Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 7 e última)

Estive agora a rever as minhas notas escritas naquela já distante noite há 11 anos, ao regressar ao hotel depois de assistir ao concerto de Roger Waters. Entre todas as anotações que  tenho estas são as que se mostram menos relevantes com o passar do tempo. Em 2000 Roger Waters estava finalmente a convencer-se que o seu público não o tinha esquecido e que o seu legado criado nos Pink Floyd não tinha sido desvirtuado por David Gilmour ao longo do final dos anos 80 e 90 pelos mais de 350 espectáculos ao vivo produzidos ao redor do mundo. A tour “In The Flesh” a que assisti era já uma versão um pouco melhorada da tour inicial que fizera quase a medo em 1999. Daí em diante, confiança retomada, iria dar muitas voltas ao mundo com outras tours em que recordou toda a sua carreira a solo, assim como os clássicos dos Pink Floyd. Passou em Portugal para 2 noites no Pavilhão Atlântico, passou mais tarde no Rock In Rio e de cada vez a complexidade se tornava maior e o impacto visual mais evidente e mais impressionante. Foi com muita alegria que ouvi do Snowy White que estaria ocupado todo o ano de 2010 na tour de “The Wall”, indubitavelmente a mais impressionante e mais avançada de todas. Pude assistir ao show em Nassau e em Lisboa (no total de 4 vezes) e cada noite teve as suas diferenças, ao ponto de Lisboa ter muitos aspectos visuais criados “on the road” no período que mediara entre Nassau (Outubro de 2010) e Lisboa (Março 2011). Algumas das imagens ficarão bem marcadas na minha mente. Uma delas é a da menina que revê o pai regressado da guerra do Iraque no meio de tantos outros encontros retratados em “Vera” e “Bring the Boys Back Home”:

Mas aquela noite de 2000 estava ainda muito longe deste êxtase visual que é “The Wall” em 2011. Alguma da tecnologia usada hoje não estava ainda presente então. E para projectar imagens com resolução suficiente para abarcar todo o palco, Waters usou uma película tão grande que tinha o dobro de largura do IMAX (já de si dupla em relação ao 70mm). A máquina de projecção parecia saída de um filme de ficção científica!

Depois de tirar algumas fotos do palco e dar uma volta pelo espaço do público, fui falar com o segurança da porta lateral que tinha de ultrapassar quando chegasse a hora de regressar à Van já no final do espectáculo. Mostrei-lhe o pass e falámos um pouco. Depois entrei e segui os sinais para o catering, que estava montado por detrás do palco. Alguns dos músicos já lá estavam. O Snowy chegou de seguida e sentámos-nos numa mesa. Ao lado estava Waters com o Jon Carin. O catering era composto de um extenso buffet de todo o tipo de comida, muito fresca e com muito bom aspecto. Havia uma secção só vegetariana, mas Waters estava a comer um prato de carne acompanhado de uma garrafa de vinho francês. Quando nos sentámos ofereceu um pouco. O Snowy não quis, porque estava a beber água (nunca bebe antes dos shows), mas eu, que acabara de provar uma coisa horrorosa chamada Mountain Dew (que pensei ser água da montanha, mas era um refrigerante detestável!), aceitei.

– Em Portugal há vinhos óptimos. – disse o Roger Waters.

– Sim. – respondi – Eu não sou grande apreciador, mas nós temos alguns dos melhores vinhos do mundo.

– É verdade. – disse ele – Eu gosto muito de vinhos franceses e todas as noites experimentamos um diferente. Este é um [honestamente não sei o que ele disse!!! Conhecia o vinho bem, falou do palato e do bouquet, mas eu, coitadinho, não acompanhei]. Mas – prosseguiu – uma vez o Mark [Fenwick (manager)] deu-me umas garrafas do Alentejo que não ficavam atrás deste que estamos a beber hoje. E sei que na região de onde vem o [vinho do] Porto também há tintos de muito respeito. Há um restaurante em Manhattan onde vou que acompanha certos pratos só com esse vinho.

Disse que sim e quando lhe ia perguntar se já foi ao Douro, ele acrescentou sem me deixar falar:

– Mas há um vinho que é muito específico. Não é nem para todos os pratos nem para todos os gostos. Não é tinto, é branco. Sei que é produzido ao longo da fronteira do norte entre Portugal e Espanha – mas o que provei era de Portugal – e era excelente servido bem fresco. Não me lembro do nome, mas era óptimo.

– Seria o Alvarinho? – perguntei

– Sim, é possível… “Alwarignou”, é possível…

– É um vinho muito particular, sim. Só se dá numa região muito pequena junto ao Rio Minho no norte de Portugal ao pé da fronteira com Espanha e do lado de Espanha há também alguma área de vinha que dá Alavarinho. Aquilo é uma zona muito especial onde o clima Atlântico ajuda a produzir o Vinho Verde, mas num espaço de poucos quilómetros quadrados há uns vales abrigados do vento, da chuva e expostos ao sol de tal modo que produzem um vinho de alta qualidade e esse é o Alvarinho. É mesmo uma zona pequena e como é a natureza que tem essas condições, não há em mais lado nenhum.

– Deve ter sido esse mesmo. Eu gosto mais de vinho tinto, mas esse vinho ficou-me no palato!

Dizendo isso bebeu o último gole do seu copo e levantou-se, desejando-nos um bom jantar e retirando-se para o seu camarim. Nesse momento sentou-se ao nosso lado Simon Sidi, Light Designer (ver aqui o site dele) [desde então tem trabalhado com P. Diddy, Maroon 5, American Idol on Tour, entre outros].

– É capaz de chover. – disse o Simon

– Não me quer parecer. – respondeu o Snowy.

– E se chover?

– Estamos preparados para tudo, por isso não há cancelamentos. – respondeu o Simon, começando a comer.

– Tocar, tocamos sempre. – confirmou o Snowy – O ano passado tivemos um show, nem me lembro onde, mas nem queiras saber! Caiu-nos uma tempestade em cima! Era uma trovoada e granizo fortíssimos. As condições não eram ideais. Estávamos a jantar e a equipa estava toda muito preocupada com o perigo que corríamos. O Andrew [Zweck] estava em contacto permanente com uma base militar que nos dava informação sobre a evolução da tempestade. Todos os pareceres técnicos é que não devíamos tocar, mas o Roger queria ir para o palco. Não ia fazer nada que fosse estúpido, claro, mas queria tocar. Era um concerto ao ar livre e aquilo estava cheio. Ele só dizia “eles vieram todos, por isso temos de tocar!” Uma meia hora antes da hora marcada para o início,  a chuva parou. Os parques de estacionamento eram em terra, por isso aquilo devia ser um lamaçal lá fora. Mas o estádio estava cheio. À hora marcada entrámos em palco e começámos com o “In the Flesh”. Loucura total, um público muito ruidoso e cheio de entusiasmo e nem tínhamos chegado ao chorus quando começou a cair tanta chuva que não se via o público e as luzes de frente pareciam sólidos cónicos. O Roger olhava para nós e nós para ele. Lá continuámos, mas quanto mais tocávamos, mais chuva caía e a trovoada estava em cima de nós!

– Agora imagina o que estávamos a passar na mesa  de som e luz! O risco para o equipamento era enorme. E mesmo os músicos, não sei… – disse o Simon.

– Só sei que a dada altura voltou o granizo e aí veio o pessoal técnico e tivemos mesmo de parar. – continuou o Snowy. – Tínhamos estado em palco pouco mais de 5 minutos…

– E ficou-se por aí? O que é que fizeram?

– Tivemos de ficar à espera que a chuva passasse.

– A sério? Foram uns 15 minutos, não?

– Estás a brincar, Luis? Foram mais de 2 horas! – disse o Snowy – Foi de tal modo que o Roger chegou a ir ao palco falar com os espectadores quando, ao fim aí de 1 hora o Stage Manager nos veio dizer que o público ainda lá estava todo e ninguém tinha arredado pé. À chuva! Por isso o Roger foi ao palco e disse bem alto que íamos tocar desse por onde desse. A multidão ficou louca! Chovia como na selva e o Roger gritava: “não saímos daqui sem ter tocado o concerto completo, nem que estejamos aqui o resto da noite! Vocês têm algum sítio para ir? Eu também não!!!” Aquilo impressionou-nos [à banda], que estávamos à entrada do palco. Não só a atitude do Roger, porque já vi artistas cancelarem concertos porque o camarim era de cor diferente à que se tinha pedido, mas também porque ao fim de tantos anos na música já vi muito público a sair ou nem aparecer só porque está uma chuvinha miudinha.

– Desligámos parte do equipamento e passadas umas duas horas, a chuva parou. – completou o Simon. – Quando a banda voltou ao palco o público estava eufórico! A banda nessa noite foi excepcional. Foi uma noite especial, Snowy. Inesquecível.

– Sim, mas hoje não vai chover. – manteve o Snowy, levantando-se e despedindo-se até mais logo, não sem antes me lembrar que tenho mesmo de estar no back-stage ainda durante a última música, senão a banda sai do palco directamente para a Van e deixam-me para trás!

Conversei um pouco com o Simon Sidi sobre o design de luz. Contou-me que o próprio Waters se envolveu em cada passo do design, explicando que tipo de ambiente queria para cada canção. A maior parte dos efeitos e cambiantes é programada e tudo é disparado automaticamente desde a mesa central. Mas mesmo assim ele tem alguma liberdade com alguns efeitos e em alguns momentos. Depois convidou-me para assistir ao espectáculo desde a mesa de luz (ao centro, numa “ilha” no meio do público onde está também a mesa de som, ou seja, na confluência do som quadrifónico). No meio de tanta sorte, mais uma cereja para colocar no bolo! Agora tinha o melhor lugar do concerto!

E assim foi. Não preciso explicar como o som dos clássicos de “Dark Side of the Moon”, “Wish You Were Here” e “Animals” me impressionaram ouvidos e vistos desde ali, ao vivo. O som era perfeito, a qualidade dos músicos em palco irrepreensível. Uma das sensações que é inesquecível é poder aproveitar o intervalo para entrar no back-stage e ir ter com os músicos para lhes dizer como estamos a apreciar o show do nosso lado do palco. O Roger riu-se quando lhe disse, num dos corredores, que tinha sido nomeado por todos os espectadores para lhe vir dar os parabéns pela primeira parte tão bem “jogada” (played). Também tive oportunidade de falar um pouco com o Doyle sobre a forma como ele recriava com o seu próprio estilo as partes do David Gilmour.

Adorei a segunda parte ainda mais que a primeira. A consola de luzes à minha frente ia mostrando o alinhamento e as canções que se seguiam, antecipando o prazer de as ouvir à medida que a banda as tocava. Eu sabia que a última seria “Each Small Candle”, por isso quando a vi aparecer na consola soube que estaríamos perto do fim e que teria de correr para os bastidores para me juntar à banda. Em encore tocaram “Comfortably Numb” que termina com um espectacular duelo de guitarras entre Doyle e Snowy, que deixou toda a gente arrepiada com a forma rasgada como o primeiro toca e o modo melodioso como o segundo nos toca. Do melhor!

Aos primeiros sons dos aplausos em pé da multidão corri para os bastidores e assisti à última canção junto à mesa de som de palco, onde estava também o Mel Collins. “Each Small Candle” é uma canção que não envergonharia nenhum Maçon. Eu ainda não a conhecia e pouco consegui ouvir, pois dali só apanhava o som dos monitores das cantoras e via numa perspectiva muito lateral a letra (fundamental para a compreensão da canção) que estava projectada de lado a lado no palco, entre arame farpado e sangue. Termino este post com o vídeo de “Each Small Candle” gravado dias antes nessa mesma tour. Mais uma vez grande guitarra de Doyle e Snowy.

Ainda o público estava de pé em aplauso e já nós corríamos para as Vans e, escoltados por batedores da polícia de Chicago, abríamos caminho na auto-estrada a caminho da cidade. Pelo canto do olho vi o World Theatre ainda escuro e apenas com iluminação do palco, com a multidão a aplaudir uma banda que já lá não estava, entre o fumo que subia ao céu estrelado daquela noite onde – tal como dizia o Snowy – não choveu.

