Pérolas aos Poucos – Xadrez

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Temporada 2 – Episódio IV – O Xadrez

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Pérolas aos Poucos – O Objecto

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Temporada 2 – Episódio III – O Objecto

(excerto)

Luis de Matos (LM): [A noção de objecto] que vem do filósofo George Berkley, leva ao extremo a ideia de que o objecto em si é indissociável da ideia do objecto. Quando falamos do [Santo] Graal e dizemos que está em Léon; ou não, está em Glastonburry; ou não, está em Monserrate; ou não, está em Valência, ou noutra parte qualquer da Europa; ou até poderia estar em Portugal, quem sabe; nós estamos a falar de ideias do Graal. Estamos a falar daquilo que são as tais formas de pensamento que criamos à volta de um objecto específico. O que George Berkley defende é que o objecto e a ideia são uma única coisa, não são coisas distintas. Não consegues ter a ideia sobre o objecto sem a existência do objecto.

Alexandre Honrado (AH): Estás perante o objecto. Tens consciência dele e o reconhecimento do objecto.

LM: Se não estivesses perante ele e não tivesses a percepção empírica de que ele está à tua frente, não conseguias conceber o objecto. Sem um motivador externo, não conseguias criar a ideia. A partir desse momento, o objecto e a ideia tornaram-se iguais. [O objecto é a ideia que fazes dele e deixa de existir por si mesmo].

AH: Estavas cá no início do programa, quando eu disse para a câmara – logo no início – “sem o objecto não podemos ser objectivos”. Uma sala vazia, nua, sem qualquer objecto, não nos trás objectividade. Perante esse reconhecimento não somos nada.

LM: Não. Contudo, tu podes criar a ideia do objecto – “o Santo Graal é uma taça”, dizes tu – e agora a ideia em si ganha vida. Mesmo sendo distinta do objecto. Ela passa a ser em si [mesma] algo que é, que posso comunicar às pessoas, que posso fazer crescer, que posso colorir à volta e criar toda uma “ideologia” à volta [da ideia] de algo que [já não] é sequer objectivo.

AH: É mais uma imagética, às vezes, nem é propriamente uma ideologia.

LM: Completamente. Isto faz com que o objecto tenha evoluído. Quando perguntas “o Graal não seria uma taça”? [Sim,] é uma taça. Na ideia das pessoas é uma taça. Portanto, é também uma taça.

AH: Em alguns textos mais antigos dizem que é um prato de cobre. Que na tradução mais directa…

LM: Pelo que, também é um prato.

AH: Pelo que também é um prato…

LM: Ou seja, se o objecto e a ideia que tens do objecto são a mesma coisa, cada objecto vai adquirindo sucessivamente diversas formas ideais [a partir] daquilo que ele é, que o vão qualificando e o vão transmutando ao longo do tempo. O objecto muda ao longo do tempo.

AH: Exactamente.

LM: Havia um objecto específico e físico, que pudesses tocar, que fosse o Graal? Isso é o que nós não sabemos. Porque a ideia já adquiriu tal força entretanto, já se expandiu de tal maneira e já ressoou de tal modo com as pessoas, que lhe atribuíram toda uma série de significações que são muito profundas para elas, que o objecto em si já perdeu a importância.

AH: Mas o significado não deixa de ser aquilo que é o teu imaginário para o tornares no teu imaginário interior. E portanto já não discutes se havia ou não [o objecto original]. Há um Santo Graal qualquer em cada uma das pessoas que acreditam nele.

LM: E por isso tu dizes assim: “o Santo Graal é a perfeição da alma”. Pois. É uma ideia que decorre de uma idealização daquele objecto.

AH: É uma transposição, diríamos.

LM: Completamente. Portanto objectos como o Santo Graal, ou a espada Excalibur, ou, ou … (ri-se), ou por exemplo a Batalha de Ourique e o milagre que se deu quando D. Afonso Henriques viu Jesus Cristo nas nuvens que lhe disse “toma esta chagas para símbolo da tua nação” e [hoje] aqui estão as cinco chagas nas cinco quinas de Portugal, etc.; tudo isso são questões objectivas ou são ideias que depois evoluem? Houve objecto? Houve um Jesus Cristo pregado numa cruz, visto no céu [de Ourique], ou isso foi uma ideia criada a partir de uma impressão que pode ter sido perfeitamente metafísica, ou pode até ter sido ilusória? Mas a ideia em si passou a existir.

AH: Há um Santo Lenho quase em cada igreja. Há milhões de Santos Lenhos, há milhões de objectos…

LM: Se [a ideia] passou a existir e se temos as cinco quinas na nossa bandeira, a ideia passou a ser em si própria o objecto. Não há que discutir se houve Ourique ou não. Agora [a ideia] já teve a sua influência na história. Agora criaste o mito.

