Bons sinais desde o Oriente

Bons sinais são agora bem visíveis no Oriente. Ali está o lugar do Grão Mestre. Quantas vezes tenho criticado as diversas lideranças maçónicas pela ausência ou o silêncio… Pois é com muito prazer que sublinho que bons sinais se levantam.

Passo a dar difusão da intervenção pública do MRGM José Moreno, Grão Mestre da Grande Loja Legal de Portugal que teve lugar no dia 21 de Março de 2012 no American Club de Lisboa, bem como a versão escrita do seu discurso, uma das peças mais lúcidas e mais prometedoras produzidas pela Maçonaria Portuguesa nos últimos anos. A este pode juntar-se a comunicação do mesmo Grão Mestre na sessão de Grande Loja de Primavera, que pode ser encontrado aqui, que é uma peça de igual interesse, já que configura um exercício de reflexão simbólica há muito inédito entre Grão Mestres em exercício no nosso país.

Comecemos por reproduzir a notícia do Diário de Notícias:

Grão-mestre: maçons não podem despedir para lucrar

O grão-mestre da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), José Moreno, deixou na quarta-feira um aviso aos “irmãos” patrões: “Um maçom não deve, nem pode, promover o desemprego para proteger margens de lucro.”

 Num discurso realizado num almoço do American Club, em Lisboa, o grão-mestre da maçonaria regular mostrou-se convicto de que “os maçons saberão proteger os postos de trabalho sob a sua responsabilidade. Têm de o saber fazer”.

Além do desemprego, José Moreno, refletiu sobre as divisões da maçonaria em Portugal, deixando claro que não concorda com a separação entre a GLLP e o Grande Oriente Lusitano. “Nos últimos cem anos a maçonaria em Portugal deixou-se condicionar por circunstancialismos ideológicos, políticos, profanos. Que dividiram quando deviam unir”, lamentou. José Moreno considera que “a maçonaria é universal” e acrescentou “sem receio nas palavras (…) que a maçonaria também deve ser una”.

Sempre crítico quanto às divisões entre “irmãos” lembrou: “Portugal é o País com mais grão-mestres per capita”.

Segue o discurso:

Intervenção do Muito Respeitável Grão Mestre da Grande Loja

Legal de Portugal/GLRP, José Francisco Moreno

21 de Março de 2012

American Club

“An Englishman is a person who does things because they have been done before. An American is a person who does things because they haven’t been done before.”

Mr. President of the American club, distinguished members of the club, honorable guests, ladies and gentleman:

The famous words of Mark Twain explain why I´m especially delighted to join you here today. Two hundred years ago America was a project never done before. And also in that sense it is truly a mason’s venture. It reminds us the importance of having a vision. It reminds us what free man and women can achieve and accomplish with their work and will.

From Benjamin Franklin to Buzz Aldrin. From Louis Amstrong to Franklin Delano Roosevelt. From Bolivar to Washington or D. Pedro. The history of the new world is the history of its freemason´s. They write history, they build history, they make history happen. That explains why Americans live their freemasonry with unthinkable public displays of respect and appreciation. Unthinkable for us, Portuguese.

Freemasonry changed the new world but the new world was not enough to change the way people look at freemasonry. 

Senhora Presidente do American Club,

Senhoras e Senhores convidados,

Vezes sem conta oiço a pergunta: que intervenção tem a maçonaria na sociedade? Que intervenção pode ter a maçonaria na sociedade? E adivinhando a curiosidade de quem se senta desse lado permitam que nestas primeiras palavras responda já à pergunta que ainda não foi feita.

De onde venho costumamos dizer que um maçon é reconhecido por palavras e por sinais. E ao contrário do que possam imaginar nós, os maçons, queremos ser reconhecidos. Queremos que o país, a sociedade e as comunidades onde estamos nos reconheçam. E por isso exige-se que a palavra de um maçon seja um exemplo e que os seus sinais sejam exemplares.

Porque a maçonaria não nos dá direitos especiais. Dá-nos deveres e responsabilidades acrescidas. E no tempo de todas as crises e de todas as angústias a maçonaria tem um papel a desempenhar. Uma obrigação para com a sociedade. E de todas as crises, de todas as angústias nada é mais preocupante que o flagelo do desemprego. O desemprego gera pobreza, gera insegurança, gera inquietação. Mina os pilares de uma sociedade democrática. Mas atrás dos números e das estatísticas que lemos nos jornais, estão centenas de milhares de nomes. Centenas de milhares de dramas. Gente verdadeira. Histórias verdadeiras. Gente como nós. Homens. Mulheres. Pais e mães que de um momento para o outro ficam privados de providenciar pela sua família.

Como maçons, como homens livres e de bons costumes, somos homens de responsabilidades. Temos muitas vezes rabalhadores funcionários, gente que trabalha connosco todos os dias.

Para além daqueles que já vivem este drama é preciso pensar nos outros. E nos próximos meses as circunstâncias económicas e financeiras vão desafiar-nos a todos. As dificuldades que vamos viver vão testar-nos ainda mais. Um maçon é reconhecido pelos seus sinais. E os sinais de um maçon têm de ser exemplares. Um maçon não deve, nem pode, promover o desemprego para proteger margens e lucro. E vamos saber dar esse sinal à sociedade. Os maçons saberão proteger os postos de trabalho sob a sua responsabilidade. Têm de o saber fazer.

Estes são os sinais pelos quais um maçon deve ser reconhecido.

