Chama-me Nomes

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EPISÓDIO V – CHAMA-ME NOMES

(excerto)

Luis de Matos (LM): Não só é determinante a data em que nascemos e a época em que nascemos, mas o nome [também] vai determinar muita coisa sobre nós.

Alexandre Honrado (AH): Obviamente.

LM: Uns acabam por abraçar o nome que têm e por definir-se por ele, outros acabam por nunca o aceitar e acabam por o mudar. São poucos, mas há ali um conflito de identidade entre o nome dado e o nome percebido e acabam por mudar de nome.

AH: Ainda hoje uma das moedas mais valiosas é o “Luis de Ouro”.

LM: Sim, é verdade. Luis foi um nome bastante importante em França, durante muito tempo.

AH: Houve muitos.

LM: Houve 16 e um que se espera que um dia volte. Um 17º. Ainda há essa ideia. Mas nós, os Europeus, somos muito estritos na forma de dar nomes. Há nomes que são proibidos.

AH: E até durante uma época. Alguns só agora estão a regressar. Alguns Sebastiões, alguns Salazares, alguns com as marcas mais pesadas da história.

LM: Sim. Eu creio que todos nos recordamos em algum momento de ter lido nomes brasileiros ou africanos que são muito engraçados – são engraçados para nós. Definem coisas diferentes. Lembro-me, por exemplo, um nome brasileiro que era “Reconhecido”. Chamava-se Reconhecido, como um documento. É um nome estranho. Um africano que eu me lembro que se chamava “Problema”. E ele gostava do nome Problema. Aqui em Portugal não poderias chamar ao teu filho Problema. No Brasil, por exemplo, existe uma senhora que se chama “Letra E”. É um nome. Nós aqui não podemos fazê-lo e em grande parte dos países da Europa também não é possível. Portugal é um pouco mais aberto. Há uma lista de nomes que estão autorizados.

AH: Ou seja, há um Index.

LM: Sim.

AH: As pessoas não podem por o nome que querem.

LM: Quanto mais vamos para o norte da Europa, mais difícil é. Recordo-me de um amigo, que os espectadores conhecem certamente, o Fernando Girão, que quando quis chamar ao seu filho “Santiago” viu-se em grandes dificuldades.

AH: Hoje é muito comum, aliás.

LM: Exactamente. Pensarias que Santiago seria um nome “normal”.

AH: Mas deixa-me dizer-te…

LM: Não?

AH: É um nome que surge sempre com alguma hesitação e há muita gente que eu conheço que se chama Santiago e que pôs aos filhos Santiago, porque Santiago é uma contracção. É “sant”, abreviado [de santo] e “Yago”. Nem sequer é Tiago, é “sant” e “yago”. Deu Tiago por derivação.

LM: Foi uma das sugestões que lhe fizeram.

AH: E transforma-se depois em Santiago, que é um santo com nome de Iago.

(…)

LM: Os nomes habitualmente migram de masculinos para femininos e não ao contrário. Um nome que seja aceite hoje como feminino, que tenha sido masculino, é muito vulgar. Por exemplo, o nome inglês Kim foi durante muito tempo de homem. Curiosamente o que teve um impacto tremendo na cultura popular foi o filme “Vertigo / A Mulher Que Viveu Duas Vezes” do Hitchcock, que era protagonizado pela [actriz] Kim Novak. Isto está estudado. Desse momento em diante a atribuição do nome Kim a raparigas começou a mudar e a suceder de tal modo, que praticamente desapareceram os rapazes Kim.

AH: Um exemplo mais recente, também da televisão e dos cinemas, há uma série de televisão que é “O Mentalista”, em que o protagonista [masculino] se chama Jane. E Jane, para muitos, é um nome feminino.

LM: Sim. O que é interessante é isso. A migração é sempre de masculino para feminino, nunca ao contrário. Eu estava a lembrar-me de um outro fenómeno que tem acontecido em diversos países, mas que é mais visível nos nomes americanos e na comunidade afro-americana, que é a procura de dar nomes muito criativos e muito diferentes de qualquer tradição [anterior]. Lembro-me das Beyonces, por exemplo, das Jamilias… Quando ouvimos alguns nomes na televisão ficamos surpreendidos. São nomes especificamente da comunidade negra. E porquê? Porque os seus pais e avós tinham nomes de escravos. [Convencionais e inspirados nos seus senhores]. E [as novas gerações] estão cada vez mais a procurar deixá-los. Os Jacksons, os Jeffersons, eram nomes normais na comunidade negra há 50 ou 60 anos atrás. Cada vez mais os vão deixando por outros nomes que vão criando. [JayZ, Nicki Minaj, Tanisha, Latifah, Rihana, Kanye, etc.]. São muito inventivos.  E isto é interessante porquê? A sua consciência social mudou completamente. Não renegam a sua ancestralidade e o que os seus pais ou avós foram, mas como se sentem pessoas diferentes e têm outro papel na sociedade, mudam o nome. para que, com o nome se reflicta a mudança interior que houve.

(… continua)

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