Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 6)

Parte 6

É muito confuso quando se chega pela primeira vez ao backstage de um novo estádio ou arena. Entra-se para um primeiro corredor e estamos logo perdidos. Todas as noites é diferente. Hoje o palco está à nossa direita, amanhã pode estar à esquerda ou mesmo por cima de nós. O staff coordenado pelo Tour Manager assinala as direcções do dia. As paredes estão cheias de papeis coloridos que apontam as diversas direcções: “Dressing Rooms”, “Production Office”, “Catering”, “Stage”, etc. Só precisamos seguir as cores. E não é tão fácil como parece!

Fui com o Snowy White aos vestiários deixar as coisas dele (assim como o meu casaco). Havia duas salas anexas, uma para os homens e outra para as cantoras. Era um espaço muito amplo, com sofás a toda a volta e uma mesa de apoio à direita, com água, algumas sanduíches, rebuçados, chocolates e refrigerantes. Não vi nem bebidas alcoólicas nem cinzeiros (o Snowy disse-me que uma das coisas boas desta banda é que ninguém fuma!). Havia também um teclado com head-phones – não me perguntem porquê. O Snowy largou as coisas dele ali mesmo e fomos à procura do Production Office para me arranjar um bilhete e o backstage pass. Disse-lhe que não precisava de me sentar à frente (é impossível estar mais “dentro” do espectáculo do que isto!), mas que gostaria de estar central, se possível perto da mesa de mistura (Front Of House, ou FOH como é chamada na linguagem técnica, já que há uma outra mesa que faz o som de palco para cada músico). Cada um dos músicos da banda tem direito a 2 bilhetes todas as noites e como na maior parte das cidades não os usam, se um deles tiver vários convidados, os músicos trocam os bilhetes entre eles. Quanto a backstage passes, há vários níveis de acesso. O mais restrito é o que permite um meet-and-greet, ou seja, encontrar o artista numa das portas e falar ali com ele. Há depois o acesso de intervalo ou de final de espectáculo, que permite ir aos corredores do backstage, mas nada mais. O mais amplamente aberto é o Access All Areas, que só está disponível para os músicos e um número muito limitado de membros da equipa. Uma das áreas mais restritas é, evidentemente, o palco. Tudo está já montado no palco e ter gente exterior à produção a rondar e potencialmente fazer estragos é muito sério num espectáculo daquela dimensão. Mas o Snowy deu-me precisamente um Access All Areas, registando-me como seu manager e produtor (que eu só viria a ser dali a um ano mais ou menos). Tinha assim acesso a todos os lados, incluindo catering, Dressing Room e palco.

Quanto ao lugar sentado, havia um perfeito, mas no meio de uma fila, que tive de recusar. É que para voltar para o Hotel com a banda tinha de sair do meu lugar durante o encore e correr para o backstage mesmo à boca de palco de modo a poder seguir os músicos. Não ia fazer uma fila inteira levantar-se para eu sair! Andrew [Zweck], o Tour Director, foi muito simpático e deu-me um lugar na fila NN, secção 204, mesmo atrás do FOH. Depois deram-me o Backstage Pass. Toda a gente que eu vi (à excepção do Snowy, dos músicos e do Andrew) tinham um cartão plastificado pendurado ao pescoço, com o que parecia ser um fundo escuro e um porco feito de tijolos a voar, dizendo “Roger Waters In The Flesh”. A mim deram-me um autocolante rosa com o mesmo título, mas dizendo ainda “Local Crew”, e duas bandas brancas onde escreveram com um marcador “SW Band” (ou seja “Ele está com o Snowy, da Banda”) e a data. Colei-o na minha camisa e segui o Snowy até ao palco.

