobre o assunto, comecei a ler, não entendi nada, pareceu-me “palha” para encher o livro.
    A “Maçonaria Desvendada” foi-me oferecida pelo meu marido que me sabia “curiosa” sobre o assunto.
    Ainda vou a meio, mas estou a adorar a facilidade e simplicidade com que expressa em palavras aquilo que apenas é intuído.

  3. Eu me interesso por esse assunto, e faço pesquisas detalhadas sobre sociedades secretas há muito tempo, de maneira coerente e coesa, uma delas é a Maçonaria. O que eu pude constatar, é que há uma campanha de desinformação à respeito da mesma, nada das informações publicadas em livros , sites, blogs, vídeos são coerentes e uniformes, ou seja, há vários “fatos” sobre essa fraternidade que não batem. Por exemplo ; tem referencias específicas sobre rituais praticados em todos os veículos de mídia acima citados, em um livro diz-se uma coisa, em outro livro sobre o mesmo assunto(ritual) diz outra completamente diferente…e assim vai em sites, blogs, vídeos. Eu acho o seguinte… esses caras estão aí nos bastidores da história há séculos, são um grupo muito bem fundamentado e doutrinado, vocês acham que assim…do nada… os seus maiores segredos vão sendo revelados fácil…tolo de quem acredita. Acho, e constatei , que Eles estão em uma franca campanha de desinformação, se você pensar bem…é muito esperta essa estratégia, devido ao grande interesse das pessoas à respeito…nada mais eficaz do que uma enxurrada de informações falsas, e pode ter certeza que são, para saciar a curiosidade alheia. Eu fiz uma longa e reveladora entrevista com um maçom eminente, e ele me disse que todos os maçons quando vêem ; os livros , vídeos, blogs e sites colocando imagens daquelas posições “bizarras”, termo utilizado por ele com veemência, dão risadas, pois tudo é tão ridículo e fantasioso, que é difícil acreditar que as pessoas aceitem tudo como verdade…mas ao mesmo tempo é ótimo para a fraternidade, por isso não se vê nenhum maçom, do mais baixo ao alto grau, se pronunciar à respeito dessa tolices, palavras dele. Por isso , não acreditem em nada, desconfiem de tudo, não se deixem lograr…pois é isso que eles querem…e conseguiram.

  4. Gostaria de obter o exemplar do livro.
    Faço parte da Loja Imparcialidadee Prudencia 1444, Oriente do Rio de Janeiro/RJ/Brasil

    Jorge Lima

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