I Shot The Sheriff

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O vídeo é indescritível e por isso impossível de recomendar com um link. No entanto mais de 1 milhão de pessoas ao redor do mundo o viram. A partilha do terror não conta com a minha conivência. A comodificação das emoções não me agrada. Por isso não recomendo o vídeo de horror. Cito-o porque é tempo de falar dessa comodificação, fenómeno novo que a internet exponencía.

Voltando ao vídeo. Sinaloa, México, um grupo de polícias regressa ao carro e fecha as portas deixando o local a alta velocidade. O local é o de um desacato, onde um grupo de homens arrasta um outro pelo chão. A polícia já lá não está. Esteve. Viu. Retirou-se. O homem é arrastado para trás de um carro, entre os gritos de uma mulher e empurrões. A testemunha com o telemóvel é um familiar, desesperado. Escondido da vista, o grupo agride e depois, com um tiro, mata o homem que implora no chão. A polícia já está longe. Soube-se depois que o vídeo retrata o grupo de El Chapo a executar um membro dos rivais Los Zetas, em 2011. Só agora foi divulgado por uma organização clandestina e secreta de jornalistas, os Reporteros Asociados de Sinaloa. A polícia investigou agora e, perante a exposição viral do vídeo, não pode ignorar o que ignorou há 5 anos. Em menos de uma semana a investigação concluiu que foram os polícias que identificaram a vítima na rua e chamaram os assassinos, abandonado então o local. Seis deles estão presos, acusados de homicídio e conivência. Um deles é o xerife.

Mas por que motivo este vídeo se destaca de tantos outros que correm a net com semelhantes actos, especialmente num país como o México, onde a guerra de cartéis de droga já provocou mais de 150.000 mortos? Por que motivo deu já origem a movimentos de indignação, partilhas nas redes sociais, protestos nas ruas e uma investigação rápida e certeira das autoridades? Porquê esta vítima entre 150.000?

A resposta é simples. O efeito viral fez com que ele chegasse a nós através de múltiplos canais, fazendo com que não o pudéssemos ignorar. Impôs-se. Desviamos o olhar, mas ele lá estava, no Twitter, no Facebook, no Jornal das 9. Como o Charlie Hebdo, os atentados de Paris, a foto de Alan Kurdi, o rapaz Sírio que morreu nas praias da Europa grega. O choque. O terror. Não deixando desviar o olhar.

Ora, há muito que sabemos que a media (incluindo a social, como o Facebook e o Twitter) vive de alimentar as emoções dos destinatários da mensagem. Todas as emoções, boas e más. O carinho pelos gatinhos, tal como o horror pelas decapitações do DAESH. Quando os criadores da mensagem são igualmente os destinatários e não há um editor intermediário (como num órgão de informação tradicional), o editor passa a ser cada um de nós, sem filtros. E por isso, o medo de um repercute-se e espalha-se como um virus (por isso de maneira viral), alimentando-se do medo de outros. O horror de um faz ricochete na indignação de outros. Cresce a onda viral, que contamina tudo, à medida que partilhamos e lhe damos força, à medida que contaminamos os que estão na nossa lista de amigos. Todas as semanas há uma imagem de horror. Todas as semanas há um vídeo, uma foto, um cadáver, um motivo de alarme, uma imagem do medo, um gatilho para a indignação.

Há hoje mais violência no mundo?

Reformulando a pergunta: matar à queima roupa um membro de um clã rival de criminosos é coisa nova? Decapitar vítimas de sequestro com uma cimitarra afiada é invenção recente? Lançar o caos e a morte numa capital europeia é acto nunca antes visto na história deste pacífico e calmo continente? Ver as autoridades serem coniventes com assassinos nunca aconteceu antes? É coisa rara? Inaudita? Que crianças morram em travessias criminosas, em embarcações impróprias, num perverso acto de tráfico humano é facto ignorado até há poucos meses? A corrupção de políticos, as fraquezas de carácter de muitas figuras públicas, os impostos por pagar e as contas nas Ilhas Caimão são coisa de hoje? Apareceram hoje? Há mais hoje do que antes?

Não.

O que acontece hoje, é que todas estar coisas e muitas mais, que nos induzem um sentido de injustiça, desordem, medo e terror (que alimentam as nossas emoções mais instintivas de sobrevivência pela anulação do outro, herança de um cérebro animal), tudo isso aparece no nosso feed. Em tempos aparecia da televisão, mas dessa nós desligávamos e mudávamos de canal. O nosso feed não. É o “alimento” que nos alimenta.

Ora, para o feed – output da media que o gera – o conteúdo é uma commodity. Uma simples mercadoria. Que nós geramos de livre vontade e a preço zero.

As emoções que adicionamos ao conteúdo que criamos têm um valor para nós. Não para a media. Geramos o conteúdo gratuitamente porque investimos emocionalmente nele. Sentimos o seu valor. Partilhamos o que nos “diz” alguma coisa e está de acordo com o que sentimos. É este investimento emocional que dá valor às commodities “medo”, “terror” e “indignação”. Comodificamos assim as emoções. Este é um fenómeno novo.

É um fenómeno novo porque nunca antes as nossas emoções tiveram um meio de alimentarem as emoções em massa de maneira tão automática e inconsciente, de modo instantâneo, ao serviço de um media que as distribui em massa.

Devemos saber, contudo, que há regras gerais que se verificam no valor das commodities. Quanto mais escassas (como o ouro, ou a platina, ou o trigo fora de estação), mais valiosas são. Quanto mais vulgares e abundantes, mais o seu valor deprecia.

Comodificar as emoções e particularmente as que são suscitadas por imagens de horror ou medo, como o crime em todo o seu detalhe, ou a miséria humana e o desespero, levará inevitavelmente à indiferença e ao adormecimento do sentimento. A partilha instintiva do “boneco” do terror é, para todos os efeitos práticos e deontológicos, a colaboração involuntária no objectivo do perpetrador do acto. A utilização até à exaustão de imagens de sangue, lágrimas, violência, injustiça, insegurança ou medo é o caminho certo para que a sua eficácia (ou seja, o valor da commodity) se reduza a nada com o passar do tempo. Por este motivo, é um acto insensato.

Insensato porquê? Porque o medo, o horror e a sensação de injustiça são os geradores da indignação, mecanismo que pode produzir a mudança. São fundamentais à dinâmico social. Ao depreciar cada uma dessas emoções, tornamo-nos, como sociedade, cada vez mais adormecidos, menos capazes de intervir e mudar. Tudo parece normal. Aceitável. Tornamo-nos manipuláveis. Ficamos vulneráveis. Aos poucos, os maiores actos de barbárie parecerão coisas normais e correntes, próprias do tempo e da natureza humana. Quando assumimos que “todos os políticos são corruptos” deixamos de ir votar e damos um golpe na democracia. Quando achamos que “todos os Muçulmanos são terroristas”, deixamos de ver o outro como ele é e passamos a vê-lo como o medo o pinta. Quando somos todos “Charlie”, ninguém é Charlie.

Por isso, da próxima vez que uma foto ou um vídeo lhe cause horror, lhe mostre a violência em close-up em carne viva, ou desumanize o outro e o torne em objecto abjecto, pense duas vezes antes de o partilhar. Pense duas vezes antes de se tornar viral. Não deixe que o feed o alimente de veneno.

A prova pode tirá-la agora: clicou na imagem com que inicia o post na esperança de ver o vídeo?

Desejo que não. Mas se o fez, já viu que não há link.

Agora a prova final: consegue não ir procurar o vídeo para o ver?

Pois eu desejo que sim…

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