Sintra fecha o ciclo – O que vale a Pena

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Aos poucos, puxado pelos amigos que se iam inscrevendo e, por um motivo ou outro, não conseguiam estar presentes, fui acrescentando datas ao Calendário de Visitas das Aulas Livres. “Não conseguir ir à Pena! Quando é que vais repetir?”, diziam. “E a Regaleira?”, insistiam. Como não devo ter disponibilidade para repetir algo deste género nos próximos tempos, lá fui aceitando os desafios, semana após semana. Esta semana irá chegar ao fim o ciclo actual de Visitas e Aulas e já abordámos tantos temas e usámos os locais e edifícios históricos como pretexto para tanta filosofia que parece que estou a regressar a casa de uma longa viagem ao regressar à Pena! De Dante a Platão, de Pessoa a Lima de Freitas, de Percival a Galaaz, de lugar em lugar, ideia em ideia, questão em questão, enquadrando os lugares, as doutrinas, as perplexidades. Muito ficou por dizer e muito por observar. Mas a paixão pelos lugares ficou patente. E feliz fui ao ver a paixão compartilhada por tantos.

A eles, obrigado!

 

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Pérolas aos Poucos II – Halloween

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Episódio II – Halloween

(excerto)

Luis de Matos (LM): Esta noite do ano, a noite do Halloween, está ligada à aproximação desse mundo dos mortos ao mundo dos vivos. O mundo dos mortos em quase todas as culturas está afastado, não permeia o dos vivos. O mundo dos vivos é este e depois há um outro afastado e distante. Mas há um momento no ano em que ambos se tocam e esse momento é precisamente a passagem de 31 de Outubro para 1 de Novembro.

Alexandre Honrado (AH): Que é uma data com um significado e um significante, como eu costumo dizer. Tem um significado ritual, mas tem um significado também inerente. Todas as grandes datas aliás, as que nós comemoramos, têm um segredinho por trás.

LM: Sim. Todas as datas chamadas “mágicas” são momentos de ruptura, momentos de passagem de tempo. O ser humano tem dificuldade com as passagens, com as transições. A vida humana é cheia de transições, é cheia de incertezas, não é permanente. Podemos mesmo dizer que a vida humana é impermanência. E os momentos em que se dão todas as transições, especialmente as que estão ligadas ao calendário anual, requerem a cooperação do ser humano. É como se não acontecessem se o ser humano não cooperasse. É como se chegássemos a 31 de Dezembro e o ano não passasse se não o comemorássemos. O ano fica ali. Há ali uma finitude. Um fim. E o sagrado está sempre ligado a essa noção de corte. [É o caso da] noção de “templo”, por exemplo, cuja palavra vem do grego “temenos”, que significa “corte”. O “templum” em latim é o “lugar separado”. Portanto nada se pode fazer de sagrado se for no lugar comum onde tudo [o resto] se faz. Tem de ser [feito] num lugar em separado. E esta noção de corte é muito importante para que se dê o sagrado. Por exemplo, nós sabemos que as horas a que ocorrem os rituais têm de ser particulares. É a Missa do Galo à meia-noite, ou a Missa do meio-dia. Ou, lá está, a transição do ano à meia-noite. Ou, por exemplo, a hora a que certas Ordens começam a trabalhar, que é o meio-dia e a maia-noite, mas também a aurora e o crepúsculo, as 6h da manhã e as 6h da tarde. [Todas elas] são horas “mágicas”, horas onde tudo pode acontecer. Os rituais têm tendência a centrar-se nessas horas. Por exemplo, a situação [geográfica] de Portugal como sendo a ponta da Europa transforma Portugal num lugar mágico: “onde a terra acaba e o mar começa”.

AH: O Nascimento e o Ocaso?

LM: Exactamente. É aí onde se pode dar a magia. A magia não se dá nas horas vulgares, às 11 da manhã, às 10h30 depois de uma torrada e um café. A magia dá-se no lugar próprio, no tempo próprio. As histórias infantis, [que] são uma forma de transmitir essas coisas às gerações novas, se notares, colocam sempre a história, que é arquetípica e te dá valores para construir a sociedade no futuro, colocam-na sempre num desses espaços sagrados e tempos sagrados. Começam sempre: “Há muito, muito tempo, num lugar muito, muito distante”. Levam-te para um lugar que não é este onde estás e para um tempo sagrado.

(…)

AH: Tu falaste-me da influência Francesa. Quem tem uma influência Francesa muito grande é, sem dúvida nenhuma, o Haiti.

LM: Sem dúvida.

