Quinta da Regaleira – Ensaio de Novas Viagens

Desafiados pelos nosso amigo (e associado) Rui Benito, decidimos aceitar o repto de olhar a conhecida Quinta da Regaleira em Sintra e dar-lhe nova melodia iniciática, após as inúmeras visitas que já muitos fizeram num contexto maçónico, rosacruz ou alquímico. Não é tarefa fácil apagar da mente tanta coisa já escrita e procurar, do zero, ter um novo acesso privilegiado ao universo simbólico (muitas vezes desconexo) que a Quinta nos apresenta. E fazê-lo sem defraudar as expectativas do grupo que se ia juntando no Facebook seria tarefa ainda mais complexa. Não queríamos embarcar em algumas das loucuras que já se têm dito sobre a Quinta, nem queríamos retirar toda a magia que o lugar apresenta. O nosso objectivo não era fazer um percurso. O “percurso” não tem magia. Não há “Agências de Percursos”. Há “Agências de Viagens” e isso é muito mais estimulante para a imaginação. Talvez o que queríamos mesmo, fosse ainda mais longe: Não um mero percurso, não somente uma viagem, mas uma verdadeira Demanda. Busca pelo conhecimento, pela luz interior, sem partir para a imaginação desenfreada que em cada insignificância vê um universo. Tarefa difícil quando a própria Wikipédia, esse monumento à incultura popular misturada com uma lúcida utilidade intermitente, diz coisas como: “O poço diz-se iniciático porque se acredita que era usado em rituais de iniciação à maçonaria e a explicação do simbolismo dos mesmos nove patamares diz-se que poderá ser encontrada na obra Conceito Rosacruz do Cosmos” [comentário nosso: !!!??? Mas que terá Max Heindel que ver com aquilo; e em que Rito Maçónico o poço é iniciático???!!!] ou ainda: “A diversidade da quinta da Regaleira é enriquecida com simbolismo de temas esotéricos relacionados com a alquimia, Maçonaria, Templários e Rosa-cruz” [comentário nosso: os exemplos são escassos, senão mesmo episódicos…]

Ora, neste contexto de desenfreada imaginação simbólica, onde já se vê ali de tudo, a Quinta da Regaleira converteu-se num parque temático de Esoturismo (não confundir com esoterismo), por onde se passeia o turismo esotérico de Domingo, por onde se procura com paixão defender tese atrás de tese sobre o seu construtor, Carvalho Monteiro, as suas intenções, segredos e interesses, mas pela rama. Na verdade, sabe-se muito pouco, como é hábito sobre homens tão enigmáticos e excêntricos como ele o era. E o pouco que se sabe não tem grande relevância para aquele que deseja realmente aprender da viagem iniciática proporcionada pelos jardins e Palácio. Esta é eminentemente subjectiva e feita de percepções individuais e intransmissiveis sugeridas pelos elementos simbólicos, arquitectónicos e paisagísticos.

Diz a sabedoria popular que “Aquele que só tem um martelo, vê pregos em todo o lado” e assim é na Quinta da Regaleira. Um Maçon encontrará sugestivos cenários e símbolos que o farão recordar passos da sua iniciação, enquanto o estudante da Rosacruz sentirá empatia pela excepcional maneira de manipular a natureza, deixando-a paradoxalmente selvagem e esplendorosa, isto sabendo que nenhum curioso da Alquimia deixará de notar Mercúrio na pátio dos deuses, bem como a salamandra em ouroboros na balaustrada do mesmo pátio. E é pouco provável que algum grupo guiado não tenha parado frente ao Leão e alguém não o tenha relacionado com o Sporting… Tudo é percepção individual e tanto pode ser Alquimia como o Sporting, dependendo de quem olha e como olha. Tudo será verdade e tudo será imaginação. Nem a Quita da Regaleira é um Palácio Maçónico, nem é uma Mansão da Rosacruz (e Raymond Bernard até deixou indicações de que nas imediações de Lisboa haverá uma…), nem será um tratado de Alquimia gravado na pedra e na encosta da montanha. Será tudo isto se apenas tivermos cada uma destas condicionadas palas, cegando e orientando a vista, tapando convenientemente o resto. O que se recomenda para quem visite a Regaleira é ter vistas largas. Não é deixar-se levar pelo evidente, mas também não é encomendar-se a nada que esteja afastado do senso comum.

