Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 5)

A Van estava estacionada à frente do Hotel. Era a noite anterior ao concerto e tínhamos acabado de regressar do Clube de Blues. Antes de sair da Van, Roger disse ao condutor:

– Jack [nome fictício].

– Yes, sir.

– É você que nos vai levar ao show amanhã?

– Não sei, sir.

– O que quer dizer? Não sabe?

– Bem, sir, haverá duas Vans amanhã e eu ainda não fui designado para nenhuma delas pelo meu supervisor. Não sei se amanhã vou conduzir esta Van, a outra Van ou se a empresa tem outros planos para mim amanhã, sir.

– Mas você quer levar-nos ao show? Nós podemos tratar disso.

– Não sei, sir.

– Podia ver o espectáculo enquanto esperava para nos trazer de volta. Gostava que fosse assim?

Silêncio… O condutor não sabia o que fazer. CLARO QUE ESTAVA MORTINHO PARA VER O CONCERTO!!!!!

– Não posso ser eu a decidir, sir. Não posso ser o vosso condutor sem uma ordem do meu superior, sir.

– Bem, mas gostava de ir? Podemos tratar disso.

– Se o deixar satisfeito, Mr. Waters, eu gostava de o levar e ver o concerto.

– Então está decidido. Até amanhã, Jack. Por favor, Mark, telefona ao Andrew [Zweck] e diz-lhe que acerte as coisas.

– Goodnight Mr. Waters.

– Goodnight Jack.

No dia seguinte eu estava no hotel deles às 12:00 em ponto. O Snowy desceu e fomos dar uma volta. “Há uma loja de computadores ao virar da esquina” – disse ele, “Queres lá ir?”. “Sim, claro.” – disse eu. Lá fomos. Era uma loja da Comp USA. Demos uma vista de olhos. Ele estava mais interessado em software para o iMac (ele tem um) e eu fui até à secção de PC da loja. “A Pat (P.P. Arnold) tem um laptop iMac, sabes? É com ele que ela se liga à net. Outros na banda andam com os seus laptops para todo o lado.” Pouco depois saímos à procura de um café.

– Vou dar um espectáculo em Nova Iorque daqui a uns dias. Nós voamos para lá amanhã, o concerto do Roger é na Terça e na Quinta [no Madisson Square Garden] e na Quarta eu toco no novo clube do B.B. King. – disse o Snowy.

– Tocas com quem?

– Toco com a minha banda, os White Flames. O meu pessoal está agora a voar da Holanda. Devem estar no ar precisamente agora. Só não estou muito certo se temos tempo para ensaiar.

– Porquê?

– Não temos tempo. Já não tocamos o nosso material desde Setembro do ano passado.

– De certeza que vocês acertam logo. O Juan [von Emmerloot, baterista] e o Walter [Latupeirissa – baixista] são muito bons. É num instante que entram no espírito das canções. O Roger vai lá estar?

– É provável que esteja, se não estiver cansado. O concerto de Nova Iorque vai ser em grande, Luis. Vamos lá estar cinco dias e todo o tipo de pessoas vão voar de todos os lados para ir ao concerto. Há executivos da companhia discográfica, amigos do Roger, sei lá! Ele pode estar cansado. Mas tenho a certeza que alguns dos colegas da banda irão. O Doyle vai de certeza. Vai ser divertido.

E continuou a falar do seu show no Clube do B.B. King. Como foi organizado, detalhes sobre a produção, a promoção, etc. Eu gosto do Snowy. Ou melhor, eu gosto muito do Snowy. Desde que era puto e coleccionava tudo o que era Pink Floyd que descobri este guitarrista num álbum a solo do teclista Richard Wright. Depois numas férias descobri dois álbuns dele mesmo numa discoteca do Porto, no velhinho Centro Comercial Brasília. Fiquei siderado com “Bird of Paradise”, uma das minhas canções preferidas da minha juventude. Snowy tinha acompanhado Pink Floyd como guitarrista de apoio desde 1977 (álbum Animals) e estivera nos shows originais de The Wall. Depois passou algum tempo com os Thin Lizzy de Phil Lynnot e passou a uma carreira a solo. Perdi-lhe o rasto pelos idos de 1986. Até que em 199o o vejo no concerto de Roger Waters em Berlim, pontificando os melhores solos à Floyd do espectáculo.

