Rádio Televisão Portuguesa – RIP

A política é uma área onde habitualmente não me meto. Não gosto. É suja, suja os que nela tocam, está cheia de falsidades, hipocrisia, mentira, falsos importantes e fachada para o eleitor ver. Mas a razão mais forte talvez seja a de que a política nos trata a todos nós – eleitores – como deficientes mentais (sem desprimor para quem nasceu com uma condição médica), fala connosco como se fossemos bebés e quiséssemos muito um rebuçado, esquecendo logo o motivo do protesto enquanto chupamos o doce na boca, decide por nós como se fossemos todos inimputáveis perigosos sem tino ou beira. Parece que a maior preocupação que têm não é administrar bem o que é nosso, mas fazer a “Gestão da Birra”, prometendo os brinquedos para amanhã para não chorarmos, sabendo que esquecemos tudo depressa. A “Gestão da Birra” é o manter-nos de chucha na boca, calados, a dormir a sesta, sem fazer barulho. Quando cheira a merda, fomos nós. Trocam a fralda, dão-nos palmadinhas nas nádegas repreendendo numa voz de patetice (“N’ino mau! Ol’a o cócó que aqui ’tá!”), num passe de mágica, com mais ou menos pó de talco aromático, lá voltamos a dormir e a sair-lhes do caminho. O que mais me faz evitar a política é ver que eles têm razão: colectivamente comportamo-nos como bebés mimados, inimputáveis e, em muitos casos, deficientes mentais por opção…

Vem isto a propósito das “notícias” desta manhã, que davam a RTP1 como destinada à privatização e a RTP2 à extinção. “Notícias”? Escrevi “notícias”? Devo ser deficiente mental por opção. Mas há quanto tempo já todos sabemos que a privatização da RTP vai cair em mãos angolanas? Notícia? O que é interessante é o repolho na salada mista, ou seja, o que é metido na receita para desviar a atenção: a RTP2 extingue-se! Todos iremos discutir a RTP2 e esquecer a decisão de fundo, criminosa, patética, irresponsável e, pior, estúpida. Medíocre. Dão-nos um rebuçado de estalo: a extinção da RTP2 e nós, que nem uns danados, não falamos de mais nada: salvem a RTP2, salvem as baleias e já agora salvem o Vale do Tua, que uma vez que nem RTP tenhamos, nada disso vai mais aparecer no nosso radar de atenção curta. E quem nos salva dos que deitam no caixote do lixo quase 60 anos de investimento?

A Televisão Pública não é um luxo. A Televisão Pública tal como a temos tido é um lixo. Por isso é um luxo muito caro. Tem remédio. Tem caminho a fazer. Precisamos dela por ser o tampão aos critérios comerciais das outras televisões. Ninguém vê? Que importa. A Televisão Pública é como o Teatro, a Ópera, a Música, a Literatura, a Poesia, o Desporto Amador. Não é uma actividade comercial por si mesma porque o benefício é intangível monetariamente na maior parte das vezes. Mas é incomensurável em termos culturais e científicos. Onde vão os nossos filhos ambicionar a ser o Cousteau? Onde vão querer aprender como o Attenborough? Onde vão saber o que é uma Orquestra? Onde vão ouvir “A Cavalgada das Valquírias” e o “Assim Falava Zaratustra”? “Carmina Burana”? Onde vão conhecer Pessoa, António Vieira, Agostinho da Silva? Onde vão conhecer os Painéis de São Vicente, de Grão Vasco, e da Charola de Tomar? Onde vai a escola entrar em ressonância com as suas experiências cognitivas pessoais num país de museus cheios de turistas, monumentos a cair aos pedaços, auditórios vazios de cultura e autores clássicos esgotados há anos? Onde vão saber que nem todos os Muçulmanos são terroristas? Onde vão poder vislumbrar que o mundo é diversificado, múltiplo, colorido, onde nem sempre se fala inglês e onde há outras línguas, expressões para o espírito humano, metas muito além das financeiras? Onde vão saber que a História não é ficção? No canal que nos dá Colombo seguido de Aliens? Vão aspirar a ser celebridades por 15 minutos, imitar os cantores da moda, ser cópias de cópias, consumidores de marcas, replicants de um mundo comercial? O mundo comercial tem lugar. Não me interpretem mal. Faz avançar a economia. Mas tem o seu lugar, que já está defendido. Onde vão então os nosso filhos conhecer o que é genuíno? O que não dá lucro em notinhas de banco, agora e já? Onde vão saber que há pintores, escultores, autores e leitores, que há músicos, editores, excêntricos e génios portugueses? Onde poderão aprender a aspirar à excelência, ao saber, à cultura, a despertar a imaginação, a não ter medo de ousar, a não serem calculistas, a conhecer a diversidade, as raças (para lá do “preto de estimação” de muitas séries que aí andam, estereotipando o próprio estereotipo!), as religiões, o país para lá de Lisboa, Porto e Algarve? Onde?