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“Each Small Candle

Not the torturer will scare me
Nor the body’s final fall
Nor the barrels of death’s rifles
Nor the shadows on the wall
Nor the night when to the ground
The last dim star of pain, is held
But the blind indifference
Of a merciless unfeeling world

Lying in the burnt out shell
Of some Albanian farm
An old Babushka
Holds a crying baby in her arms
A soldier from the other side
A man of heart and pride
Breaks ranks, lays down his rifle
And kneels by her side

He binds her wounds
He gives her food
And calms the crying child
She gives him absolution then
Across the great divide
He picks his way back through the broken
China of her life
And there at the kerb
The samaritan Serb turns..
Turns and waves.. goodbye

And each small candle
Each small candle
Lights a corner of the dark…
Lights a corner of the dark
Each small candle
Each small candle
Lights a corner of the dark
Lights a corner of the dark

Each small candle lights a corner of the dark
When the wheel of pain stops turning
And the branding iron stops burning
When the children can be children
When the desperados weaken
When the sea rolls into greet them
When the natural law of science
Greets the humble and the mighty
And the billion candles burning
Lights the dark side of every human mind

And each small candle
Lights a corner of the dark…

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by: Roger Waters”

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Tradução livre (não me batam, por favor, é só ilustrativo):

“Não é a tortura que me amedronta
Nem é a queda fatal de um corpo
Nem o mortal cano de espingarda
Nem na parede, as escuras sombras
Nem a noite em que seja esmagada na terra
A última e penal estrela enfraquecida
Mas [o que me amedronta] é a cega indiferença
De um mundo sem misericórdia e que não sente

Deitada nos escombros
De uma quinta agrícola Albanesa
Uma velha Babushka [avó]
Segura um bebé que chora em seus braços.
Um soldado do inimigo
Homem de coração e orgulho
Rompe fileiras e baixa a espingarda
Para se ajoelhar a seu lado.

Dá-lhe água
Trata-lhe as feridas
Dá-lhe comida
E acalma a criança que chora.
Ela então dá-lhe a absolvição
Através do grande abismo.
Ele regressa a si mesmo
Através dos estilhaços da vida dela.
E ali, junto à calçada,
O Sérvio samaritano vira-se e acena
Acena… adeus.

E cada pequena vela
Ilumina um canto das trevas

Quanto a Roda de Dor deixar de rodar
E o ferro que marca deixar de queimar
E as crianças possam ser crianças
Quando os bandidos enfraquecerem
E a maré venha para os levar
E a lei natural da ciência
Sorria por igual ao humilde e ao poderoso
E os milhões de velas acesas
Iluminem o lado negro de cada mente humana
Cada pequena vela Iluminará um canto das trevas.”

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Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 6)

Parte 6

É muito confuso quando se chega pela primeira vez ao backstage de um novo estádio ou arena. Entra-se para um primeiro corredor e estamos logo perdidos. Todas as noites é diferente. Hoje o palco está à nossa direita, amanhã pode estar à esquerda ou mesmo por cima de nós. O staff coordenado pelo Tour Manager assinala as direcções do dia. As paredes estão cheias de papeis coloridos que apontam as diversas direcções: “Dressing Rooms”, “Production Office”, “Catering”, “Stage”, etc. Só precisamos seguir as cores. E não é tão fácil como parece!

Fui com o Snowy White aos vestiários deixar as coisas dele (assim como o meu casaco). Havia duas salas anexas, uma para os homens e outra para as cantoras. Era um espaço muito amplo, com sofás a toda a volta e uma mesa de apoio à direita, com água, algumas sanduíches, rebuçados, chocolates e refrigerantes. Não vi nem bebidas alcoólicas nem cinzeiros (o Snowy disse-me que uma das coisas boas desta banda é que ninguém fuma!). Havia também um teclado com head-phones – não me perguntem porquê. O Snowy largou as coisas dele ali mesmo e fomos à procura do Production Office para me arranjar um bilhete e o backstage pass. Disse-lhe que não precisava de me sentar à frente (é impossível estar mais “dentro” do espectáculo do que isto!), mas que gostaria de estar central, se possível perto da mesa de mistura (Front Of House, ou FOH como é chamada na linguagem técnica, já que há uma outra mesa que faz o som de palco para cada músico). Cada um dos músicos da banda tem direito a 2 bilhetes todas as noites e como na maior parte das cidades não os usam, se um deles tiver vários convidados, os músicos trocam os bilhetes entre eles. Quanto a backstage passes, há vários níveis de acesso. O mais restrito é o que permite um meet-and-greet, ou seja, encontrar o artista numa das portas e falar ali com ele. Há depois o acesso de intervalo ou de final de espectáculo, que permite ir aos corredores do backstage, mas nada mais. O mais amplamente aberto é o Access All Areas, que só está disponível para os músicos e um número muito limitado de membros da equipa. Uma das áreas mais restritas é, evidentemente, o palco. Tudo está já montado no palco e ter gente exterior à produção a rondar e potencialmente fazer estragos é muito sério num espectáculo daquela dimensão. Mas o Snowy deu-me precisamente um Access All Areas, registando-me como seu manager e produtor (que eu só viria a ser dali a um ano mais ou menos). Tinha assim acesso a todos os lados, incluindo catering, Dressing Room e palco.

Quanto ao lugar sentado, havia um perfeito, mas no meio de uma fila, que tive de recusar. É que para voltar para o Hotel com a banda tinha de sair do meu lugar durante o encore e correr para o backstage mesmo à boca de palco de modo a poder seguir os músicos. Não ia fazer uma fila inteira levantar-se para eu sair! Andrew [Zweck], o Tour Director, foi muito simpático e deu-me um lugar na fila NN, secção 204, mesmo atrás do FOH. Depois deram-me o Backstage Pass. Toda a gente que eu vi (à excepção do Snowy, dos músicos e do Andrew) tinham um cartão plastificado pendurado ao pescoço, com o que parecia ser um fundo escuro e um porco feito de tijolos a voar, dizendo “Roger Waters In The Flesh”. A mim deram-me um autocolante rosa com o mesmo título, mas dizendo ainda “Local Crew”, e duas bandas brancas onde escreveram com um marcador “SW Band” (ou seja “Ele está com o Snowy, da Banda”) e a data. Colei-o na minha camisa e segui o Snowy até ao palco.

Era uma sensação extraordinária entrar no palco desde dentro. Estamos tão habituados a ver o palco de frente, desde o nosso lugar, que não imaginamos como a perspectiva muda tudo. Entrámos pela direita onde estava a consola para a mistura de palco. Tudo parece falso. A madeira da passagem superior onde o Roger Waters começa o show e onde o Snowy e o Doyle fazem o seu duelo de guitarras no “Comfortably Numb”, parece pladur! Frágil e de faz-de-conta, pintada a correr de azul acinzentado, tipo nem muito bem feito nem muito cuidado (ok, ok, eu sei que aquela madeira tem muitos milhares de quilómetros às costas, mas é surpreendente porque quando as luzes se acendem aquilo tudo ganha vida!). Há uma porta mesmo ao centro do palco, por detrás da qual está o espelho rotativo montado num mecanismo hidráulico para o fazer subir e ali está, numa espécie de corredor (por onde os músicos entram e saem durante o show), entre caixas de equipamento e cabos. O palco está alcatifado a negro, mas vê-se muito bem o brilho da fita adesiva que o mantém colado definindo as margens. É um palco. Um palco de fumos e faz-de-conta. De cartolina e papel vegetal (ok, também não assim tanto, mas têm uma ideia). Contudo é confortável. É um palco mesmo muito confortável. Há uns sofás muito confortáveis do lado direito, para que as cantoras se possam sentar enquanto não cantam. Junto aos sofás há uma mesa com bebidas e toalhas lavadas. deve ser fantástico ver o show daquele ângulo! Que privilégio. É engraçado ver os efeitos e pedais que eles têm para as guitarras. Não me saiam da cabeça alguns dos músicos menos experientes com que trabalho que se sentam fascinados pelas racks de efeitos digitais que “irão substituir qualquer Wha-wha, qualquer Chorus, qualquer Delay”, e depois ver estes excepcionais guitarristas, que sabem como é que tudo soa ao vivo, para milhares de fãs, que têm de trabalhar on the road e preferem o seu velho pedal analógico e o amplificador a válvulas!

Lembro-me que o ano passado, quando ele veio tocar ao vivo a Portugal com a sua White Flames Band, eles tinham muito equipamento, embora tenhamos alugado a maioria do material localmente. Quando discutimos os efeitos dele eu disse que podíamos contratar o que ele quisesse, que só me tinha de dizer qual era a rack de pedais que preferia. ele não ajudou muito a que eu compreendesse. Só depois de muitos minutos ao telefone é que percebi as reservas dele: há anos que tem vindo a tocar com uma rack que ele mesmo fez e transformou de modo a fazer o que ele quer, por isso não há rack que a substitua e possa resultar no seu tipo de som pessoal.

– Viajamos com este equipamento todo, incluindo som e luz. – disse o Snowy – Esta é a mesa que usamos para jogar Poker durante uma das canções. E a TV que está ligada o show inteiro, com filmes antigos.

– Que filmes?

– É um filme a preto e branco sobre a 2ª guerra e depois o “2001” no segundo set.

– Pois, eu li em qualquer lado que o Roger queria usar a voz do computador Hall do “2001” e o Stanley Kubrik não autorizou.

– Isso era para “Amused to Death”, para a introdução de uma música que tocamos nesta tour. Não tiveram autorização para incluir a voz no álbum, mas o Kubrik deu a autorização mais tarde e aqui, ao vivo, usamos a voz como o Roger queria.

– Vocês vão levar isso tudo para a Europa no ano que vem?

– Se houver uma tour no ano que vem, este equipamento vai todo connosco. O palco foi concebido pelo Rogar, por isso tem uma ligação emocional muito forte com ele.

– O que queres dizer?

– Nada. Tanto quanto sei, nada está planeado de momento. Eu já te tinha dito que o Roger não vai à Ásia com esta tour, mas que quer ir à Europa. Mas parece que há alguns problemas com promotores por lá e pode ser que nunca venha a acontecer.

– Mas eles não querem o Roger Waters na Europa?

– Não é isso. Claro que querem o Roger a fazer uma tour destas, quem não quer? Não sei muito sobre os detalhes, mas parece que os promotores querem por muita pressão sobre os fãs. Já sabes, o costume – preço muito alto de bilhetes, merchandising, publicidade, etc. E o Roger não precisa disso. Ele está cansado de muitas das coisas ligadas ao negócio da música e não precisa chatear-se se não quiser.

Lembrava-me de o Roger Waters ter dito na noite anterior que não estava a tentar fazer dinheiro com a tour. Desde que não desse prejuízo ele já estava contente. Mas ele parece ser o tipo de pessoa que não gosta de ver os fãs a serem explorados. Na verdade é um pouco Roger Waters a juntar multidões pelo prazer da música e o intermediário a vendê-lo como uma coisa rara e valiosa a um preço demasiado alto para quem quer apenas desfrutar da música. Isto é um pouco a sua terapia. Durante anos Waters esteve inseguro sobre o seu legado musical. Viu como os Pink Floyd com Guilmour à cabeça enchiam estádios e ele, tocando as mesmas coisas, não conseguia esgotar uma arena dez vezes menor. Isso foi nos idos da década de 80. Mas afectou-o. E com “Amused to Death”, um álbum que será um dos mais intrigantes e interessantes que jamais escreveu, as vendas revelaram o que já suspeitava: o público estava a curtir outra coisa e não queria saber das preocupações filosóficas de Waters. Esta tour (que tinha começado por pequenas salas, a medo), veio a demonstrar que o legado estava bem entregue e que o público não ignorava “Wish You Were Here” ou “Comfortably Numb”. Uma década de insegurança entrava em processo de cura interior naquela partilha sa música de Waters com o seu público. Ver essa magia ser invadida pelos números frios e os lucros incontornáveis era uma experiência dolorosa. Ele podia bem passar o resto da vida na sua penthouse com vista sobre o Central Park a beber o melhor vinho francês. Mas estava ali, a dar o litro. E isso era, no seu entender, razão suficiente para que os intermediários no negócio tivessem respeito pelo seu desejo de fazer a oportunidade chegar a todos. Só espero que tudo se resolva. Gostava de ver Waters em Lisboa.

