Jornadas de Estudo – Maçonaria Cristã em Lisboa

Em pleno dia de São Miguel tivemos o prazer de receber uma visita que muito nos honra, como estudiosos do Martinezismo e da Maçonaria Cristã nos seus matizes mais profundos e iniciáticos. Tratou-se de Diego Cerrato, Presidente do Grupo de Estudos e Investigações Martinistas e Martinezistas de Espanha (GEIMME), instituição líder na pesquisa e divulgação das temáticas Martinistas, Martinezistas e Maçónicas em Espanha. Apresentando uma Conferência intitulada “Chaves Espirituais da Maçonaria Cristã”, associou-se assim às primeiras Jornadas de Estudo da Maçonaria Cristã Portuguesa.

As Jornadas foram organizadas pelo In Hoc Signo – Instituto Hermético e pela Akademia Maçónica, com o apoio do GEIMME, da Loja Maçónica Rectificada “Adhuc Stat!”, nº5 e da Editora Zéfiro. As actividades decorreram em Lisboa em dia de manifestação de protesto pela crise económica, contando no entanto com um público numeroso e atento. No final foi assinado um Protocolo de Cooperação entre o GEIMME e o IHS. Novas iniciativas estão na calha.

As Jornadas e os organizadores

Pela primeira vez foi possível a junção de esforços de modo a trazer ao público o que de melhor se tem feito no domínio da investigação Maçónica em Portugal e em Espanha. Desde logo, à mesa estavam presentes alguns dos protagonistas dessa investigação.

GEIMME – O Grupo de Estudos foi fundado em 2002 e tem desde então promovido inúmeras conferências, publicações, retiros e Congressos, o último dos quais em Segovia em 2011 dedicado ao Martinismo. O seu influente Boletim vai já no 35º Volume , com o mais actual da investigação Martinista e Martinezista, contando com textos de pesquisadores como Robert Amadou, Jean-Marc Vivenza, Jean-François Var, Sérge Caillet, Roger Dachez, Edmond Mazet, Diego Cerrato, bem como textos clássicos de Semelas, Willermoz, Saint-Martin entre outros. Cerrato é ainda o director da Colecção Martinsta da Editorial Manakel, a qual publicou no país vizinho duas dezenas de obras fundamentais para o estudo Martinista e Martinezista.

In Hoc Signo – Hermetic Institute – Com apenas dois anos de actividade, o IHS tem organizado múltiplas actividades ligadas às Ciências Tradicionais, que incluem cursos, conferências, visitas, debates e uma série de mais de 70 Tertúlias Herméticas. Tem-se associado às publicações de alguns dos seus sócios, que incluem “Perit ut Vivat” e “A Doutrina Cristã Esotérica” de Luis Fonseca e “Quero Saber: Alquimia” de Luis de Matos. No domínio da Maçonaria destacam-se a série de Debates “Desafios à Maçonaria num Portugal Adiado”.

Akademia Maçónica – Trata-se de uma Associação Livre de instrutores, grupo de maçons cujo único objectivo é promover a pesquisa, instrução e formação maçónica iniciática em todos os Ritos. A Akademia agrupa maçons que tenham completado a instrução maçónica simbólica (pelo menos grau 18 do Rito Escocês Antigo e Aceite ou 4º Grau do Rito Escocês Rectificado ou equivalente). O número de membros é sempre muito reduzido e o acesso só é possível por convite e aceitação unânime.

Justa e Perfeita Loja “Adhuc Stat!”, nº5 – Loja maçónica que trabalha a Oriente de Sintra, sob a autoridade do Grão Priorado Rectificado de Hispânia, Obediência Ibérica do Regime Escocês Rectificado.

Editora Zéfiro – Uma das poucas Editoras Portuguesas que dedica alguma da sua atenção à publicação de obras de qualidade de carácter maçónico. Entre os seus autores contam-se Oswald Wirth, Arthur Edward Powell, António Telmo e eu mesmo (Luis de Matos).