AH: Eu trouxe isto dos arredores de Port-au-Prince, que é, nada mais, nada menos, que uma figurinha de Voodoo. [mostra boneco de Voodoo]

LM: Pois, Port-au-Prince, a influência Francesa…

AH: Exactamente. Mas estamos a falar do Haiti. Não estamos a falar de Paris nem dos Champs Elysées… Estamos a falar de Port-au-Prince e estamos a falar desta criatura, que tem uma carga muito forte. É um boneco de Voodoo.

LM: Exactamente.

AH: Boneco que te empresto, mas com as devidas ressalvas, porque tem de voltar. Eu trouxe-o de lá, onde assisti a umas cerimónias bem curiosas. Dá-me vontade de usar esses alfinetes… Espetar algumas pessoas…

LM: (ri-se)

AH: Não espetes, não espetes… [Os alfinetes] estão a enfeitar o cabelinho dele. Não o espetes a ele. Espeta-o depois ritualmente e dizendo algumas palavras mágicas.

LM: Sabes que isto tem que ver com um tipo de magia que é a magia mimética. Há dois tipos essenciais: uma é a mimética e a outra é a de invocação. Na de invocação eu estaria aqui perante um templo ou um altar e invocaria uma determinada entidade a esse lugar através do traçado de figuras geométricas ou letras de determinados alfabetos para que essa entidade se manifestasse naquele lugar. Essa é a de invocação. Mas a mimética é aquela em que eu construo um modelo daquilo que quero influenciar. E aqui temos um caso desses. Este é o modelo da pessoa que se vai querer influenciar e aqui [(tomando um alfinete nas mãos)], temos o que estamos a infligir nessa pessoa. Na magia mimética aquilo que o mago faz é dizer “tal como eu tenho este objecto aqui” – vai tentar dar-lhe uma personalidade – “a pessoa que corresponde no mundo real a este objecto vai sofrer determinadas consequências”. Nem sempre são consequências negativas.

AH: Sim, nem sempre são negativas.

LM: Não. Na Igreja [Católica] por exemplo existe muito a noção da magia mimética quando fazemos uma evocação e dizemos “tal como Deus foi poderoso em Jericó e deitou abaixo as muralhas, também Ele é hoje aqui poderoso para…”, etc., etc.

AH: Na Igreja Católica.

LM: São fórmulas judaico-cristãs, mais judaicas [até], que usam a mesma noção da magia mimética que é reflectir uma situação em que esse poder se manifestou e, como tal hoje eu quero que ele se manifeste do mesmo modo.

AH: Mas há um mimetismo em todo o ritual. Quando tomas o cálice, quando bebes o sangue, quando comes um pedaço do corpo, é da alguma forma um mimetismo.

LM: Depende. No caso do cálice é diferente. Na realidade o sacerdote está a convocar sobre o cálice uma transmutação. E aí já não é uma magia mimética. Já nem sequer é uma magia… Supõe-se que há uma transmutação. A diferença entre transmutação e transformação é que quando eu transformo, mudo a forma, mas quando transmuto, mudo a essência.

(continua…)

II Jornadas de Estudo da Maçonaria Cristã – Sintra

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No passado dia 30 de Novembro de 2013 tive o prazer de participar nas II Jornadas de Estudo da Maçonaria Cristã, organizadas pela JPL “Adhuc Stat!”, nº5 do GPRDH, a Oriente de Sintra. A Loja, que trabalha no Regime Escocês Rectificado, comemorou recentemente o seu segundo ano de vida e, como vem sendo habitual, assinala o dia de Santo André – padroeiro do Rito que pratica – com um dia de estudo e divulgação dos fundamentos da Maçonaria Cristã aberto aos maçons de todos os Ritos e Obediências, bem como ao público em geral. A iniciativa tem o apoio do In Hoc Signo – Hermetic Institute e da Akademia Maçónica de Sintra.

Como Presidente do In Hoc Signo e durante muitos anos membro do Rito Escocês Rectificado, fui honrado com o convite para apresentar um trabalho que vem antecipar o meu livro (a sair em 2014 pela Zéfiro), que aborda a rica simbologia maçónica. Deste modo, apresentei uma curta comunicação intitulada “O Leão no Simbolismo Maçónico do Regime Escocês rectificado”.

