Histórias – Porque as contamos

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Episódio VII – Histórias – Porque as contamos

(excerto)

Alexandre Honrado (AH): Ficção e realidade… Elas não se anulam logo à partida? Ou quando escrevemos ficção, no fundo, tornamos essa ficção em realidade? Deixou de ser ficção?

Luis de Matos (LM): (Rindo) Bom, sendo assim… A realidade é…

AH: É uma provocação…

LM: Nós já uma vez aqui neste programa dissemos que a nossa Mente constrói o momento presente a partir de percepções. A história pode ser uma percepção. Durante o tempo em que estiver a ver um filme ou a ouvir um álbum de música, por exemplo, a minha realidade é aquela. E é ali que eu estou, naquele momento, a ter aquela experiência. No momento em que eu estou a ver uma pintura ou um quadro, aquela é a minha realidade, que vai condicionar a minha experiência da realidade. Portanto, aquela ficção, que são três ou quatro traços e umas cores, aquela ficção plástica que ali está, vai impressionar-me e dar-me a experiência da realidade. Ou seja, a ficção transforma-se em realidade, para mim. É verdade. Onde é que eu diferenciaria a ficção da realidade? A ficção, se nós não a projectarmos no mundo verdadeiro e real, que tem consequências [por ser causal], a ficção não tem consequências. É uma simulação. Nós podemos, dentro da ficção, experimentar. (…)

AH: “A minha vida é um drama”, dizem as pessoas. É um drama porque pode ser representada. Podem retirar-se várias coisas e no fim até aplausos, às vezes.

LM: (ri-se) Quem sabe?

AH: (ri-se).

LM: Além da Comédia e da Tragédia, que são os dois pontos [ou pólos] opostos [das histórias que contamos], temos diversos [géneros], com por exemplo Vencer o Monstro. É um tipo de história muito vulgar. E Vencer o Monstro, tanto pode ser um monstro exterior, como pode ser um monstro interior.

AH: Ou ires ao interior do monstro, como a história do Jonas na barriga da Baleia, que é extraordinária.

LM: Estava-me a lembrar precisamente dessa.

AH: É extraordinária. Requer coragem, no fundo.

LM: Sem dúvida.

AH: Enfrentares o teu monstro indo aquilo que ele é, na sua essência.

LM: Lutar de dentro dele.

(c0ntinua)

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