(continua…)

 

Pérolas de Segunda Época

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O “Pérolas aos Poucos” voltou à TVL. Começámos a nossa Segunda Temporada com alguma saudade. E alguma nostalgia. De facto, está já disponível o episódio intitulado “Que Saudades da Nostalgia”, onde exploramos o modo com designamos os sentimentos.

Talvez muitos não saibam, mas a nostalgia começou por ser identificada como uma doença melancólica, que atacava os soldados Suíços em serviço fora da sua terra. E só foi designada no século 17!

Já a nossa saudade é anterior e aparece escrita pela primeira vez nas Cantigas de D. Dinis. No programa exploramos um pouco as diferenças entre uma e outra e procuramos entender por que motivo o sentimento resistiu a ser designado, bem como o significado etimológico de ambas as palavras.

Pérolas aos Poucos V – O Segredo

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Episódio V – O Segredo

(excerto)

Luis de Matos (LM): O “segredo” tem aqui duas fases. Em primeiro lugar a noção de que há uma realidade e que algo se esconde por trás dessa realidade. Podemos apreciá-la se pudermos, a partir daquilo que é esotérico – daquilo que não é aparente – chegar a algo de mais profundo, que é a existência das coisas para lá da sua aparência. Mas isso parte de um princípio [anterior] muito interessante: é que elas antes de serem coisas, também já tinham uma existência que era invisível. E todo o visível é produto da precipitação desse invisível. Ou seja, tudo o que é material, já foi imaterial antes de poder ter sido material.

Alexandre Honrado (AH): E aos poucos vai-se descobrindo?

LM: Aos poucos vai-se materializando. Portanto essa essência que o criou está lá. Faz parte do tecido de toda a coisa existente. Estudando a coisa existente, encontram-se as causas da coisa existente. O esoterismo é isso.

AH: Então o mistério é uma metáfora do segredo.

LM: O mistério é uma metáfora do segredo. O mistério está em tudo, podes a partir dele, chegar ao segredo. E o segredo é a causa. O segredo é sempre a causa. Falamos da relação entre a palavra “segredo” e a palavra “arcano”. Alguma coisa que é “arcana”, de facto é um segredo. Mas “arcano” vem do [grego] “arquê”, o “princípio”. É o princípio gerador de todas as coisas.

AH: Utilizamos muito o “arcaico” por causa disso.

LM: Precisamente. A noção de segredo tem sempre que ver com “o que é que causou isto?” Vivemos num mundo de causas e efeitos mas muitas vezes não nos perguntamos, na nossa vida, porque é que qualquer coisa ocorre. Quando paramos e perguntamos o “porquê?”, estamos a indagar qual é que é a causa. É um mundo de efeitos. Se encontrarmos a causa e mudarmos a causa – e muitas vezes a causa é o nosso mau comportamento, muitas vezes a causa é como reagimos mal a determinadas situações, muitas vezes a causa são as nossas inclinações naturais, que nem sempre são as melhores, ou até inclinações culturais que nos obrigam a agir de determinada forma que não é consistente com os valores morais que temos…

AH: E exigências do foro esotérico…

LM: … quantas vezes… o que nos leva a produzir um mundo, a criar um mundo à nossa volta, connosco, com os nossos amigos, com a nossa família, no nosso emprego, que é totalmente condicionado pelas nossas reacções.

AH: Tu acreditas que, para o verdadeiro amigo, não há segredos?

LM: (ri-se).

AH. Nós somos muito amigos, mas teremos alguns segredos um para o outro?

LM: E quem é o verdadeiro amigo?

AH: Quem é o verdadeiro amigo?

LM: Sim, quem é o verdadeiro amigo? O único fiel amigo que há é o bacalhau. Esse é o único fiel amigo. Tirando esse…

AH: A proximidade do Natal faz-te dizer coisas absurdas…

LM: Faz, faz…

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AH: Não sou só eu hoje a dizer coisas absurdas…

LM: É que colocamos o fiel amigo no plano da refeição. Haverá um fiel amigo? Quem é que é fiel a si próprio, quanto mais ao outro, durante toda uma vida? Quantas vezes nos traímos a nós mesmos? É que temos dentro de nós duas tendências: temos sempre a possibilidade de fazer o bem e o mal. Mas enquanto não nos descobrirmos, enquanto não encontrarmos uma bússola interior que indica o caminho que devemos seguir, estamos sempre a mudar. Somos voláteis. Somos aquáticos.

AH: Luz e trevas também.

