Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 1)

Um dos pontos altos de 2010 foi, para mim, ter estado no Coliseu de Nassau, em Nova Iorque para os concertos de “The Wall”, a obra mais conhecida de Roger Waters e da banda que fundou nos anos 60, os Pink Floyd. O impacto que “The Wall” teve na forma como vejo o mundo (e me revejo no seu enredo) desde que vi o filme e comprei o álbum em 1983 (já o êxito tinha uns anos) formou-me enquanto jovem. Hoje percebo o que nunca percebi ao passar pelo processo da “noite negrada alma”. É uma obra capaz de produzir no ouvinte – estejam as sementes prontas – uma catarse iniciática, que tem todos os elementos clássicos, incluindo uma morte iniciática e uma ressurreição. Ao longo dos meus anos de juventude fui cozendo, a fogo lento, no cadinho da amargura, da desilusão e da solidão que só mesmo um adolescente consegue sentir com aquela intensidade, revolvendo as entranhas e sendo sujeito a uma metamorfose ao som de “The Wall”. Vi o filme no cinema umas 18 vezes. Foi a razão pela qual trabalhei um Verão inteiro para comprar um aparelho vídeo VHS. No final do processo (que eu não sabia estar a ocorrer em mim), acho que nasci mais forte e melhor. Seguramente melhor comigo mesmo. Sem dúvida impenetrável à crítica destrutiva dos outros e seguro acerca da minha essência interior que passou a responder a “tribunais” mais altos do que simplesmente os colegas de turma, os “outros” ou a convenções sociais castradoras que passaram a não me amedrontar. Agora é o que se vê. Ando a chocar gente que me compra os livros e vem às minhas conferenciazitas ao tentar abrir-lhes os horizontes…

Mas este post vem a propósito dos concertos de “The Wall” que Roger Waters vai dar em Lisboa nos dias 21 e 22 de Março. Lá estarei como estive em Nassau em Outubro último.

Em Nassau (NY), Outubro de 2010, a Anita, eu, o Henrique e o guitarrista Snowy White

.

Todos temos o sonho de conhecer um ídolo de juventude, uma pessoa famosa ou uma estrela. Para mim sempre foi conhecer Roger Waters. Sempre pensei ser impossível, até porque a esperança que cada um pode ter é pouco mais que aperta a mão, pedir um autógrafo e ser, para essa estrela, nada mais que um milhão de outras caras desconhecidas que se aproximam e os cumprimentam ao longo de anos. E se aprendi algo com Pink Floyd é que todos usamos máscaras apropriadas à situação. Por isso, conhecer a pessoa por detrás da máscara da estrela que gostávamos de um dia conhecer é uma impossibilidade, a não ser que possamos privar com ela. E isso está reservado a uns poucos que fazem parte do mundo “deles”. Ninguém de fora entra. É assim com Roger Waters como o é com qualquer dos meus outros ídolos: Coppolla, Spielberg, Harrison Ford, etc. Deste modo sempre soube que esse sonho era irrealizável.

Por circunstâncias que só a vida conhece, dei comigo na segunda metade dos anos 90 a trabalhar com diversos músicos, sendo manager e um pouco mais tarde produtor. Entre os meus clientes (todos eles ficaram amigos próximos), estava alguém que tinha sido contratado pelos Pink Floyd para tocar nos concertos originais do “The Wall” nos anos 80, o guitarrista Snowy White. Trabalhei com ele vários anos e produzimos vários CD’s e um DVD ao vivo da sua banda pessoal (aqui, aqui e aqui). Este é um dos vídeos que eu produzi:

.

A maior parte dos meus leitores não faz ideia de que estive tão envolvido na produção musical cá e fora de portas. Entretanto, o Snowy White tinha tocado pela última vez com Roger Waters em 1992 em Sevilha, por ocasião da Expo e no ano anterior em Berlim, no “The Wall” que fora feito para comemorar a queda do Muro, ainda hoje o espectáculo com record mundial de público. Mas em 1999 foi chamado de novo por Waters para alguns espectáculos numa curta tour nos Estados Unidos. Durante 2 anos os espectáculos sucederam-se e em 2000 convidou-me para me juntar à entourage do concerto de Roger Waters em Chicago e assistir ao concerto com total acesso ao backstage e à banda. Eu nem queria acreditar! E assim foi.

Nessa época escrevi uma pequena crónica sobre toda a experiência. Sei bem como muitas vezes conhecer alguém que era uma influência durante a nossa juventude pode ser uma total desilusão. Além disso os anos passaram e embora “The Wall” e uma boa parte da obra dos Pink Floyd se mantenha tão actual hoje como há 30 anos (porque a guerra, o isolamento, o sistema educativo deformador das consciências e a alienação se mantêm temas infelizmente marcantes das sociedades modernas), Roger Waters estava mais velho e a sua reputação como sendo muito antipático, fechado e pouco comunicativo fazia crescer o meu receio de ter de chupar com um encontro 5 minutos de conversa de circunstância e mau humor. Ao mesmo tempo entrei em fóruns da internet onde os fãs conversavam sobre a tourné (que daria a volta ao mundo duas vezes e passaria por Portugal). Aquilo é que eram fãs doentes! Havia malta a ir a dezenas de espectáculos. Postavam-se fotos e vídeos de cada noite e discutiam-se as diferenças de umas para outras. Alguns tinham-se despedido dos seus empregos para seguir a tour literalmente de cidade em cidade… Pink Floyd teve sobre mim uma influência decisiva, mas libertou-me. Não seria capaz de tanta dedicação e fixação obsessiva. Por isso não conseguia imaginar o impacto que a obra da banda teve na vida daquelas pessoas. Deste modo, apresentei-me num dos fóruns onde havia fãs mais dedicados e disse que conhecia uma elemento da banda e que podia saber informação que lhes interessasse de forma fidedigna. Há sempre muitos rumores acerca das tours e das bandas. O que é curioso é que ninguém acreditou em mim. Por isso, o relato que vou transcrever de seguida foi escrito originalmente em Inglês e destinava-se a mostrar aos fãs do fórum o que é a tour do lado de dentro.

Snowy White em “The Wall” no palco em Nassau, 2010
.

Assim vos deixo aqui algumas linhas de “Riding With the King”, em preparação para o espectáculo de 2ª e 3ª. Sou capaz, então, de voltar ao tema. O texto será publicado em outro post dentro de alguns momentos, já que o estou a traduzir.

(Parte 2)

Advertisements

2 thoughts on “Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 1)

  1. Pingback: Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 3) « Um Blog Universátil

  2. Pingback: Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 2) « Um Blog Universátil

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s