“A Maçonaria Desvendada” – Entrevista parte 2 de 9

No seu livro afirma que a Maçonaria é respeitada nos países Nórdicos e que não se esconde como nos países latinos. Em que é que se baseia para fazer essa afirmação?

Na história. Na história e na minha experiência pessoal. Já visitei Lojas Maçónicas em muitos países e sempre procurei aprender com os Irmãos de outras culturas. De facto, a nossa prática, muito parecida com a Espanhola e Italiana, talvez condicionada pelos muitos anos de repressão e ditadura, é a de esconder os locais de reunião. Não estão assinalados e são do conhecimento apenas daqueles que os usam. Não fazem um interface entre a Ordem e o mundo exterior. Em outros países é muito comum a Loja estar bem assinalada e aberta ao público. Já nem falo do exemplo dos Estados Unidos, onde tudo é mais exposto e mais assumido, por ser uma cultura muito mais aberta. Mesmo na Holanda, na Inglaterra ou na Suécia a Ordem é muito visível.

Há uns anos andei na Holanda em tour com um fadista Português – Irmão Maçon, por coincidência – na época em que era manager e produtor. A dois passos do nosso hotel, mesmo no centro de Amsterdão, encontrámos a sede da Maçonaria local. Tirei uma foto que não deixa dúvidas.

Grande Loja da Holanda no centro da cidade de Amsterdão, a escassos 100m do Hard Rock Café

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Na Suécia (onde o actual monarca já foi Grão Mestre, seguindo uma longa tradição familiar) a sede da Grande Loja é no mesmo palácio – à vista do Palácio Real – há mais de 120 anos, em pleno centro de Estocolmo. O edifício é assinalado por uma placa histórica em sueco e inglês.

Grande Loja da Suécia e placa explicativa que está colocada no exterior. Note-se a bandeira com cruz Templária

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Já em Londres, a Grande Loja Unida da Inglaterra está situada em pleno Holborn, a pouca centena de metros dos teatros do West End, do edifício da BBC Rádio e do Brithish Museum. É assim há mais de cem anos. Um espectacular museu está aberto a toda a gente que o queria visitar – e a entrada é gratuita. Não somente se podem ver colecções muito completas de medalhas e jóias, aventais e espadas rituais, como igualmente uma biblioteca completíssima, terminando com uma visita ao Grande Templo. Nada está escondido. Tudo é aberto.

Templo principal da Grande Loja Unida da Inglaterra. Está aberto ao público juntamente com o Museu.

A Grande Loja da Inglaterra no Google Maps Street View

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Aliás, no caso dos ingleses, o Grande Templo é tão impressionante e espectacular que tem sido requisitado por vários produtores de cinema. Ultimamente apareceu no versão das Aventuras de Sherlock Holmes com o Robert Downey Jr., realizado pelo ex-marido da Madonna, Guy Ritchie. Sir Arthur Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes, era um conhecido Maçon. O Grão Mestre actual da Maçonaria Inglesa é o Duque de Kent e monarcas como Eduardo VII foram Grão Mestres da Maçonaria nesse país. Não está a ver esta gente envolvida em macacadas, e pantominas, está?

É natural que, num ambiente deste tipo, a convivência entre a Ordem e a sociedade civil seja mais pacífica e cessem desconfianças que há de parte a parte quando parece haver qualquer coisa a esconder. Alguma seriedade há numa instituição que sempre foi protegida por pelos mais elevados Príncipes da Europa.

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Mas a Maçonaria Inglesa não tem segredos?

