Portugal SA – Assembleia de Accionistas Reconduz Administração

ADMINISTRATION

Ao longo dos últimos quatro anos ouvi muitas vezes criticar a simplicidade com que Medina Carreira dizia “Uma dona de casa geria melhor o país do que os últimos governos”, ao sublinhar que, não havendo mais dinheiro, tem de se reduzir a despesa. Pedir emprestado é como usar o cartão de crédito. Os críticos diziam que a economia de um país não se compara à economia caseira. Assisti com interesse às múltiplas soluções que foram sendo implementadas para resolver o problema, cortando despesas de modo selectivo (só algumas, especialmente as de pessoal) e aumentando a receita através do aumento de impostos. Já todos sabemos os efeitos e os resultados.

O que, para mim, se destaca é que as soluções encontradas não são de uma gestão de economia caseira, mas as usadas na gestão das empresas. E, sendo certo que a economia de uma nação não se pode gerir como quem gere uma casa, também não é menos certo que não se pode gerir a nação do mesmo modo que se gere uma mercearia. Mesmo que seja uma mercearia muito grande.

Ora foi precisamente o que aconteceu. Portugal tornou-se em Portugal SA.

Uma empresa não é uma entidade moral e não serve interesses colectivos acima do interesse particular de gerar lucro aos seus accionistas. Não é assim numa nação. Há um passado, um futuro e um presente que não são traduzíveis em números financeiros. Há a qualidade de vida dos nacionais (artigo 9º da Constituição), temas como a justiça, a educação e a saúde (artigo 63º e seguintes) que, apesar de terem uma realidade financeira, respondem a critérios de equidade, igualdade e dignidade humana que, esses sim, determinam os recursos financeiros necessários. São os dados do problema. Não são o problema. O número de médicos, camas, professores, juízes, etc., a protecção à queda em situações de pobreza, a garantia de uma vida digna e livre, etc., não são “o problema”. São os dados do problema, tal como força da gravidade, a resistência dos materiais ou o factor tempo o são na construção. Dados do problema. Pontos fixos que contribuem para o cálculo do que é variável. Ao tirar o ser humano do centro da equação, neste caso o Português, procurando soluções que o ponham em causa, resta perguntar para que servem tais soluções ao governo de um país que tem o Português como objecto único. Repito, o objecto único da governação de Portugal é o Português. Por isso só a ele é dado votar quem o governa.

Deste modo, retirando o Português do lugar que lhe é próprio como objecto da governação, vale a pena recordar o koen: “Se uma árvore cair na floresta e não estiver lá ninguém para a ouvir cair, ela faz barulho”? No nosso caso: “Se um governo governa o país sem considerar as consequência para o Português, está a governar”? A resposta é simples: não. Estará a administrar. Estará a pensar nos accionistas (nem todos são “o Português”) e nos stakeholders (os que apostaram e querem ver o retorno no seu investimento). Mas não estará a governar de acordo com o mandato que lhe foi dado. Dito de maneira mais empresarial: não está a governar de acordo com o briefing que recebeu. E o briefing é a Constituição. A maneira de implementar o briefing é que é o Programa de Governo e nesse, tem liberdade de acção. Essa é a variável do problema. A redução do governo a uma administração é um downgrade, por prescindir dos instrumentos e das soluções ao alcance de uma soberania. E esta é uma discussão muito longa…

Quando uma empresa despede em larga escala, pode resolver um problema de overstaffing e orçamental. Os despedidos deixam de pesar nas contas. Mas quando uma nação despede, os despedidos continuam nas contas. E mesmo que sejam varridos para debaixo do tapete com truques estatísticos, continuam a custar dinheiro à nação. A população (activa ou não) de um país, por definição, não é um excesso. É o país!

A governação e a administração têm inúmeras diferenças. Na administração há toda uma área criativa de como reportar os números que se querem destacar. Lembro aqui a anedota:

“Três candidatos responderam ao anúncio de uma empresa de Recursos Humanos para uma posição de assessoria financeiro numa empresa sua cliente. A entrevista consistia apenas numa pergunta:

Pergunta ao primeiro candidato: Quanto são 2 e 2?

Resposta: São 4. 

Pergunta ao segundo candidato: Quanto são 2 e 2?

Resposta: Podem ser 4 ou 22.

Pergunta ao terceiro candidato: Quanto são 2 e 2?

Resposta: (tirando uma caneta e um papel do bolso) Quanto é que V. Exa. deseja que sejam?

Foi contratado logo…”

Para a administração, a forma de reportar faz toda a diferença. Na verdade o P&L é o que, no final, importa. Já na governação tudo o que sejam números criativos não passam de artimanha, porque a realidade do Português é aquela que ele vive. Digam os números o que disserem. Sejam eles “o que V. Exa. queira que sejam”. Só numa administração seria aceitável dizer “a empresa está melhor, nós é que estamos pior; trabalhamos mais tempo, ganhamos menos, temos menos certezas sobre o futuro, muitos de nós foram mandados para casa”. Quando a administração chega ao governo, não somos cidadãos, não somos sequer sócios, somos empregados. É com esse pressuposto que as decisões são tomadas. A administração determina, nós obedientes executamos.

O problema essencial é que, ao mesmo tempo, sendo empregados, somos também a principal fonte de rendimento da “empresa” Portugal SA. A sua única esperança de que se pague o que foi pedido emprestado e o que se gastou com luxos. Somos empregados a quem a empresa cobra uma comissão. Sem dar garantias de emprego, reforma ou condições de trabalho. Mesmo os que não trabalham para o Estado, na forma de agir da administração, são empregados todos os dias até ao dia das legislativas, em que todos somos consultados como uma Assembleia de Accionistas e nos pronunciamos sobre os números. Os tais que podem ser maleáveis na esperança que nós também o sejamos.

Este é o estado das coisas. No Portugal SA, a Assembleia de Accionistas reconduziu a Administração.

Esperam-se mais decisões financeiras, frias e necessárias ao P&L. Que se lixe o briefing. E pensando nisso, mal que o diga, não era melhor alterarem-no logo de uma vez? Portugal SA veio para ficar. Por isso vou-me eu embora.

O último a sair que apague a luz, para não ficarmos a dever aos chineses.

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