– Então, onde está a tua guitarra? – perguntei ao Snowy, tentando mudar o assunto, sabendo que ele nunca está muito longe da sua amada Gibson Les Paul Goldtop de ’54. Nunca a deixa sozinha a não ser com os técnicos da tour e é a guitarra com que tem tocado desde os anos 70 (incluindo em “Animals” e “The Wall” dos Pink Floyd).

– Está ali. Eu toco do lado esquerdo do palco, em frente à bateria do Graham, mesmo ao lado do Doyle.

Ali estavam as suas guitarras e as pedaleiras no chão. A do Snowy está ligada a dois amplificadores Vox AC-30 e o Doyle toca com Marshal e cabeça Yamaha. Mais próximo à TV estavam racks com outras guitarras e baixos para Roger Waters e Andy Fairweather.

– Porque é que também tocas uma guitarra PRS (Paul Reed Smith) se gostas tanto da Gibson?

– Há uma sequência onde tenho de usar o braço trémulo. É só para esse bocadinho.

O Snowy depois informou-me acerca do horário do dia. Ás 5.00 (dali a minutos) fariam o sound-check. Às 6:00 as portas da arena abriam-se e o catering estaria pronto. Depois de comermos, devo sair do backstage, encontrar o meu lugar e ver o show, que começará exactamente às 8:00. O intervalo terá por volta de 20 minutos e o show teria de acabar antes das 11:00, porque havia uma hora máxima decretada pela cidade de Chicago. “Mas não te esqueças” -disse – “Nós saímos directamente do palco para a van e dali para a baixa de Chicago com escolta policial”. Disse-me que as luzes gerais só seriam acesas já depois de termos abandonado o local, nas vans. Se eu me atrasasse um minuto que fosse, teria de encontrar outra forma de regressar ao Hotel!

O resto da banda foi entrando no palco. Preparavam-se para o sound-check. Saí do palco e fui-me sentar na primeira fila para ouvir a qualidade do som.

Roger Waters foi o primeiro a entrar em palco. Era o máximo, estar ali, no anfiteatro vazio, na primeira fila, a ver todos os preparativos para logo à noite. Em poucos minutos estavam todos no palco. O Jon Carin tirava fotos. Não havia som no PA, mas conseguia ouvi-los a afinar os instrumentos com o som de retorno em palco. Um ajudante de palco veio distribuir garrafas de água. O calor era impressionante! O Snowy atirou-me uma garrafa pelo ar, desde o seu lugar na ponta esquerda e quase não a consegui apanhar. O Waters meteu-se com ele: “Não alimentes os animais, Snowy. Isso só os encoraja!” O resto da banda riu-se. Via-se que estavam todos bem dispostos. Então aproximou-se do microfone e pude ouvir a sua voz a sair bem alto do PA: “Welcome! Obrigado por virem tantos ver o nosso show!”, eu e os poucos técnicos de serviço aplaudimos. Eles riam-se no palco.

“Vamos tocar o solo de Saxofone do ‘Money’ para o Mel”, disse o Roger. Mel Collins tinha estado a ensaiar sozinho no backstage, mas agora era a vez de entrar em palco. “Vamos começar pela 3ª barra [ou lá o que era – não me lembro que barra era]”.

E, de repente, como se fosse um milagre ou como se tivessem tirado a pausa a um CD, umas poucas barras antes do solo de “Money” foram tocadas ALTO, muito ALTO, na perfeição por todos.

Fiquei espantado com algumas coisas: tenho muitos anos de sound-cheks no lombo e sei como as canções começam nos ensaios… Mas aqui *todos*, mesmo todos, iniciaram a canção num ponto lá no meio, todos ao mesmo tempo, com se tivessem vindo a tocá-la desde o backstage! Absolutamente espantoso! E a qualidade do som era incrível. Ouvi centenas de vezes “Money” num velho gira-discos ainda em vinil, ouvi em cassete e em CD e mesmo em Superaudio CD. Mas aquilo era o máximo! A qualidade, a definição das várias frequências a distinção clara entre cada instrumento que se desenrolava à minha frente era de eriçar os cabelos a um maníaco pelo som como eu. Fantástico! E logo o Mel entrou no seu solo a rasgar. Fabuloso! É difícil explicar, mas era como ter visto o “2001 – Odisseia no Espaço” num pequeno écran a preto e branco e de repente, sem aviso, rebentar em full HD, a 3 dimensões à minha frente! Era isso. O som tinha uma qualidade HD. Era alto. Muito alto. Mas ao mesmo tempo era tão puro que se conseguia ouvir uma bomba a cair no chão no palco (desculpem… quero dizer um alfinete cair em palco…). Tinha que experimentar o som de outros lugares no anfiteatro. E assim, enquanto a banda voltava ao mesmo ponto na canção e o Mel voltava a rasgar no seu solo (mais tarde ele disse que estava a ter dificuldades na entrada no ponto certo. A sério, Mel??? Quem diria!), saí do meu lugar e fui para o lado esquerdo (bem longe da simetria do stereo), muito mais lá atrás. Estava eu a caminhar para lá, de costas para o palco, quando o solo acabou e a banda parou. Nisto disse o Roger Waters “Hey! Lá se vai o nosso público! Mel, tens de fazer melhor da próxima vez.” Riram todos. “Again!” – gritou Roger e voltaram ao mesmo ponto da canção.

Eu estava agora do lado esquerdo, em frente ao Snowy, a uma distância grande do palco. Mas o som era igualmente fantástico! Fui então para o lado direito (aí pelas filas QQ). Neste ponto eles estavam a ensaiar o solo de Saxofone para “Set the Controls”. Era incrível. Estivesse onde estivesse o som era *PERFEITO*. Com certeza quem foi ao um espectáculo do Roger Waters terá tido a mesma experiência. Em muitos espectáculos acontece aquele problema: se estamos mais para um lado ou muito fora do eixo da mesa de som, perde-se quase tudo, nomeadamente as vozes e as subtilezas instrumentais. No ano passado estive num concerto dos Deep Purple onde estava à frente do Glenn Hugues e não conseguia ouvir os solos de teclas do Jon Lord do outro lado do palco. Nessa altura cheguei-me uns metros para o lado direito e lá estava o som que eu tinha estado a perder. Mas não é assim com o Roger Waters. O som estava perfeito em todo o lado do anfiteatro.

Depois tocaram um pouco de “Dogs” e terminaram o sound-check com “In The Flesh” (era evidente que o concerto ia ser em grande!!!). Subi ao palco enquanto eles colocavam as guitarras nos suportes. Waters sorria e Carin continuava a tirar fotografias.

“Ok, Luis, está na hora de descansar um pouco”, disse o Snowy. “Podes passear por onde quiseres, eu vou à sala de massagens e encontramo-nos no catering daqui a a meia hora.”

“OK, Snowy”, e lá fui explorar o backstage e tirar algumas fotos.

(segue na Parte 7 – e última)

Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 5)

A Van estava estacionada à frente do Hotel. Era a noite anterior ao concerto e tínhamos acabado de regressar do Clube de Blues. Antes de sair da Van, Roger disse ao condutor:

– Jack [nome fictício].

– Yes, sir.

– É você que nos vai levar ao show amanhã?

– Não sei, sir.

– O que quer dizer? Não sabe?

– Bem, sir, haverá duas Vans amanhã e eu ainda não fui designado para nenhuma delas pelo meu supervisor. Não sei se amanhã vou conduzir esta Van, a outra Van ou se a empresa tem outros planos para mim amanhã, sir.

– Mas você quer levar-nos ao show? Nós podemos tratar disso.

– Não sei, sir.

– Podia ver o espectáculo enquanto esperava para nos trazer de volta. Gostava que fosse assim?

Silêncio… O condutor não sabia o que fazer. CLARO QUE ESTAVA MORTINHO PARA VER O CONCERTO!!!!!

– Não posso ser eu a decidir, sir. Não posso ser o vosso condutor sem uma ordem do meu superior, sir.

– Bem, mas gostava de ir? Podemos tratar disso.

– Se o deixar satisfeito, Mr. Waters, eu gostava de o levar e ver o concerto.

– Então está decidido. Até amanhã, Jack. Por favor, Mark, telefona ao Andrew [Zweck] e diz-lhe que acerte as coisas.

– Goodnight Mr. Waters.

– Goodnight Jack.

No dia seguinte eu estava no hotel deles às 12:00 em ponto. O Snowy desceu e fomos dar uma volta. “Há uma loja de computadores ao virar da esquina” – disse ele, “Queres lá ir?”. “Sim, claro.” – disse eu. Lá fomos. Era uma loja da Comp USA. Demos uma vista de olhos. Ele estava mais interessado em software para o iMac (ele tem um) e eu fui até à secção de PC da loja. “A Pat (P.P. Arnold) tem um laptop iMac, sabes? É com ele que ela se liga à net. Outros na banda andam com os seus laptops para todo o lado.” Pouco depois saímos à procura de um café.

– Vou dar um espectáculo em Nova Iorque daqui a uns dias. Nós voamos para lá amanhã, o concerto do Roger é na Terça e na Quinta [no Madisson Square Garden] e na Quarta eu toco no novo clube do B.B. King. – disse o Snowy.

– Tocas com quem?

– Toco com a minha banda, os White Flames. O meu pessoal está agora a voar da Holanda. Devem estar no ar precisamente agora. Só não estou muito certo se temos tempo para ensaiar.

– Porquê?

– Não temos tempo. Já não tocamos o nosso material desde Setembro do ano passado.

– De certeza que vocês acertam logo. O Juan [von Emmerloot, baterista] e o Walter [Latupeirissa – baixista] são muito bons. É num instante que entram no espírito das canções. O Roger vai lá estar?

– É provável que esteja, se não estiver cansado. O concerto de Nova Iorque vai ser em grande, Luis. Vamos lá estar cinco dias e todo o tipo de pessoas vão voar de todos os lados para ir ao concerto. Há executivos da companhia discográfica, amigos do Roger, sei lá! Ele pode estar cansado. Mas tenho a certeza que alguns dos colegas da banda irão. O Doyle vai de certeza. Vai ser divertido.

E continuou a falar do seu show no Clube do B.B. King. Como foi organizado, detalhes sobre a produção, a promoção, etc. Eu gosto do Snowy. Ou melhor, eu gosto muito do Snowy. Desde que era puto e coleccionava tudo o que era Pink Floyd que descobri este guitarrista num álbum a solo do teclista Richard Wright. Depois numas férias descobri dois álbuns dele mesmo numa discoteca do Porto, no velhinho Centro Comercial Brasília. Fiquei siderado com “Bird of Paradise”, uma das minhas canções preferidas da minha juventude. Snowy tinha acompanhado Pink Floyd como guitarrista de apoio desde 1977 (álbum Animals) e estivera nos shows originais de The Wall. Depois passou algum tempo com os Thin Lizzy de Phil Lynnot e passou a uma carreira a solo. Perdi-lhe o rasto pelos idos de 1986. Até que em 199o o vejo no concerto de Roger Waters em Berlim, pontificando os melhores solos à Floyd do espectáculo.

Snowy White durante o “The Wall – Live in Berlin”

Grande solo de Snowy White durante “Nobody Home” em Berlim. Uma das minhas canções preferidas de Roger Waters.

Foi uma redescoberta! Sempre gostei muito da música de Snowy White e do modo como toca a sua guitarra. Nunca pensei vir a ser seu produtor. Nunca sonhei sequer poder ser seu amigo. A vida guarda-nos surpresas incríveis!

– Não te desejo sorte para o concerto, Snowy. – disse-lhe – Desejo apenas que os fans Americanos dos Pink Floyd descubram o show e possam desfrutar da tua música tal como a desfrutamos na Europa.