A Conferência

A Conferência abriu com uma curta apresentação minha sobre a história do Rito Escocês Rectificado em Portugal, que acaba de fazer 25 anos. Essa apresentação será convertida num artigo a publicar em breve quer no meublog pessoal (Maçonaria Universátil), quer no site do Instituto Hermético, quer no da Maçonaria Cristã, com o qual tenho colaborado pontualmente e ao qual desde já agradeço.

De seguida Diego Cerrato iniciou a sua excepcional apresentação. O título “Chaves Espirituais da Maçonaria Cristã” descreve de modo muito claro as duas horas que se seguiram. De facto, senhor de uma erudição e ao mesmo tempo de uma capacidade de comunicação raras, Cerrato conduziu-nos, passo a passo, pela história e motivação para a criação do Regime Escocês Rectificado, passando por uma detalhada visão sobre a Estrita Observância Templária e a Ordem dos Cavaleiros Maçons Eleitos Cohën do Universo, levando com a maior naturalidade aos vários Conventos que consagraram a codificação da Doutrina de Martinez de Pasqually na Maçonaria Rectificada. Terminada esta fase, Diego Cerrato passou à apresentação muito minuciosa e reveladora da natureza dessa Doutrina de Pasqually. Sem esconder nada e abordando de modo muito claro diversas das chaves iniciáticas presentes no “Tratado da Reintegração dos Seres”, notável livro oitocentista de difícil leitura, o conferencista abriu à compreensão as passagens mais obscuras e significativas e expôs, com a clareza de uma dissecação científica como se falasse num auditório cheio de alunos interessados em Oxford, a orgânica da Doutrina Martinezista. É de sublinhar a generosidade do autor, pois neste tema é muito frequente o erro e linguagem totalmente incompreensível, muitas vezes porque os mesmos que se têm debruçado sobre ele, salvo raras excepções, revelam nos seus trabalhos a absoluta turvação que lhes vai na cabeça quando se trata dos assuntos mais importantes e fundamentais da Maçonaria Iniciática. Mas assim não foi com Diego Cerrato, que mostrou não apenas que entende como poucos do assunto exposto, mas que é capaz de guiar uma visita acessível até ao simples curioso, quanto mais ao verdadeiro interessado, que nas suas palavras – fruto de muitas horas, dias, meses e anos de estudo – encontra as respostas que se evadem com frequência.

Após um pequeno intervalo, foi com grande facilidade que complementou toda a informação já passada sobre a visão de Martinez de Pasqually com a adição da Doutrina dos Padres de Alexandria relativamente ao Cristianismo e às suas chaves iniciáticas. Matéria densa e difícil, tornada simples e clara. Estas doutrinas foram expostas de maneira transparente e sem falsos segredos ou dispensáveis enigmas, com uma nitidez capaz de desarmar os mais preparados. O que me leva a dizer que, exposta assim, a Doutrina Cristã, na sua mais profunda natureza Iniciática, relacionada com os fins da Maçonaria e o que deveria ser o objectivo dos Maçons se não se desviassem das instruções mais antigas e formativas da Ordem, é um verdadeiro écran em HD, alta definição, de uma nitidez e claridade muito raras. Quem, ouvidos os fundamentos e explorados os métodos, pode defender que há alguma incompatibilidade entre a Maçonaria e a prática activa e viva da religião de Cristo?

Foi muito bem exposta a Ciência Maçónica, linguagem usada por Willermoz para cifrar a doutrina da queda e da reintegração do homem. Foi explicado o método pelo qual a maçonaria Rectificada procede a essa iniciação, os seus estágios e símbolos. Foi informação indispensável quer para Martinistas quer para Maçons do Rito Rectificado, quer para todos os interessados na Maçonaria Iniciática nas suas diversas vertentes, informação que não está acessível numa só publicação ou fonte. Daí o interesse desta síntese extraordinária que nos foi trazida por Diego Cerrato, cheia de originalidade e com um alcance muito maior do que a simples conferência pública. O que nos trouxe foi uma verdadeira postura perante a Iniciação, coerente e eficaz, sem falsos mistérios e perfeitamente compreensível e ao alcance de todos.

