O Xadrez

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EPISÓDIO IV – O XADREZ

(excerto)

Luis de Matos (LM): Então, portanto, vai-se mover o peão.

Alexandre Honrado (AH): Vai-se mover um desses peões.

LM: Quer dizer, nesta sociedade toda, tão estratificada, nada pode acontecer se os peões não se mexerem.

AH: Exactamente.

LM: Estou satisfeito.

AH: Repara uma coisa, podes viver toda a tua vida num Estado sem Rei ou sem Presidente, não te incomoda muito para a tua vida privada, mas um Estado sem povo não existe. É um pedaço de terra vazio.

LM: Agora há uma inovação. É a de que o povo e o Estado são coisas distintas. Ou melhor, o país e as pessoas são coisas distintas.

AH: Isso são designações da política moderna e pós-moderna.

LM: Mas olha que é extraordinário. É melhor do que dividir o átomo! É incrível, dividir uma coisa da outra.

AH: Exactamente. Mas mesmo as designações sociológicas vão evoluindo muito. A ideia do povo, ou o povo trabalhador, ou as classes, ou a luta de classes, vai-se diluindo à medida que avança a Sociologia e a maneira de interpretar o mundo. Os filósofos também interpretam [o mundo], mas os políticos é que tomam conta [dele].

LM: Sim, sim.

AH: Os políticos tomam conta das frases e da solução das coisas. Um peão hoje – um homem do povo – praticamente é uma coisa que não se usa como designação.

LM: É raro.

AH: O povo só aparece às vezes em certas coisas escritas, à hora das eleições.

LM: Sim.

AH: Precisam do povo. O povo tem que votar. O povo é unido. Ou o povo é sereno. E é aí que aparecem estes chavões. Mas o povo, até porque isso faz com que o poder se reforce, tem que estar dividido ao máximo para que as classes nos possam governar de uma forma mais eficaz.

LM: Sim, mas este não está segmentado, apesar de termos aqui peões da direita e da esquerda e haver aqui um segmento central. (mexendo no tabuleiro)

AH: Está arrumado. Mas isso é uma ideia moderna. Uma ideia que vem da Inglaterra de há muito pouco tempo por causa de um Parlamento que se dividiu à esquerda e à direita, com pessoas mais ou menos radicais de um lado ou do outro.

LM: Sem dúvida. Mas também porque os peões começaram a ter consciência própria e até aqui eles executavam ordens. E a partir de um certo momento começaram a achar que faziam parte fundamental da sociedade porque são o fundamento.

(continua…)