Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 2)

Eram 11 da manhã de sexta-feira, 7 de Julho de 2000. Tinha viajado para Chicago desde Paris no dia anterior e estava ainda um pouco cansado. Mas tinha de me encontrar às 11.30h com o Snowy White no hotel onde estava a banda toda (eu estava num outro a pouco mais de 200m porque a minha agência não soube encontrar o hotel certo!). Por isso aproveitei aquela meia hora para passear um pouco e acabei por entrar muna livraria. Ali, à frente dos meus olhos, o livro que podia ter sido escrito pelo próprio Roger Waters: “O Guia da História Para o Pessimista”. Abri por curiosidade e dizia coisas do género: os Egípcios descobriram novas técnicas agrícolas e criaram uma civilização excepcional, mas vieram as inundações do Nilo e foi tudo devastado, de tal maneira que tiveram de mudar as cidades para o deserto, longe das férteis margens do pouco confiável rio. Ou ainda: tudo parecia estar a corre bem, a Europa vivia em relativa paz por alguns anos e iniciavam-se as viagens de descobertas, o comércio crescia; mas eis senão quando a Peste Negra veio por um fim ao progresso e dizimou uma boa parte do continente. E assim por diante. Cada vez que a Humanidade dava um passo, vinha um “azar” e morriam vários milhares. O pessimismo ao serviço da história!

Estava em Chicago para me encontrar como meu cliente e amigo Snowy White, um conhecido guitarrista Inglês da velha guarda, antigo companheiro de Peter Green (fundador dos Fleetwood Mac) e dos Thin Lizzy de Phil Lynott. Tinha-o conhecido há uns anos e fui-me envolvendo na sua carreira como fã e como profissional. Durante alguns anos trabalhou para a minha banda mítica favorita, os Pink Floyd, tendo feito várias tournés com eles pelo mundo, incluindo Animals em 1977 e 1978 e os shows de The Wall originais. Por isso nunca faltavam coisas para falar com ele. Além disso o seu talento como bluesman é enorme e é um prazer vê-lo em estúdio ou ao vivo. Sabendo da minha admiração pelos Pink Floyd e estando agora na sua segunda tour como guitarrista de Roger Waters depois de este ter voltado à estrada quase 10 anos volvidos do seu último show, resolveu convidar-me a juntar-me à entourage da banda e a conviver com eles neste fim-de-semana em Chicago. Não sei bem o que esperar. Snowy é um homem simples, franco e muito aberto. Fala pouco como quase todos os bons músicos que conheço, que costumam ser muito tímidos em contraste com a expressividade que têm em palco. Mas Waters tem a fama de ser antipático, corrosivo e não gostar de conversa-fiada. Além disso, que conversa fiada fazemos com um ícon do rock da nossa juventude? Felizmente a minha posição de produtor executivo de um dos seus músicos ajudava a manter qualquer conversa a um nível pessoal e profissional e a deixar-me entrar, por milagre, no grupo de gente com quem ele “trabalha”, muito distinto do grupo de gente que lhe enche o saco a pedir autógrafos para vender na internet ou que o vê e bloqueia o cérebro sem poder fazer perguntas inteligentes: “Yo! Dude! Yu’ awasome! Pink Floyd not dead. Yeah!!!!” (a sério, isto é vulgar…)

Eram 11.30h. Dirigi-me à recepção do hotel onde a banda estava e pedi educadamente:

– Bom dia, gostaria de falar com Snowy White, por favor.

O empregado do outro lado do balcão olhou-me perplexo.

– Desculpe. – Disse ele – qual era o nome outra vez?

– Snowy White.

Ele hesitou. Via-se que estava confuso! É que Snowy White é muito próximo de Snow White (Branca de Neve) e toda a gente sabe que os artistas mais conhecidos dão nomes falsos para os quartos do hotéis para não serem incomodados por curiosos. A cada cidade que chegam corre uma lista feita pelo Tour Manager onde se diz quem é quem para que eles saibam encontrar os colegas. Lembro-me que uma das vezes nesta tour o Roger Waters estava registado como o Sr. Oponimous Brunch (algo como Enorme Almoço Volante). [desta vez em Lisboa nem tentem saber onde estão hospedados e os nomes, porque se enganam!] Por isso, os empregados dos hotéis estão sempre à espera de nomes malucos quando está um grupo para concertos. O Snowy, por já ter a alcunha estranha, costuma dar o primeiro nome real que quase ninguém conhece e assim torna-se “invisível”. Por isso, quando o empregado me fez a seguinte pergunta ainda brinquei um pouco com ele:

– O primeiro nome é …

– Bem … Snowy . Por favor, tente não acordar os sete anões. Chame-o só a ele. Procure por White e verá que encontra.