A dado passo ainda brincámos com a atitude deslumbrada: (citando da visita) “[Luis de Matos:] Estão a ver aquelas letras CM, entrelaçadas, que estão na fonte [da Abundância]? Há várias interpretações, mas nós vamos dar aqui hoje a verdadeira. Há quem diga que o CM corresponde a Cristo e Maria, até porque o M tem um efeito que faz lembrar um peixe, sinal de reconhecimento do cristianismo primitivo. Há quem diga que significa Cristo Maytreia, numa referência a um novo Avatar da Era de Aquário, relacionando-o com o Quinto Império, há mesmo quem relacione o CM com o nome de duas Ordens secretas, Curat e Mariz, mas a realidade é que o CM é uma simples homenagem ao jornal Correio da Manhã que divulgou a existência deste lugar no final dos anos 80 numa série de entrevistas. Esta é a realidade. O segredo há tanto tempo buscado. Claro que devemos por de parte que o CM possa ser, de algum modo, as iniciais do construtor [Carvalho Monteiro]… Que estupidez… Isso não tem lógica nenhuma!” [(nem magia…)]

Ora, a nossa tarefa era realmente difícil. A visita foi guiada por mim (Luis de Matos), com a preciosa ajuda do Luis Fonseca (que a acabou por guiar nos pontos mais elevados) e de um elemento recrutado mesmo sobre a linha de partida, a insubstituível Paula Teixeira.

Eu conheço a Quinta há muitos anos, desde o tempo em que ia ficando sem os fundilhos das calças (e Deus sabe o que mais!) a fugir de uns cães que guardavam a propriedade quando ainda era da família Orey (era eu ainda menor e inimputável… mas os cães não queriam saber disso!). Não havia dados nenhuns sobre a Quinta a não ser algumas referências esparsas na Biblioteca de Sintra (que visitava frequentemente com os meus companheiros de demanda). Nada de demasiado concreto. Mesmo os mais conhecedores de Sintra pareciam nada saber sobre o assunto. Que contraste com os dias de hoje!!! Um dia a Quinta foi vendida a um grupo hoteleiro japonês. Tornou-se mais difícil explorá-la clandestinamente. Também, pouco importava, já tínhamos um levantamento fotográfico, topográfico e espeleológico (amador, claro) completo. Por isso, para nós foi interessante ver como a Quinta foi catapultada para a fama. Foi como ver um amigo de infância ter um single de êxito no TOP de vendas de música e passar de um ilustre desconhecido a celebridade de um momento para outro.

O Correio da Manhã publicou a reportagem da autoria do jornalista Victor Mendanha de uma visita feita com Vitor Adrião, onde se levantavam algumas questões e se mostrava o misterioso poço. Logo de seguida o José Anes, que acompanhara esta visita, compôs uma excelente Conferência cheia de imagens, que apresentou em diversos lugares, sobre a Quinta e os elementos que lhe tinham chamado a atenção (muito particularmente, à época, o poço, a estufa com os seus azulejos, aquilo que hoje é designado como “atanor” por detrás da capela, bem como o quarto com um forno e um terraço na torre octogonal e o famoso triângulo com olho e a cruz de Cristo, entre outros). Fez logo a relação com uma possível prática alquímica e relacionou outros elementos com uma possível filiação maçónica. Dados que apareceriam  mais tarde dariam força à Alquimia e menor força à tese maçónica. Contudo, naquele momento, estes elementos muito sugestivos inflamaram as imaginações. A falta de dados concretos não deteve outras teses. Embora José Anes tenha enveredado pela procura de dados biográficos e até, por via de familiares e descendentes de Carvalho Monteiro, procurado conhecer as suas motivações e interesses; e mesmo Vitor Adrião ter procurado nas relações próximas de Monteiro aquilo que o podia ligar a outras linhas de pesquisa que então levava (designadamente o seu papel no Jardim Zoológico de Lisboa, outras obras que edificou, origens familiares, rede de relações com famílias nobres que entroncassem nos mistérios de Henrique José de Sousa, etc.); certo é que não tardou a que a Quinta da Regaleira se transformasse no lugar do encontro entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley em estranhos rituais satânicos, no lugar escolhido por seres do interior da Terra para vir à superfície fazer compras a Sintra (a sério que ouvi esta tese…), na Mansão Secreta da Rosacruz visitada por Raymond Bernard nos anos 60, no lugar de onde se fará o anúncio do nascimento de Maytreia como o Cristo de Aquário, no lugar secreto de reunião da Ordem de Mariz, etc., etc., etc.

O site da Quita é mais prudente na forma como a define, contudo e talvez por isso, mais correcto: “Concretiza-se com estes cenários a representação de uma viagem iniciática, qual vera peregrinatio mundi, por um jardim simbólico onde podemos sentir a Harmonia das Esferas e perscrutar o alinhamento de uma ascese de consciência que viaja pelas grandes epopeias. Nele se vislumbram referências à mitologia, ao Olimpo, a Virgílio, a Dante, a Camões, à missão templária da Ordem de Cristo, a grandes místicos e taumaturgos, aos enigmas da Arte Real, à Magna Obra Alquímica. Nesta sinfonia de pedra revela-se a dimensão poética e profética de uma Mansão Filosofal Lusa.”