Tem, como toda a Maçonaria. São palavras, gestos e passes rituais. São ensinados aos que os devem usar tal como a linguagem própria do ballet é aprendida por quem o pratica. Recordam o “segredo profissional” a que estava sujeito o Maçon operativo, um artista, que guardava ciosamente os segredos da sua arte. O outro segredo, intransmissível, também existe em Inglaterra: o segredo que advém da experiência. Por mais que se descreva um prato da gastronomia indiana, por exemplo, não se consegue passar ao outro a experiência que advém de o provar, com a própria boca e as próprias papilas gustativas. Assim também a emoção, o sentimento e o desencadear de pensamentos que surgem no contexto de uma iniciação na Maçonaria não são explicáveis a terceiros e o segredo mantém-se até serem vividos. Ora, abrir a Ordem, criar serviços abertos ao público, como edições de pesquisa histórica e espiritual, um museu, mesmo acções de solidariedade ou beneficência, são os frutos de uma actividade maçónica sã e produtiva. A Maçonaria não pode aspirar a ser respeitada se não encontra formas de se mostrar e interagir com o ambiente social à sua volta. Seguramente os escândalos e as suspeições que aparecem frequentemente nos jornais – a maior parte dos quais sem fundamento – não podem ser a única forma de comunicar com a sociedade. A Maçonaria nacional passa o tempo a reagir a rumores, notícias, suspeitas, em vez de AGIR, tomando a iniciativa da comunicação. Todas as instituições humanas têm adversários e nisso a Maçonaria é como todas elas. O que não pode ocorrer é serem os adversários a dominar a agenda de comunicação perante a serena placidez dos responsáveis da Ordem. A Maçonaria não pode queixar-se de não ser compreendida, porque só pode ser compreendida dando-se a conhecer.

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Advoga uma Maçonaria aberta?

Advogo uma Maçonaria moderna, capaz de comunicar no mundo moderno e de intervir positivamente nos assuntos que lhe dizem respeito. É possível manter uma abertura verdadeira e frutuosa e ao mesmo tempo preservar a intimidade silenciosa do trabalho em Templo. Se a Maçonaria não aprender a trabalhar rapidamente no mundo actual, a internet, as redes sociais, a disponibilidade da informação, os grupos informais de irmãos de todas as obediências, as páginas pessoais, os blogs e todos os instrumentos de comunicação e uso da informação que estão a caminho e com os quais nem sonhamos vão abater as paredes artificiais que visam esconder falsos segredos. A Maçonaria não necessita de falsos segredos para ser relevante, uma força útil à construção da sociedade e uma bússola espiritual de grande precisão. Não substitui a Religião, a Filosofia, o Direito, a Economia ou a Educação. Mas pode ser um aliado forte para cada um deles.

Por outro lado, a internet é uma fonte de muito ruído sobre a Maçonaria. Basta procurar um pouco e os sites cheios de teorias da conspiração, domínio do mundo, Iluminatti, etc., são como uma praga. Uma vez que se baseiam em rumores e não em informação real e investigação histórica séria, não precisam olhar a coisas desprezíveis como a ética, a verdade e a honestidade intelectual. Ainda há dias, durante uma apresentação do livro no Algarve fui confrontado por um espectador com a eterna questão da pirâmide com o olho místico na nota de 1 dólar como prova de uma conspiração que envolve a CIA, os Protocolos dos Sábios de Sião e Deus sabe mais o quê! E por mais que eu referisse dados concretos, verificáveis e fontes históricas, o dito espectador voltava às mesmas fontes na internet e ao mesmo padrão conspirativo. Ora, são os próprios Maçons que têm a obrigação de disponibilizar informação que ajude a esclarecer a verdade. O Blog nacional “A Partir Pedra” da Loja Mestre Affonso Domingues, por exemplo, tem feito um trabalho notável nesse sentido. Veja-se sobre este ponto precisamente quatro posts muito recentes. Aqui 1, Aqui 2, Aqui 3 e Aqui 4.

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Ao abrir a Maçonaria ao público dessa maneira, não se corre o risco de perder o seu carácter secreto e torná-la numa associação ou colectividade vulgar?

De modo algum. Há lugar para tudo na Maçonaria. Ela não é “secreta” no sentido de “dissimulada” ou “falsa”, mas sim no sentido de reservada e discreta. O trabalho é feito entre os seus membros, em assembleias reservadas a eles. Nesse sentido, fechadas aos que não são membros. O resultado desses trabalhos pode manifestar-se através de iniciativas públicas e abertas. Ora, abrir a Maçonaria é precisamente estar disponível para discutir de modo desassombrado os temas maçónicos com o público, separando as duas naturezas – interior e exterior – do trabalho maçónico. É saber manter a serenidade que permite a meditação tranquila sobre os temas que nos interessam seja individualmente, seja numa exposição em Loja com os outros membros, podendo ao mesmo tempo reflectir sobre eles abertamente com o circulo próximo de amigos ou o público em geral, sem deixar que as paixões e posições extremas que habitualmente surgem em discussões alargadas possam turvar as ideias próprias de cada um apuradas em trabalho maçónico, longe do ruído exterior.

