Quem com galinhas se mete, farelos come

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Ou melhor “Οποιος μπλέκεται με τα πίτουρα τον τρων οι κότες.”, em Português “Quem com galinhas se mete, farelos come”, um excelente provérbio Grego que não deve ter tradução em Alemão.

O que os provérbios têm de interessante é que reflectem a experiência popular, realçando truísmos (e algumas verdades muito evidentes) que se verificaram vezes e vezes sem conta no passado e a sabedoria popular aposta que virão a verificar-se no futuro. É bem verdade que cuidado e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém e que grão a grão a galinha enche o papo, isto para manter o tema aviário. A Grécia tem muito a ensinar até nos provérbios, apesar de teimarmos em depreciar o que dali vem. O nosso Sócrates não se compara ao deles. A nossa Democracia não faz escola. Às fábulas de Esopo respondemos com as fábulas de Pedro Passos Coelho. Uma tristeza.

Vem o “comer farelos” a propósito do tema do momento, que ameaça ser o tema da década: vai a Grécia falhar o pagamento aos seus credores e, em consequência disso, sair do Euro? Já tantas asneiras se disseram sobre este tema que me sinto no direito de dizer o meu lote de asneiras sem pudor. Aqui vai.

Este episódio assemelha-se muito àquela situação em que os amigos vão todos jantar fora e, depois do opíparo jantar e da boa disposição, já estão todos a contar anedotas e a por a cinza dos cigarros nas chávenas de café vazias, com o dono do restaurante a apagar e a acender as luzes discretamente a ver se põe o grupo a andar dali para fora, quando alguém finalmente pede a conta. A conta vem, o tipo do costume divide pelas cabeças presentes e o valor anunciado deixa todos perplexos. Alguém pede o talão, tira o telemóvel e volta a calcular tudo de novo. Mas não há engano! É mesmo muito por cabeça… Afinal, todos se divertiram, todos acabaram por fazer bons negócios com os parceiros do lado, planear novos encontros, deram e receberam palmadinhas nas costas. É aqui que se verifica que ninguém reclamou os cascos de sapateira que foram postos na mesa logo no início. Agora estavam comidos. Ninguém se apercebeu que o amigo francês tinha pedido uma garrafa de vinho mais cara. Agora estava bebida. O problema é que há sempre um tipo que estraga tudo e diz que não tocou na sapateira, só bebeu água do Luso e o bife dele até nem tinha ovo. “Eu não comi manteigas nem tirei do presunto!”, diz com ar reprovador. Esse tipo, chato como o caraças, pede para pagar só a parte dele. Quer contas separadas! Como se não tivesse feito negócio como os outros, como se não fosse fornecedor de sapateiras suspeitamente iguais aquelas (em que nem tocou), como se não tivesse estado no jantar. Como se só tivesse comido o seu quinhãozinho em silêncio e nada mais, sem apreciar a companhia. Um chato. Agora é preciso ir, item por item, ver quem comeu o quê para que ele se cale. Esse gajo é a Alemanha. E logo se verifica que também há sempre o tipo que pediu 3 whiskies no final, sabendo que era a dividir por todos. Para pesadelo de toda a gente, esse tipo é a Grécia.

É nisto que estamos. O cartão Visa da Grécia não passa… O dinheiro que tem no bolso não chega. “Pensasse nisso antes!” diz o indignado da Alemanha. “Paga e não bufa! Eu não racho a conta.” E assim os amigos se chateiam uns com os outros.

A alegoria roça a tragédia (Grega) porque estamos todos à mesa. E enquanto Passos Coelho, em nosso nome, diz que não seremos afectados se a Grécia sair e não voltar a ser convidada para outros jantares, a verdade é que sabemos todos que, saindo a Grécia do nosso clube, o clube está a chegar ao fim. E porquê? Ui, isso é o que o nosso amigo Alemão não percebe.

Cá vão algumas razões. O que o Clube tem para vender é um bem escasso: a estabilidade, que se traduz num substantivo que favorece o progresso: a confiança. Ganhamos todos por ter uma moeda estável e confiável e por vendermos e comprarmos a maior parte dos nossos produtos no mercado proporcionado por essa moeda. A saída da Grécia mina a estabilidade e retira a confiança. Ataca, por isso, o valor da própria União, que terá dificuldade em continuar a vender castelos nas nuvens sem o benefício tangível para os membros do Clube. Para todos os membros do Clube. É que quando vendemos “confiança”, ficamos mal na fotografia se obrigamos um dos nossos a sair quando ele atravessa dificuldades. Deprecia o nosso produto.