Snowy White durante o “The Wall – Live in Berlin”

Grande solo de Snowy White durante “Nobody Home” em Berlim. Uma das minhas canções preferidas de Roger Waters.

Foi uma redescoberta! Sempre gostei muito da música de Snowy White e do modo como toca a sua guitarra. Nunca pensei vir a ser seu produtor. Nunca sonhei sequer poder ser seu amigo. A vida guarda-nos surpresas incríveis!

– Não te desejo sorte para o concerto, Snowy. – disse-lhe – Desejo apenas que os fans Americanos dos Pink Floyd descubram o show e possam desfrutar da tua música tal como a desfrutamos na Europa.

Já era a hora do almoço e nós tínhamos andado mais do que esperávamos para encontrar uma esplanada ou um café. “Porque é que não vamos ao restaurante onde estivemos ontem à noite?” – perguntei. Assim o fizemos. O restaurante estava convenientemente localizado ao voltar da esquina do hotel onde a banda estava. Tomámos uma sanduíche e muita água gelada. Estava muito calor em Chicago. Eu diria que bem perto dos 40º. Estava tão quente e eu já tinha suado tanto que decidi voltar ao meu hotel e tomar um duche antes de irmos para o espectáculo.

– Tens de estar de volta às 3:30. – disse o Snowy. – Se chegares tarde já nos teremos ido embora!

– Lá estarei! – alguma vez ia perder esta boleia???

Ora, depois de um duche rápido lá estava eu de volta ao hotel deles. Liguei ao Snowy e ele desceu, pronto a ir para o espectáculo. Fomos até ao bar esperar pelos outros, onde conversámos um pouco.

– Sabes – disse ele – Temos usado um saxofonista diferente em cada cidade para tocar “Money”. Em geral convidamos um músico local e é muito divertido. Mas desta vez vais poder conhecer um tipo que já andou em tourné com o Roger no passado.

– Quem?

– Mel Collins. Já ouviste falar dele?

– Sim, claro! Era ele que tocava saxofone na tourné de “Pros and Cons of Hitchiking”, e tocou com gente como os Alan Parsons, Camel e King Crimson.

– É isso mesmo. Ora, ele chegou de avião, vai tocar hoje e em todas as noites até ao final da tourné. Vai ser divertido vê-lo outra vez. Agora vive na Alemanha.

– Ai sim? O que é que aconteceu ao outro saxofonista dos Floyd do Dave [Pink Floyd sem Roger Waters, que gravaram e tocaram ao vivo entre 1988 e 1996], com quem eles tocavam há uns anos?

– Estás a falar do gajo que gravou os solos originais do “Dark Side”?

– Sim, foi ele, não foi?

– Esse é o Dick Parry. Andou em tourné com o David, sim. Eu conheço-o há muitos anos. Quando fui contratado pelos Pink Floyd para a tour do “Animals” ele era o outro músico contratado. Tocava material do “Dark Side of the Moon” e do “wish You Were Here”. Era muito bom e um tipo impecável como pessoa. Mas logo que terminou a tour os Pink Floyd começaram a trabalhar no “The Wall” e o Dick nunca mais tocou depois disso. Quando o David Gilmour lhe ligou há uns anos o Dick estava a viver na Escócia e já nem tocava saxofone! Mas lá acabou por se juntar à última tour dos Pink Floyd ao lado do David.

– Eu vi esses espectáculos e gostei muito. Não sou aquele tipo de fans que se preocupe muito em saber “which one is Pink”. Gosto de muitas das coisas que o Gilmour escreve e gosto de muitas das coisas que o Roger escreve. No final de contas, o que importa é o prazer que a música te dá.

Nesse instante Katie Kissoon entrou no bar. Snowy fez as apresentações: “Este é o Luis, veio de Portugal ver o show. Ele é Produtor.” Ela foi simpática e sorriu. Dei-lhe um aperto de mão.

– Então, Snowy, onde é que andaram ontem à noite? – perguntou ela.

– Fomos ao Clube do Buddy Guy com o Roger.

– E então, gostaram?

– Sim, foi divertido. – disse eu – Havia uma banda interessante, um tipo chamado Harris qualquer coisa.

– Eram uma banda tão simplória… – disse o Snowy – O Roger adorou e foi falar com eles no fim e tudo. Falou com o manager deles e com praticamente todos os que se aproximaram da nossa mesa a pedir autógrafos. Eu estava a dizer aqui ao Luis que ele está muito mais aberto ao contacto humanos hoje em dia.

