Leave the gun, take the cannoli

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Há alguns meses que andava a remoer nisto: tenho de voltar a ver “O Padrinho”. Não sei porquê.

Seriam saudades? Seria saturação? Saudades de quê? Saturação do quê?

Talvez saudades de revisitar algumas das imagens mais evocativas de que me lembro, que me transportam para recordações minhas, muito esquecidas e muito pessoais que nem bem percebo como podem vir ao de cima se o inconsciente as tem bem guardadas em cavernas de perigosos recifes. Que milagre é esse, senhor Coppola, de trazer um aluvião de coisas à memória consciente apenas pela contemplação do detalhe da recriação das suas memórias através da saga da família Corleone (que nem é a minha, nem se aproxima). Que arquétipo tocou o senhor, ao mostrar as colinas dos olivais da Sicília, as estradas de terra férrea conduzidas por muros de pedra solta, a taberna da aldeia onde se descansam os ossos e as cartucheiras das longas caminhadas e em tranquilo vagar se cruzam as botas sobre uma cadeira de madeira, baixando o chapéu sobre os olhos? Saturação de ver cenas cavalgadas sobre cenas em ritmo terminal, explosões à direita e à esquerda, cgi e gráficos estonteantes de consola de jogos, fatos que fazem um homem voar mais alto que um avião, vilões previsíveis, heróis de elástico e sacarina, amorosos bichinhos de pele azul que cavalgam dragões amestrados no circo da vacuidade… Acho que pode ter sido isso.

Em Coppola sempre me atraiu o anjo caído. É um tema central à natureza humana. As Igrejas bem o podem simplificar com aquela trata do Paraíso e da expulsão. A ver se pega. Mas a coisa é mais cinzenta. De pouco vale subir aos púlpitos e berrar “pecado!”, “culpa!” de batina branca e ar angelical e depois andar a rebentar inocências nas coxias. O mundo não é preto no branco. Raramente é preto no branco. Há um vasto oceano dúbio de tons cinzentos onde navega o carácter humano. Há anjos com demónios dentro. Demónios dissimulados, demónios dormentes e demónios domados. Mas estão lá. Vem-me à mente Kurtz de “Apocalipse Now”, brilhante demente, demónio flamejante, lúcido e lapidar, louco clarividente e sábio. Sábio! Vem-me à memória Vlad Dracul, de “Drácula”, senhor das Trevas, arrebatado sedutor, sofisticado e meigo viúvo, dragão sanguíneo e mortal. Vem-me à memória Michael Corleone, pai de família, irmão de tragédia quase shakespeariana, o relutante herdeiro a um trono de horror, que assume por dever e justiça. Estão à nossa volta. Talvez não de modo tão claro, como só a fábula pode por em evidência. Nem todos são assassinos, nem todos têm um “homem de mão” para despachar os traidores. Mas, na escala das coisas, olhando bem à nossa volta, não faltam traidores, não faltam delatores, não faltam executores, não faltam tecnocratas que com uma assinatura mandam magotes para a miséria como quem manda Luca Brasi dormir com os peixinhos.

Entre as muitas coisas que me fascinaram ontem ao rever “O Padrinho” foi perceber como o mal e o bem se entrelaçam tão harmoniosamente, sem quase se dissociarem, mesmo quando se distinguem a olho nu. Como somos sempre o “eles” ou o “nós” de um grupo antagónico de “nós” e “eles”. E que o que é para “nós” bom e justo, pode muito bem ser fatal para “eles”. Conversa? Pois sim… Hoje somos os “eles” da Europa. Os “retornados” (vá-lá, recordemos algumas das pérolas linguísticas que entraram no nosso quotidiano após o 25 de Abril…) já foram o “eles” que “nós” tivemos. “Eles que se lixem, que nós estamos primeiro” só é bom quando somos nós a dizê-lo. Quando “nós” decidimos equilibrar as contas do Estado cortando o rendimento “deles”, as pensões “deles”, os apoios sociais “deles”, os recursos “deles”, a educação “deles” e a justiça “deles”, aprovando orçamentos e decretos-lei que se abatem sobre eles, estamos a ver “O Padrinho”, estamos a ver o Cappo a executar a ordem do Don, mandando eliminar os “obstáculos” (“eles”, que hoje, para os nossos governantes a mando dos seus Dons, somos “nós”, que não tarda dormiremos com os peixinhos). A ambiguidade do anjo e do demónio é fascinante. Essa é a saga dos Corleone. É a nossa saga como família colectiva que viu o seu lar (o nosso Portugal) invadido por “eles”.