Era uma sensação extraordinária entrar no palco desde dentro. Estamos tão habituados a ver o palco de frente, desde o nosso lugar, que não imaginamos como a perspectiva muda tudo. Entrámos pela direita onde estava a consola para a mistura de palco. Tudo parece falso. A madeira da passagem superior onde o Roger Waters começa o show e onde o Snowy e o Doyle fazem o seu duelo de guitarras no “Comfortably Numb”, parece pladur! Frágil e de faz-de-conta, pintada a correr de azul acinzentado, tipo nem muito bem feito nem muito cuidado (ok, ok, eu sei que aquela madeira tem muitos milhares de quilómetros às costas, mas é surpreendente porque quando as luzes se acendem aquilo tudo ganha vida!). Há uma porta mesmo ao centro do palco, por detrás da qual está o espelho rotativo montado num mecanismo hidráulico para o fazer subir e ali está, numa espécie de corredor (por onde os músicos entram e saem durante o show), entre caixas de equipamento e cabos. O palco está alcatifado a negro, mas vê-se muito bem o brilho da fita adesiva que o mantém colado definindo as margens. É um palco. Um palco de fumos e faz-de-conta. De cartolina e papel vegetal (ok, também não assim tanto, mas têm uma ideia). Contudo é confortável. É um palco mesmo muito confortável. Há uns sofás muito confortáveis do lado direito, para que as cantoras se possam sentar enquanto não cantam. Junto aos sofás há uma mesa com bebidas e toalhas lavadas. deve ser fantástico ver o show daquele ângulo! Que privilégio. É engraçado ver os efeitos e pedais que eles têm para as guitarras. Não me saiam da cabeça alguns dos músicos menos experientes com que trabalho que se sentam fascinados pelas racks de efeitos digitais que “irão substituir qualquer Wha-wha, qualquer Chorus, qualquer Delay”, e depois ver estes excepcionais guitarristas, que sabem como é que tudo soa ao vivo, para milhares de fãs, que têm de trabalhar on the road e preferem o seu velho pedal analógico e o amplificador a válvulas!

Lembro-me que o ano passado, quando ele veio tocar ao vivo a Portugal com a sua White Flames Band, eles tinham muito equipamento, embora tenhamos alugado a maioria do material localmente. Quando discutimos os efeitos dele eu disse que podíamos contratar o que ele quisesse, que só me tinha de dizer qual era a rack de pedais que preferia. ele não ajudou muito a que eu compreendesse. Só depois de muitos minutos ao telefone é que percebi as reservas dele: há anos que tem vindo a tocar com uma rack que ele mesmo fez e transformou de modo a fazer o que ele quer, por isso não há rack que a substitua e possa resultar no seu tipo de som pessoal.

– Viajamos com este equipamento todo, incluindo som e luz. – disse o Snowy – Esta é a mesa que usamos para jogar Poker durante uma das canções. E a TV que está ligada o show inteiro, com filmes antigos.

– Que filmes?

– É um filme a preto e branco sobre a 2ª guerra e depois o “2001” no segundo set.

– Pois, eu li em qualquer lado que o Roger queria usar a voz do computador Hall do “2001” e o Stanley Kubrik não autorizou.

– Isso era para “Amused to Death”, para a introdução de uma música que tocamos nesta tour. Não tiveram autorização para incluir a voz no álbum, mas o Kubrik deu a autorização mais tarde e aqui, ao vivo, usamos a voz como o Roger queria.

– Vocês vão levar isso tudo para a Europa no ano que vem?

– Se houver uma tour no ano que vem, este equipamento vai todo connosco. O palco foi concebido pelo Rogar, por isso tem uma ligação emocional muito forte com ele.

– O que queres dizer?

– Nada. Tanto quanto sei, nada está planeado de momento. Eu já te tinha dito que o Roger não vai à Ásia com esta tour, mas que quer ir à Europa. Mas parece que há alguns problemas com promotores por lá e pode ser que nunca venha a acontecer.

– Mas eles não querem o Roger Waters na Europa?

– Não é isso. Claro que querem o Roger a fazer uma tour destas, quem não quer? Não sei muito sobre os detalhes, mas parece que os promotores querem por muita pressão sobre os fãs. Já sabes, o costume – preço muito alto de bilhetes, merchandising, publicidade, etc. E o Roger não precisa disso. Ele está cansado de muitas das coisas ligadas ao negócio da música e não precisa chatear-se se não quiser.