O Mike (segurança que acompanha sempre Roger Waters) entrou no bar e estava a ouvir a nossa conversa. A dada altura contou-nos como o Buddy Guy é um artista muito divertido como pessoa. Disse que trabalhou com ele em alguns shows e que uma vez ele lá estava a tocar as suas coisas, aquilo que mais gostava, mas o público estava a ficar aborrecido. Então ele pegou no micro e anunciou que iria tocar Rock & Roll. Logo na primeira canção o público já estava quente outra vez, aos gritos e a aplaudir. Foi aí que ele contou uma história divertida e colorida e voltou a tocar as músicas que lhe davam gozo! Rimo-nos todos.

– Pessoal, a Van está lá fora, temos de ir. – disse o Trip entrando no Bar. Saímos. Havia uma azáfama no pequeno lobby. Sentia-se a excitação e a antecipação do momento. Estávamos prestes a entrar na viagem de ida para mais um grande show de Roger Waters. Logo ali fui apresentado ao Mell Collins que descia do seu quarto. Estava muito contente. Podia ver-se um brilho de felicidade nos olhos. Sorria, dava gargalhadas espontâneas e saudava com um gesto cada um dos membros da equipa. Graham [Broad, o baterista] também estava no lobby com a sua esposa que também tinha chegado a Chicago naquela manhã. Logo de seguida apareceu o Jon Carin [teclista]. O Snowy apresentou-nos e ele sorriu de modo muito simpático enquanto saíamos para o passeio à frente do hotel onde estavam as Vans à nossa espera. Lembro-me de o ter achado mais velho quando o vi em palco com os Pink Floyd de Gilmour e em “Pulse”, mas é muito mais jovem e cheio de energia em pessoa. Já no passeio estava Doyle [Bramhall II, guitarrista] com a esposa [Susana Melvoin], junto a uma das Vans, a falar amenamente com Andy Fairweather-Low [guitarrista]. Do outro lado da rua conseguia ver um casal com uma cópia do álbum dos Pink Floyd “Is There Anybody Out There [The Wall Live]” à espera de um autógrafo. Agora não, pensei comigo. O Roger está com pressa. Se já sabem em que hotel ele está, esperam que o show acabe. O Snowy disse-me para entrar na Van da frente e assim fiz. Quando todos ocuparam os seus lugares, saímos para o show.

Na Van onde eu ia, além de mim e do condutor (o mesmo da noite passada) estavam:

Roger Waters
Snowy White
Doyle Bramhall II
Andy Wallace
PP Arnold
Susannah Melvoin
Mark Fenwick (Manager do Roger)

A caminho do show o Roger tinha alguns papeis para mostrar à banda. Começou por dar uma foto ao Snowy de um dos shows tirada por um fan e entregue ao Mike. Era uma excelente foto.

Agora vem a melhor parte. Para minha total surpresa ele fez circular entre todos (eu incluído) uma folha de papel com o print da capa do que seria o seu álbum ao vivo! Eu fiquei muito surpreendido. Não só estava a caminho de um show com o meu músico de Rock favorito, como – eu que colecciono todos os seus álbuns – tinha o privilégio de ver os detalhes da capa do próximo enquanto estava a ser feito e decidido! Era demais!

O que nos mostrou foi a frente e verso, sem letras de detalhe, só a imagem composta e o título. Era uma das imagens projectadas durante o show com arame farpado por cima (tirado das projecções de “Candle”) e um eclipse no canto. Na parte de trás havia a lista das canções com o mesmo conceito de imagem, mas com uma fotografia do Roger Waters com o seu baixo erguido no ar numa imagem de triunfo. Estava muito bom. Era moderno e tinha classe. E eu estava a vê-lo. Tinha-o nas minhas mãos. O Roger pedia opiniões à malta (incluindo-me a mim, imgine-se!…). Todos gostámos. Fiquei com os papeis mais tempo a ver cada detalhe para depois verificar se o release final seria mesmo aquele. Foi, claro.

O Andy Wallace [teclista Hammond] estava mesmo à minha frente. Era muito novo (acho que o mais novo de todos), mas muito bom músico. Eu não o sabia nesse dia, mas viria mais tarde a trabalhar com ele na pré-produção de um álbum para a P.P. Arnold. Ele virou-se para trás e perguntou à P.P. Arnold:

– Onde é que foram ontem à noite?

– Visitámos uns quantos clubes.

– Uns quantos?