Ele olhou para o monitor de seu computador e cuidadosamente escreveu sobre o teclado: “Mr. White”. De repente, ele era só sorrisos:

– Ah! Aqui está! Snowy White! * MR. Snowy White! Pensei que fosse uma senhora!

Desta vez estava sob o nome artístico.

– Foi isso que eu disse.

– Pensei que estava a brincar comigo! Ele está com o grupo. Desculpe o inconveniente. Aqui tem número de quarto, senhor! Passo já a chamada.

Quando eu mais tarde contei o episódio ao Snowy ele fartou-se de rir. Ligou logo para o Waters e contou-lha a história e ele também achou tudo muito engraçado.

Entretanto o Snowy lá desceu.Eu não o via desde Abril e por isso conversámos um pouco no bar antes de sair. “Como estás?”, “Como tem sido a tour?”, “Já viste o calor aqui em Chicago?”, etc. O habitual.

– Queres ir almoçar?

– Claro – disse ele – Mas primeiro tenho que fazer algumas compras. Queres vir?

– Ok! Vamos.

E lá seguimos nós. Caminhamos pela Michigan Ave. (eles estavam hospedados exactamente no lado oposto ao John Hancock Center) e conversamos sobre isto e aquilo durante um bocado.

– Então, esta noite nós vamos a um clube de Blues? – Eu perguntei, já que estávamos na cidade do Blues e eu queria ver qualquer coisa mais típica da cultura musical americana.

– Sim. Eu só estava precisamente a perguntar ao Andrew (o Tour Manager) se ele sabe de bons clubes nesta área. Provavelmente outros elementos da banda querem vir. Veremos depois do almoço. O Andrew está a tratar do assunto.

– Achas que o Waters gostaria de ir a um clube?

– Não sei. E não é Waters. Ele gosta que lhe chamem pelo primeiro nome. Só pessoal “de fora” é que lhe chama Mr. Waters. Por isso, tu vê lá se o tratas por Roger quando to apresentar. – eu nem sabia muito bem como reagir. Estão a ver se fosse com o Sinatra: “não o trates por Mr. Sinatra, para ti ele é o Frank”… Que nervos… É que tenho de dizer “Roger” e soar mesmo como se fosse um gajo que conheci numa reunião de trabalho, ou que é um amigo de um amigo, sem mais vertigens. Tudo normal. Uma pessoa vulgar. Roger. E era mesmo o amigo de um amigo… Mas não era a mesma coisa.

– O Doyle é a companhia do costume para irmos a clubes. Conheces o Doyle [Bramhall II (o outro guitarrista da tour)]?

Além do que eu li sobre a sua actuação na tour (excelentes opiniões do público) eu não sabia nada sobre ele. O Snowy disse-me que Doyle II é filho de Doyle Bramhall I, baterista da banda de Stevie Ray Vaughan e escritor de algumas das suas canções [entretanto já escreveu para muitos outros conhecidos guitarristas, incluindo BB King e Eric Clapton]. Disse que Doyle era um guitarrista muito talentoso e que eu o apreciaria muito no show. Entretanto fomos até à Virgin Megastore, para ver se eu poderia encontrar o álbum do Doyle e comprar uma cópia. Não havia nenhum. O Doyle nem sequer estava listado. A indústria da música queixa-se das vendas, mas vivem num mundo à parte, ignorando o que se passa no mundo real. Estando Roger Waters na cidade para um grande concerto – já esgotado – havia apenas quatro exemplares do seu último álbum “Amused to Death”, e não podíamos encontrar álbuns do Snowy em lado nenhum, o que era estranho. Descobri um par de dias depois na mesma loja que estavam mal classificados numa secção sob o nome “Sony White “!!! Assim não vão lá. Ficámos desapontados, até porque o seu último álbum [na época] era um dos que mais o satisfazia artisticamente, “Melting” (na Europa está disponível com o nome “Little Wing”). Os artistas estavam na cidade para concertos, alguns álbums podiam estar em destaque e vender-se, mas não. Mesmo Roger Waters só poderia esperar vender 4 exemplares que havia na loja, sem qualquer destaque. Este seria um tema de conversa com Roger, mais tarde (já lá chegaremos).