“Leave the gun, take the cannoli” é das deixas mais emblemáticas deste filme. É uma obra prima, porque contém ideias que ultrapassam os seus autores e tomam uma vida própria quando o espectador lhes empresta a sua experiência pessoal. A cena que podemos ver começa com o Cappo Clemenza (“clemência”, bonita ironia!…) que sai de casa a caminho da execução de Paulie, que conduz o carro. Paulie é um traidor, ganancioso e solitário. Clemenza é um homem de família, não é um traidor. Antes de sair a mulher pergunta-lhe a que horas vai voltar e diz-lhe que não se esqueça de trazer os “cannoli”, a sobremesa italiana que unia a família após o jantar (Coppola recorda-se de ser assim em sua casa quando era criança). Clemenza manda Paulie levá-lo a Manhattan fazer uns recados e, no regresso, saem da estrada principal, parando na zona de pântanos de New Jersey para que Clemenza possa urinar.

A construção da cena é excepcional, digna da obra prima a que pertence. O carro chega ao pântano que vemos de longe, a câmara acompanha Clemenza que sai e se dirige ao canavial. O enquadramento regressa à primeira imagem. Está tudo estudado e não há acasos. O enquadramento é partido em três segmentos horizontais. Nos 2/3 inferiores vemos a estrada de terra no meio do pântano e a vegetação alta que encobre o crime. Predomina o tom castanho dourado. Na parte direita a vegetação abra-se para vermos bem a estrada e o carro negro, mas já não vemos Clemenza, que se afastou para a direita e foi ocultado pelo alto canavial. O 1/3 superior é ocupado pelo céu, azul quase cor de chumbo. Não é um acaso. O director de fotografia compensou a película de tal modo que houvesse uma distorção de dois pontos de amarelo e um de vermelho ao longo de todo o filme. Ganhou um Óscar por isso. Imperando sobre toda a cena, do lado esquerdo, no 1/3 de céu está, em azul muito claro e bem destacada (a edição em Blueray é recomendável), a Estátua da Liberdade. Ela é a aspiração do sonho americano. Todo o filme é uma metáfora para esse sonho e para o Capitalismo que tomou conta dele. Metáfora válida em 1972, como é válida hoje. São assim as obras primas. Mas adiante. Ouve-se o tiro fatal dado por Rocco Lampone, que ficara no banco de trás e vê-se como Paulie, o traidor, cai sobre o volante. Clemenza regressa, aliviado. É hora de deixar o lugar. O Cappo diz para o novo soldato Lampone que deixe a arma no local. Era só assim o texto original. “Leave the gun”. Mas Richard Castellano, o actor que deu vida a Clemenza, lembrando-se do recado dado pela mulher no início da cena, acrescentou de sua própria iniciativa “traz os cannoli”. E assim ficou cunhada esta frase que se tornou imortal e que resume a contradição fundamental e humana de Clemenza, mas também a minha e a de todos nós. Mesmo no momento de maior crueldade e frieza calculista, Clemenza não perdeu o seu eu interior, o de homem de família, de gosto delicado e amor pelos seus que já antecipavam a iguaria da noite. Sem se aperceber, passou de assassino a pai, de carrasco a marido numa frase: “Leave the gun, take the cannoli”. E, arrumado, ainda fechou a porta do carro onde Paulie jazia morto.

Juro que ouvi a ecoar na cabeça a voz do Passos Colho que dizia à Secretária depois de um Conselho de Ministros: “Deixe ficar o orçamento e traga a caixa dos pastéis de nata”…

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