A Day at the Movies com o Brad Pitt

Não restam dúvidas que eu não tenho uma vida normal. Talvez por trabalhar com o mundo do “entertainment” há muitos anos (hoje são os videojogos, mas já foi a produção de música e televisão), acabei por me habituar a não saber muito bem o que será o dia de amanhã e onde vou estar no globo semana após semana. Deixo-me levar com cada “casualidade” criada pelo destino e, embora Deus não jogue aos dados, vai dando um empurrão aqui e ali, o que me apraz e me dá um colorido diferente à vida.

De um momento para o outro a minha empresa precisou de me mandar em missão a Los Angeles. Logo uma das cidades que eu mais gosto de visitar. Final de férias certeiro, mesmo tendo obrigações profissionais pelo meio. Fiz-me à estrada (neste caso às nuvens) com entusiasmo. Preparei alguns contactos, vou fazer algumas visitas que até têm interesse para os leitores do “Maçonaria Desvendada”, meti a família na mala e mais um colega de trabalho e zarpei. Já no avião recebi por mail (foi a primeira vez que surfei os céus!) a notícia de que, por intermédio de uns amigos, estávamos convidados para entrar num filme como Extras (figurantes). Mais precisamente em “Moneyball” (ver link no IMBD) do Realizador Bennett Miller (de “Capote”), com Brad Pitt e Philip Seymour Hoffman (que ganhou o Oscar precisamente como “Capote”), produzido pelo mesmo Brad Pitt. Foi com grande expectativa que recebi a notícia, porque sempre quis ter acesso a um verdadeiro “set” de filmagens de uma produção “à Hollywood” e com a cereja no bolo de até participar nas filmagens e (quem sabe), vir a fazer parte do “background” como figurante! Este figurão!

Lá fomos. O filme conta a história (verdadeira) de Billy Bean, o treinador lendário dos Oakland Angels que abriu caminho ao êxito mesmo sem ter estrelas na equipa ao escalar os jogadores de acordo com escolhas geradas por computador e baseadas em análise estatística, o que veio a revolucionar o baseball. As filmagens eram no icónico Dodger Stadium em Los Angeles. Na mensagem havia uma nota do “wardrobe” (o departamento da produção que trata das roupas), na qual se pedia que os Extras fossem vestidos com roupa de Inverno, porque as cenas que se iam filmar decorriam de noite e tinham-se passado na realidade no Inverno (e não em Setembro). Ora, nenhum de nós tinha casaco sequer! Além disso havia instruções específicas sobre as cores a usar. É que se vamos fazer parte do cenário num jogo de baseball, não vamos estar vestidos de camisolas multicolores havaianas… Talvez uns casacos com logos de equipas de baseball, ou chapéus. Mas tudo dentro dos tons habituais numa multidão que vais ao estádio. Neste caso azuis e cinzentos. O meu colega de trabalho tinha um casaquito vermelho… Ía ser bonito…

Passámos parte da tarde à procura de qualquer coisa que se ajustasse, mas a temperatura quente fazia com que a escolha se adiasse. Acabámos por decidir ir à loja do Dodger Stadium e comprar uns casacos dos L.A. Dodgers. Infelizmente não contámos com o imprevisto. A produção tinha alugado o estádio TODO, fechando todas as visitas, nomeadamente à loja, que teve descanso nesse dia (e em todos os dias restantes para a concluso do filme). Ou seja, estávamos à “portuga”, com instruções exactas de como vestir, mas deixando a compra para a última hora, ficámos pendurados… Íamos de manga curta. Ainda pensámos que, sendo parte de uma multidão de fundo numa cena de estádio, as probabilidades de ser vistos individualmente era mínima. Mas estávamos enganados! Apenas 150 figurantes estavam lá e com eles se fizeram todas as cenas! Explicou-nos depois o Assistente de Realização que o público será “clonado digitalmente” e irá encher todo o estádio a partir de repetições dos mesmos 150. Num só plano de câmara podem estar diversas repetições das mesmas pessoas. Por sorte não afinaram com as nossas mangas curtas e acabámos por poder participar na experiência.

A caminho do estádio notámos uma coisa curiosa. Mandaram-nos um itinerário de entrada muito específico para um dos parques onde ficaria o carro. O que é interessante é que ao longo das ruas nas imediações do estádio (talvez num raio de uns 5 ou 6 quilómetros, o que inclui o centro da cidade de Los Angeles), havia diversas indicações disfarçadas. As iniciais do filme estavam em pequenos sinais de plástico pegadas aos postes na rua, com setas a apontar o lugar das filmagens. Tudo muito visível, mas ao mesmo tempo tão discreto e tão integrado na paisagem urbana, que seguramente não houve “penetras” que tivessem tentado entrar. À chegada – eram umas 6 da tarde – vimos uma enorme quantidade de camiões e trailers onde estariam as estrelas, mas muitos outros veículos de transporte enormes, que continham o material técnico (luzes, cabos, som, câmaras, geradores, etc.) estavam parados no exterior do recinto. Fomos logo saudados por uma pessoa da produção que tratou de nos dar os impressos para assinar que permitem que a nossa imagem seja usada “de borla” durante o resto da nossa vida pela Sony Pictures. Agora já posso falar com ar de importante sobre o meu contrato assinado em Hollywood com a Sony Pictures!!!