Uma Televisão Pública não é um luxo. É uma afirmação de quem somos. Talvez por isso esta decisão seja tão revoltante. Demonstra, matematicamente, que nos deixámos reduzir a nada.

A alienação da RTP é uma metáfora para a alienação dos Portugueses. Emigrem… Vão… Mandem remessas… Mas vão…

É estúpida e medíocre porque a função do Governo não é alienar o património que temos, mas sim fazê-lo render a nosso favor. E no caso de uma estação de televisão os exemplos não faltam pela Europa fora de estações públicas a fazer o que a RTP não faz. A pergunta do gestor responsável não é apenas quanto custa a manter. É também saber quanto – e o  que – custa não a ter. O Governo não serve para cortar o braço ao paciente quando há uma ferida. É para curar a ferida. É para reparar o braço. É para – de modo inteligente, racional, competente e em nosso nome como administradores do que é nosso, erradicar o erro, por um fim aos desmandos despesistas, corporizar um projecto com pés e cabeça, fazer cumprir linhas, metas, orçamentos, serviço, limites, etc., seja o que for que, após cuidada análise, possa ser a Televisão dos Portugueses, fazendo serviço público para os Portugueses. Precisamos de Governo porque queremos estes assuntos estudados, analisados, decididos e executados de acordo com a solução que nos servir melhor MANTENDO O QUE É NOSSO. De outro modo não precisamos de Governo. Vender, vender à bruta e à cega não é solução racional, é medíocre. É a saída de quem não analisou, não procurou alternativas, não se empenhou em que o bem material fosse usado para proveito do seu dono. Vender é a opção dos que não querem ter trabalho. (será da dos que querem ter trabalho na empresa que se vai vender, uma vez vendida?).

Resolver o déficit da Saúde? Fácil, vendam-se os Hospitais, ambulâncias, camas, medicamentos, equipamento médico, equipamento de apoio, mobiliário e decoração, vendam-se os terrenos e façam-se contratos de aluguer de terrenos e edifícios. No curto prazo a balança será muito positiva. Depois, logo se vê… Emigrem. Vão…

Vendam-se tribunais, vendam-se as Câmaras Municipais, vendam-se as Estradas Nacionais e os caminhos florestais, vendam-se as sedes dos Bombeiros e as mangueiras e agulhetas e outras tretas. Publiquem-se os volumes e volumes dos casos de corrupção arquivados para vender em fascículos na próxima Feira do Livro e vendam-se os direitos para adaptação cinematográfica. Vendam-se escolas à Igreja, vendam-se os recreios à Fisher-Price e os refeitórios à McDonalds. Vendam-se a Rádio Difusão Portuguesa, venda-se a Rádio Televisão Portuguesa, venda-se o Diário da República porque não é função do Estado manter o serviço mínimo que a Lei exige aos Sindicatos. Venda-se a Lei, mas depressa, que está a perder o valor. Não há quem a ponha na ordem. E venda-se a ordem, porra! Venda-se a ordem já. Vendam-se as fardas da polícia, vendam-se as armas nas feiras, os radares de velocidade no E-Bay, os crachás para derreter, os carros à sucata e as esquadras para sucursais bancárias (estão bem situadas…). Venda-se a ordem, venda-se.  Venda-se tudo, porra, que é mais fácil do que pensar, do que fazer funcionar, do que administrar e governar.

Não, não se venda o Governo. Pouco vale e precisamos de alguém a quem culpar pela nossa sesta da tarde.

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