O Objecto

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Episódio III – O Objecto

(excerto)

Luis de Matos (LM): [A noção de objecto] que vem do filósofo George Berkley, leva ao extremo a ideia de que o objecto em si é indissociável da ideia do objecto. Quando falamos do [Santo] Graal e dizemos que está em Léon; ou não, está em Glastonburry; ou não, está em Monserrate; ou não, está em Valência, ou noutra parte qualquer da Europa; ou até poderia estar em Portugal, quem sabe; nós estamos a falar de ideias do Graal. Estamos a falar daquilo que são as tais formas de pensamento que criamos à volta de um objecto específico. O que George Berkley defende é que o objecto e a ideia são uma única coisa, não são coisas distintas. Não consegues ter a ideia sobre o objecto sem a existência do objecto.

Alexandre Honrado (AH): Estás perante o objecto. Tens consciência dele e o reconhecimento do objecto.

LM: Se não estivesses perante ele e não tivesses a percepção empírica de que ele está à tua frente, não conseguias conceber o objecto. Sem um motivador externo, não conseguias criar a ideia. A partir desse momento, o objecto e a ideia tornaram-se iguais. [O objecto é a ideia que fazes dele e deixa de existir por si mesmo].

AH: Estavas cá no início do programa, quando eu disse para a câmara – logo no início – “sem o objecto não podemos ser objectivos”. Uma sala vazia, nua, sem qualquer objecto, não nos trás objectividade. Perante esse reconhecimento não somos nada.

LM: Não. Contudo, tu podes criar a ideia do objecto – “o Santo Graal é uma taça”, dizes tu – e agora a ideia em si ganha vida. Mesmo sendo distinta do objecto. Ela passa a ser em si [mesma] algo que é, que posso comunicar às pessoas, que posso fazer crescer, que posso colorir à volta e criar toda uma “ideologia” à volta [da ideia] de algo que [já não] é sequer objectivo.

AH: É mais uma imagética, às vezes, nem é propriamente uma ideologia.

LM: Completamente. Isto faz com que o objecto tenha evoluído. Quando perguntas “o Graal não seria uma taça”? [Sim,] é uma taça. Na ideia das pessoas é uma taça. Portanto, é também uma taça.

AH: Em alguns textos mais antigos dizem que é um prato de cobre. Que na tradução mais directa…

LM: Pelo que, também é um prato.

AH: Pelo que também é um prato…

LM: Ou seja, se o objecto e a ideia que tens do objecto são a mesma coisa, cada objecto vai adquirindo sucessivamente diversas formas ideais [a partir] daquilo que ele é, que o vão qualificando e o vão transmutando ao longo do tempo. O objecto muda ao longo do tempo.

AH: Exactamente.

LM: Havia um objecto específico e físico, que pudesses tocar, que fosse o Graal? Isso é o que nós não sabemos. Porque a ideia já adquiriu tal força entretanto, já se expandiu de tal maneira e já ressoou de tal modo com as pessoas, que lhe atribuíram toda uma série de significações que são muito profundas para elas, que o objecto em si já perdeu a importância.

AH: Mas o significado não deixa de ser aquilo que é o teu imaginário para o tornares no teu imaginário interior. E portanto já não discutes se havia ou não [o objecto original]. Há um Santo Graal qualquer em cada uma das pessoas que acreditam nele.

LM: E por isso tu dizes assim: “o Santo Graal é a perfeição da alma”. Pois. É uma ideia que decorre de uma idealização daquele objecto.

AH: É uma transposição, diríamos.

LM: Completamente. Portanto objectos como o Santo Graal, ou a espada Excalibur, ou, ou … (ri-se), ou por exemplo a Batalha de Ourique e o milagre que se deu quando D. Afonso Henriques viu Jesus Cristo nas nuvens que lhe disse “toma esta chagas para símbolo da tua nação” e [hoje] aqui estão as cinco chagas nas cinco quinas de Portugal, etc.; tudo isso são questões objectivas ou são ideias que depois evoluem? Houve objecto? Houve um Jesus Cristo pregado numa cruz, visto no céu [de Ourique], ou isso foi uma ideia criada a partir de uma impressão que pode ter sido perfeitamente metafísica, ou pode até ter sido ilusória? Mas a ideia em si passou a existir.

AH: Há um Santo Lenho quase em cada igreja. Há milhões de Santos Lenhos, há milhões de objectos…

LM: Se [a ideia] passou a existir e se temos as cinco quinas na nossa bandeira, a ideia passou a ser em si própria o objecto. Não há que discutir se houve Ourique ou não. Agora [a ideia] já teve a sua influência na história. Agora criaste o mito.

(continua…)