Depois fomos levados ao interior do estádio e sentados numa secção. Os outros figurantes foram aparecendo e ao fim de uns minutos tudo estava pronto do nosso lado, mas a 7ª Arte ainda ía exigir muito de nós! As cenas eram nocturnas e o sol ainda brilhava. Além disso o Brad Pitt fazia cenas no interior do estádio, longe de nós. Como dizia um dos Assistentes da produção, isto é muito do tipo “Hurry up and wait.” (ou seja, “apressem-se e esperem”). De facto, tal como em televisão e na produção de espectáculos, a maior parte do tempo é passada sem que nada aconteça. Há um milhão de coisas para fazer até que as câmaras possam rodar e entretanto há que esperar. Vimos a medição de luz pelo Director de Fotografia, vimos o Director Artístico e as suas assistentes a montar uma verdadeira tenda no relvado do estádio com uma parte para as roupas, outra para o make-up, outra com caixas de “props” (ou seja, objectos a usar em cena), etc. Às 8h fizeram uma pausa para irmos comer alguma coisa e lá para as 9h da noite começaram as filmagens a sério.

Foto do set de filmagens. No campo vemos os técnicos, realizador e produtor. Nas bancadas, ao lado direito, o “público”

O Brad Pitt esteve o tempo todo próximo do realizador, vestido com um casaco escuro tipo “blazer”, calças claras e o boné de um clube de baseball. Andava de um lado para o outro e falava com quase toda a equipe técnica. Há uma separação entre os Extras e as estrelas, que não podemos atravessar. Por isso não estive em conversa com o Brad Pitt, embora trabalhássemos no mesmo filme [notem o tom de voz humilde que faço ao dizer isto, que eu não deixo estas coisas importantes subir à cabeça…]. No set não se podem pedir autógrafos e a mínima distracção ou desvio das instruções e procedimentos dados no início a todos, pode fazer com que sejamos expulsos. Nós (mais uns tantos como nós), sentados mesmo por detrás do batedor, lá íamos cumprindo as ordens que nos eram dadas pelo Assistente de Realização. Para parecer um dia normal de jogo há gente que está em pé, gente que se levantou para ir buscar um cachorro quente e gente que acaba de chagar da casa de banho. Para melhor gerir as 150 pessoas, deram tarefas como as listadas às pessoas nascidas em Janeiro, Fevereiro e Março, de modo que quando o realizador gritava “rolling” (filme a rodar) e “action” (acção) parte do público estava com atenção ao jogo e outra parte começava, com a maior naturalidade, os movimentos combinados. Em conversa com algum do pessoal de produção ficámos a saber que nem todos participam como figurantes de borla como nós. Há figurantes profissionais que chegam a ganhar mais de 250 dólares por dia de filmagem (estão em agências e com 15 dias de trabalho por mês fazem o equivalente a um salário de mais de 3.000 €). Foi muito interessante ver como tudo se processava e como há um número muito grande de gente no set com imenso material que nem nos passa pela cabeça! A iluminação estava montada em duas gruas e era muito forte. Claro que as fotos não estavam autorizadas, mas conseguimos bater uma ou outra que irei aqui trazer. Foi uma noite muito longa e gelada (não tínhamos casacos, não se esqueçam), pois Setembro já é um mês com algum orvalho e vento à noite em Los Angeles. Mas foi muito divertido. Fizeram-se inúmeros takes, com a câmara em posições diferentes. Nós lá estávamos, de fundo, a fazer de claque para equipa do Brad Pitt. Vamos ver se temos sorte de aparecer no “cut” final!

Ao longo da semana penso contar mais algumas coisas sobre esta viagem que começou de modo tão interessante. Os meus leitores têm feito muitas perguntas sobre a minha vida pessoal e profissional, porque dizem querer saber em que momentos surgem as reflexões que acabam nos livros. Eu penso que libertar a mente com uma vida de constante viagem e de conhecimento de outras culturas e hábitos me ajuda a quebrar os padrões e modos de pensar de quem não sai do seu ambiente habitual. Acabo por conhecer muita gente e falar com muitos seres humanos diferentes, com capacidades e experiências diferentes. Logo, creio que por isso, consigo ver a humanidade com uma perspectiva e dimensão um pouco mais profunda do que a mais frequente percepção unidimensional que se adquire ao adoptar uma perspectiva rígida e fechada das coisas. Por isso, como Maçon muitas vezes pareço pensar de modo muito diferente dos outros Maçons. Como cristão também não me enquadro no quadro clássico, saindo fora do molde. Como podia, quando visito múltiplas confissões e templos tão diferentes entre si – sempre cristãos – que me mostram a maneira plural de viver a mesma filosofia que eu vivo? E a estas visitas acrescento a convivência e visita a outros templos de outras religiões. O espaço ao diálogo está sempre aberto.

Antes de voltar a casa vou ver então se aqui regresso para mais umas palavras.

Até lá.

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