LM: Completamente. Mas seremos sempre luz e trevas. A questão é que muitas vezes as trevas sobrepõem-se de forma inconsciente. Nós nem o percebemos. E somos inconsistentes connosco próprios. Hoje defendemos uma coisa, daqui por uma semana defendemos outra completamente distinta, achando que somos consistentes.

AH: As respostas às vezes estão dentro de nós e por isso é que estão tão distantes, porque temos segredos para  nós próprios. Não queremos admitir… Chegamos lá, tocamos e voltamos atrás. “Não quero descer tão baixo para conhecer o meu íntimo”.

LM: Precisamente, precisamente. Eu falo por ti.

AH: E eu falo por ti!

(continua…)

Pérolas aos Poucos IV – A Luz

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EPISÓDIO IV – A LUZ

(excerto)

Alexandre Honrado: O pintor vai defrontar-se com a tela branca. E a tela branca permite-lhe todos os preenchimentos de luzes e até de omissões da própria luz. Aquilo que o pintor faz é um combate com a luz? Ou é uma revelação que vai ocorrendo e que vai extraindo da tela para iluminar-nos a nós, que vemos a tela?

Carlos Dugos: (CD): Há sempre um combate, não em relação à luz propriamente dita, mas em relação à subjugação dos materiais, da própria matéria. A pintura repete um processo alquímico fundamental, o “Solve et Coagula”. Nós quando pintamos, idealizamos a tinta, que deixa de ser simples matéria bruta para passar a ser uma ideia e ao mesmo tempo materializamos a ideia. Esses dois aspectos dão-se num único movimento. Mas o que julgo se trata essencialmente na pintura é das gradações da luz através da cor. Relativamente à luz e à cor eu sigo um conceituado que é Goethiano. O que ele nos explica e até se pode verificar, é que a cor não é mais do que o diálogo ou a dialéctica entre a luz e as trevas. Ele até explica que há duas cores fundamentais, que são o azul e o vermelho. Os azuis correspondem às trevas, são uma família de trevas e o vermelho uma família da luz. Depois há os intermédios. Há o amarelo, que é comum aos dois e o verde que é uma cor central.

Luis de Matos (LM): Nesse caso a luz é sempre facturante entre as trevas e a ausência de trevas?

CD: Sem trevas não há luz. Porque se houver só luz, não se vê absolutamente nada.

LM: A luz em toda a sua intensidade também é invisível.

CD: É. Completamente. Tanto quanto as trevas.

LM: Precisamente. Portanto não é possível contemplar a luz directamente. Pelo menos a luz essencial.

CD: Não é possível apercebermo-nos de nada se tivermos só luz.

LM: Sim, porque não há formas. Não há onde ela reflicta.

AH: Faz lembrar o Ícaro, que quer encarar o sol de frente e acaba por morrer dele.

(…)

CD: O Goethe explicava que a luz quando é vista através das trevas a expressão é vermelha. E é verdade. Ao fim do dia, quando há trevas a oriente, a ocidente onde o sol se põe tudo é vermelho. Quando as trevas são vistas através da luz é o azul que impera. Nós temos o negrume absoluto do espaço, mas como temos uma atmosfera iluminada, vemos o céu azul, embora ele seja negro. Isso é muito interessante para compreendermos o comportamento de cada uma destas famílias de cores. A própria cor, pelo menos para mim, os próprios materiais, as tintas, os pincéis começam a ser entidades quase como se fossem pessoas. São personagens.

LM: Personagens?

CD: Sim.  Eu já prevejo o comportamento delas. Sei o que é que sai dali, se posso juntar isto com aquilo sem haver zaragata… É muito engraçado esse lidar com uma série de personagens que vivem no meu atlier.

AH: Um pouco da família do pintor também está ali à volta?

CD: Sim, sim.

AH: Posso fazer uma pergunta ao Carlos, porque eu tenho aqui alguma curiosidade acerca da simbólica? Há um momento na simbólica em que não é trevas nem é luz, que é o prolongamento do próprio homem, dos seres todos iluminados, seres imateriais até e inorgânicos, se quisermos, que é a sombra. A sombra tem aqui um momento de charneira, de passagem. Tanto que falámos há pouco dos gregos e os gregos tinham um inferno com as sombras, não exactamente com as trevas. Depois as trevas aparecem noutra grandiosidade. As sombras são muito importantes neste seu trabalho?

CD: Sim. Claro, claro. A questão da sombra é que a sombra necessita de um grande equilíbrio. A sombra tem que ser suficientemente equilibrada para para o discurso… É difícil explicar… [Equilibrada] para haver harmonia no discurso, porque senão deixa de ser sombra, passa a ser só escuro.

LM: Como a pausa na música? Será idêntico?

