Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 3)

Estávamos do lado de fora de um restaurante em Chicago, dentro de uma Van de vidro fosco, à espera de Roger Waters e do seu Manager. Eu estava sentado no banco do meio da fila central (a Van tem três filas de assentos, não incluindo os assentos para o motorista e ao lado dele). O guitarrista Snowy White estava comigo. Mike, o segurança, disse que íamos ao Clube Buddy Guy’s Legend, um dos mais conhecidos em Chicago.

– Roger, estamos cá fora. – disse Mike ao telemóvel. – Hummm! O.K. … Toma o teu tempo, que nós já estamos aqui. Já agora, o Snowy está com o amigo dele de Portugal que já chegou, estão os dois aqui e vão connosco ao Clube. Não… Não, Roger, eu só quero que você saiba que está tudo O.K.

Imaginem o que era o artista entrar num carro fechado e ver estranhos lá dentro. Foi preciso dizer-lhe quem ia encontrar e que não era uma pessoa de fora, mas sim “de dentro”. Um amigo do Snowy. Eu agora, para todos os efeitos, era “de dentro”. Não me podia deslumbrar. Não podia olhar para ele quando entrasse com ar de totó sem acreditar que estava a cumprir um sonho irrealizável da minha vida. Não podia sequer pedir um autógrafo, uma foto [naquela época os telemóveis não tinham máquina] ou confrontá-lo com as milhares de perguntas super nerd e detalhadas sobre a obra dele que eu conhecia em detalhe tantas vezes ouvi as suas canções! Não! Controla-te Luis! Estás na Van. É um “deles”. Comporta-te à altura!

Momentos depois, vi a silhueta inconfundível do Roger Waters a sair do restaurante acompanhado de outra pessoa. Entrou para a Van sorrindo num sorriso largo e acolhedor. Muito diferente dos sarcásticos bramidos de “The Wall”, do dilacerante choro de “Final Cut” e do selvagem grito de “Careful With That Axe Eugene”. No entanto era ele mesmo. O mesmo homem. As mesmas feições. A mesma cara. A minha primeira impressão dele ali na Van foi bastante agradável. Mais velho do que parecia na maioria das fotos que eu vi, com os cabelos rebeldes e algumas madeixas, um sorriso impecável de enorme boca larga e expressão amigável e muito simpática.

– Hi! – disse Roger Waters, apertando-me a mão de modo firme – How do you do?

– Prazer em conhecê-lo, Roger.

– Prazer em conhecê-lo a si! Esta é Mark, o meu Manager.

Cumprimentei-o. Mark Fenwick é um tipo extraordinário. Notava-se logo que era Britânico, por uma espécie de nobreza na sua pose e pela maneira como estava impecavelmente vestido. O seu sotaque não enganava (assim como o de Waters, por sinal), o que era refrescante no meio de tanta gente a falar “americano”, mas havia também algo no sorriso de Mark, algo nos seus movimentos e o modo como falava com gestos que o fazia destacar-se . Nada, absolutamente nada, como o que eu esperava ver de um Manager de Rock, e certamente não o homem que eu tinha imaginado. De facto, Mark Fenwick (vim a saber depois), é na verdade ainda mais rico do que Roger Waters. Ele é o dono da “Fenwicks” Department Store de Oxford Street em Londres, com mais umas dezenas de lojas espalhadas pela Inglaterra. Todos os anos está citado na Forbs como uma das 100 maiores fortunas inglesas. Tem o ar de um distinto business man, mais do que de um duro agente sem escrúpulos que faz exigências sobre as extravagâncias das mega-estrelas. Na sua juventude foi Manager dos Roxy Music entre outros, mas depois de herdar a fortuna e o negócio do pai retirou-se. A sua amizade com Roger é o principal motivo que o leva a deixar agora todos os outros negócios de lado e a passar umas semanas com a tour. Ambos são verdadeiros cavalheiros!

Versão mais recente da Van de vidros foscos usados pela tour

.

– Então, como está Portugal? – perguntou Waters.

