Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 7 e última)

Estive agora a rever as minhas notas escritas naquela já distante noite há 11 anos, ao regressar ao hotel depois de assistir ao concerto de Roger Waters. Entre todas as anotações que  tenho estas são as que se mostram menos relevantes com o passar do tempo. Em 2000 Roger Waters estava finalmente a convencer-se que o seu público não o tinha esquecido e que o seu legado criado nos Pink Floyd não tinha sido desvirtuado por David Gilmour ao longo do final dos anos 80 e 90 pelos mais de 350 espectáculos ao vivo produzidos ao redor do mundo. A tour “In The Flesh” a que assisti era já uma versão um pouco melhorada da tour inicial que fizera quase a medo em 1999. Daí em diante, confiança retomada, iria dar muitas voltas ao mundo com outras tours em que recordou toda a sua carreira a solo, assim como os clássicos dos Pink Floyd. Passou em Portugal para 2 noites no Pavilhão Atlântico, passou mais tarde no Rock In Rio e de cada vez a complexidade se tornava maior e o impacto visual mais evidente e mais impressionante. Foi com muita alegria que ouvi do Snowy White que estaria ocupado todo o ano de 2010 na tour de “The Wall”, indubitavelmente a mais impressionante e mais avançada de todas. Pude assistir ao show em Nassau e em Lisboa (no total de 4 vezes) e cada noite teve as suas diferenças, ao ponto de Lisboa ter muitos aspectos visuais criados “on the road” no período que mediara entre Nassau (Outubro de 2010) e Lisboa (Março 2011). Algumas das imagens ficarão bem marcadas na minha mente. Uma delas é a da menina que revê o pai regressado da guerra do Iraque no meio de tantos outros encontros retratados em “Vera” e “Bring the Boys Back Home”:

Mas aquela noite de 2000 estava ainda muito longe deste êxtase visual que é “The Wall” em 2011. Alguma da tecnologia usada hoje não estava ainda presente então. E para projectar imagens com resolução suficiente para abarcar todo o palco, Waters usou uma película tão grande que tinha o dobro de largura do IMAX (já de si dupla em relação ao 70mm). A máquina de projecção parecia saída de um filme de ficção científica!

Depois de tirar algumas fotos do palco e dar uma volta pelo espaço do público, fui falar com o segurança da porta lateral que tinha de ultrapassar quando chegasse a hora de regressar à Van já no final do espectáculo. Mostrei-lhe o pass e falámos um pouco. Depois entrei e segui os sinais para o catering, que estava montado por detrás do palco. Alguns dos músicos já lá estavam. O Snowy chegou de seguida e sentámos-nos numa mesa. Ao lado estava Waters com o Jon Carin. O catering era composto de um extenso buffet de todo o tipo de comida, muito fresca e com muito bom aspecto. Havia uma secção só vegetariana, mas Waters estava a comer um prato de carne acompanhado de uma garrafa de vinho francês. Quando nos sentámos ofereceu um pouco. O Snowy não quis, porque estava a beber água (nunca bebe antes dos shows), mas eu, que acabara de provar uma coisa horrorosa chamada Mountain Dew (que pensei ser água da montanha, mas era um refrigerante detestável!), aceitei.

– Em Portugal há vinhos óptimos. – disse o Roger Waters.

– Sim. – respondi – Eu não sou grande apreciador, mas nós temos alguns dos melhores vinhos do mundo.

– É verdade. – disse ele – Eu gosto muito de vinhos franceses e todas as noites experimentamos um diferente. Este é um [honestamente não sei o que ele disse!!! Conhecia o vinho bem, falou do palato e do bouquet, mas eu, coitadinho, não acompanhei]. Mas – prosseguiu – uma vez o Mark [Fenwick (manager)] deu-me umas garrafas do Alentejo que não ficavam atrás deste que estamos a beber hoje. E sei que na região de onde vem o [vinho do] Porto também há tintos de muito respeito. Há um restaurante em Manhattan onde vou que acompanha certos pratos só com esse vinho.

Disse que sim e quando lhe ia perguntar se já foi ao Douro, ele acrescentou sem me deixar falar:

– Mas há um vinho que é muito específico. Não é nem para todos os pratos nem para todos os gostos. Não é tinto, é branco. Sei que é produzido ao longo da fronteira do norte entre Portugal e Espanha – mas o que provei era de Portugal – e era excelente servido bem fresco. Não me lembro do nome, mas era óptimo.

– Seria o Alvarinho? – perguntei

– Sim, é possível… “Alwarignou”, é possível…

– É um vinho muito particular, sim. Só se dá numa região muito pequena junto ao Rio Minho no norte de Portugal ao pé da fronteira com Espanha e do lado de Espanha há também alguma área de vinha que dá Alavarinho. Aquilo é uma zona muito especial onde o clima Atlântico ajuda a produzir o Vinho Verde, mas num espaço de poucos quilómetros quadrados há uns vales abrigados do vento, da chuva e expostos ao sol de tal modo que produzem um vinho de alta qualidade e esse é o Alvarinho. É mesmo uma zona pequena e como é a natureza que tem essas condições, não há em mais lado nenhum.