Já era a hora do almoço e nós tínhamos andado mais do que esperávamos para encontrar uma esplanada ou um café. “Porque é que não vamos ao restaurante onde estivemos ontem à noite?” – perguntei. Assim o fizemos. O restaurante estava convenientemente localizado ao voltar da esquina do hotel onde a banda estava. Tomámos uma sanduíche e muita água gelada. Estava muito calor em Chicago. Eu diria que bem perto dos 40º. Estava tão quente e eu já tinha suado tanto que decidi voltar ao meu hotel e tomar um duche antes de irmos para o espectáculo.

– Tens de estar de volta às 3:30. – disse o Snowy. – Se chegares tarde já nos teremos ido embora!

– Lá estarei! – alguma vez ia perder esta boleia???

Ora, depois de um duche rápido lá estava eu de volta ao hotel deles. Liguei ao Snowy e ele desceu, pronto a ir para o espectáculo. Fomos até ao bar esperar pelos outros, onde conversámos um pouco.

– Sabes – disse ele – Temos usado um saxofonista diferente em cada cidade para tocar “Money”. Em geral convidamos um músico local e é muito divertido. Mas desta vez vais poder conhecer um tipo que já andou em tourné com o Roger no passado.

– Quem?

– Mel Collins. Já ouviste falar dele?

– Sim, claro! Era ele que tocava saxofone na tourné de “Pros and Cons of Hitchiking”, e tocou com gente como os Alan Parsons, Camel e King Crimson.

– É isso mesmo. Ora, ele chegou de avião, vai tocar hoje e em todas as noites até ao final da tourné. Vai ser divertido vê-lo outra vez. Agora vive na Alemanha.

– Ai sim? O que é que aconteceu ao outro saxofonista dos Floyd do Dave [Pink Floyd sem Roger Waters, que gravaram e tocaram ao vivo entre 1988 e 1996], com quem eles tocavam há uns anos?

– Estás a falar do gajo que gravou os solos originais do “Dark Side”?

– Sim, foi ele, não foi?

– Esse é o Dick Parry. Andou em tourné com o David, sim. Eu conheço-o há muitos anos. Quando fui contratado pelos Pink Floyd para a tour do “Animals” ele era o outro músico contratado. Tocava material do “Dark Side of the Moon” e do “wish You Were Here”. Era muito bom e um tipo impecável como pessoa. Mas logo que terminou a tour os Pink Floyd começaram a trabalhar no “The Wall” e o Dick nunca mais tocou depois disso. Quando o David Gilmour lhe ligou há uns anos o Dick estava a viver na Escócia e já nem tocava saxofone! Mas lá acabou por se juntar à última tour dos Pink Floyd ao lado do David.

– Eu vi esses espectáculos e gostei muito. Não sou aquele tipo de fans que se preocupe muito em saber “which one is Pink”. Gosto de muitas das coisas que o Gilmour escreve e gosto de muitas das coisas que o Roger escreve. No final de contas, o que importa é o prazer que a música te dá.

Nesse instante Katie Kissoon entrou no bar. Snowy fez as apresentações: “Este é o Luis, veio de Portugal ver o show. Ele é Produtor.” Ela foi simpática e sorriu. Dei-lhe um aperto de mão.

– Então, Snowy, onde é que andaram ontem à noite? – perguntou ela.

– Fomos ao Clube do Buddy Guy com o Roger.

– E então, gostaram?

– Sim, foi divertido. – disse eu – Havia uma banda interessante, um tipo chamado Harris qualquer coisa.

– Eram uma banda tão simplória… – disse o Snowy – O Roger adorou e foi falar com eles no fim e tudo. Falou com o manager deles e com praticamente todos os que se aproximaram da nossa mesa a pedir autógrafos. Eu estava a dizer aqui ao Luis que ele está muito mais aberto ao contacto humanos hoje em dia.

O Mike (segurança que acompanha sempre Roger Waters) entrou no bar e estava a ouvir a nossa conversa. A dada altura contou-nos como o Buddy Guy é um artista muito divertido como pessoa. Disse que trabalhou com ele em alguns shows e que uma vez ele lá estava a tocar as suas coisas, aquilo que mais gostava, mas o público estava a ficar aborrecido. Então ele pegou no micro e anunciou que iria tocar Rock & Roll. Logo na primeira canção o público já estava quente outra vez, aos gritos e a aplaudir. Foi aí que ele contou uma história divertida e colorida e voltou a tocar as músicas que lhe davam gozo! Rimo-nos todos.

– Pessoal, a Van está lá fora, temos de ir. – disse o Trip entrando no Bar. Saímos. Havia uma azáfama no pequeno lobby. Sentia-se a excitação e a antecipação do momento. Estávamos prestes a entrar na viagem de ida para mais um grande show de Roger Waters. Logo ali fui apresentado ao Mell Collins que descia do seu quarto. Estava muito contente. Podia ver-se um brilho de felicidade nos olhos. Sorria, dava gargalhadas espontâneas e saudava com um gesto cada um dos membros da equipa. Graham [Broad, o baterista] também estava no lobby com a sua esposa que também tinha chegado a Chicago naquela manhã. Logo de seguida apareceu o Jon Carin [teclista]. O Snowy apresentou-nos e ele sorriu de modo muito simpático enquanto saíamos para o passeio à frente do hotel onde estavam as Vans à nossa espera. Lembro-me de o ter achado mais velho quando o vi em palco com os Pink Floyd de Gilmour e em “Pulse”, mas é muito mais jovem e cheio de energia em pessoa. Já no passeio estava Doyle [Bramhall II, guitarrista] com a esposa [Susana Melvoin], junto a uma das Vans, a falar amenamente com Andy Fairweather-Low [guitarrista]. Do outro lado da rua conseguia ver um casal com uma cópia do álbum dos Pink Floyd “Is There Anybody Out There [The Wall Live]” à espera de um autógrafo. Agora não, pensei comigo. O Roger está com pressa. Se já sabem em que hotel ele está, esperam que o show acabe. O Snowy disse-me para entrar na Van da frente e assim fiz. Quando todos ocuparam os seus lugares, saímos para o show.

Na Van onde eu ia, além de mim e do condutor (o mesmo da noite passada) estavam:

Roger Waters
Snowy White
Doyle Bramhall II
Andy Wallace
PP Arnold
Susannah Melvoin
Mark Fenwick (Manager do Roger)

A caminho do show o Roger tinha alguns papeis para mostrar à banda. Começou por dar uma foto ao Snowy de um dos shows tirada por um fan e entregue ao Mike. Era uma excelente foto.

Agora vem a melhor parte. Para minha total surpresa ele fez circular entre todos (eu incluído) uma folha de papel com o print da capa do que seria o seu álbum ao vivo! Eu fiquei muito surpreendido. Não só estava a caminho de um show com o meu músico de Rock favorito, como – eu que colecciono todos os seus álbuns – tinha o privilégio de ver os detalhes da capa do próximo enquanto estava a ser feito e decidido! Era demais!

O que nos mostrou foi a frente e verso, sem letras de detalhe, só a imagem composta e o título. Era uma das imagens projectadas durante o show com arame farpado por cima (tirado das projecções de “Candle”) e um eclipse no canto. Na parte de trás havia a lista das canções com o mesmo conceito de imagem, mas com uma fotografia do Roger Waters com o seu baixo erguido no ar numa imagem de triunfo. Estava muito bom. Era moderno e tinha classe. E eu estava a vê-lo. Tinha-o nas minhas mãos. O Roger pedia opiniões à malta (incluindo-me a mim, imgine-se!…). Todos gostámos. Fiquei com os papeis mais tempo a ver cada detalhe para depois verificar se o release final seria mesmo aquele. Foi, claro.

O Andy Wallace [teclista Hammond] estava mesmo à minha frente. Era muito novo (acho que o mais novo de todos), mas muito bom músico. Eu não o sabia nesse dia, mas viria mais tarde a trabalhar com ele na pré-produção de um álbum para a P.P. Arnold. Ele virou-se para trás e perguntou à P.P. Arnold:

– Onde é que foram ontem à noite?

– Visitámos uns quantos clubes.

– Uns quantos?

– Andei a fazer Club-hopping Andy. É uma forma fantástica de conhecer gente nova e não ficamos demasiado tempo a aborrecer-nos no mesmo sítio.

– Qual foi o melhor clube onde estiveram? – perguntou o Roger. Notava-se que ele se preaparava para contar a história do Harris.

– Um lugar chamado, parece-me, B.L.U.E.S.

– Sim, há um com esse nome. – disse o Andy.

– Pois eu estive lá ontem à noite. Estava lá um gajo, não me lembro do nome dele… Era muito bom. Guitarrista!… Mama!… Muito, muito bom!

P.P. Arnold é uma das backing-vocals mais requisitadas. Já cantou para o Eric Clapton, Roger Waters e uma lista interminável de gente. Tem singles nos anos 70 ao lado de Rod Stweart, dos Faces, de Andy Gibb dos Bee-Gees, etc. Começou nestas andanças ao fugir de casa nos subúrbios de Los Angeles com 16 anos e juntar-se a Tina Turner na época em que esta cantava com Ike Turner. Foi, portanto, uma das “Ikettes”, até aterrar na Inglaterra e se deixar ficar entusiasmada pelo namorado, Mick Jagger (o Mick Jagger), que a levaria a gravar o seu maior êxito: “Angel of the Morning”. A sua carreira foi interrompida por uma série de tragédia pessoais (que incluíram a morte de um filho) e só no início dos anos 80 voltou aos palcos com a ajuda de Tina Turner, Jagger e Clapton, mantendo desde então uma longa carreira como backing-singer. Um dos pontos altos do epsectáculo de Roger Waters é o solo de P.P. Arnold na canção “Perfect Sense”.

P.P. Arnold em 1967 com o seu êxito “Angle of the Morning”. Quem não conhece?

Solo de P.P. Arnold durante a tour de Roger Waters de 2000. Insuperável. É uma das minhas canções favoritas do Waters. “It all makes perferct sense, expressed in dollars and cents, pound shillings and pence!”

– Pois nós estivemos no Clube do Buddy Guy. – disse o Roger Waters. E contou a história que já conhecemos.

– Já me lembro! – disse a P.P. Arnold – O guitarrista que eu vi era o [e disse um nome que não consegui apanhar, mas que causou alguma excitação momentânea em todos].

– Tens a certeza que era ele? – disse o Doyle.

– Sim.

– Pois olha que ele é um grande guitarrista. – disse o Doyle.

– Ele é o tipo em que estou a pensar, Doyle? – perguntou o Snowy.

– Sim. – e explicou melhor quem era, mas mesmo assim o nome dele escapou-me.

– Eu conheço-o – disse o Roger – Porque é que não vamos lá depois do show? Gostava de o ver. Mark, podes tratar disso?

O Mark ligou ao Andrew que vinha na Van atrás de nós.

– Mas se ele não estiver a tocar esta noite, vamos todos ao Legend outra vez! – disse o Rogar cheio de entusiasmo.

Estavam todos com uma excelente boa disposição antes do show. Esta é só uma pequena centelha do que foi dito na Van. O sentido geral era muito tranquilo e amigável. Ria-mo-nos muito e o Roger metia-se com toda a gente. Senti-me integrado no grupo e ao mesmo tempo com borboletas na barriga com a realização do sonho que estava a viver.

O caminho para o espectáculo era longo. Saímos pelo sul da cidade e depois de uns 40 minutos finalmente vimos o lugar do show. “O que é aquilo?” disse o Andy. Era estranho, devo admitir. Era muito estranho. Quando se via de longe, aquilo parecia uma caixa negra muito grande, mas o mais estranho é que se viam os altifalantes do lado de fora da caixa. Era muito confuso e a minha mente não conseguia imaginar a arquitectura do lugar. Estavamos a aproximar-nos por detrás, o que não facilitava a compreensão do espaço.

O condutor fez um erro e seguiu em frente quando devia ter virado à esquerda. Roger encolheu os ombros. Para regressar ao caminho certo havia que passar pelo parque de estacionamento do World Theatre, mesmo em frente a uma multidão. Alguns reconheceram a Van e acenavam para nós. Mesmo à entrada (no portão que dá acesso à área restrita) havia um grupo à espera que Roger parasse. Mas não parámos, entrámos de seguida. A Van estacionou do lado esquerdo e entrámos no Teatro pelo backstage.