– Lá estamos, no mesmo local, como de costume, com o nosso sol esplêndido a iluminar a areia e o mar.

– E tu onde vives? – Perguntou ele.

– Eu sou de Lisboa.

– O Luis veio de Portugal para ver o show. – disse o Snowy – Ele é produtor e temos trabalhado juntos ultimamente.

– Com quem é que trabalhas? – desta vez era Mark que perguntava.

– Bem, tenho trabalhado em quase toda a Europa, mas agora estou mais ligado a uns projectos com a Universal e…

– Mark, o Luis diz-me que a Universal foi vendida novamente. – disse o Snowy – O que é que sabes sobre isso?

– É verdade – disse ele – Agora, foram franceses que a compraram.

– Os franceses? – disse Waters – não foram comprados ainda há pouco tempo pela Seagram’s, aquela das bebidas?

– Sim, Roger – disse eu, aproveitando para meter conversa – Nem me faças falar disso! Tem sido muito difícil com todas as fusões e aquisições e novas políticas, novas administrações… Já sabes como é… Primeiro, eram a PolyGram, depois veio a Universal e comprou tudo e agora que nos estávamos a acostumar às práticas da casa e aos objectivos traçados, esta segunda-feira os franceses compraram tudo. Ou seja, novas políticas, novos objectivos e quase de certeza nova administração. Entretanto os projectos que andamos a gravar já nem lá têm quem inicialmente os encomendou. Logo se vê o que vai sair dali. Voilá, C’est la Vie.

Roger Waters riu-se.

– Os franceses sempre nos trataram bem. Gravámos o The Wall numa quinta perto de Nice e estivemos lá um monte de tempo. Eu gosto da zona sul.

– Pois eu não acho que os franceses vão mudar muito a sociedade. – disse o Mark. – Não, pelo menos de momento. Foi a Vivendi, um grupo de  media, que comprou a Universal. Eles já são os donos de parte da Sky na Inglaterra, mas tenho a certeza de que vão mantê-los sem fazer ondas por agora.

– Eles compraram a Universal na Europa? Só na Europa? – perguntou o Waters.

– Não – disse o Mark – compraram o lote todo. Seagrams, PolyGram, tudo!

– Mesmo a Universal Studios?

– Tudo, Roger, tudo!

Roger virou-se para nós na parte de trás e disse:

– O mundo muda a cada dia! Ei, o que é que vocês fizeram hoje?

– Estivemos a passear por aí. – disse Snowy. – Na verdade, fomos à procura do meu disco.

– E então, encontraram-no?

– Não Roger, não o encontrámos. Estivemos na Virgin, e não havia traços do meu álbum nem do álbum do Doyle. E na secção com o teu nome só encontrámos 4 exemplares do “Amused to Death”.

– Vês Mark? Apenas 4. – disse o Roger torcendo a boca. – Eles nem sabem que cá estou.

– Sabem, sabem, Roger, eles sabem. – disse Mark.

– E os teus álbuns estavam dispersos por outras secções e mal colocados. – disse eu.

– Então como estavam? Na secção do “P”?

– Estou a exagerar. Estavam em “W” de Waters, mas na verdade estavam na divisória do teu nome vários álbuns que pertenciam a outras secções e eram de outros artistas de “W”.

– Então e os meus outros álbuns? O “Pros and Cons …”, por exemplo? – inquiriu ele.

– Nem traço deles. – respondi – eu acho que para esta gente és um “one-hit-wonder”, “Amused to Death” e mais nada. Nem mesmo o ” The Wall in Berlin “. Nada. Só “Amused to Death”. E só 4 cópias.

– Eu acho que os Estados Unidos são tão grandes que deve haver um monte de pessoas que entendem os meus álbuns, e se relacionam com as letras – disse Roger.

Era a minha oportunidade!

