Estilhaçar a Mente

É preciso estilhaçar os modelos mentais para que a ilusão que a Mente verte a partir do real possa ser quebrada. O modo como a mente formata e filtra num encadear de ritmada cadência os fotogramas do real, flick, flick, flick, constrói o engano. Habituada ao tick-tack, adormecida pelo vai e vem do som e do tom, a Mente constrói-se para o imutável e, por isso, esmaga cada novo conceito na roda implacável da trituradora adestrada pelo conceito prévio, reduzindo o “novo” a pó.

A Mente está modulada por modos de “pensar”. Está preparada para criar conceitos que se assemelhem a um absoluto e, nessa arrogância, rejeitar novas ideias e formas de fazer ou pensar. Quando o mente modulada sintoniza uma modulação diferente, activa de imediato o modo de pânico. Os olhos ficam alerta, buscando no ar desvairados uma mão materna que os ampare e os salve do novo módulo. A boca fica seca e a expressão facial adquire num só golpe a fundura do medo inconsciente e a terna candura da criança perdida. Este estado de confusão dura poucos segundos. Há professores e velhos mestres que adoram mergulhar os seus alunos neste abismo por alguns segundos ao anunciar exames surpresa ou exercícios impossíveis; dizem que mantêm os pupilos alerta. E é verdade. Estar alerta é estar vivo. É estar atento. É estar aberto para entender o que nos rodeia, pronto a reagir se a situação assim o requerer.

É essa disposição permanente para quebrar os modelos e as formas passadas que distingue o filósofo do supersticioso. Não se trata de questionar ou rejeitar o conteúdo precioso dos vasos sagrados do Saber. Trata-se, sim, de não impor limites nem deixar que a mente limite, as formas como esse Saber pode ser sorvido e degustado.

Vem isto a propósito da minha última conferência de apresentação do “Maçonaria Desvendada”. O meu editor tinha-me pedido para intervir numa tertúlia durante a Feira de Natal que a editora (a Zéfiro) organizou no Centro “Art of Living” em Sintra, no fim de semana de 27 de Novembro. Foi ali que apresentei o ano passado uma conferência que viria a resultar no livro uns meses depois. Só tarde me apercebi que o plano mudara e que, em vez de um debate ou tertúlia (para o qual estou sempre preparado!), se anunciara uma palestra. Ora, a apresentação que suporta o livro, com uma quantidade de imagens e temas, já correu o país desde há 1 ano e particularmente ali em Sintra, no mesmo local, já a fiz para o que supus ser essencialmente o mesmo público. Por isso, fiquei com menos de 48h para fazer algo de novo.

Todos os que leram o livro e mais ainda os que me conhecem bem, sabem que eu sou um provocador e que passo o tempo a quebrar as tais modulações mentais. É preciso transgredir para não regredir. As fronteiras são para testar e os limites para abrir. Alguns se lembrarão que nas minhas apresentações é frequente aparecerem referências que parecem fora de contexto, mas que sublinham pontos importantes, como o Capitão Haddock de Tintim a proferir impropérios contra uma série de piratas (pudesse eu fazê-lo contra alguns imbecis que encontrei na Ordem…), a radiografia do minúsculo cérebro de Homer Simpson, retratando a forma como alguns homens no poder tratam os que não estão no poder, ou aqueles dois cartoons que piscam o olho à Igreja de Roma e à sua forma atabalhoada de ser a um só tempo cristã beata e poderosa no mundo temporal.

Pensei um pouco e decidi adoptar uma forma nova, surpreendente e divertida de falar da Maçonaria e de a mostrar ao público. Inicialmente pensei em encurtar a apresentação e adicionar no final este novo modelo, aí durante uns 15 minutos, para ver como seria. Mas o meu bom amigo Luis Fonseca (que, nestas coisas de quebrar os modelos, está sempre pronto a dizer “mata” quando eu digo “esfola”), lá me convenceu a pisar no acelerador. Se é para surpreender, não há meias tintas. Assim foi. Passei uma noite a preparar a coisa e no dia seguinte ainda a testei com vários amigos e amigas no Instituto (IHS), com um êxito enorme. Sem dúvida, parecia ter encontrado uma fórmula de rotura e transgressão interessante e, mais do que isso, popular e responsável (no teste) por um par de horas bem passadas. Longe – muito longe – daquele modelo narcoléptico do conferencista a ler 32 páginas dactilografadas a 2 espaços enquanto os ouvintes vão fazendo os possíveis por surfar as ondas de atenção com um mínimo de dignidade. Nunca fui adepto desse modelo, mas este novo era um corte mais radical ainda com a velha múmia falante!

Coragem.