Não me compete aqui explanar as tais chaves iniciáticas. Compete-me sim chamar a atenção dos que buscam com verdade e vontade, apontando as fontes mais fidedignas que os possam ajudar a que a sua busca seja eficaz. Os maçons perdem-se muitas vezes em caminhos ínvios e inférteis, que não iluminam nenhum dos mistérios, mas acrescentam muitas dúvidas. Introduzem na prática maçónica infindáveis fantasias e incontáveis “doutrinas” que vêm preencher a sua total ignorância face à realidade iniciática da Ordem. A verdade seja dita: não é nada fácil encontrar as chaves que Diego Cerrato nos trouxe. Para tal é necessário ultrapassar uma barreira de preconceitos que nos afastaram do Cristianismo e nos levam a confundir tudo o que tenha um crucifixo com as batinas e a água benta que nos recordam uma opressão que, curiosamente, não sofremos. Contudo está-nos nos genes. Fala-se em Cristianismo e há maçons que fogem. No entanto não se importam de jurar em altares, de usar símbolos criados pelos beneditinos, de evocar o pavimento mosaico (ou seja, literalmente “de Moisés”) e de evocar o Cordeiro de Deus na brancura inocente dos seus aventais brancos. Mas basta relacionar, ou melhor dizendo, recordar o que cada um desses símbolos nos deve despertar como chave, para que uma vasta maioria de maçons seja incapaz de enfrentar um medo irracional da Religião, que os impede de ser consequente e alguma vez perscrutar em si e no símbolo. Willermoz deixa claro que há uma Ciência Maçónica. E ele deve sabê-lo, porque a cifrou no RER. Mas a maioria é incapaz de se aproximar e enfrentar o medo irracional de tudo o que é Religião. Esse facto é a maior garantia de que as chaves ficam por encontrar e a Iniciação fica por fazer, somente em potência. Homens de barba rija, soldados destemidos no ultramar, condecorados, outros que desafiam os limites e o medo no desporto, nas ciências, na medicina, mesmo na economia, são ratos aterrorizados no momento em que temem que se possa fazer uma referência a Cristo ou à Religião (pior ainda à Santa Religião!). Não há esperança.

Ora, precisamente assim parece ser. Em Portugal há 7 Lojas do Rito Rectificado, uma delas com 25 anos. Acreditem no que vos digo, foram expostos na apresentação temas chave para entender o Rito Rectificado e poder torna-lo efectivo, fazê-lo frutificar e resolver uma série de equívocos que se perpetuam de ano para ano nas Lojas. Foi uma tarde que podia poupar trabalho de muitos anos de investigação. Foram citados os documentos dos Conventos (Lyon, Wilhelmsbad, etc.), foram expostas partes das Instruções Secretas de Professo, foram mostrados Quadros e explicadas palavras e nomes. Foram citadas cartas particulares, rituais diversos (incluindo dos Eleitos Cohën), estudos dos mais actuais e avançados. Tudo numa tarde. A pesquisa de anos numa tarde. Ora, das 7 Lojas do Rito Rectificado em Portugal (que contará com mais de 250 maçons iniciados), cuja obra de pesquisa e divulgação ao longo dos tais 25 anos pode ser resumida, em números redondos, em ZERO, estavam presentes na Conferência 1 (um) aprendiz de uma delas, sendo os restantes da Loja organizadora (que já está naturalmente informada dos estudos do GEIMME e do GPRDH) ou provenientes de outros Ritos. Estes maçons de outros Ritos mostraram um interesse que deixa alguma esperança relativamente ao futuro da investigação, divulgação e debate de um pensamento maçónico Português (que não há). Devemos ser o único país de Europa onde não há investigação maçónica coordenada (só curiosos isolados como eu), não há debate permanente, não há pensamento escrito e por isso, não há evolução.