Lembrava-me de o Roger Waters ter dito na noite anterior que não estava a tentar fazer dinheiro com a tour. Desde que não desse prejuízo ele já estava contente. Mas ele parece ser o tipo de pessoa que não gosta de ver os fãs a serem explorados. Na verdade é um pouco Roger Waters a juntar multidões pelo prazer da música e o intermediário a vendê-lo como uma coisa rara e valiosa a um preço demasiado alto para quem quer apenas desfrutar da música. Isto é um pouco a sua terapia. Durante anos Waters esteve inseguro sobre o seu legado musical. Viu como os Pink Floyd com Guilmour à cabeça enchiam estádios e ele, tocando as mesmas coisas, não conseguia esgotar uma arena dez vezes menor. Isso foi nos idos da década de 80. Mas afectou-o. E com “Amused to Death”, um álbum que será um dos mais intrigantes e interessantes que jamais escreveu, as vendas revelaram o que já suspeitava: o público estava a curtir outra coisa e não queria saber das preocupações filosóficas de Waters. Esta tour (que tinha começado por pequenas salas, a medo), veio a demonstrar que o legado estava bem entregue e que o público não ignorava “Wish You Were Here” ou “Comfortably Numb”. Uma década de insegurança entrava em processo de cura interior naquela partilha sa música de Waters com o seu público. Ver essa magia ser invadida pelos números frios e os lucros incontornáveis era uma experiência dolorosa. Ele podia bem passar o resto da vida na sua penthouse com vista sobre o Central Park a beber o melhor vinho francês. Mas estava ali, a dar o litro. E isso era, no seu entender, razão suficiente para que os intermediários no negócio tivessem respeito pelo seu desejo de fazer a oportunidade chegar a todos. Só espero que tudo se resolva. Gostava de ver Waters em Lisboa.

– Então, onde está a tua guitarra? – perguntei ao Snowy, tentando mudar o assunto, sabendo que ele nunca está muito longe da sua amada Gibson Les Paul Goldtop de ’54. Nunca a deixa sozinha a não ser com os técnicos da tour e é a guitarra com que tem tocado desde os anos 70 (incluindo em “Animals” e “The Wall” dos Pink Floyd).

– Está ali. Eu toco do lado esquerdo do palco, em frente à bateria do Graham, mesmo ao lado do Doyle.

Ali estavam as suas guitarras e as pedaleiras no chão. A do Snowy está ligada a dois amplificadores Vox AC-30 e o Doyle toca com Marshal e cabeça Yamaha. Mais próximo à TV estavam racks com outras guitarras e baixos para Roger Waters e Andy Fairweather.

– Porque é que também tocas uma guitarra PRS (Paul Reed Smith) se gostas tanto da Gibson?

– Há uma sequência onde tenho de usar o braço trémulo. É só para esse bocadinho.

O Snowy depois informou-me acerca do horário do dia. Ás 5.00 (dali a minutos) fariam o sound-check. Às 6:00 as portas da arena abriam-se e o catering estaria pronto. Depois de comermos, devo sair do backstage, encontrar o meu lugar e ver o show, que começará exactamente às 8:00. O intervalo terá por volta de 20 minutos e o show teria de acabar antes das 11:00, porque havia uma hora máxima decretada pela cidade de Chicago. “Mas não te esqueças” -disse – “Nós saímos directamente do palco para a van e dali para a baixa de Chicago com escolta policial”. Disse-me que as luzes gerais só seriam acesas já depois de termos abandonado o local, nas vans. Se eu me atrasasse um minuto que fosse, teria de encontrar outra forma de regressar ao Hotel!

O resto da banda foi entrando no palco. Preparavam-se para o sound-check. Saí do palco e fui-me sentar na primeira fila para ouvir a qualidade do som.

Roger Waters foi o primeiro a entrar em palco. Era o máximo, estar ali, no anfiteatro vazio, na primeira fila, a ver todos os preparativos para logo à noite. Em poucos minutos estavam todos no palco. O Jon Carin tirava fotos. Não havia som no PA, mas conseguia ouvi-los a afinar os instrumentos com o som de retorno em palco. Um ajudante de palco veio distribuir garrafas de água. O calor era impressionante! O Snowy atirou-me uma garrafa pelo ar, desde o seu lugar na ponta esquerda e quase não a consegui apanhar. O Waters meteu-se com ele: “Não alimentes os animais, Snowy. Isso só os encoraja!” O resto da banda riu-se. Via-se que estavam todos bem dispostos. Então aproximou-se do microfone e pude ouvir a sua voz a sair bem alto do PA: “Welcome! Obrigado por virem tantos ver o nosso show!”, eu e os poucos técnicos de serviço aplaudimos. Eles riam-se no palco.