O Euro é a consequência inevitável da Comunidade Europeia. É intrínseco à Comunidade. Não podem haver fronteiras abertas, sem barreiras humanas e alfandegárias, se não houver uma convergência monetária que, no limite, é uma moeda única, mesmo que as designações nacionais aparentem diferença. A Inglaterra faz o que quer com a Libra? Tomara a Inglaterra… Não, não faz. Numa situação em que a circulação de bens, serviços e pessoas é livre a possibilidade de manipular a moeda para lá de variações marginais é uma arma de guerra económica que pode minar a comunidade em si. Imaginemos a Grécia, com o Dracma, membro da Comunidade, a desvalorizar a moeda sem freio, sem convergência, mas sem limites à circulação dos seus bens e serviços agora extraordinariamente baratos (baratos como na Índia, no Bangladesh ou na China ou até mais), mas não localizada na Ásia. Aqui mesmo. Não à porta. Dentro. Dentro de portas. Cá. Um dos nossos. Não há Comunidade Europeia sem convergência monetária. Isto tem sido tão claro para a Alemanha que os esforços mais incríveis têm sido feitos para impedir a saída da Grécia do sistema. Pudesse a Alemanha mandar a Grécia embora e já o tinha feito há muito. Essa é a força da Grécia. Se a conta não for rachada por todos (ou seja, se não houver uma Comunidade Europeia, e mesmo uma União Europeia como ironicamente se chama a esta mesa desavinda), a Grécia sai sem pagar a conta e “Quem com galinhas se mete farelos come”. Comeremos todos farelos se deixarmos que a Grécia seja a nossa galinha.

Mas a saída da Grécia do sistema monetário não lança os gregos na miséria. Lança os gregos na miséria por comparação. Pois é. O que nos choca é que a Grécia possa vir a viver o que se vive diariamente na Nigéria, na Somália, no Bangladesh. Há muitos países onde a situação é muito pior do que a grega. Só que não estão à nossa porta. Nem os seus cidadãos são membros da direito da Comunidade Europeia. É que a saída do Euro não equivale à saída da Comunidade. A Grécia continua a poder exportar, comprar e vender. Mas poderá fazê-lo sem estar constrangida pela camisa de forças do Euro. A camisa de forças faz falta para que não aconteça o que vai acontecer quando a Grécia se vir livre dela! Há uma razão forte para que tenhamos todos aceite a camisa de forças, até os que não têm o Euro. E o pior é que vamos todos descobri-lo da pior maneira…

A Grécia pode ser o porta-aviões da economia barata a lançar petardos na “união” europeia. Pode tornar-se numa feira ladra dentro do Centro Comercial da moda. Pode ser o Cavalo de Tróia que nenhum anti-virus consiga deter.

Além disso, atirar milhões de gregos para a pobreza tem o condão de, com apenas um passe de ilusionismo, criar dentro de fronteiras milhões e milhões de cidadãos Europeus com carências enormes, que podem circular livremente e para quem um trabalho precário e mal pago noutro estado da União será muito bem vindo. E estes que jogarmos na pobreza, nem precisam de atravessar o Mediterrâneo para chegar à Europa… Já cá estão. E não haverá quem os possa deter. Para quê importar pessoas a quem tiraram toda a dignidade humana se as podemos criar na Europa, não é?

O sonho da Europa Unida acaba aqui. E pode ser ainda mais dramático. É que é possível imaginar um cenário em que a Grécia não se desintegra em pedacinhos como a Estrela da Morte do Star Wars no dia em que sair do Euro. Pode continuar a existir, para desespero dos que a querem fora da mesa. A sangrar, mas presente. Pode ser que o Pártenon não caia nem os alicerces do Olimpo tremam. Pode até ser que, saindo do Euro, o colapso interno humano e político seja demolidor mas, como acontece com todos as tragédias (e já as vimos de magnitude muito maior), a Grécia atinja um dado dia o “fundo do poço”. O dia seguinte a esse dia é o primeiro dia em que a Grécia recupera e mostra que nada é final no destino das nações. Que o diga a Islândia. Podem tardar 100 anos. Podem tardar 20. Ou podem tardar 10. Mas o dia em que os números da Grécia, independentemente de quão maus tenham sido até ao fundo negro fecal, invertam a tendência – e esse dia, diz-nos a matemática de Pitágoras, que chega – ficará marcado na pedra tumular da União Europeia do pós-guerra.

É isto que está em jogo. Sá a Alemanha parece ter esquecido. Portugal faz o papel do mete nojo, que bate só nos que já estão no chão. Há que rachar a conta, meus amigos, agora que todos comeram satisfeitos. “Quem com galinhas se mete farelos come”. Façam-se outras regras para o jantar que se segue. Mas não se pense que ao obrigar o Grego a sair por mau comportamento, ficamos rodeados de santos. É que ele sai da mesa, mas continuamos a comer farelos e a dizer que é lagosta…

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