AH: É essa a própria simbólica. A sombra pode passar a escuro se deixar de ser iluminada. Se deixar de ser o homem no seu prolongamento.

CD: Sim… Isso aí é muito complicado. A questão da sombra, das pessoas e dos animais, a sombra que projectam é muito usada na magia operativa, sobretudo na magia negra e africana. A sombra da pessoa é muito importante. A manipulação da sombra da pessoa corresponderia, teoricamente – não sei se na prática – a efeitos na própria pessoa cuja sombra é manipulada. Essa percepção de que a sombra é um outro “eu”, que é a projecção do eu que cria uma intecepção à luz, é muito interessante.

(continua…)

Pérolas aos Poucos III – A Máscara

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Episódio III – A Máscara

(excerto)

Luis de Matos: (LM): A noção do anónimo é interessante porque leva-nos a pensar na forma como, na Tradição, Saint-Martin (que era um filósofo francês), tentou viver a Caridade. E a caridade deve ser anónima. A caridade deve ser feita, de facto, sem rosto. Devemos fazer a caridade sem que se saiba de onde ela vem. Era essa a sua forma de pensar.

Alexandre Honrado (AH): Há um movimento actualíssimo que diz que nós estamos a dirigir-nos todos para um momento de exigência da “caritas”, não da caridade de mão estendida, mas outro tipo de caridade. Uma caridade mais profunda em que dás de ti, o melhor de ti, para salvares os melhores que estão à tua volta e depois os que são piores então percebem que podem ser melhores.

LM: Sim. Ele chamava-lhe uma Caridade reparadora. Porque a ideia é reparar.

AH: Regeneradora ou reparadora.

LM: Exactamente. Porque há a caridade que mantém aquele que necessita da caridade, necessitando dela. Uma côdea de pão hoje, outra côdea de pão amanhã. E depois de amanhã a que horas é que vens cá buscar a tua côdea de pão? É que com uma côdea de pão nunca vais a lado nenhum. A Caridade de que ele fala não é essa. É a Caridade reparadora, de facto.

AH: Exactamente.

LM: E há uma Ordem que foi estabelecida à volta das suas ideias, que é a Ordem Martinista, que tem uma influência muito importante na cultura popular. E porquê? Porque aqueles que são iniciados nesta Ordem passam por um ritual onde a máscara é um ponto essencial. A máscara faz parte da sua vestimenta ritual.

AH: Mas com que essência?

LM: Colocam a máscara para poderem ser “invisíveis” no mundo.

AH: Nesse sentido…

LM: Nesse sentido.

AH: E a máscara introduz alguma expressão?

LM: Não. É aquela máscara…

AH: Anónima?

LM: Anónima. Completamente anónima. É aquela sem qualquer tipo de decoração. É completamente negra. Faz lembrar precisamente os heróis anónimos que vão aparecer depois na cultura popular.

AH: Mais uma vez os americanos, importando da Europa uma série de símbolos…

LM: Importando, fazem esta síntese. É o caso do Zorro. É um herói claramente ligado a esta tradição Martinista.

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LM: Estamos a ver uma imagem. A máscara é esta, negra. Ele tem a espada do herói, a espada da justiça e tem uma capa negra. Os Martinistas é assim que se vestem [com esses elementos: capa negra e máscara negra, com a espada com recordação da justiça.]  E depois do Zorro temos uma série de outros personagens. por exemplo, o Lone Ranger com o seu cavalo , que são sempre personificações de “cavaleiros” anónimos que ninguém sabe quem são na vida real.

AH: (…) Esta capa está presente nos heróis todos.

LM: Está cá porque [é uma referência] à lenda de São Martinho, que rasgou a sua capa para dar a um pedinte. A sua própria capa rasgou-a em duas e fez duas capas. Depois aparece-nos [mais tarde] o Super-Homem, que também tem a sua capa.

AH: Exactamente.

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LM: A máscara do Super-Homem é diferente.

AH: Tem duas máscaras…

LM: Tem duas máscaras. (ri-se)

AH: Tem a da vida real, porque ele é jornalista e mascara-se de pessoa comum e depois tem esta máscara do super-herói.

LM: É isso. Ele usa a máscara da vida real. Mas a noção [subjacente] continua a ser esta do anónimo. Aquele que vive entre os comuns, mas que tem poderes extraordinários. O Batman é outro caso, mais um herói que tem a sua capa e a sua máscara. O que é interessante entender é que estes super heróis que vão aparecendo vêm do passado, vêm [na linha] da tradição Martinista e de Saint-Martin. No caso do Batman já estamos a falar de um herói com conotações mais negras. A máscara é-nos apresentada na cultura popular anglo-americana numa última figuração muito interessante, que é a do Dath Vader.

(continua…)