A Preguiça

pap13_1

EPISÓDIO XIII – A PREGUIÇA

(excerto)

Alexandre Honrado (AH): Tu achas que as pessoas mascram a realidade com algumas histórias desse tipo [nota: falava-se da morte]) porque são preguiçosas e o encarar a realidade às vezes é mais difícil? É mais fácil ritualizar…

Luis de Matos (LM): Sim.

AH: É mais fácil fazer a metáfora. É mais fácil a hipérbole. É mais fácil andar em torno das coisas do que ir directamente às explicações?

LM: Sim. A metáfora ajuda-nos a lidar com coisas com as quais não podemos lidar directamente.

AH: Por incapacidade, por impreparação, por formação?…

LM: Porque elas magoam. Elas doem. Por exemplo, a morte tem muitas metáforas. “Bateu a bota”, “esticou o pernil”, “foi desta p’ra melhor”…

AH: Assim é mais fácil não ver.

LM: Dizer “faleceu”…. Morreu! Morreu…

AH: São maneirismos.

LM: Não. São metáforas.

AH: São formas de criarmos uma…

LM: Digamos assim: os temas com os quais as religiões lidam, são os temas centrais à humanidade e com os quais lidamos toda a nossa vida. Definem-nos. A morte, o nascimento e o sexo. São os três principais. Não há tema onde haja mais metáforas do que o sexo. Por exemplo, não se conseguem [em conversa social] definir os órgãos sexuais reprodutores e todo o ciclo…

AH: Alguém disse que é mais fácil de fazer do que dizer.

LM: Exactamente. São tantos os nomes diferentes que todas as civilizações encontram [para designar os órgãos sexuais] que nós não vamos directamente à essência das coisas. Não vamos. Preferimos encontrar uma metáfora que pegue no significado, o leve para algo que é paralelo ou parecido,  raciocinar a esse nível, para não estar a falar daquilo que é o essencial.

AH: Tu não estás muito preguiçoso hoje.

LM: …

AH: Estás estimulado por estas perguntas?

LM: Estou preguiçoso porque podia ir muito mais longe, mas não me apetece.

AH: Pois não. Fica já aqui. Instala-te…

LM: (ri-se)

(continua)