Deste modo me apresentei, após muitas horas de trabalho apressado e com uma nova apresentação com mais de uma centena de slides, pronto a falar de Maçonaria pelos cotovelos e a divertir-me num Sábado à tarde tristonho e já de Inverno. Eu devo assustar as pessoas, porque se o ano passado a sala esteve cheia, com muitos dos presentes a ficarem do lado de fora (o que tenho experimentado em outros lugares), naquele dia não estava quase ninguém. Mau presságio para tanto entusiasmo. Os olhares, na generalidade, já estavam cansados antes de começarmos. Não sei se cansados do Sábado, se cansados do tempo húmido. Pareceu-me que eram olhos cansados da vida!… A sério. O silêncio que se fez enquanto esperávamos uns minutos que o anfitrião chegasse pareciam tirados de um filme do Manuel de Oliveira em que este acompanhasse um condenado ao cadafalso. Longos… Chatos… E sem planos!…

Não me posso recordar de um ambiente mais modulado mentalmente do que aquele, naquele fim de tarde. Uma dúzia de indistintos espectadores anónimos em posturas variadas que denunciavam enfado, olhando uma parede onde a projecção de uma imutável imagem sugeria que eu manteria inalterado o estado cataléptico do grupo com uma bujarda de um par de horas de auto-indulgência, em busca de aplauso e aprovação. Esse era o módulo em que tudo estava sintonizado. Sem espaço para avarias. O contraste com a apresentação que fiz no Algarve era total. Lá tudo se passava num pátio reconvertido em Café-Convívio cheio de tertulianos. Se eu entrasse a fazer um salto mortal seguido da esparregata até o Doutor José António Barreiros, que me apresentou, teria batido palmas. Mas aqui, o silêncio pesado e a oposição entre público (aborrecido de morte) e conferencista (previsivelmente chato) que é um cliché, formatava tudo. Ainda estou para saber o que move estas pessoas a sair de casa para passarem um par de horas a ouvir um maçador discurso pré-escrito por um tipo que não conhecem de lado nenhum! Terão saudades dos piores professores que tiveram no liceu?

O que eu tinha preparado deixou toda a gente suspensa em choque, sem saber como reagir. Em vez de “A Maçonaria Desvendada” convencional, abri dando as boas vindas e dizendo que estava farto de maçons chatos a falar para eles mesmos sobre assuntos que os presentes, por não serem maçons, não podiam conhecer. Por isso, em vez de contar à audiência o que é que eu sei sobre Maçonaria, deslumbrando-os com bonitas palavras decalcadas dos melhores autores, disse que íamos fazer uma experiência nova. Iríamos dividir a audiência em dois grupos e eles é que me iriam dizer o que sabiam sobre Maçonaria. Ou seja (e aqui fiz desaparecer o enganador slide com a capa do livro e entrar um écran colorido em forma de concurso televisivo), iríamos jogar ao “Quem Quer Ser Venerável?”. A minha versão do popular jogo “Quem quer ser milionário” teria então duas equipas a competir entre si, respondendo a perguntas sobre a Maçonaria… O olhar vítreo dos presentes fez-me lembrar um coelho que ia atropelando uma vez na A8, perto das Caldas da Rainha: não sabiam onde se meter, gelados pela perspectiva de passar a estar no centro das atenções e não comodamente, como anónimos “voyerurs”, a ver-me meter água para depois comentar com os amigos como sou patético. O transe foi tal que ninguém protestou. Demoraram vários segundos para perceber o que se passava. Num toque de magia, a sala transformara-se num imaginário “plateau” e eu dava as boas vindas às equipas, anunciando a mecânica do jogo. A imagem projectada na parede não deixava dúvidas. Aquela brincadeira era mesmo a sério.

A mecânica era então simples. Cada equipa jogava de modo a escolher-se quem, dentro dela, progredia no joga até responder à pergunta do nível “Venerável Mestre”. Cada vez que alguém errasse, passava a jogar o colega do lado, e assim sucessivamente. Ganhava na equipa aquele que respondesse certo à última pergunta. De seguida passava-se à outra equipa, onde se apurava igualmente o “Venerável Mestre”. Pedi à Zéfiro que desse um prémio (no caso foram dois livros) a cada um dos Veneráveis Mestres apurados. Na ronda final, eles iriam competir entre si, determinando-se por processo idêntico quem era o Grão Mestre. Para esse (ou essa) campeão (ou campeã) final, eu tinha levado um conjunto de instrumentos maçónicos em miniatura que comprara em Filadélfia, que oferecia como prémio final.

Uma vez que o escasso público não reagia, pedi que as duas equipas se afastassem, para que a audiência não fosse uma massa compacta. Foi então que percebi como é difícil mudar as modulações mentais…

Um casal que não conheço, estava a um canto, mais próximo da porta. Logo que os interpelei com o olhar e lhes dirigi a palavra de modo a sentirem-se mais integrados no jogo, fizeram o que não tinham tido coragem de fazer até ali. Levantaram-se e disseram que não queriam ficar a ver “aquilo”. Com um sorriso disse-lhe que se não quisessem jogar, não havia problema, mas que as perguntas não eram difíceis e que era uma boa oportunidade de aprender um pouco, divertindo-nos. Isto pareceu fazer piorar as coisas! Seguramente que na sua cabeça a Maçonaria faz parte das coisas intocáveis. Daquilo que é de tal modo oculto ou “sagrado” que é preciso ter um ar sisudo em uma falsa atmosfera de segredo para que a mente aceite a “frequência modulada” e se sintonize. Mas “aquilo”? “Aquilo”, não! “Aquilo” não era nada do que estavam à espera. Levantaram-se os dois em atitude de desprezo e disseram “Não viemos cá para isto”. E saíram…