Deixo um pequeno extracto:

“O Leão é um dos símbolos mais usados pelas religiões e pela tradição para representar a força do animal solar por excelência, divindade absoluta da vida e da morte e mediador de toda a Criação. Representa o poder soberano, a ordem e a sabedoria. Sendo o Rei dos Animais incorpora todas as qualidades e defeitos do seu lugar régio, incluindo a autoridade, a nobreza e a magnificência, mas também a cólera e a violência. É a luz manifestada na sua maior potência, o Ouro esplendoroso, sendo por isso o protector e o que cuida, ao mesmo tempo o Pai e o Mestre, mas igualmente o tirano e opressor se for consumido pelo orgulho e se ficar cego pela própria luz. Na Bíblia o Leão é o portador da destruição ordenada pela divindade, como é igualmente o símbolo do poder dos monarcas sobre o povo e o seu rugido é considerado tão poderoso quanto a Voz de Deus. Energia pura, é a destruição e a construção. O Rigor, a Justiça e a Síntese ao mesmo tempo. Na Árvore da Vida está representado na esfera do Esplendor, Tiphereth, a esfera central. O Leão aparece igualmente na visão de Daniel, como um dos animais proféticos, que os comentadores têm associado ao Império Babilónico. É ainda o símbolo da Justiça e da Clemência, estando associado a inúmeras lendas onde despedaça os iníquos e poupa os justos.

Tradicionalmente diz-se que o Leão habita um covil ou cova. É um habitante do interior da Terra, lugar que domina com o seu aspecto duplo de Sol Exterior e Sol Interior. O Leão em hebraico é Ari , cujo valor na Gematria é 211, relacionando-o com palavras como Herói, Acesso e Vista e dando-lhe a letra Dalet como atributo. Dalet assemelha-se a uma porta, com um alpendre ou cobertura. Por esta associação o Leão guarda a porta para a Caverna. É assim que vemos a inocência de Daniel provada na Caverna dos Leões. Estes não lhe tocam pois está inocente. É numa cova que Hércules deve matar o Leão de Nemeia. É assim que vemos os Leões que guardam o acesso a locais de poder, como Castelos, Palácios Reais e, na literatura medieval, encontramo-los à entrada do Castelo do Santo Graal.

(…)

O Leão domina o poder de dar a vida e é vitorioso sobre a morte. Os Bestiários medievais perpetuavam a lenda que terão recolhido de Aristóteles e Plínio, a qual afirmava que a leoa dava à luz as suas crias mortas, mas que as acarinhava por três dias e lhes dava a vida através do seu alento. A associação à morte e ressurreição de Cristo ajudou à propagação do mito, marcando o carácter Crístico e de senhor da vida e da morte do Leão.

Os Alquimistas chamavam Leão Verde ao primeiro agente magnético empregado para a preparação do Alakest, ou Dissolvente Universal. Este é um tema amplamente explorado pelos Rituais Alquímicos do Barão de Tschoudy e de Dom Pernety. Alguns grandes Adeptos deram-lhe nomes diferentes para despistar os curiosos. Basile Valentin chama-lhe Vitriol Verde, expressando a sua natureza quente e ardente, outros chamaram-no Esmeralda dos Filósofos, Orvalho de Maio ou Pedra Vegetal.

No contexto Maçónico devemos separar o Leão genericamente usado como símbolo solar, a que se atribui a Força, a Sabedoria e a Beleza como expressão de uma trinuidade criadora, igualmente emblema da Tribo de Judá tal como nos aparece nos graus de Arco Real e do Rito Escocês Antigo e Aceite, do seu simbolismo particular tal como aparece no Rito Escocês Rectificado, que iremos analisar à parte. O trono de Salomão tinha dois Leões em ouro, que se perpetuaram na sua associação aos mais nobres entre os nobres, sendo usado nos tronos de monarcas e Papas ao longo de milénios. É o animal emblemático da Tribo de Judá, a tribo que viria a gerar a linhagem sagrada dos monarcas de Israel, incluindo David, Salomão e o futuro Messias. O Leão é o emblema heráldico mais usado em todos os tempos. Os Evangelhos de Mateus e Lucas dão a genealogia de Jesus, colocando-o como um príncipe da Tribo de Judá.

A realização da Obra do Leão é a realização da perfeição da obra física. O Leão é o símbolo da genealogia do Mestre, pelo que representa a transmissão imemorial e ininterrupta do Conhecimento de Mestre a Discípulo. A esta segue-se a Obra da Águia, contraparte imortal da matéria realizada representada pelo Leão (Ouro, luz manifestada, Sol, etc.). Deste modo, os graus simbólicos estão associados ao Leão e os graus filosóficos estão ligados à Águia.