(continua na parte 6)

Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 4)

Estávamos à porta do Buddy Guy’s Legend. Mike, o segurança, saiu primeiro da Van e abriu a porta do clube para nós entrarmos. Havia um cartaz a preto e branco com umas imagens estranhas da atracção da noite, alguém chamado Harris [(era Corey Harris, que esteve recentemente em Lisboa, mas que nenhum do nós conhecia)]. Pelas fotos era um músico negro, parecia ter uns 60 anos [(na verdade era mais novo)], com uma barba muito longa e uma ar estranho tipo Rastafari/Blues. Não dava bem para perceber o que podia sair dali.

Dentro do clube um segurança enorme, tipo armário de estilo Luis XV, barrou-me o caminho dizendo:

– São 4 dólares, Sir.

– Eles estão com Mr. Waters – disse um outro tipo.

Fomos imediatamente conduzidos para o espaço reservado ao lado do palco. Era uma espécie de grupo reservado de dois degraus com mesas brancas do lado direito do palco, mas quase dentro dele. Enquanto toda a sala via os artistas de frente, nós estávamos literalmente na sua perpendicular, ao seu lado. Sentei-me com Snowy White sobre o nível mais alto, Roger Waters sentou-se com Mark Fenwick, à nossa frente na parte inferior. Era impossível passar despercebido. De certeza que já havia gente a olhar para nós e a perguntar “quem é aquele gajo com Mr. Waters e o seu guitarrista?”

No palco, cantava um tipo que se parecia muito com o Tom Waits visualmente, mas que soava muito diferente. Tocava guitarra muito alto, com a clássica variação a 3 acordes. O Blues, ao vivo, em Chicago. Era uma sensação fantástica, estar sentado ali, com o Roger Waters e o Snowy White num Clube de Blues, na lendária Chicago. Senti-me ao mesmo tempo muito privilegiado e cheio de sorte. Privilegiado, porque tinha conquistado aquele lugar com trabalhado já que, de modo nenhum eu me poderia sentar ali com eles se fosse apenas mais um fã. Eu fazia parte da indústria. Era Produtor Executivo do Snowy e isso dava-me acesso. Mas também me sentia um sortudo, porque era um momento memorável. Se um dia forem a Chicago, vão querer ir a um clube de Blues com os vossos amigos. A versão de  sonho é eles serem a vossa estrela favorito do Rock e um de seus guitarristas! Quantas vezes é que isso pode acontecer? Quais os planetas que têm de estar alinhados para tornar essa fantasia uma realidade?

Pedimos algumas bebidas. Snowy ficou num Baileys. Mark foi para o whisky. O Waters pediu uma cerveja para ele e para mim. Ninguém me pediu o BI…

O tipo no palco continuou a tocar. Ele era bom. Não sabíamos bem quem era nem ele tomou atenção em nós. Era apenas o supporting act.

– Quem é esse tal Harris? – Perguntou o Roger virando a cabeça para nós entre duas músicas.

– Acho que já ouvi falar dele. – Disse o Snowy. – A expressão “Mago da guitarra” vem-me à cabeça. Talvez seja um fenómeno local ou um puto novo.

– Olha que ele não pode ser assim tão jovem, Snowy – disse eu: – Viste a foto na porta? É mais provável que seja um taxista na reforma que acabou de descobrir uma guitarra na garagem, e agora toca o Blues para ganhar a vida.

– Boa história Luis – disse Roger – e tudo isso apenas a partir de uma foto?

Uma nova canção começou. Lembro-me a olhar para a banda no palco e pensar: “Será que eles sabem que o Roger Waters, em pessoa, está aqui, a ver a actuação deles?” Olhei para o baixista. Devia ter uns 50 anos, cabelos longos com rabo de cavalo e uma barba muito bem aparada. Podia-se imaginá-lo a tocar 30 anos mais jovem em qualquer outro clube. “O gajo tem de saber quem é o Roger Waters. Até pode ser um fã, que conhece bem a obra dos Pink Floyd”, pensei.

A banda terminou seu set. Aplausos deram lugar a um intervalo. O Snowy foi à casa de banho. Aproveitei para procurar saber mais um pouco do Roger Waters.

– Então, Roger, diga-me uma coisa: quando é que o seu novo álbum estará pronto?

– Bem, já foi gravado e o James [Guthrie] está trabalhando nele agora.

– Já está todo gravado? O Snowy contou-me sobre as sessões no Estúdio Compass Point nas Bahamas e ele diz que não há ainda músicas completas, além de “Each Small Candle”.

– Ah! É dessas sessões que está a falar? Eu pensei que estavas a falar do álbum ao vivo! Esse deve sair no Outono. Sobre o outro não sei. Ainda vamos para o estúdio este ano. Vamos estar em tourné o ano todo – além disso eu gostava de tocar na Ásia antes do novo álbum. Para já é o plano e depois vamos ver. Talvez em 2001.

Mais tarde, pelo cruzamento de outras opiniões (Mark, Snowy, Doyle, etc) percebi que Roger é bastante optimista. O álbum ao vivo deve sair antes do Natal. Depois disso continua a tour, por isso é difícil ter tempo para gravar.

– Roger, você quer uma cerveja?

– Claro.

O pequeno palco à nossa frente tinha sido transformado. A primeira banda tinha arrumado o backline e o guitarrista celebrava alto com alguns amigos numa mesa. O baixista passou pelo Roger Waters a caminho de se sentar na plateia e podia-se ver que o tinha reconhecido, mas não tinha certeza se estava a sonhar ou não.

Entretanto no palco havia três tipos, mas nenhum deles parecia ser o “Harris” do cartaz. Dois deles tocava guitarra, o outro apenas um Djembé Africano (tambor). Aquilo seria Blues? Sem bateria, sem teclados, sem piano… sem baixo?

– Roger, eu acho que eles estão à sua espera para entrar no palco. – disse eu. – Não há baixista.

Ele riu-se.

– Por que é que não vais, Snowy? – Disse ele – Assim eles ficam com três guitarras como nós!

A banda foi afinando os instrumentos, todos sentados no palco. Um deles deslizava os dedos pelas cordas e afinava assim, sem fazer ruído nenhum, só pela vibração.

– Olha Mark – disse Roger – Olha como é que ele afina a guitarra! Apenas com o toque.

Eu nunca tinha visto nada assim. Uma mulher veio de um dos lados e perguntou ao Snowy se aquele era o Roger Waters. Ele disse que sim. Ela queria saber se poderia ter um autógrafo. O Snowy disse-lhe para falar com o Mike. Ela assim fez e ele deixou-a subir para o privado. Roger assinou o primeiro guardanapo da noite.

Outras pessoas percebiam agora que ele era realmente o Roger Waters. Outra menina passou por nós. Outro guardanapo assinado. Então, um tipo aproximou-se, trocou umas palavras com ele e conseguiu o seu autógrafo. Roger estava satisfeito e continuava a conversar connosco enquanto bebia a sua cerveja. Notava-se que não estava incomodado com a atenção do público. Uma coisa ele perguntou a toda a gente: “Are you going to the show tomorrow?”

– Eu não tenho nenhum autógrafo de nenhum dos artistas com quem trabalho ou que conheço, incluindo-te a ti. – disse eu ao Snowy.

– Bom para ti. – respondeu – Diz muito sobre como és, não achas? Não tens autógrafos, tens amigos.

– Pois é. Eles é que são os meus autógrafos.

Roger assinava outro guardanapo. No palco, o estranho grupo ainda estava na afinação. Um deles foi então afinar um instrumento Africano (uma espécie de guitarra muito arcaica). O baixista do primeiro grupo lá ganhou coragem e foi ter com Waters.

– Eu estive a olhar para si … Você é o Roger Waters, não é?

– Sim, sou eu. – Disse Roger com um grande sorriso.

O tipo apertou-lhe a mão e lhe deu um abraço sorrindo.

– É bom conhecê-lo. Está na cidade para um show?

– Estou. Nós tocamos amanhã no World Theatre. Você quer vir?

– Porra! Nós voamos daqui hoje à noite! Eu adorava ver seu show. Ouça, você acha que podia fazer-me um favor?

– Sim, diga.

– Importava-se de assinar o meu baixo?

– Claro que não. Dê-mo.

O gajo nem podia acreditar! O Roger Waters estava a assinar o seu baixo!

– O Roger está muito mais aberto hoje em dia. – Disse o Snowy – Isto seria impossível um par de anos atrás.

– Eu acho que ele está feliz e relaxado com a tour – disse eu.

– Acho que tens razão.

O Waters voltou para a nossa mesa, sorrindo.

– Eles não vão estar em Chicago amanhã. – Disse ele.

– Precisa de mais guardanapos, Mr. Waters? – disse eu sorrindo como um idiota.

Ele riu.

Os músicos no palco estavam agora a experimentar uma gaita de beiços. Já nos estavam a fazer nervos. Estavam já há muito tempo a preparar-se e a afinar instrumentos, mas por enquanto nada de música. Então, sem aviso, o tipo do lado esquerdo gritou qualquer coisa como “Don’t leave me babe !!!!!!” em estilo “bluezy”, arranhando a guitarra. Os outros seguiram-no e entraram no “mood”. Ele é que era o Harris! Não tinha mais do que 35 anos de idade, muito diferente da foto que vi, vestido como um mendigo tirado directamente das ruas de Chicago. Não era um visual rastafari. Era mesmo de “homeless dude”. Tinha uma voz muito evocativa. Nela ouviam-se os escravos do Louisiana, um solitário negro sentado numa grade de cervejas vazia, apenas ele e a sua velha guitarra. Nenhum efeito. Nenhuma alta tecnologia. Todos os três em palco eram negros e adoptavam a mesma atitude.

A guitarra com que Harris tocou foi a que está em segundo plano nesta foto. Parece que andou na guerra…

Podíamos realmente relacionar-nos com aquela voz. Mas o som áspero da guitarra, o entorpecimento do ritmo (apenas um único tambor – sem mais nada, sem tom-tom, sem pratos, …) e o sentido geral de descoordenação faziam de tudo aquilo um estranho cocktail.

Roger ficou surpreso. Ele não sabia o que pensar a princípio. De seguida veio um solo. Como posso eu descrever o solo? O tipo estava sentado, sem se mover, fazendo o seu solo, enquanto os outros mantêm o ritmo. Mas o solo, de alguma forma, não acompanha o ritmo. Ou está sempre atrás, ou a “melodia” aparece depois do beat. Muito amador. Muito estranho. Não havia efeitos ou pedais na guitarra. Apenas um som “puro” de “lata” tocado numa guitarra acústica que parecia ter andado na guerra.

– Ele tem uma voz notável. – Roger disse após o *solo*.

– E ele é bom com a guitarra – eu disse – Não é possível falhar daquela maneira se não for de propósito!

O Snowy sorriu. Roger estava hipnotizado por aquilo tudo. A simplicidade da banda, a sua sinceridade, e o facto de que o tipo podia realmente cantar (e pouco mais) foi uma combinação que ele jamais tinha visto. O show continuou no mesmo género por mais uma meia hora. O ponto alto (que nos fez rir) veio quando o gajo se deixou levar num solo de indizível parvoíce e se levantou – mas levantou-se arrebatado pelo que lhe ia na cabeça (e não saía pelo instrumento musical!) – enquanto procurava as notas que lhe iam dentro obtendo pobres resultados, como uma criança que aprende a ler e anda à procura das letras nas frases de um livro complexo. Era vê-lo, de pé pela primeira vez, espinha arqueada para trás, cara distorcida pelo “solo” que gozava por dentro e, num espasmo, sentando-se outra vez enquanto sustinha uma nota invulgarmente correcta como que abatido pela guitarra, terminando a canção num piscar de olhos.

– Tenho de conhecer este gajo! – disse Roger – Nunca tinha visto nada igual! Isto é que é estar a cagar-se para o público. Falem-me de despretensiosismo! É notável.