É mais comum chegar-se à essência das coisas trabalhando num contexto bem regulado e entre um grupo de trabalho onde reina a confiança, a tolerância pelas opiniões contrárias e o respeito pela experiência directa que o outro possa ter, do que pela discussão apaixonada e tendenciosa de café. O trabalho maçónico tem poucas semelhanças com um debate quente entre pontos de vista em sessão aberta. Em Maçonaria raramente da discussão nasce a Luz. Mais vezes da partilha de pontos de vista únicos e intransmissíveis e do relato de experiências, a Luz transparece por si mesma. Eu mesmo tenho muita dificuldade em mudar de opinião quando alguém me confronta com ideias feitas e fechadas que não partilho. E quanto mais sinto que me querem impor essas ideias, mais acabo por lhes resistir intuitivamente, especialmente se cortam a minha argumentação com interrupções extemporâneas, como é o caso frequente em debates e discussões onde raramente se pode chegar a uma conclusão. No entanto, já muitas vezes mudei a minha maneira de pensar ao ouvir opiniões em Loja muito distintas da minha mas que tinham a serenidade da razão e, em Loja, ganharam espaço para exporem argumentos sem constantes interrupções e atropelos. Por virtude própria do modo com os trabalhos são conduzidos, há espaço para ouvir modos de abordar os assuntos em estudo que de outro modo se manteriam ignorados, pois cada um é uma individualidade diferente e cada um tem uma opinião válida a colocar à reflexão do outro. Ali, a soma das experiências e contributos meditativos da assembleia ultrapassa largamente a soma nominal dos indivíduos presentes, proporcionando num curto espaço de tempo um leque de modos de observar a realidade muito rico e multifacetado, inacessível ao tribuno arruaceiro.

Para poder obter essa paz no seio da qual se podem glosar os mais variados temas que ocupam os Irmãos de uma Loja, esta necessita estar “coberta”, ou seja, fechada a intromissões exteriores durante o tempo em que a assembleia está a trabalhar. Não é uma conquista maçónica. O gestor que diz à sua secretária que não quer receber chamadas durante o tempo em que está numa reunião importante, conhece o valor dessa imperturbável paz para a sua actividade profissional. Não passa pela cabeça de nenhum médico atender um doente ao telefone enquanto outro está em consulta consigo, à sua frente. A possibilidade de votar a mais imperturbável atenção a uma tarefa é uma das condições críticas para que esta possa ter êxito. Por isso a Maçonaria é fechada na sua acção em Loja. É reservada. Desta acção acabam por surgir frutos, os quais esses sim, devem frutificar na sociedade. Logo, a Maçonaria não é uma organização beneficente, embora deva exercer a mais basta e esclarecida beneficência no seio da comunidade em que se insere. Logo, a Maçonaria não é um lobby, mas deve estar sempre do lado da justiça, da liberdade e dos valores humanistas e sempre que a sociedade em que se insere começar a perder esses valores ou a substituí-los por outros como a injustiça, a supressão das liberdades e da dignidade do indivíduo, deve recordá-los acima de tudo. E por isso é temida pelos regimes totalitários que invariavelmente a perseguiram e procuraram eliminar. Mas não se pode tornar em trincheira de acção partidária ou porta-voz de ideologias políticas, sejam louváveis ou não. A sua superioridade como lobby pelo que é Justo e Certo está em apontar o Oriente, como uma bússola, sempre o mesmo Oriente, com os mesmos valores imutáveis, século após séculos, mesmo quando todos apontam em outras direcções. Tem o papel de farol, de luz guia, mas não deve em caso algum tomar partido na refrega sem correr o risco de deixar de ser Maçonaria e se tornar outra coisa, sendo manipulada por interesses que não são os seus. Esta é a dicotomia entre o “secreto” e o “aberto”, que no meu entender caracteriza a Maçonaria. Reservada e discreta no seu trabalho, aberta à sociedade na partilha dos frutos desse trabalho.

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