Senhora Presidente do American Clube,

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Tão importante como a forma como os outros nos vêem e entendem é a forma como a maçonaria portuguesa se vê a si própria. A forma como a maçonaria portuguesa se entende a si própria. E esse exercício nem sempre é fácil. Portugal é o país do mundo com mais grão-mestres per capita.

Nos últimos cem anos a maçonaria em Portugal deixou-se condicionar pelos circunstancialismos da história. Circunstancialismos ideológicos, políticos, profanos. Que dividiram quando deviam unir. Todos, independentemente de ritos e crenças, lembramos que a maçonaria é universal, mas receamos sempre o significado pleno destas palavras.

Sou Grão-Mestre da Maçonaria Regular e reconhecida portuguesa. Mais do que as jóias que uso ao pescoço pesam-me as responsabilidades. Mais do que prerrogativas protocolares do cargo herdo um centenário sentido de dever. Como Grão-Mestre da Maçonaria Regular e reconhecida portuguesa sei que é minha responsabilidade representar todos os maçons. Independentemente do seu rito. Independentemente das suas crenças. Independentemente das suas descrenças. Represento todos os maçons. Ainda que alguns prefiram não me reconhecer como tal.

Digo-vos que a maçonaria é universal. E sem receio nas palavras significa isto que a maçonaria também deve ser una. Significa que um maçon deve saber olhar para além dos circunstancialismos da história e do tempo. Deve saber olhar para além do que é pormenor para ver o que é essencial. Deve saber reconhecer que só na diferença enriquecemos enquanto homens, cidadãos e enquanto maçons.

Neste tempo de crises e de angústias, como noutros tempos de crises e de angústias, o país precisa da sua maçonaria. Universal. Una. Precisa dos seus sinais, precisa das suas palavras, precisa dos seus exemplos. E a maçonaria não pode falhar. Temos agora e aqui a oportunidade de fazer o que nunca foi feito. Move-nos este desígnio. Esta responsabilidade. Este querer. Fazer o que nunca foi feito exatamente porque nunca foi feito. Um momento de oportunidade. O momento em que deixamos de ser condicionados pela história dos outros para passar a fazer a nossa própria história.

Disse que os maçons se reconhecem por sinais mas também por palavras.

E estas são as palavras.

DISSE”

E estas palavras são de tal modo lúcidas e inteligentes, numa ruptura com o que se tem vindo a fazer na Maçonaria em Portugal, que a resposta esdrúxula e torpe (como tem sido costume nestas coisas), não tardou. Soube dela enquanto redigia este post. Veja-se:

Grande Oriente Lusitano corta relações com GLLP

O grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL), Fernando Lima, desmentiu hoje a notícia do semanário Sol, que dá conta que a cúpula das duas maiores obediências do País têm discutido uma fusão.

Desagradado com as declarações do grão-mestre da Grande Loja Legal de Portugal(GLLP), o grão-mestre do GOL adiantou ao DN que vai cortar as relações com a maçonaria regular. “Congelo as relações com a GLLP, enquanto o dr. José Moreno for grão-mestre da obediência”, garantiu ao DN Fernando Lima.

Tudo começou num almoço-debate no American Club, onde José Moreno disse que “o País precisa da sua maçonaria. Universal e una”, criticando o facto de Portugal ser o País “com mais grão-mestres per capita”.

Surpreendido com as notícias de uma fusão entre as maçonarias, Fernando Lima só admite retomar as relações com a GLLP se José Moreno “vier publicamente desmentir que negociamos uma fusão”.

Os últimos meses têm sido pautados por uma boa relação entre as duas maiores obediências maçónicas do País. A paz entre os irmãos das maçonarias regular (GLLP) e adogmática (GOL) chega assim ao fim.”

Que pena que as excelentes intervenções na media de António Reis e António Arnaut há umas semanas não tenham feito escola.

Que se tranquilizem os que não suportam a Maçonaria. Os maiores inimigos da Maçonaria são a mediocridade e os próprios maçons…

Vamos, de uma vez por todas, honrar o passado que deve ser honrado e fazer o que não foi feito. Vamos dar-nos a conhecer pelos sinais. Pelos positivos. Pelos construtivos. Pelos do diálogo. Pelos da fraternidade. Como deve ser. Deixemos estas patetices de “cortes de relações” e coisas do género para trás. NÃO SOMOS CLUBES DE FUTEBOL. Certo???

O Grão Mestre José Moreno tem razão quando diz “represento todos os maçons. Ainda que alguns prefiram não me reconhecer como tal.” Esta lucidez tiveram António Reis e António Arnaut perante as câmara de televisão ao defenderem a Maçonaria em pleno ataque mediático e ao fazê-lo em nome de todos nós, maçons. Revi-me em muitas das suas palavras. Não sou da sua Obediência Maçónica. Quando alguém actua no mundo dito “profano” na qualidade de maçon representa-nos a todos, queira ou não queira. Quando julgam a sua ética, julgam a minha ética. Quando julgam as suas acções, julgam as minha acções. E se assim é para qualquer maçon, por evidência, assim é para um Grão Mestre. O Grão Mestre José Moreno tem razão. E é por ter razão que as declarações públicas do Grão Mestre Fernando Lima são tão inoportunas, precipitadas, surpreendentes e de lamentar: porque me afectam a mim, maçon. Entendo que ele não entenda isso. Mas lamento-o.

É preciso ter uma paciência de santo para ser Maçon!

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