O ambiente ficou pesado. Percebi que a mudança não era nada bem vinda. Talvez tenha feito o erro de ter testado a coisa com os sócios do IHSHI (o Instituto), que já têm uma abertura de mente e uma grande elasticidade adquirida à custa de muitos choques comigo e com o Luis Fonseca! Apercebi-me numa fracção de segundos que, pedir àquela plateia que se deixasse ir e não tivesse medo, seria o mesmo que o treinador da Nadia Comaneci convidar o público das Olimpíadas a fazer os tais flick-flacks, mortais encarpados e esparregatas… Ali, os meus espectadores queriam ouvir falar sobre Maçonaria. Não da maneira que eu – o conferencista – quisesse. Mas da maneira que ELES quisessem! Sem abanar o barco. Sem ondas. Sem parvoíces. Dentro da mais estrita convecionalidade possível. Eu expondo-me, eles julgando-me em silêncio. São estas as regras. Assim ditam as convenções.

Convenções?

E eu lá sou gajo de deixar que as convenções (ou seja, as jaulas mentais – por definição ilusórias) me impeçam de fazer o que quero?! Há algo mais anti-iniciático do que ficar recluso e tolhido pelas “ideias feitas”? O que seria da evolução se não fossem alguns a desfazer as ideias???

Naquela fracção de segundo percebi a liberdade que tinha obtido para mim ao ousar inovar e usar o humor travesso mesmo à custa de não ser aceite por aqueles que ali vieram escutar-me. Seria tão fácil buscar o calor do aplauso e da validação de mim mesmo fazendo o convencional. Mas estaria ao mesmo tempo a perder a real essência de mim mesmo sendo sempre o mesmo sem variação, deixando-me colocar numa redoma de vidro. Eu não sou uma curiosa espécie em risco de extinção que se observe à distância segura de um vidro duplo. Quem vem para me ouvir tem de vir preparado para ser desafiado, para pensar “fora do copo”, para ousar ser diferente, nem que seja por um par de horas. Se ou não ousasse, em pouco tempo não só não mudaria o meu modus faciendi, comprometendo a minha evolução e estagnando num único modo de ser, como nunca ousaria pensar de modo distinto e estilhaçar as barreiras. Numa palavra, cristalizava-me a mim mesmo num único modo de comunicar.

Decidi então procurar ver até que ponto conseguia “forçar a barra” para os presentes. Ainda os dois desistentes não tinham fechado a porta e já eu perguntava: “Mais alguém quer sair? O melhor é ir já, que isto já não volta atrás…” Eu bem sabia que ninguém se conseguia mexer. E foi claro quais eram os resistentes, os que, estivessem eles mais perto da porta, fugiriam a sete pés. Mas, mais por receio de ficarem expostos em campo aberto do que por valentia, lá ficaram todos.

Não vou contar como acabou. Sucederam-se perguntas simples como “Onde reúnem os Maçons”, ou “O que quer dizer a expressão AGDGADU”, ou “A que horas abrem os Maçons os seus trabalhos”, misturadas com outras totalmente surpreendentes (mas reais), dando aso a que se falasse de modo aberto e muito divertido da Ordem Maçónica em Portugal e no mundo. Efectivamente no final elegemos um Grão Mestre e o prémio foi atribuído. E não conto mais porque quero os meus espectadores todos à beira dos seus assentos,alerta e atentos, sem saber o que vai acontecer a seguir. Na minha próxima palestra vou ser convencional ou indomável? Não sei. E vocês só saberão estando presentes. E a experiência em si é mais importante do que eu, a palestra ou a Maçonaria. Por isso, alerta. Alerta em todos os momentos.

Advertisements

7 thoughts on “Estilhaçar a Mente

    • É isso mesmo, Henrique! Obrigado por lembrares um dos momentos mais marcantes do cinema americano das últimas décadas.

      Carpe Diem, pessoal.

      Luis de Matos

  1. Mano Luis de Matos.

    Parabéns pela iniciativa em abrir neste espaço com uma Pr.’. de alto nível.

    T.´.F.´.A.´.

    José Maurício Lima
    “Johabem”

  2. Pingback: Jornadas do Hermetismo e do Sagrado - In Hoc Signo - Hermetic Institute

  3. Também lá estive, cansado, a ver avizinhar-se a noite-mãe. Mas, devia ser do frio…
    Enquanto esperávamos pelo anfitrião, bem que podíamos ter tentado aprender a ‘dança do cão’, como a ex-ocupante mais pequena dessa sala nos tentou mostrar.
    Mas depois passou o frio. Não sei se foi melhor a ideia ou o jogo, mas felicito-te pela pedagogia. Devia havia mais gente a ensinar assim.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s