O facto de a Quinta da Regaleira se prestar a todas as interpretações subjectivas, é já de si um indicador interessante. Talvez a designação inspirada de José Anes, reproduzida acima, esteja mais próxima do que a Quinta é, na realidade: “Mansão Filosofal”. Mansão no sentido de ser um lugar de abrigo e Filosofal por ser abrigo de uma Filosofia conhecida do seu construtor, mas cujos elementos visíveis são de tal modo fundamentais e arquetípicos a várias vertentes dos esoterismo, que se espelham nele de modo multi-disciplinar. Assim, o que a Quinta mostra quando mostra Mercúrio, é percebido de modo múltiplo por diferentes “esoteristas” e “filósofos”, pois Mercúrio nas suas diversas expressões está claramente expresso sob diversas formas em todas essas filosofias. Mas é sempre Mercúrio, pois é a Mercúrio (Thot, Hermes, etc.) que essas expressões remontam. O mesmo pode ser dito sobre Vulcano, Vénus ou o Leão. As trevas que encontramos nas grutas e o descer às profundezas da Terra no poço. Tudo elementos em si mesmos muito antigos e arquetípicos para uma gama muito vasta de filosofias, religiões e esoterismos. Por este motivo tudo soa familiar e até ao alcance de interpretação para diferentes pessoas em diferentes contextos.

A Quinta da Regaleira passa a ser, então, algo muito distante do que foi para o seu criador – que a usou como expressão externa e visível de elementos filosóficos que tinham um significado particular para si, mas hoje tornados inacessíveis pela sua morte. Ou seja, o que a Quinta significava para Carvalho Monteiro e para a sua demanda espiritual era algo só seu. Não foi sua intenção partilhá-lo com visitas a 6€ por pessoa. Não foi sua intenção impor qualquer sistema simbólico a terceiros. Este era o SEU jardim iniciático, que lhe dizia – a ELE – alguma coisa que não só nos escapa, como é irrelevante para a nossa própria demanda. Quinta, Palácio e Jardins eram um símbolo com um significado que morreu com o seu autor. Esse significado é o resultado da viagem iniciática proporcionada pelos elementos simbólicos, em percursos ensaiados pelo demandador. Cada demandador, à falta de guia, vai extrair do labirinto simbólico o significado que lhe é adequado para a sua demanda, naquele estágio dessa demanda. Se voltar ao Jardim Iniciático volvidos anos, notará que a significação se alterou de modo substancial e que retira para si uma experiência espiritual diferente das visitas anteriores. Sabendo que o Quinta não mudou (ou pouco mudou em 100 anos), o que terá mudado é o interior do visitante. Por isso o Jardim é iniciático. Permite não só a experiência filosófica e a transformação interior através das percepções, do trabalho intelectual com os símbolos e as questões que estes colocam, como permite aferir em visitas posteriores o avanço nos trabalhos já alcançados.

A Quinta da Regaleira, finada que está a sua utilidade para a demanda do seu autor, torna-se assim num borrão iniciático, uma espécie de Borrão Filosófico de Rorschach. Partindo de imagens desconexas, no nosso caso, muito sugestivas e arquetípicas, conhecemos o observador – e este pode conhecer-se a si próprio – pela interpretação (sempre subjectiva) das imagens (sempre objectivas) que lhe são apresentados ao longo do percurso livre. Cada visitante constrói a sua demanda e a sua significação. O resultado será sempre útil ao próprio, mostrando de modo visível que elementos de si ficaram expressos na leitura que fez de toda a viagem. Deste modo, quando lemos “Os Jardins Iniciáticos da Quinta da Regaleira”, da autoria de José Manuel Anes, ficamos a conhecer muito bem José Manuel Anes. Do mesmo modo, quando lemos “A Quinta da Regaleira – A Mansão Filosofal de Sintra”, de Victor Manuel Adrião ficamos a conhecer muito bem Victor Manuel Adrião. Quanto à Quinta, essa, só a conhecemos quando nós mesmos lá formos e encetemos a NOSSA Demanda. Só a conheceremos, conquistando a nossa Gnose.

Esta visita foi então um ensaio. Pareceu correr bem e as 37 pessoas presentes deverão dar a sua opinião sobre este ponto. Para isso estão os comentários. Se valeu a pena? Uiii! A Pena é outra conversa!…

Fotos: Conceição Castro

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