E assim foi. Eu senti como se estivesse a assistir à experiência oposta à de um show de alta tecnologia de Roger Waters. Roger subiu ao palco para falar com a banda. Disse quem era, falou com o manager deles, trocaram-se contactos entre Mark e eles e convidou-os para o show no dia seguinte (a que não poderiam ir, pois estavam a tocar ali mais uma noite). Roger estava amigável e simpático com todos. Já era tarde e tivemos de ir. Já a caminho da saída, assinou a T-shirt de um tipo e outro guardanapo. De facto, privando deste modo com Roger Waters pude perceber que estava muito mudado desde o tempo em que granjeou a reputação de ser antipático mauzinho com os seus fans.

De volta à van Roger ia dizendo:

– Que voz. Realmente o gajo cantava bem. O que é que achaste, Snowy?

– Bem … Certamente, uma grande voz. – disse ele evitando falar das habilidades do guitarrista.

– E tu Luis?

– É a minha primeira vez em Chicago, e a minha primeira no Buddy Guy’s clube. E devo dizer que é uma experiência inesquecível. O tipo tinha uma voz que imediatamente podemos situar na nossa imaginação, que evoca imagens e lugares muito específicos. Neste caso as plantações do sul. Assim que o ouvimos, vemos essas imagens. Há vozes assim.

– Notável. – Disse Roger.

– Já sobre o ritmo… Não sei muito bem. Não sou músico, mas ele parecia estar a fazer tudo errado, nos lugares errados e nos momentos errados. Era assim uma coisa muito estranha e descoordenada. Pelo menos assim me pareceu.

– Ora, Luis, é isso que eu acho interessante! – Disse Roger – Imaginem só o tipo de artista que ele deve ser para estar assim è frente de uma audiência, num lugar lendário como aquele, e exercer livremente seu talento ou a falta dele. É uma afirmação artística. Um belo momento.

Roger Waters no final dos anos 60, em “Careful With That Axe, Eugene”

Por momentos vieram-me à cabeça imagens perdidas de um Roger Waters de cabelo comprido a malhar no baixo ao lado de Syd Barrett, simplesmente a cagar-se para o que o público pensava de um “Interstellar Overdrive” ou do seu grito num “Careful With That Axe Eugene” dilacerante. Na simplicidade de quem ainda dava os primeiros passos.

– Eu acho que pode estar certo. – disse eu.

Ele continuou a falar disso com o Mark. Estávamos agora a voltar para o Hotel. Quando prestei mais atenção ao que Roger dizia a Mark percebi que estavam a falar de uma coisa que interessa a todos os fans.

– É muito caro – dizia Roger – Caro como o c#$%&#$o!

– Mas é assim que eles querem, e nós não podemos fazer nada. – disse o Mark.

– O que é caro? – Perguntei.

– O preço das T-shirts no show – disse Roger. – É ridículo! Eles estão a cobrar $ 50.00USD por uma T-shirt. Conseguem imaginar?

– 50 dólares? Isso é quase 30,00 Libras! É muito caro.

– Foi isso que eu disse. É muito para um puto. Ou mesmo para um adulto, não interessa. Se pagares 15 dólares por um CD, como é que vais pagar muito mais por uma T-shirt com um logotipo? Isso deixa-me louco. Bem, na verdade nem deixa – Roger fez uma pausa – Estou-me a cagar para quanto eles cobram por uma T-shirt. Ninguém é obrigado a comprar uma nos meus shows. São opcionais. Mas já fico fodido com o preço dos bilhetes. São altos como o c#$$%&$o!!!

– Quanto é que cobram nos os EUA?

– Pode ser qualquer coisa entre $ 80.00USD e US $ 250.00USD. – Disse Mark.

– E os lugares de 80 dólares estão em lugares ridículos, sem uma visão clara do palco imagino eu.

– Claro, Luis. Recentemente o Sting teve bilhetes em algumas cidades a partir de 200 dólares. – Disse o Mark Fennwick.

– É incrível! Eu vi o Sting, há algumas semanas em Portugal e só estavam a cobrar pelo lugar mais caro num estádio cerca de 25 dólares! Mas começar nos 80 e daí para cima? Como é que as pessoas podem ir a concertos nos Estados Unidos, a estes preços?

– Nós lutàmos para reduzir os nossos preços, Luis – disse Roger – Mas eles não querem ouvir as nossas razões. Disseram que há um preço padrão e mais nada. E sabes o que responderam quando perguntei o porquê de cobrar tanto dinheiro pelo merchandizing e pelos os bilhetes?

– O quê?

– “Cobramos porque podemos”, foi o que responderam! “Because we bloody well can!”

– Dizem – acrescentou o Mark – que as pessoas esperam pagar esses preços ridículos. Por isso cobram-nos. Não estão interessados ​​nos nossos pontos de vista. Conseguimos reduzir os preços para os fãs para esta tourné, mas tivemos muito trabalho e chegámos a passar longo tempo a discutir coisas como uma simples redução de 10 dólares no preço dos bilhetes.

– Eu não quero levar para casa o dinheiro dos putos. É que já nem me importo se a Tour não der dinheiro e só recuperarmos as despesas. – disse Roger – Mas é difícil fazer as pessoas entenderem. A ganância é enorme e ninguém está satisfeito com o que já tem. Há que fazer mais. Estou contente por os nossos preços começarem onde começam e ter conseguido levar a nossa avante.

– Bem, eles falam muito dos scalpers – disse Mark – É um bom argumento e uma desculpa lógica. Se vendermos os teus bilhetes a um preço muito baixo em locais onde sabemos que podes esgotar, já sabes que os scalpers vão comprar paletes de bilhetes e fazer enormes lucros às custas dos teus fãs, Roger.

– Bullshit! “Se nós não queremos scalpers, vamos nós mesmos sugar os putos até ao tutano! Cortamos intermediários e somos nós os sanguinários! Bullshit! – Roger estava furioso.

– Eles podem ter razão, Roger – eu atrevi-me a dizer – Se calhar pode haver um meio termo.

Quase podia ouvir “Welcome to the Machine” na minha mente!

O Roger estava mesmo lixado com o facto de que são os fãs que pagam no final de contas, independentemente de ele fazer alguma coisa ou não.

– Em Nova Iorque vão haver imensos scalpers… – Disse Mark.

Roger permaneceu em silêncio e olhou para fora da janela.

Estávamos de volta ao Hotel.

(continua na parte 5)

Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 3)

Estávamos do lado de fora de um restaurante em Chicago, dentro de uma Van de vidro fosco, à espera de Roger Waters e do seu Manager. Eu estava sentado no banco do meio da fila central (a Van tem três filas de assentos, não incluindo os assentos para o motorista e ao lado dele). O guitarrista Snowy White estava comigo. Mike, o segurança, disse que íamos ao Clube Buddy Guy’s Legend, um dos mais conhecidos em Chicago.

– Roger, estamos cá fora. – disse Mike ao telemóvel. – Hummm! O.K. … Toma o teu tempo, que nós já estamos aqui. Já agora, o Snowy está com o amigo dele de Portugal que já chegou, estão os dois aqui e vão connosco ao Clube. Não… Não, Roger, eu só quero que você saiba que está tudo O.K.

Imaginem o que era o artista entrar num carro fechado e ver estranhos lá dentro. Foi preciso dizer-lhe quem ia encontrar e que não era uma pessoa de fora, mas sim “de dentro”. Um amigo do Snowy. Eu agora, para todos os efeitos, era “de dentro”. Não me podia deslumbrar. Não podia olhar para ele quando entrasse com ar de totó sem acreditar que estava a cumprir um sonho irrealizável da minha vida. Não podia sequer pedir um autógrafo, uma foto [naquela época os telemóveis não tinham máquina] ou confrontá-lo com as milhares de perguntas super nerd e detalhadas sobre a obra dele que eu conhecia em detalhe tantas vezes ouvi as suas canções! Não! Controla-te Luis! Estás na Van. É um “deles”. Comporta-te à altura!

Momentos depois, vi a silhueta inconfundível do Roger Waters a sair do restaurante acompanhado de outra pessoa. Entrou para a Van sorrindo num sorriso largo e acolhedor. Muito diferente dos sarcásticos bramidos de “The Wall”, do dilacerante choro de “Final Cut” e do selvagem grito de “Careful With That Axe Eugene”. No entanto era ele mesmo. O mesmo homem. As mesmas feições. A mesma cara. A minha primeira impressão dele ali na Van foi bastante agradável. Mais velho do que parecia na maioria das fotos que eu vi, com os cabelos rebeldes e algumas madeixas, um sorriso impecável de enorme boca larga e expressão amigável e muito simpática.

– Hi! – disse Roger Waters, apertando-me a mão de modo firme – How do you do?

– Prazer em conhecê-lo, Roger.

– Prazer em conhecê-lo a si! Esta é Mark, o meu Manager.

Cumprimentei-o. Mark Fenwick é um tipo extraordinário. Notava-se logo que era Britânico, por uma espécie de nobreza na sua pose e pela maneira como estava impecavelmente vestido. O seu sotaque não enganava (assim como o de Waters, por sinal), o que era refrescante no meio de tanta gente a falar “americano”, mas havia também algo no sorriso de Mark, algo nos seus movimentos e o modo como falava com gestos que o fazia destacar-se . Nada, absolutamente nada, como o que eu esperava ver de um Manager de Rock, e certamente não o homem que eu tinha imaginado. De facto, Mark Fenwick (vim a saber depois), é na verdade ainda mais rico do que Roger Waters. Ele é o dono da “Fenwicks” Department Store de Oxford Street em Londres, com mais umas dezenas de lojas espalhadas pela Inglaterra. Todos os anos está citado na Forbs como uma das 100 maiores fortunas inglesas. Tem o ar de um distinto business man, mais do que de um duro agente sem escrúpulos que faz exigências sobre as extravagâncias das mega-estrelas. Na sua juventude foi Manager dos Roxy Music entre outros, mas depois de herdar a fortuna e o negócio do pai retirou-se. A sua amizade com Roger é o principal motivo que o leva a deixar agora todos os outros negócios de lado e a passar umas semanas com a tour. Ambos são verdadeiros cavalheiros!

Versão mais recente da Van de vidros foscos usados pela tour

.

– Então, como está Portugal? – perguntou Waters.

– Lá estamos, no mesmo local, como de costume, com o nosso sol esplêndido a iluminar a areia e o mar.

– E tu onde vives? – Perguntou ele.

– Eu sou de Lisboa.

– O Luis veio de Portugal para ver o show. – disse o Snowy – Ele é produtor e temos trabalhado juntos ultimamente.

– Com quem é que trabalhas? – desta vez era Mark que perguntava.

– Bem, tenho trabalhado em quase toda a Europa, mas agora estou mais ligado a uns projectos com a Universal e…

– Mark, o Luis diz-me que a Universal foi vendida novamente. – disse o Snowy – O que é que sabes sobre isso?

– É verdade – disse ele – Agora, foram franceses que a compraram.

– Os franceses? – disse Waters – não foram comprados ainda há pouco tempo pela Seagram’s, aquela das bebidas?

– Sim, Roger – disse eu, aproveitando para meter conversa – Nem me faças falar disso! Tem sido muito difícil com todas as fusões e aquisições e novas políticas, novas administrações… Já sabes como é… Primeiro, eram a PolyGram, depois veio a Universal e comprou tudo e agora que nos estávamos a acostumar às práticas da casa e aos objectivos traçados, esta segunda-feira os franceses compraram tudo. Ou seja, novas políticas, novos objectivos e quase de certeza nova administração. Entretanto os projectos que andamos a gravar já nem lá têm quem inicialmente os encomendou. Logo se vê o que vai sair dali. Voilá, C’est la Vie.

Roger Waters riu-se.

– Os franceses sempre nos trataram bem. Gravámos o The Wall numa quinta perto de Nice e estivemos lá um monte de tempo. Eu gosto da zona sul.

– Pois eu não acho que os franceses vão mudar muito a sociedade. – disse o Mark. – Não, pelo menos de momento. Foi a Vivendi, um grupo de  media, que comprou a Universal. Eles já são os donos de parte da Sky na Inglaterra, mas tenho a certeza de que vão mantê-los sem fazer ondas por agora.

– Eles compraram a Universal na Europa? Só na Europa? – perguntou o Waters.