Almoçamos algures em Wabash Street.

– Estou a gostar de Chicago – disse eu – mais do que de New York.

– Eu também gosto da cidade – disse Snowy.

[Aqui vale a pena contar a experiência da banda nesta tour de The Wall que vem a Lisboa dentro de dias. Quando nos encontrámos em Nassau há uns meses disse-me que a banda esteve várias semanas no mesmo hotel do Soho novaiorquino, que tem um heliporto no telhado. Todos os dias em que havia concerto eram apanhados de helicóptero ali e levados para o lugar do espectáculo, quase sempre a não mais de 250km de Manhattan. Quando a cidade estava mais longe, eram levados para o aeroporto mais próximo de helicóptero e dali em jacto particular para a cidade em causa, voltando a dormir em Nova Iorque. Isto ajuda a perceber porque é que muitas vezes os músicos não têm bem consciência onde estão a tocar.]

– É a tua primeira visita a Chicago?

– Não. Estivemos aqui no ano passado e também tivemos um dia de folga na cidade. O que é que eu fiz então? Olha, não sei. Não me lembro … Ah! Espera. Já sei! É uma estranha história!

– Conta.

– Eu já cá tinha estado com o Roger na tour dos Pink Floyd, mas nessa altura a máquina que nos seguia era diferente. Bem, por alguma razão estúpida, o ano passado eu tinha entrado os EUA com um visto de turista e não como um músico profissional com visto de artista profissional. Ora, eu tinha que sair do país, ter o meu passaporte carimbado outra vez, legalizar o tudo e começar de novo. Por isso escolhemos Chicago porque tivemos cá um dia de folga. Enquanto o Roger andava por aí a passear, meteram-me num avião para o Canadá, esperei lá umas horas e voltei a voar para cá no mesmo dia, carimbando o passaporte de novo! Foi um dia cheio de terminais de aeroporto!

Rimos.

De volta ao hotel, fizemos os arranjos necessários para o dia seguinte. Eu iria com a banda para o show, numa das suas carrinhas de vidros fumados e voltaria com eles. Cada vez estava a gostar mais da minha estadia. Ver pela primeira vez o show de Roger Waters ao vivo já era uma experiência incrível e rara, mas conhecê-lo e entrar nos bastidores seria memorável. Agora o que eu não estava à espera era de ir para o show com a banda.

Naquela tarde nada mais foi feito. Era um dia de folga e todos os músico queriam descansar depois do almoço. Voltei para o meu Hotel (a 4 quarteirões dali) e marcamos uma reunião em torno de 8:00 para jantar e depois ver o que a noite trazia. À hora marcada estava no hotel deles e fui com o Snowy a um restaurante italiano próximo. Durante o jantar contou-me que o jogo de cartas que a banda faz a meio do concerto (numa pausa em que há um solo de teclados na canção “Dogs”) é mesmo a sério!

Todas as noites jogam a dinheiro e vão acumulando de show para show. O Roger diz que os mantém atentos! Contou também que tinham gravado o show de Portland, que iria sair em DVD. Depois do jantar voltámos para o hotel. Estacionada em frente à porta estava uma carrinha Van branca com janelas fumadas escuras. A porta abriu e o segurança pessoal do Roger Waters saiu. O Snowy foi ter com ele e perguntou sobre os planos para a noite.

– O Roger está a jantar com o Mark (Fenwick, seu empresário), que acaba de chegar de Londres. Quando acabarem ele quer ir convosco até um Blues club.

O seu telemóvel tocou. Era Roger Waters. Tinha acabado de jantar e estava pronto a partir. Entrámos então na Van e esta arrancou para o ir buscar.

Era agora – pensei… – Vou finalmente conhecer o fundador dos Pink Floyd! Mais do que isso. Vou a um Blues Clube em Chicago com ele, o seu manager e o Snowy White. E segurança, claro. Como nos filmes. Van de vidros escuros e tudo. Foi só então que acreditei. Estava mesmo a acontecer Que grande visita a Chicago!

(Continua na parte 3)

(voltar à parte 1)

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