– Eu sei que eu entendo e gosto dos teus álbuns. – disse eu – E um monte de gente que eu conheço também. Deve haver uma razão para a tua audiência ser tão ampla, desde os adolescentes aos avós. E, Roger, eu conheço gente em ambos os espectros opostos de idades e no meio que gostam do que escreves e se identificam muito. É que a tua mensagem é simples e sabes falar de questões que mexem com as pessoas.

– Seria de imaginar que haveria pelo menos… pelo menos… Não sei… Um milhão de pessoas aqui nos Estados Unidos que se relacionam com as letras e entendem “Amused to Death” – disse ele pensativo.

Concordámos todos.

Clube de Blues de Buddy Guy, onde nos dirigíamos

.

– Dizem que o meu álbum não agrada ao palato americano.

Eu não percebi a palavra.

– Desculpa, Roger, eu não entendi. Eles disseram que teu álbum o quê?

– Que não agrada ao palato. – repetiu o Mark

– E isso significa… – disse eu em tom de pergunta.

– Bem, basicamente, significa que o meu álbum é “politicamente incorrecto”. Há fatias da sociedade americana que não gostam do que eu digo. Não lhes agrada. Eu não faço baladas de amor e as minhas canções não falam dos passarinhos e das abelhas. Falam das picadas das abelhas. Dos assuntos que me preocupam. E o que me preocupa é sério e mesmo que eu faça algum humor sarcástico, aqueles que se sentem expostos pelo que digo não gostam dos meus álbuns. Sou “politicamente incorrecto”.

– Estás a bricar, não é? – disse eu – “Amused to Death” politicamente incorreto? Quem foi a mente perturbada que teve tal ideia, meu Deus! Depressa, tirem todos os álbuns subversivos de John Lennon das lojas em todo o mundo!

Eles riram-se.

– Posso dar uma ideia, Roger? – disse eu – Eu sei como podes vender o teu álbum nos Estados Unidos e ser politicamente correto, ao mesmo tempo.

– Como?

– Com todas as cópias de “Amused to Death” ainda nas lojas, ofereces um voucher com 50% de desconto na compra de uma arma! As armas são permitidas e populares por aqui! Vais ver só que aquilo vende! Promoção: “A canção é uma arma” por Roger Waters!…

Foi uma risada enorme!

– Está a brincar – disse o Snowy – mas eu vi um anúncio no Dia do Pai que trazia uma oferta semelhante!

– Estás a ver, Snowy? – disse eu – Não se pode fumar nos Estados Unidos em lado nenhum, é obrigatório manter o cão preso pela coleira quando se passeia na rua, não se pode vender uma cerveja a um cliente qualquer, sem mostrar identificação, mas qualquer um pode comprar uma arma! E andar com ela no jardim onde passeias o cão, no bar onde não te vendem a cerveja e na esquina onde fumas o cigarro!

Risos de toda a gente. Continuei:

– Ainda ontem morreu um jovem que estava no seu quarto em casa nos arredores da cidade, atingido por uma bala perdida. Ninguém sabe ainda de onde veio. Mas ontem mesmo, aqui ao pé do vosso hotel, eu, com esta cara que vêem e este corpanzil, quis comprar uma lata de cerveja numa loja de conveniência e não ma venderam sem mostrar o passaporte porque “só vendiam a maiores de 18 anos com ID”. Não fosse eu assaltar alguém com a bendita lata!

Riram-se ainda mais.

– Quem é que toca hoje no clube?

– Não sei, Roger – disse Mark.

– É um tipo chamado Harris e sua banda. – informou o Mike.

– Nunca ouvi falar dele. Mas, Luis, podes ficar tranquilo. Quando lá chegarmos podes pedir cerveja à vontade que ninguém te pede o ID. E pago eu! – disse o Waters a meter-se comigo.

Estávamos a chegar. A van parou na esquina do Clube Budy Guy’s Legend. Era ali que íamos mergulhar no Blues de Chicago. Eu estava pronto.

(segue na Parte 4)

(voltar à parte 1)

Advertisements

5 thoughts on “Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 3)

  1. Pingback: Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 2) « Um Blog Universátil

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s