– Não – disse o Mark – compraram o lote todo. Seagrams, PolyGram, tudo!

– Mesmo a Universal Studios?

– Tudo, Roger, tudo!

Roger virou-se para nós na parte de trás e disse:

– O mundo muda a cada dia! Ei, o que é que vocês fizeram hoje?

– Estivemos a passear por aí. – disse Snowy. – Na verdade, fomos à procura do meu disco.

– E então, encontraram-no?

– Não Roger, não o encontrámos. Estivemos na Virgin, e não havia traços do meu álbum nem do álbum do Doyle. E na secção com o teu nome só encontrámos 4 exemplares do “Amused to Death”.

– Vês Mark? Apenas 4. – disse o Roger torcendo a boca. – Eles nem sabem que cá estou.

– Sabem, sabem, Roger, eles sabem. – disse Mark.

– E os teus álbuns estavam dispersos por outras secções e mal colocados. – disse eu.

– Então como estavam? Na secção do “P”?

– Estou a exagerar. Estavam em “W” de Waters, mas na verdade estavam na divisória do teu nome vários álbuns que pertenciam a outras secções e eram de outros artistas de “W”.

– Então e os meus outros álbuns? O “Pros and Cons …”, por exemplo? – inquiriu ele.

– Nem traço deles. – respondi – eu acho que para esta gente és um “one-hit-wonder”, “Amused to Death” e mais nada. Nem mesmo o ” The Wall in Berlin “. Nada. Só “Amused to Death”. E só 4 cópias.

– Eu acho que os Estados Unidos são tão grandes que deve haver um monte de pessoas que entendem os meus álbuns, e se relacionam com as letras – disse Roger.

Era a minha oportunidade!

– Eu sei que eu entendo e gosto dos teus álbuns. – disse eu – E um monte de gente que eu conheço também. Deve haver uma razão para a tua audiência ser tão ampla, desde os adolescentes aos avós. E, Roger, eu conheço gente em ambos os espectros opostos de idades e no meio que gostam do que escreves e se identificam muito. É que a tua mensagem é simples e sabes falar de questões que mexem com as pessoas.

– Seria de imaginar que haveria pelo menos… pelo menos… Não sei… Um milhão de pessoas aqui nos Estados Unidos que se relacionam com as letras e entendem “Amused to Death” – disse ele pensativo.

Concordámos todos.

Clube de Blues de Buddy Guy, onde nos dirigíamos

.

– Dizem que o meu álbum não agrada ao palato americano.

Eu não percebi a palavra.

– Desculpa, Roger, eu não entendi. Eles disseram que teu álbum o quê?

– Que não agrada ao palato. – repetiu o Mark

– E isso significa… – disse eu em tom de pergunta.

– Bem, basicamente, significa que o meu álbum é “politicamente incorrecto”. Há fatias da sociedade americana que não gostam do que eu digo. Não lhes agrada. Eu não faço baladas de amor e as minhas canções não falam dos passarinhos e das abelhas. Falam das picadas das abelhas. Dos assuntos que me preocupam. E o que me preocupa é sério e mesmo que eu faça algum humor sarcástico, aqueles que se sentem expostos pelo que digo não gostam dos meus álbuns. Sou “politicamente incorrecto”.

– Estás a bricar, não é? – disse eu – “Amused to Death” politicamente incorreto? Quem foi a mente perturbada que teve tal ideia, meu Deus! Depressa, tirem todos os álbuns subversivos de John Lennon das lojas em todo o mundo!

Eles riram-se.

– Posso dar uma ideia, Roger? – disse eu – Eu sei como podes vender o teu álbum nos Estados Unidos e ser politicamente correto, ao mesmo tempo.

– Como?

– Com todas as cópias de “Amused to Death” ainda nas lojas, ofereces um voucher com 50% de desconto na compra de uma arma! As armas são permitidas e populares por aqui! Vais ver só que aquilo vende! Promoção: “A canção é uma arma” por Roger Waters!…

Foi uma risada enorme!

– Está a brincar – disse o Snowy – mas eu vi um anúncio no Dia do Pai que trazia uma oferta semelhante!

– Estás a ver, Snowy? – disse eu – Não se pode fumar nos Estados Unidos em lado nenhum, é obrigatório manter o cão preso pela coleira quando se passeia na rua, não se pode vender uma cerveja a um cliente qualquer, sem mostrar identificação, mas qualquer um pode comprar uma arma! E andar com ela no jardim onde passeias o cão, no bar onde não te vendem a cerveja e na esquina onde fumas o cigarro!

Risos de toda a gente. Continuei:

– Ainda ontem morreu um jovem que estava no seu quarto em casa nos arredores da cidade, atingido por uma bala perdida. Ninguém sabe ainda de onde veio. Mas ontem mesmo, aqui ao pé do vosso hotel, eu, com esta cara que vêem e este corpanzil, quis comprar uma lata de cerveja numa loja de conveniência e não ma venderam sem mostrar o passaporte porque “só vendiam a maiores de 18 anos com ID”. Não fosse eu assaltar alguém com a bendita lata!

Riram-se ainda mais.

– Quem é que toca hoje no clube?

– Não sei, Roger – disse Mark.

– É um tipo chamado Harris e sua banda. – informou o Mike.

– Nunca ouvi falar dele. Mas, Luis, podes ficar tranquilo. Quando lá chegarmos podes pedir cerveja à vontade que ninguém te pede o ID. E pago eu! – disse o Waters a meter-se comigo.

Estávamos a chegar. A van parou na esquina do Clube Budy Guy’s Legend. Era ali que íamos mergulhar no Blues de Chicago. Eu estava pronto.

(segue na Parte 4)

(voltar à parte 1)

Riding With the King – Roger Waters, The Wall e o dia em que ambos se cruzaram no meu caminho (parte 2)

Eram 11 da manhã de sexta-feira, 7 de Julho de 2000. Tinha viajado para Chicago desde Paris no dia anterior e estava ainda um pouco cansado. Mas tinha de me encontrar às 11.30h com o Snowy White no hotel onde estava a banda toda (eu estava num outro a pouco mais de 200m porque a minha agência não soube encontrar o hotel certo!). Por isso aproveitei aquela meia hora para passear um pouco e acabei por entrar muna livraria. Ali, à frente dos meus olhos, o livro que podia ter sido escrito pelo próprio Roger Waters: “O Guia da História Para o Pessimista”. Abri por curiosidade e dizia coisas do género: os Egípcios descobriram novas técnicas agrícolas e criaram uma civilização excepcional, mas vieram as inundações do Nilo e foi tudo devastado, de tal maneira que tiveram de mudar as cidades para o deserto, longe das férteis margens do pouco confiável rio. Ou ainda: tudo parecia estar a corre bem, a Europa vivia em relativa paz por alguns anos e iniciavam-se as viagens de descobertas, o comércio crescia; mas eis senão quando a Peste Negra veio por um fim ao progresso e dizimou uma boa parte do continente. E assim por diante. Cada vez que a Humanidade dava um passo, vinha um “azar” e morriam vários milhares. O pessimismo ao serviço da história!

Estava em Chicago para me encontrar como meu cliente e amigo Snowy White, um conhecido guitarrista Inglês da velha guarda, antigo companheiro de Peter Green (fundador dos Fleetwood Mac) e dos Thin Lizzy de Phil Lynott. Tinha-o conhecido há uns anos e fui-me envolvendo na sua carreira como fã e como profissional. Durante alguns anos trabalhou para a minha banda mítica favorita, os Pink Floyd, tendo feito várias tournés com eles pelo mundo, incluindo Animals em 1977 e 1978 e os shows de The Wall originais. Por isso nunca faltavam coisas para falar com ele. Além disso o seu talento como bluesman é enorme e é um prazer vê-lo em estúdio ou ao vivo. Sabendo da minha admiração pelos Pink Floyd e estando agora na sua segunda tour como guitarrista de Roger Waters depois de este ter voltado à estrada quase 10 anos volvidos do seu último show, resolveu convidar-me a juntar-me à entourage da banda e a conviver com eles neste fim-de-semana em Chicago. Não sei bem o que esperar. Snowy é um homem simples, franco e muito aberto. Fala pouco como quase todos os bons músicos que conheço, que costumam ser muito tímidos em contraste com a expressividade que têm em palco. Mas Waters tem a fama de ser antipático, corrosivo e não gostar de conversa-fiada. Além disso, que conversa fiada fazemos com um ícon do rock da nossa juventude? Felizmente a minha posição de produtor executivo de um dos seus músicos ajudava a manter qualquer conversa a um nível pessoal e profissional e a deixar-me entrar, por milagre, no grupo de gente com quem ele “trabalha”, muito distinto do grupo de gente que lhe enche o saco a pedir autógrafos para vender na internet ou que o vê e bloqueia o cérebro sem poder fazer perguntas inteligentes: “Yo! Dude! Yu’ awasome! Pink Floyd not dead. Yeah!!!!” (a sério, isto é vulgar…)

Eram 11.30h. Dirigi-me à recepção do hotel onde a banda estava e pedi educadamente:

– Bom dia, gostaria de falar com Snowy White, por favor.

O empregado do outro lado do balcão olhou-me perplexo.

– Desculpe. – Disse ele – qual era o nome outra vez?

– Snowy White.

Ele hesitou. Via-se que estava confuso! É que Snowy White é muito próximo de Snow White (Branca de Neve) e toda a gente sabe que os artistas mais conhecidos dão nomes falsos para os quartos do hotéis para não serem incomodados por curiosos. A cada cidade que chegam corre uma lista feita pelo Tour Manager onde se diz quem é quem para que eles saibam encontrar os colegas. Lembro-me que uma das vezes nesta tour o Roger Waters estava registado como o Sr. Oponimous Brunch (algo como Enorme Almoço Volante). [desta vez em Lisboa nem tentem saber onde estão hospedados e os nomes, porque se enganam!] Por isso, os empregados dos hotéis estão sempre à espera de nomes malucos quando está um grupo para concertos. O Snowy, por já ter a alcunha estranha, costuma dar o primeiro nome real que quase ninguém conhece e assim torna-se “invisível”. Por isso, quando o empregado me fez a seguinte pergunta ainda brinquei um pouco com ele:

– O primeiro nome é …

– Bem … Snowy . Por favor, tente não acordar os sete anões. Chame-o só a ele. Procure por White e verá que encontra.

Ele olhou para o monitor de seu computador e cuidadosamente escreveu sobre o teclado: “Mr. White”. De repente, ele era só sorrisos:

– Ah! Aqui está! Snowy White! * MR. Snowy White! Pensei que fosse uma senhora!

Desta vez estava sob o nome artístico.

– Foi isso que eu disse.

– Pensei que estava a brincar comigo! Ele está com o grupo. Desculpe o inconveniente. Aqui tem número de quarto, senhor! Passo já a chamada.

Quando eu mais tarde contei o episódio ao Snowy ele fartou-se de rir. Ligou logo para o Waters e contou-lha a história e ele também achou tudo muito engraçado.

Entretanto o Snowy lá desceu.Eu não o via desde Abril e por isso conversámos um pouco no bar antes de sair. “Como estás?”, “Como tem sido a tour?”, “Já viste o calor aqui em Chicago?”, etc. O habitual.

– Queres ir almoçar?

– Claro – disse ele – Mas primeiro tenho que fazer algumas compras. Queres vir?

– Ok! Vamos.

E lá seguimos nós. Caminhamos pela Michigan Ave. (eles estavam hospedados exactamente no lado oposto ao John Hancock Center) e conversamos sobre isto e aquilo durante um bocado.

– Então, esta noite nós vamos a um clube de Blues? – Eu perguntei, já que estávamos na cidade do Blues e eu queria ver qualquer coisa mais típica da cultura musical americana.

– Sim. Eu só estava precisamente a perguntar ao Andrew (o Tour Manager) se ele sabe de bons clubes nesta área. Provavelmente outros elementos da banda querem vir. Veremos depois do almoço. O Andrew está a tratar do assunto.

– Achas que o Waters gostaria de ir a um clube?