– Deve ter sido esse mesmo. Eu gosto mais de vinho tinto, mas esse vinho ficou-me no palato!

Dizendo isso bebeu o último gole do seu copo e levantou-se, desejando-nos um bom jantar e retirando-se para o seu camarim. Nesse momento sentou-se ao nosso lado Simon Sidi, Light Designer (ver aqui o site dele) [desde então tem trabalhado com P. Diddy, Maroon 5, American Idol on Tour, entre outros].

– É capaz de chover. – disse o Simon

– Não me quer parecer. – respondeu o Snowy.

– E se chover?

– Estamos preparados para tudo, por isso não há cancelamentos. – respondeu o Simon, começando a comer.

– Tocar, tocamos sempre. – confirmou o Snowy – O ano passado tivemos um show, nem me lembro onde, mas nem queiras saber! Caiu-nos uma tempestade em cima! Era uma trovoada e granizo fortíssimos. As condições não eram ideais. Estávamos a jantar e a equipa estava toda muito preocupada com o perigo que corríamos. O Andrew [Zweck] estava em contacto permanente com uma base militar que nos dava informação sobre a evolução da tempestade. Todos os pareceres técnicos é que não devíamos tocar, mas o Roger queria ir para o palco. Não ia fazer nada que fosse estúpido, claro, mas queria tocar. Era um concerto ao ar livre e aquilo estava cheio. Ele só dizia “eles vieram todos, por isso temos de tocar!” Uma meia hora antes da hora marcada para o início,  a chuva parou. Os parques de estacionamento eram em terra, por isso aquilo devia ser um lamaçal lá fora. Mas o estádio estava cheio. À hora marcada entrámos em palco e começámos com o “In the Flesh”. Loucura total, um público muito ruidoso e cheio de entusiasmo e nem tínhamos chegado ao chorus quando começou a cair tanta chuva que não se via o público e as luzes de frente pareciam sólidos cónicos. O Roger olhava para nós e nós para ele. Lá continuámos, mas quanto mais tocávamos, mais chuva caía e a trovoada estava em cima de nós!

– Agora imagina o que estávamos a passar na mesa  de som e luz! O risco para o equipamento era enorme. E mesmo os músicos, não sei… – disse o Simon.

– Só sei que a dada altura voltou o granizo e aí veio o pessoal técnico e tivemos mesmo de parar. – continuou o Snowy. – Tínhamos estado em palco pouco mais de 5 minutos…

– E ficou-se por aí? O que é que fizeram?

– Tivemos de ficar à espera que a chuva passasse.

– A sério? Foram uns 15 minutos, não?

– Estás a brincar, Luis? Foram mais de 2 horas! – disse o Snowy – Foi de tal modo que o Roger chegou a ir ao palco falar com os espectadores quando, ao fim aí de 1 hora o Stage Manager nos veio dizer que o público ainda lá estava todo e ninguém tinha arredado pé. À chuva! Por isso o Roger foi ao palco e disse bem alto que íamos tocar desse por onde desse. A multidão ficou louca! Chovia como na selva e o Roger gritava: “não saímos daqui sem ter tocado o concerto completo, nem que estejamos aqui o resto da noite! Vocês têm algum sítio para ir? Eu também não!!!” Aquilo impressionou-nos [à banda], que estávamos à entrada do palco. Não só a atitude do Roger, porque já vi artistas cancelarem concertos porque o camarim era de cor diferente à que se tinha pedido, mas também porque ao fim de tantos anos na música já vi muito público a sair ou nem aparecer só porque está uma chuvinha miudinha.

– Desligámos parte do equipamento e passadas umas duas horas, a chuva parou. – completou o Simon. – Quando a banda voltou ao palco o público estava eufórico! A banda nessa noite foi excepcional. Foi uma noite especial, Snowy. Inesquecível.

– Sim, mas hoje não vai chover. – manteve o Snowy, levantando-se e despedindo-se até mais logo, não sem antes me lembrar que tenho mesmo de estar no back-stage ainda durante a última música, senão a banda sai do palco directamente para a Van e deixam-me para trás!

Conversei um pouco com o Simon Sidi sobre o design de luz. Contou-me que o próprio Waters se envolveu em cada passo do design, explicando que tipo de ambiente queria para cada canção. A maior parte dos efeitos e cambiantes é programada e tudo é disparado automaticamente desde a mesa central. Mas mesmo assim ele tem alguma liberdade com alguns efeitos e em alguns momentos. Depois convidou-me para assistir ao espectáculo desde a mesa de luz (ao centro, numa “ilha” no meio do público onde está também a mesa de som, ou seja, na confluência do som quadrifónico). No meio de tanta sorte, mais uma cereja para colocar no bolo! Agora tinha o melhor lugar do concerto!

