Crise? Que Crise?

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TEMPORADA 2 – EPISÓDIO VI – CRISE? QUE CRISE?

(excerto)

Luis de Matos (LM) – Eu fui procurar a etimologia da palavra [crise] e devo-te dizer que pensei que estava enganado quando li. Vou ler directamente.

Alexandre Honrado (AH) – Estás a falar do [site] ciberdúvidas, ou algo do género.

LM – Sim. [“Crise”:] substantivo; significa momento de decisão, de mudança súbita. Especialmente na acepção da medicina grega, é aquele momento em que a doença pode virar e ou o paciente morre ou começa a sua recuperação. É o momento de viragem.

AH – Dizia o Álvaro Santos Pereira no livro, “a crise pode ser muito estimulante porque é um momento de viragem”. Ele dizia mais ou menos isso.

LM – Eu andei a procurar e realmente, a crise é o fio da navalha. É aquele momento em que se multiplicam os problemas e ali, de uma vez por todas, ou seguimos o caminho correcto e conseguimos recuperar, ou então espalhamo-nos definitivamente. Todas as crises que identifiquei são transições e são muito curtinhas. Por exemplo, a crise dos misseis de Cuba (…), a crise de 1929 [com] o crash da Bolsa de Nova Iorque. Foi um momento de transição abrupto e que depois levou a uma recuperação lenta, mas a uma recuperação [definitiva].

AH – São fracturas na História.

LM – São fracturas.

AH – Como as minhas crises de asma quando era miúdo.

LM – Repara, a “crise de asma”…

AH – Era uma crise, momentânea, que nos afectava imenso e depois passava ao fim de umas horas.

LM – Mas não é a doença crónica que é a asma, que é diferente.

AH – É diferente.

LM – Exigem medidas completamente distintas. Aliás, é possível tratar a asma de forma a que não tenhas crises.

AH – Sim.

LM – E o que se faz para resolver uma crise de asma não é o mesmo que se faz para manter sob controlo a asma.

AH – Não há nada como preparar a situação antes.

LM – Eu lembro-me de uma muito interessante que nos dá uma ideia do que é uma crise e o que é que não é uma crise. A Apollo 13, quando teve aquele problema no espaço, que foi uma crise, quando chamaram Terra disseram “Houston, we have a problem” [“Houston, nós temos um problema”]. Hoje em dia, a forma como estamos a olhar para a crise é um bocadinho diferente. Seria “Houston, we ARE a problem” [“Houston, SOMOS um problema”].

AH – Portugal, we are a problem.

LM – Exactamente. O que estamos a dizer às pessoas é “Malta, temos muito más notícias, não temos um problema, vocês SÃO o problema!” Ora, isto não é a definição de uma crise.

(continua)

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