Em defesa da família tradicional: Que venham as espanholas!

Sai-me cada uma! Esta tarde sentei-me à mesa do meu café do costume pronto a ler o jornal do dia. Entre o café e o salgadinho lá fui passando as páginas. Verão sem notícias… Pouca coisa nova. Na penúltima página há uma crónica que me chama a atenção: “A extinção do não-lince ibérico”. Raio de título…

Cito partes, para nos entretermos:

“[O Público] noticiou que «pela primeira vez, um lince-ibérico, proveniente do programa de reprodução em cativeiro, teve crias em liberdade». Com efeito a fêmea Granadilla, nascida em Espanha e libertada em 2010, teve quatro crias. (…) A boa notícia ecológica é muito de saudar, dado o fundado receio de extinção desta raça ibérica.”

Chamando à colação um discurso de Bento XVI sobre a importância da ecologia, aproveitando o exemplo louvável da procriação em cativeiro do lince-ibérico, o autor passa ao que lhe interessa:

“Fecham-se, todos os anos, centenas de escolas no país, mas ninguém diz que é por falta de alunos (…). As entidades oficiais estão mais empenhadas na contracepção e no aborto livre do que na consolidação da família. Há milhares de professores no desemprego e os sindicatos pretendem que seja o ministério a resolver a sua difícil situação laboral, mas esquecem que nenhuma portaria ministerial pode “criar” os alunos que seriam necessários para justificar esses postos de trabalho.”

Esfreguei os olhos em descrédito… Eu não podia estar a ler aquilo! Queres ver que ainda defende que devia ser prioridade a criação de gente em cativeiro como a do lince-ibérico? Ou mesmo que seja em liberdade… Há mais incentivo ao aborto livre e à camisinha e o governo devia-nos meter na cama? Mas que coisa… Por isso o país não funciona! As entidades oficiais para ali empenhadas em que se use o contraceptivo e se possam fazer abortos à vontade do freguês e, claro, acto contínuo cai a natalidade e entalam-se os professores!… Afinal o mundo é tão simples, visto numa redoma de vidro.

Nã! Não podia ser sério. Era certamente a coluna do Ricardo Araújo Pereira, ou de outro comediante a provocar. Mas não! Pasme-se! É a coluna de opinião do meu já conhecido Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, Vice-Presidente da Conferderação Nacional das Associações de Família (CNAF) e licenciado em Direito, doutorado em Filosofia… Sim, aquele das invectivas contra a Maçonaria! Não há hipótese, este senhor parece ter tirado licença para me irritar… E não é que aquilo do lince em cativeiro e da falta de apoio à prociação humana era mesmo da sua lavra?

Continuei incrédulo (é que sou Cristão, Católico, praticante e fico com o rosário eriçado quando alguém em nome da minha religião coloca o Quod Erat Demonstrandum à tese de que os Católicos são imbecis que não vivem no mundo das outras pessoas, incapazes de serem racionais e inteligentes, cujo QI não ultrapassa a data das aparições de Fátima…):

“Do que se precisa realmente é de mais mães e de mais bebés e, para isso, são urgentes medidas que contrariem a trágica queda de natalidade.”

Um padre a defender a f%&a?! Bem, pelo menos o sexo, que eu não conheço outro processo natural de ter mais mães (e já agora, mais pais, senhor Padre, licenciado em Direito e doutorado em Filosofia?). O que é preciso é que f&%#am mais, meus filhos. Procriem, senão temos de ter medidas governamentais de apoio à procriação, como foi o caso dos linces. Deus nos valha.