(…)

No Rito Escocês Rectificado o Leão aparece no 4º grau, o de Mestre Escocês de Santo André, como emblema do grau. A descrição dos rituais originais de 1778, manuscritos por Willermoz, diz: “Um Leão sob um céu tormentoso e carregado de nuvens, repousando ao abrigo de uma rocha e brincando tranquilamente com alguns instrumentos de matemática e estas duas palavras por divisa: MELIORA PRAESUMO, que significam ‘entrevejo coisas melhores’”. Não iremos desmontar aqui a simbólica de tal emblema, trabalho que Willermoz convida todos os Mestres Escoceses a fazer frequentemente, mas apenas referir alguns pontos mais salientes do seu estudo que podem abrir interessantes avenidas de pesquisa simbólica.

O Leão do Rito Escocês Rectificado (RER) está a coberto de uma rocha, protegido da tormenta que se desenrola à sua volta mas que não o afecta, já que está imperturbável, brincando com “instrumentos de matemática”. Já vimos anteriormente que o Leão (Ari em hebraico) se relaciona com a letra Dalet. Esta prefigura a imagem da rocha que vemos nas diversas representações do emblema maçónico, com uma cobertura protectora. Contudo, é também associada à porta, pelo que o Leão que brinca com instrumentos de matemática está a guardar uma porta ou entrada (papel que lhe é atribuído tradicionalmente, à entrada de fortificações e palácios em todo o mundo), acesso a uma caverna subterrânea, a arquetípica Caverna do Leão. René Guénon atribui à caverna o significado de “centro” e relaciona-a com o coração designando-a como “caverna do coração” . O Leão na sua Caverna é uma imagem clara do Homem que despertou a centelha no seu coração, a Presença que se manifestava na Arca no seu Sanctum Santorum, figurada no RER pela construção do Templo Místico de Salomão, objectivo último do Maçon Rectificado.

Por outro lado a Caverna refere-se ainda ao que está oculto, invisível, desconhecido. Este aspecto pode ser lido a muitos níveis simbólicos, já que do ponto de vista universal o Leão na caverna é a representação do Rex Mundi na sua cidade oculta interior, sendo igualmente a referência à Ordem Interior (uma Ordem de Cavalaria) que rege o Regime Rectificado, expressão da uma Ordem Invisível de que tivemos já oportunidade de falar.

(…)

Uma última referência aos instrumentos de matemática com que o Leão brinca no emblema Rectificado. A Matemática é a antiga Aritmética. Ora, a palavra Aritmética vem do Latim Arithmetica, que encontra raiz no grego Aritmetiké Tekhné (ou “arte numérica”), em que número é Arithmos. Ora, Arithmos deriva da raiz indo-europeia “Ar”, que dará palavras como Arte, Ara, Ordem e o hebraico Ari (Leão). Assim, o Leão que brinca com instrumentos de Aritemética é a personificação da própria essência da Matemática. O Logos, veículo da Criação e destino da Reintegração. A medida de todas as coisas começa no Leão e termina no Leão. Ele é não só o que detém a Palavra Perdida, mas detém igualmente a Dimensão Perdida.

No RER, então, o Leão na sua Cova ou a coberto do seu Penhasco está protegido, está no seu lugar, imperturbável, detendo a plenitude do conhecimento aritmético e a medida de todas as coisas. Nenhuma tempestade o distrai ou atemoriza. É a imagem do Templo Místico de Salomão reedificado no Maçon. Ao entrever coisas melhores, segundo a sua divisa, exorta todos os que estão a passar por maus momentos a ancorarem a sua Esperança no futuro. Alude à coragem extraordinária de Santo André, discípulo de São João Baptista que, reconhecendo o Leão de Judá (Cristo), não hesitou em deixar para trás a sua existência anterior, incompleta, passada, para se reunir ao trabalho da construção do Novo Templo com o Cristo. Para fazer essa transição entre toda uma vida dedicada a um Mestre pela do Mestre dos Mestre, André personificou o MELIORA PRAESUMO, passando ele mesmo da Antiga Lei à Nova Lei. Até ali o Templo era exterior (Tabernáculo no Deserto, depois Templo de Salomão, depois Templo dedicado por Zorobabel), mas com Cristo a construção do Templo é mística e interior.

O Leão, forte, soberano, em majestade é uma das mais poderosas imagens simbólicas usadas pela humanidade em todos os tempos. No seu aspecto sereno e imperturbável é a representação do Homem realizado.”

Resta-me mais uma vez agradecer à JPL “Adhuc Stat!” o convite e a oportunidade, desejando as maiores felicidades e êxitos no trabalho Rectificado.

Que a Ordem prospere.