Fechado para Retiro

Tenho estado estes dias em retiro espiritual com os monges beneditinos de São Domingos de Silos. A comunidade monástica de Silos é mais conhecida pela sua produção discográfica de Canto Gregoriano, tendo mesmo chegado aos mais altos lugares dos tops de vendas há una anos.

Sinceramente já estava a precisar de uma pausa. O ano de 2011 avizinha-se cheio de actividades e – assim o espero – êxitos. O ano de 2010 teve os seus momentos baixos (a inesperada partida da minha mãe terá sido o mais difícil), embora me proporcionasse alguns momentos altos, como as ordenações eclesiásticas em Fevereiro, o publicação do “Maçonaria Desvendada” em Maio e a criação do Instituto Hermético logo de seguida. Já para não falar no inesquecível momento que foi ver no Nassau Coliseum o espectáculo “The Wall” baseado no obra homónima dos Pink Floyd, que tanto me influenciou pessoalmente há tantos anos atrás. Quando Roger Waters passar por Lisboa em Março serei mais específico.

Precisava de uma pausa, é verdade. Deste modo estou a apreciar muitíssimo estes dias em São Domingos de Silos. De um momento para o outro não há carro, não há televisão, não há telefone, não há internet (faço este post durante um raro momento em que sou obrigado a ver os emails profissionais, momento que não toma mais que 10 minutos). O resto do tempo é pautado pela vida monástica. Silêncio total. Diálogo interior até se esgotar num foi de silêncio sagarado. Pouco antes das 6 da manhã ouve-se algum raro barulho distante. São os irmãos que se levantam antes do raiar do sol. Alguns passos apressados ecoam no cláustro do século XVIII, em direcção às escadas que levam ao cláustro do século XI, lugar ainda hoje de repouso de São Domingos de Silos, monge que por aqui assentou em 1041. O frio gélido do ar de Janeiro condensa a respiração dos monges, nos seus hábitos negros, como sombras na noite. Estão sete graus negativos. Amanhã a temperatura baixa ainda mais um pouco. Até os pássaros que habitam o velho cipreste do cláustro se mantêm em silêncio, aninhados entre eles. Às 6 em ponto a basílica cobra vida quando a voz grave de um dos monges dá o tom para o cântico invocatório. “Deus, vem em meu auxílio”, clamam as vozes em bruxuleante e trémulo latim, prosseguindo a sua prece num estilo gregoriano muito puro e indutor de uma espiritualidade elevada. São as Vigílias, cantadas antes do nascer do sol. Pelas 7.30 o colectivo monástico, agora já regressado de um momento de recolhimento e higiene pessoal nas celas, volta à basílica para as Laudas, agradecendo o dia novo que se abre à sua frente. Ao passar pelo cláustro velho a excitação enorme dos pássaros do cipreste não deixa ouvir os passos dos monges no chão milenar. O dia será dedicado ao serviço do Senhor e das boas obras. O cêntico em cada hora litúrgica canónoca torna o propósito ainda mais decidido e sublimemente altruista. Pelas 8h tomamos o pequeno almoço em silêncio. Burgos produz um queijo de sabor único e o repasto, simples, mas adequado, é bem recebido. Às 9h a hora Tercia é cantada com a Eucaristia. Impressiona a reverência dos monges ao altar, bem como a forma como as vozes em perfeita harmonia cortam o venerando silêncio. Dada a comunhão, é hora de se fazerem as tarefas do dia. Alguns irmãos iniciam a manutenção e limpeza do espaço monástico, outros perdem-se na biblioteca (são 150.000 volumes…), outros dirigem-se à horta comunitária. Eu regresso à minha cela com o companheiro de viagem que está comigo. As celas são individuais, simples, sem grandes luxos, mas confortáveis e funcionais. Têm aquecimento e casa de banho privada em cada uma. Para mim é tempo de estudo e trabalho interior. Os sinos tocam às 13.30h. Já me tinha esquecido como o som dos sinos me faz ficar nostalgico. De quê, não sei dizer. Mas a minha mente é transportada para um comprimento de onda muito bem marcado, que me é familiar, mas ao mesmo tempo temporalmente distante. Os sinos chamam a comunidade à basílica. É a hora Sexta, que precede o almoço. Os monges comeram à parte, num refeitório contíguo à cozinha. Ouve-se uma voz que suspende o silêncio. Um irmão lê passagens que me parecem do Evangelho enquanto os outros disfrutam da refeição. No nosso refeitório o silêncio é total. Só o ocasional toque de talheres na louça ou um copo que se pousa na mesa de madeira, mais do que cortar o silêncio, parecem sublinhá-lo ainda mais. A fruta de sobremesa é da horta e é excelente. Regressamos às celas. Eu aproveito para dormir uma curta sesta. Dali a pouco, às 4h, canta-se a hora Nona, o que deixa um pouco da tarde livre para mais estudo e introspecção antes das Vésperas, às 19h. Hoje foi dia de São Sebastião, titular da igreja de Silos. As Vésperas foram-lhe dedicadas. “Sebastiani Martyris almi patroni, supplices diem sacrátum vocibis canámus omnes débitis”. A Benção do Santíssimo Sacramento é particularmente bela e comovente. O coro canta um irrepreensível “Martir Egrégia”, que perdura na minha memória em infinito eco angélico. “O Senhor revestiu-o com um manto de glória” – dizem – “E sobre a sua cabeça colocou a coroa de vencedor”. Retirámo-nos para as celas depois de uma reverencial procissão até à capela de São Domingos (de cúpula octogonal, na cripta da qual está a Sala do capítulo do templo moçárabe primitivo). Era já noite escura e fria. Os pássaros do cipreste do cláustro tinham-se calado de novo. Um jantar leve e simples seguiu-se e eu recolhi à minha cela despedindo-me do meu amigo, não assistindo às horas Completas, pelas 21.35h. Por essa hora já eu estava mergulhado em leituras iniciáticas, com papel, caneta e muitos esquemas diferentes desenhados na mesa de estudo da minha cela.

Assim têm passado os dias. Não sou um beato ou rato de sacristia. Os que me conhecem sabem-no bem. Mas devo reconhecer que há muitos méritos em poder dedicar alguns dias, ainda que poucos e limitados, ao trabalho do Sagrado sob a orientação de irmãos, como nós, no caminho e, sabemo-lo bem, possuidores de muitas das chaves iniciáticas que às vezes insistimos em procurar em vão porque simplesmente não temos um coração suficientemente humilde para admitir que a Igreja, com todos os seus defeitos e virtudes, todas as suas faltas humanas e imperfeições temporais, possui tais chaves bem à vista de todos.

Assim, caros amigos e leitores, deixo-vos, deleitado pela melodia do canto gregoriano dos irmãos de Silos. Na semana que vem, a gente fala. No dia 29 não esqueçam as Jornadas do Hernetismo e do Sagrado em Lisboa. Até lá, não me liguem, não memandem e-mails, não me digam nada. Estou ao vosso serviço o ano inteiro. Mas este semana, deixem-me estar ao serviço do Mais Alto.

Que o Grande Arquitecto do Universo vos guarde.

 _______________________________________________

Ver aqui os monges de Silos

_______________________________________________

Anúncios