E assim foi. Não preciso explicar como o som dos clássicos de “Dark Side of the Moon”, “Wish You Were Here” e “Animals” me impressionaram ouvidos e vistos desde ali, ao vivo. O som era perfeito, a qualidade dos músicos em palco irrepreensível. Uma das sensações que é inesquecível é poder aproveitar o intervalo para entrar no back-stage e ir ter com os músicos para lhes dizer como estamos a apreciar o show do nosso lado do palco. O Roger riu-se quando lhe disse, num dos corredores, que tinha sido nomeado por todos os espectadores para lhe vir dar os parabéns pela primeira parte tão bem “jogada” (played). Também tive oportunidade de falar um pouco com o Doyle sobre a forma como ele recriava com o seu próprio estilo as partes do David Gilmour.

Adorei a segunda parte ainda mais que a primeira. A consola de luzes à minha frente ia mostrando o alinhamento e as canções que se seguiam, antecipando o prazer de as ouvir à medida que a banda as tocava. Eu sabia que a última seria “Each Small Candle”, por isso quando a vi aparecer na consola soube que estaríamos perto do fim e que teria de correr para os bastidores para me juntar à banda. Em encore tocaram “Comfortably Numb” que termina com um espectacular duelo de guitarras entre Doyle e Snowy, que deixou toda a gente arrepiada com a forma rasgada como o primeiro toca e o modo melodioso como o segundo nos toca. Do melhor!

Aos primeiros sons dos aplausos em pé da multidão corri para os bastidores e assisti à última canção junto à mesa de som de palco, onde estava também o Mel Collins. “Each Small Candle” é uma canção que não envergonharia nenhum Maçon. Eu ainda não a conhecia e pouco consegui ouvir, pois dali só apanhava o som dos monitores das cantoras e via numa perspectiva muito lateral a letra (fundamental para a compreensão da canção) que estava projectada de lado a lado no palco, entre arame farpado e sangue. Termino este post com o vídeo de “Each Small Candle” gravado dias antes nessa mesma tour. Mais uma vez grande guitarra de Doyle e Snowy.

Ainda o público estava de pé em aplauso e já nós corríamos para as Vans e, escoltados por batedores da polícia de Chicago, abríamos caminho na auto-estrada a caminho da cidade. Pelo canto do olho vi o World Theatre ainda escuro e apenas com iluminação do palco, com a multidão a aplaudir uma banda que já lá não estava, entre o fumo que subia ao céu estrelado daquela noite onde – tal como dizia o Snowy – não choveu.

.

“Each Small Candle

Not the torturer will scare me
Nor the body’s final fall
Nor the barrels of death’s rifles
Nor the shadows on the wall
Nor the night when to the ground
The last dim star of pain, is held
But the blind indifference
Of a merciless unfeeling world

Lying in the burnt out shell
Of some Albanian farm
An old Babushka
Holds a crying baby in her arms
A soldier from the other side
A man of heart and pride
Breaks ranks, lays down his rifle
And kneels by her side

He binds her wounds
He gives her food
And calms the crying child
She gives him absolution then
Across the great divide
He picks his way back through the broken
China of her life
And there at the kerb
The samaritan Serb turns..
Turns and waves.. goodbye

And each small candle
Each small candle
Lights a corner of the dark…
Lights a corner of the dark
Each small candle
Each small candle
Lights a corner of the dark
Lights a corner of the dark

Each small candle lights a corner of the dark
When the wheel of pain stops turning
And the branding iron stops burning
When the children can be children
When the desperados weaken
When the sea rolls into greet them
When the natural law of science
Greets the humble and the mighty
And the billion candles burning
Lights the dark side of every human mind

And each small candle
Lights a corner of the dark…

.

by: Roger Waters”

.

Tradução livre (não me batam, por favor, é só ilustrativo):

“Não é a tortura que me amedronta
Nem é a queda fatal de um corpo
Nem o mortal cano de espingarda
Nem na parede, as escuras sombras
Nem a noite em que seja esmagada na terra
A última e penal estrela enfraquecida
Mas [o que me amedronta] é a cega indiferença
De um mundo sem misericórdia e que não sente

Deitada nos escombros
De uma quinta agrícola Albanesa
Uma velha Babushka [avó]
Segura um bebé que chora em seus braços.
Um soldado do inimigo
Homem de coração e orgulho
Rompe fileiras e baixa a espingarda
Para se ajoelhar a seu lado.

Dá-lhe água
Trata-lhe as feridas
Dá-lhe comida
E acalma a criança que chora.
Ela então dá-lhe a absolvição
Através do grande abismo.
Ele regressa a si mesmo
Através dos estilhaços da vida dela.
E ali, junto à calçada,
O Sérvio samaritano vira-se e acena
Acena… adeus.

E cada pequena vela
Ilumina um canto das trevas

Quanto a Roda de Dor deixar de rodar
E o ferro que marca deixar de queimar
E as crianças possam ser crianças
Quando os bandidos enfraquecerem
E a maré venha para os levar
E a lei natural da ciência
Sorria por igual ao humilde e ao poderoso
E os milhões de velas acesas
Iluminem o lado negro de cada mente humana
Cada pequena vela Iluminará um canto das trevas.”

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