– Não sei. E não é Waters. Ele gosta que lhe chamem pelo primeiro nome. Só pessoal “de fora” é que lhe chama Mr. Waters. Por isso, tu vê lá se o tratas por Roger quando to apresentar. – eu nem sabia muito bem como reagir. Estão a ver se fosse com o Sinatra: “não o trates por Mr. Sinatra, para ti ele é o Frank”… Que nervos… É que tenho de dizer “Roger” e soar mesmo como se fosse um gajo que conheci numa reunião de trabalho, ou que é um amigo de um amigo, sem mais vertigens. Tudo normal. Uma pessoa vulgar. Roger. E era mesmo o amigo de um amigo… Mas não era a mesma coisa.

– O Doyle é a companhia do costume para irmos a clubes. Conheces o Doyle [Bramhall II (o outro guitarrista da tour)]?

Além do que eu li sobre a sua actuação na tour (excelentes opiniões do público) eu não sabia nada sobre ele. O Snowy disse-me que Doyle II é filho de Doyle Bramhall I, baterista da banda de Stevie Ray Vaughan e escritor de algumas das suas canções [entretanto já escreveu para muitos outros conhecidos guitarristas, incluindo BB King e Eric Clapton]. Disse que Doyle era um guitarrista muito talentoso e que eu o apreciaria muito no show. Entretanto fomos até à Virgin Megastore, para ver se eu poderia encontrar o álbum do Doyle e comprar uma cópia. Não havia nenhum. O Doyle nem sequer estava listado. A indústria da música queixa-se das vendas, mas vivem num mundo à parte, ignorando o que se passa no mundo real. Estando Roger Waters na cidade para um grande concerto – já esgotado – havia apenas quatro exemplares do seu último álbum “Amused to Death”, e não podíamos encontrar álbuns do Snowy em lado nenhum, o que era estranho. Descobri um par de dias depois na mesma loja que estavam mal classificados numa secção sob o nome “Sony White “!!! Assim não vão lá. Ficámos desapontados, até porque o seu último álbum [na época] era um dos que mais o satisfazia artisticamente, “Melting” (na Europa está disponível com o nome “Little Wing”). Os artistas estavam na cidade para concertos, alguns álbums podiam estar em destaque e vender-se, mas não. Mesmo Roger Waters só poderia esperar vender 4 exemplares que havia na loja, sem qualquer destaque. Este seria um tema de conversa com Roger, mais tarde (já lá chegaremos).

Almoçamos algures em Wabash Street.

– Estou a gostar de Chicago – disse eu – mais do que de New York.

– Eu também gosto da cidade – disse Snowy.

[Aqui vale a pena contar a experiência da banda nesta tour de The Wall que vem a Lisboa dentro de dias. Quando nos encontrámos em Nassau há uns meses disse-me que a banda esteve várias semanas no mesmo hotel do Soho novaiorquino, que tem um heliporto no telhado. Todos os dias em que havia concerto eram apanhados de helicóptero ali e levados para o lugar do espectáculo, quase sempre a não mais de 250km de Manhattan. Quando a cidade estava mais longe, eram levados para o aeroporto mais próximo de helicóptero e dali em jacto particular para a cidade em causa, voltando a dormir em Nova Iorque. Isto ajuda a perceber porque é que muitas vezes os músicos não têm bem consciência onde estão a tocar.]

– É a tua primeira visita a Chicago?

– Não. Estivemos aqui no ano passado e também tivemos um dia de folga na cidade. O que é que eu fiz então? Olha, não sei. Não me lembro … Ah! Espera. Já sei! É uma estranha história!

– Conta.

– Eu já cá tinha estado com o Roger na tour dos Pink Floyd, mas nessa altura a máquina que nos seguia era diferente. Bem, por alguma razão estúpida, o ano passado eu tinha entrado os EUA com um visto de turista e não como um músico profissional com visto de artista profissional. Ora, eu tinha que sair do país, ter o meu passaporte carimbado outra vez, legalizar o tudo e começar de novo. Por isso escolhemos Chicago porque tivemos cá um dia de folga. Enquanto o Roger andava por aí a passear, meteram-me num avião para o Canadá, esperei lá umas horas e voltei a voar para cá no mesmo dia, carimbando o passaporte de novo! Foi um dia cheio de terminais de aeroporto!

Rimos.

De volta ao hotel, fizemos os arranjos necessários para o dia seguinte. Eu iria com a banda para o show, numa das suas carrinhas de vidros fumados e voltaria com eles. Cada vez estava a gostar mais da minha estadia. Ver pela primeira vez o show de Roger Waters ao vivo já era uma experiência incrível e rara, mas conhecê-lo e entrar nos bastidores seria memorável. Agora o que eu não estava à espera era de ir para o show com a banda.

Naquela tarde nada mais foi feito. Era um dia de folga e todos os músico queriam descansar depois do almoço. Voltei para o meu Hotel (a 4 quarteirões dali) e marcamos uma reunião em torno de 8:00 para jantar e depois ver o que a noite trazia. À hora marcada estava no hotel deles e fui com o Snowy a um restaurante italiano próximo. Durante o jantar contou-me que o jogo de cartas que a banda faz a meio do concerto (numa pausa em que há um solo de teclados na canção “Dogs”) é mesmo a sério!

Todas as noites jogam a dinheiro e vão acumulando de show para show. O Roger diz que os mantém atentos! Contou também que tinham gravado o show de Portland, que iria sair em DVD. Depois do jantar voltámos para o hotel. Estacionada em frente à porta estava uma carrinha Van branca com janelas fumadas escuras. A porta abriu e o segurança pessoal do Roger Waters saiu. O Snowy foi ter com ele e perguntou sobre os planos para a noite.

– O Roger está a jantar com o Mark (Fenwick, seu empresário), que acaba de chegar de Londres. Quando acabarem ele quer ir convosco até um Blues club.

O seu telemóvel tocou. Era Roger Waters. Tinha acabado de jantar e estava pronto a partir. Entrámos então na Van e esta arrancou para o ir buscar.

Era agora – pensei… – Vou finalmente conhecer o fundador dos Pink Floyd! Mais do que isso. Vou a um Blues Clube em Chicago com ele, o seu manager e o Snowy White. E segurança, claro. Como nos filmes. Van de vidros escuros e tudo. Foi só então que acreditei. Estava mesmo a acontecer Que grande visita a Chicago!

(Continua na parte 3)

(voltar à parte 1)

À Procura da Maçonaria em Hollywood

Enquanto estive em Los Angeles a curiosidade moveu-me a procurar traços da Maçonaria na cidade. São muitos. Basta estar atento. Hollywood especialmente tem sido uma cidade onde Maçons empreendedores têm singrado ao longo de décadas. Grande número dos mais antigos donos de estúdios e mesmo actores famosos da época do cinema mudo foram membros da Ordem. Ainda hoje é vulgar a indústria do entertainment premiar os seus melhores no maçónico Shriners Auditorium (incluindo Óscares, Grammys e Emmies). Os Shriners são uma Ordem para-maçónica que está apenas aberta nos Estados Unidos a membros dos graus 32º e 33º do Supremo Conselho Americano. São conhecidos pelos típicos chapéus “fez” e pelas paradas em que se vestem de palhaço para conseguir fundos para os seus Hospitais de queimados. Há quem diga que Ronald McDonald – o palhaço da McDonalds – é de inspiração Shriner. Podem ver uma parada Shriner, por exemplo, no filme de Coppolla “Peggy Sue Got Married”.

Assim, vamos fazer um périplo curto por alguns lugares, Lojas e Maçons famosos do passado e presente, baseando-nos mais em imagens do que em textos, como é hábito na cidade do cinema.

LUGARES

Podemos começar logo em Hollywood Boulevard, mesmo em frente aos famosos Chinese Theatre (famoso pela passadeira vermelha das estreias dos grandes blockbusters) e do Kodak Theatre (muitas vezes lugar dos Óscares e ultimamente de American Idol), em pleno Passeio da Fama, com estrelas de famosos incrustadas no chão. Aqui mesmo temos o teatro onde Jimmi Kimmel (concorrente na ABC do humorista Jay Leno) grava actualmente o seu talk-show diário. A arquitectura exterior não deixa enganos, menos ainda se atentarmos à frase ainda hoje visívek no baixo relevo sobre uma fileira de colunas: “A Maçonaria constrói Templos nos corações dos homens”. Este local, cuja construção terminou em 1921, hoje chamado Capitan Entertainment Centre, que inclui 2 teatros e uma mega-store da Disney, foi um dos primeiros Templos Maçónicos de Hollywood.

Aqui reunia a a RL Hollywood/West-Valley, #355 da Grande Loja da Calofórnia (hoje recolocada umas milhas mais a norte). Foi seu primeiro VM Gilbert Stevenson, proprietário dos férteis campos de limoeiro onde hoje se encontram os teatros mas que reunia na época (1903) numa sala modesta da sua quinta. Acabaria por vender alguns lotes ao Irmão de Loja Charles Toberman – que os historiadores consideram o verdadeiro “pai de Hollywood” – o mesmo que desenvolveu a exploração imobiliária da cidade e mandou colocar nos montes a norte as letras que são hoje um ícone.

O Irmão Toberman (VM da Loja em 1914), acabaria por mandar construir o Teatro Egípcio (na mesma Hollywood Boulevard), o famoso Hollywood Bowl, e o Templo de que falamos, todos de reconhecida inspiração maçónica. Para desenhar o edifício contratou o reconhecido Arquitecto (e Irmão da Loja), John C. Austin, igualmente autor do Shriners Auditorium, do City Hall de Los Angeles e do Griffith Observatory, onde as linhas de inspiração maçónica são também claras, tendo-se tornado ícones reconhecidos internacionalmente.

Teatro Egípcio em Hollywood Boulevard, junto ao Passeio da Fama

Los Angeles City Hall.

O Observatório Griffith

Nos Estados Unidos é vulgar as Lojas serem detentoras quer isoladamente, quer em pequenos grupos, de centros maçónicos com um Templo e diversos serviços associados. Assim se passa em Los Angeles, onde, em vários locais, podemos ver edifícios com traços maçónicos claros.

Uma Loja no Google Maps Street View

Outra

Outra

A Grande Loja da Califórnia em Los Angeles esteve sediada no seguinte edifício.

Antiga sede e museu da Grande Loja da Califórnia em Los Angeles

Detalhe da fachada norte

Lamentavelmente o declínio no número de membros e a crise económica fizeram com que a Maçonaria californiana tivesse de abandonar o edifício e o tenha hoje à venda.

GENTE

Aqui segue uma lista de Maçons do passado e do presente que fizeram nome em Hollywood:

Al Jolson, estrela do primeiro filme sonoro “The Jazz Singer”; Bob Hope, conhecido comediante;  Cecil B. DeMIlle, Realizador de épicos como “10 Mandamentos”, “Ben Hur”, “Cleópatra”, etc.; Douglas Fairbanks, uma das primeiras estrelas do cinema mudo; Branson Pinchot, o conhecido Balki da série “Perfect Strangers” e a mea-estrela Clark Gable.

Don Rickles, comediante (ainda vivo); Harry Houdini, ilusionista; Glenn Ford; Ernest Borgnine; Harpo Marx; Gary Burgoff (ainda vivo), da série M*A*S*H* e mais recentemente cinema; Harold Lloyd, estrela do cinema cómico mudo.

Oliver Hardy (da dupla Bucha e Estica); Roy Rogers; W.C. Fields; Louis Meyer, fundador da MGM; Richard Prayor, comediante; Nat King Cole e Mel Blanc (a voz dos desenhos animados da Warner, incluindo Bugs Bunny).

Michael Richards, o “Kramer” de Seinfeld (ainda vivo); Peter Sellers; Kris Christofferson (ainda vivo); Rip Torn (ainda vivo); Neil Diamond (ainda vivo); Leonard Cohen (ainda vivo); Telly Savalas e John Wayne.

Leonard Cohen é membro activo da Loja Ionic Composit, nº 520 da Grande Loja da California, de que foi VM em 1993. Em 1994 iniciou um retiro num mosteiro Budista e foi ordenado Monge Budista em 1996. Ver: Site da Loja de Leonard Cohen