– Andei a fazer Club-hopping Andy. É uma forma fantástica de conhecer gente nova e não ficamos demasiado tempo a aborrecer-nos no mesmo sítio.

– Qual foi o melhor clube onde estiveram? – perguntou o Roger. Notava-se que ele se preaparava para contar a história do Harris.

– Um lugar chamado, parece-me, B.L.U.E.S.

– Sim, há um com esse nome. – disse o Andy.

– Pois eu estive lá ontem à noite. Estava lá um gajo, não me lembro do nome dele… Era muito bom. Guitarrista!… Mama!… Muito, muito bom!

P.P. Arnold é uma das backing-vocals mais requisitadas. Já cantou para o Eric Clapton, Roger Waters e uma lista interminável de gente. Tem singles nos anos 70 ao lado de Rod Stweart, dos Faces, de Andy Gibb dos Bee-Gees, etc. Começou nestas andanças ao fugir de casa nos subúrbios de Los Angeles com 16 anos e juntar-se a Tina Turner na época em que esta cantava com Ike Turner. Foi, portanto, uma das “Ikettes”, até aterrar na Inglaterra e se deixar ficar entusiasmada pelo namorado, Mick Jagger (o Mick Jagger), que a levaria a gravar o seu maior êxito: “Angel of the Morning”. A sua carreira foi interrompida por uma série de tragédia pessoais (que incluíram a morte de um filho) e só no início dos anos 80 voltou aos palcos com a ajuda de Tina Turner, Jagger e Clapton, mantendo desde então uma longa carreira como backing-singer. Um dos pontos altos do epsectáculo de Roger Waters é o solo de P.P. Arnold na canção “Perfect Sense”.

P.P. Arnold em 1967 com o seu êxito “Angle of the Morning”. Quem não conhece?

Solo de P.P. Arnold durante a tour de Roger Waters de 2000. Insuperável. É uma das minhas canções favoritas do Waters. “It all makes perferct sense, expressed in dollars and cents, pound shillings and pence!”

– Pois nós estivemos no Clube do Buddy Guy. – disse o Roger Waters. E contou a história que já conhecemos.

– Já me lembro! – disse a P.P. Arnold – O guitarrista que eu vi era o [e disse um nome que não consegui apanhar, mas que causou alguma excitação momentânea em todos].

– Tens a certeza que era ele? – disse o Doyle.

– Sim.

– Pois olha que ele é um grande guitarrista. – disse o Doyle.

– Ele é o tipo em que estou a pensar, Doyle? – perguntou o Snowy.

– Sim. – e explicou melhor quem era, mas mesmo assim o nome dele escapou-me.

– Eu conheço-o – disse o Roger – Porque é que não vamos lá depois do show? Gostava de o ver. Mark, podes tratar disso?

O Mark ligou ao Andrew que vinha na Van atrás de nós.

– Mas se ele não estiver a tocar esta noite, vamos todos ao Legend outra vez! – disse o Rogar cheio de entusiasmo.

Estavam todos com uma excelente boa disposição antes do show. Esta é só uma pequena centelha do que foi dito na Van. O sentido geral era muito tranquilo e amigável. Ria-mo-nos muito e o Roger metia-se com toda a gente. Senti-me integrado no grupo e ao mesmo tempo com borboletas na barriga com a realização do sonho que estava a viver.

O caminho para o espectáculo era longo. Saímos pelo sul da cidade e depois de uns 40 minutos finalmente vimos o lugar do show. “O que é aquilo?” disse o Andy. Era estranho, devo admitir. Era muito estranho. Quando se via de longe, aquilo parecia uma caixa negra muito grande, mas o mais estranho é que se viam os altifalantes do lado de fora da caixa. Era muito confuso e a minha mente não conseguia imaginar a arquitectura do lugar. Estavamos a aproximar-nos por detrás, o que não facilitava a compreensão do espaço.

O condutor fez um erro e seguiu em frente quando devia ter virado à esquerda. Roger encolheu os ombros. Para regressar ao caminho certo havia que passar pelo parque de estacionamento do World Theatre, mesmo em frente a uma multidão. Alguns reconheceram a Van e acenavam para nós. Mesmo à entrada (no portão que dá acesso à área restrita) havia um grupo à espera que Roger parasse. Mas não parámos, entrámos de seguida. A Van estacionou do lado esquerdo e entrámos no Teatro pelo backstage.

(continua na parte 6)

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