A pouca vergonha… Antigamente é que era, famílias de 11 e 16 filhos, como a dos meus pais e avós. Aquilo era um regalo para o olho, às dezenas. Fo%&iam, fo%&iam e depois marchavam. Era em casa, nas casas da vizinhança, nas aldeias perto. Filharada de dúzia. E morriam sempre um ou dois antes dos 5 anos. Metade nunca ia à escola. O caçula ficava para padre. Isso é que era sociedade com a família a sério. Eram logo 14 baptizados, 12 primeiras comunhões, 8 casamentos e um ror de funerais. Não estou a dizer que o senhor Padre esteja a atribuir à falha de gente na Igreja de hoje a mesma causa da falta de alunos nas escolas. Têm de fechar igrejas? Tadinhas… Mas não é por falta de haver gente. Porque a razão é outra, senhor Padre. Não é a falta de família. A que há chegava. É a falta de direcção espiritual credível e que responda à família de hoje. Isso é que é. Mas voltando aos “incentivos à procriação”, tão longe das prioridades deste governo, o meu avô Isaac, que já lá vai, esse sim, era um dos que não precisava de incentivo do governo. Só com a mulher que lhe aturou o alcoolismo até à morte teve mais de meia dúzia, bom cristão, que não sabia o que era a contracepção e criou alunos que encheram as escolas das redondezas durante anos, dando trabalho aos professores, alguns com proles respeitáveis deles mesmos. Esse bom cristão que era o Isaac (com dois “aa”). Naquele tempo o interior do país povoava-se, não é como agora que não cumprimos o nosso dever.

Segue, alucinado pela sua retórica:

“A cura da tuberculosse converteu o Caramulo numa curiosa cidade-fantasma, onde as ruínas dos velhos sanatórios recordam uma numerosa população que, graças ao actual tratamento da doença, por meios que dispensam o internamento hospitalar, já não existe.”

É isso mesmo! Como foi que eu não vi? Pobre Caramulo… Abandonado, agora que aqueles “progressistas” comunistas inventaram maneiras de curar a tuberculose… E quem pensa no Caramulo? Quem? O Governo? Os Sindicatos? Quem? Vamos voltar a introduzir a tuberculose em cativeiro, para salvar o Caramulo.

“Não consta que as entidades oficiais, as organizações ambientalistas [!? por serem hippies irresponsáveis que passam o tempo a “fazer amor” pelos cantos e depois a fazer abortos livres? Será por isso que os ambientalistas deviam interessar-se por isto?] e a sociedade civil tenham ficado consciencializadas da gravidade da situação. Nem parece que estejam, por isso, seriamente empenhadas num aumento sustentado dos nascimentos (…)”.

Não posso ficar calado, senhor Padre, licenciado e Vice-Presidente da CNAF. Está o senhor sensibilizado para o problema? Tem cumprido a sua função de procriador? Está consciente “da gravidade da situação”? Faça-me um favor, em nome deste Católico (será que serei o único?), quando for para dizer estas barbaridades estúpidas, não apareça com batina de padre nas fotos e não esqueça que se representa a si sozinho, mesmo quando um certo número de famílias não têm coragem de o mandar bugiar porque não se revêem nas suas continuadas palermices.

Mas, que digo? Devo penitenciar-me. Devo pedir desculpa. Uma figura respeitada. Da Igreja! E eu que nem sou doutorado em Filosofia e falo do que não sei…

Sabe que mais, Padre Gonçalo, estou consigo!

Eu devo penitenciar-me porque sou um dos responsáveis pela situação. Eu e a minha senhora só tivemos um rebento. Um rapaz. Tem 14 anos e ainda não engravidou nenhuma miúda por aí, mas mantemos esperanças. Que raio! Abortos nem pensar. Contraceptivos ainda menos. Vai ver que a nova geração vai ultrapassar a minha. Mas não me conte já acabado. Fazemos um trato, que tenho amigos que seguirão comigo. Tal como na questão do lince-ibérico, que tão astutamente usa como paralelo (de génio, senhor Padre), ofereço-me com uns amigos para um programa de repovoamento pago pelo estado (ou pela Igreja, porque não? Deve ela estar ausente deste problema com luminárias como o senhor? Deus nos livre!). Fazemos “área reservada do homem-ibérico”, mandam-se vir umas espanholas e lhe garanto que em menos dos dois anos que demorou aos linces lamberem as patas de contentes, nós estamos a procriar que nem malucos. Tudo dentro da decência, sem abortos e sem contraceptivo. “Au naturel”, senhor Padre, que nisso concordo consigo – que se vê ser gente que sabe – é muito melhor e Nosso Senhor não se ofende.

Que venham as espanholas!

Só me pergunto, com tanto homem e mulher de Igreja inteligente, capaz, influente, bem formado humanamente e com uma visão justa e de experiência dos problemas, como é que o Público dá meia página a esta verborreia pseudo-católica retrógrada e minoritária numa Igreja que é a que professo? Deus só pode estar a dormir ou então é um gozão de primeira!

Acho que é esta última.

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