“Vamos tocar o solo de Saxofone do ‘Money’ para o Mel”, disse o Roger. Mel Collins tinha estado a ensaiar sozinho no backstage, mas agora era a vez de entrar em palco. “Vamos começar pela 3ª barra [ou lá o que era – não me lembro que barra era]”.

E, de repente, como se fosse um milagre ou como se tivessem tirado a pausa a um CD, umas poucas barras antes do solo de “Money” foram tocadas ALTO, muito ALTO, na perfeição por todos.

Fiquei espantado com algumas coisas: tenho muitos anos de sound-cheks no lombo e sei como as canções começam nos ensaios… Mas aqui *todos*, mesmo todos, iniciaram a canção num ponto lá no meio, todos ao mesmo tempo, com se tivessem vindo a tocá-la desde o backstage! Absolutamente espantoso! E a qualidade do som era incrível. Ouvi centenas de vezes “Money” num velho gira-discos ainda em vinil, ouvi em cassete e em CD e mesmo em Superaudio CD. Mas aquilo era o máximo! A qualidade, a definição das várias frequências a distinção clara entre cada instrumento que se desenrolava à minha frente era de eriçar os cabelos a um maníaco pelo som como eu. Fantástico! E logo o Mel entrou no seu solo a rasgar. Fabuloso! É difícil explicar, mas era como ter visto o “2001 – Odisseia no Espaço” num pequeno écran a preto e branco e de repente, sem aviso, rebentar em full HD, a 3 dimensões à minha frente! Era isso. O som tinha uma qualidade HD. Era alto. Muito alto. Mas ao mesmo tempo era tão puro que se conseguia ouvir uma bomba a cair no chão no palco (desculpem… quero dizer um alfinete cair em palco…). Tinha que experimentar o som de outros lugares no anfiteatro. E assim, enquanto a banda voltava ao mesmo ponto na canção e o Mel voltava a rasgar no seu solo (mais tarde ele disse que estava a ter dificuldades na entrada no ponto certo. A sério, Mel??? Quem diria!), saí do meu lugar e fui para o lado esquerdo (bem longe da simetria do stereo), muito mais lá atrás. Estava eu a caminhar para lá, de costas para o palco, quando o solo acabou e a banda parou. Nisto disse o Roger Waters “Hey! Lá se vai o nosso público! Mel, tens de fazer melhor da próxima vez.” Riram todos. “Again!” – gritou Roger e voltaram ao mesmo ponto da canção.

Eu estava agora do lado esquerdo, em frente ao Snowy, a uma distância grande do palco. Mas o som era igualmente fantástico! Fui então para o lado direito (aí pelas filas QQ). Neste ponto eles estavam a ensaiar o solo de Saxofone para “Set the Controls”. Era incrível. Estivesse onde estivesse o som era *PERFEITO*. Com certeza quem foi ao um espectáculo do Roger Waters terá tido a mesma experiência. Em muitos espectáculos acontece aquele problema: se estamos mais para um lado ou muito fora do eixo da mesa de som, perde-se quase tudo, nomeadamente as vozes e as subtilezas instrumentais. No ano passado estive num concerto dos Deep Purple onde estava à frente do Glenn Hugues e não conseguia ouvir os solos de teclas do Jon Lord do outro lado do palco. Nessa altura cheguei-me uns metros para o lado direito e lá estava o som que eu tinha estado a perder. Mas não é assim com o Roger Waters. O som estava perfeito em todo o lado do anfiteatro.

Depois tocaram um pouco de “Dogs” e terminaram o sound-check com “In The Flesh” (era evidente que o concerto ia ser em grande!!!). Subi ao palco enquanto eles colocavam as guitarras nos suportes. Waters sorria e Carin continuava a tirar fotografias.

“Ok, Luis, está na hora de descansar um pouco”, disse o Snowy. “Podes passear por onde quiseres, eu vou à sala de massagens e encontramo-nos no catering daqui a a meia hora.”

“OK, Snowy”, e lá fui explorar o backstage e tirar algumas fotos.

(segue na Parte 7 – e última)

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