Em 25 anos de história o Rito Rectificado em Portugal tem para mostrar um avental e um queijo. Digo-o eu, de cara aberta, porque o sei. E o queijo já só é casca. O avental, esse, é debruado a ouro. Em Portugal pecamos não só por sermos medíocres e não fazermos nada, passando o tempo a queixar-nos que ninguém faz nada, mas também porque quando alguém faz – e faz bem – ficamos ressentidos por isso! Não ensinamos (porque não sabemos nós mesmos) nem queremos aprender para ensinar. Não fazemos e ficamos ofendidos porque alguém faz. Não aprendemos porque quando devíamos estar em peso, está o aprendiz… Quem devia dar o exemplo, quem devia saber o que é o GEIMME, o Instituto Eleazar, o CIREM, etc., está completamente alheio. É a Morte Espiritual, conceito Martinezista que me escuso a explicar porque foi abordado na conferência. Estivessem…

Eu compreendo porque é que foi só o aprendiz. Eu lembro-me de ter ido no 7º ano às Olimpíadas da Matemática no Liceu. Quando cheguei lá, não passei nem da primeira eliminatória. Eu não percebia nada daquilo! Não era para mim! Quando me convidaram no 8º ano, eu não quis sofrer a mesma humilhação. Não fui. Eu, que não percebia nada, no meio daqueles cromos para quem aquilo era canja? Nem pensar em mostrar a minha fraqueza e ignorância, ainda por cima em público. Ora, o que pudemos ouvir naquela tarde comparado ao trabalho de Loja que eu conheci durante anos a fio (e a falta de frutos na árvore fazem pensar que o resultado hoje é idêntico), é como as Olimpíadas da Matemática comparadas com os meus trabalhos de casa rascunhados à pressa. Tal e qual. Por isso não vieram.

Há 7 Veneráveis Mestres para os quais a informação transmitida não só é interessante, como é absolutamente imprescindível para que possam executar o seu trabalho. Veio um aprendiz. Os 25 anos estéreis, sem obra e sem brilho, sem ter alcançado nada nem ter aprendido mais do que se se tivesse comprado uma boa colecção de livros, mostram que a maioria dos actuais 7 Veneráveis Mestres, mais os 7 do ano passado, mais os dos anos anteriores, não fazem a menor ideia do que é o Rito Rectificado, os seus fundamentos a sua Doutrina, os seus métodos, os seus objectivos e fins iniciáticos. Leram um livro (ainda é o mesmo?) e compraram outros dois calhamaços que não leram por serem maçudos. Mas desconhecem como campeões a tal Ciência Maçónica de Willermoz. Maçonicamente falando, não sabem de onde vêem, para onde vão e o que é suposto fazerem. Passam o tempo a fazer iniciações, subidas de grau, resolver problemas de falta de quórum e eleger Veneráveis. Essa é a extensão do seu trabalho prodigioso. Já escrevi muitas vezes sobre isso e a realidade veio-me sempre dando razão. Nem a vergonha de ter um patife como eu a fazer a constatação ajuda a motivar uma mudança. A Conferência não foi planeada para eles nem precisava da sua presença para ser o êxito que foi e ter a enorme utilidade que teve. Mas a presença de um único Aprendiz acaba por ser a justa medida da realidade. A presença de alguns dos tais Veneráveis ou uma mão cheia dos 250 iniciados seria uma prova de vitalidade, de unidade e harmonia do Rito em Portugal, que só não de desfaz, como a carne podre, porque nem para isso tem organização. O Rectificado em Portugal tem 25 anos, mas ainda vive em casa dos pais e é demasiado calão para ser homem crescido e fazer-se à vida.

Aqui fica uma nota de esperança, com uma profunda vénia aos habituais membros do REAA que nos vão acompanhando (sabem quem são), aos membros do Rito de Memphis-Mizraïm em Portugal que mantêm o entusiasmo e a chama acesa e à Loja “Adhuc Stat!” do Regime Rectificado, que esteve em peso para ouvir o seu Prefeito. Confesso que ainda não tinha percebido a escolha do nome da Loja. Desde Sábado que ficou mais claro! Para vós, um só voto: “que a Ordem prospere”.

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