A Presença Ausente – Distância e Tecnologia

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Episódio IX – A Presença Ausente – Distância e Tecnologia

(excerto)

Alexandre Honrado (AH): Repara que eu te lancei um repto a partir do tema “A Presença Ausente – Tecnologia e Distância”. A presença ausente.. Tu já reparaste que as pessoas hoje se não fotografarem, por exemplo, o acontecimento, se não fizerem a sua fotozinha com o seu aparelho portátil, nem vivem o acontecimento que estão a viver?

Luis de Matos (LM): [(Tirando o relógio do pulso para o colocar sobre a mesa)] Acho que as pessoas às vezes parece que não estão no sítio onde estão. Estão com a cabeça noutro sítio qualquer ou estão desatentas ao que estão a fazer… [(coloca o relógio na mesa)] Ou… [(hesita e arranja de novo o relógio para que fique alinhado com o telemóvel, também em cima da mesa)] Nem sabem… [(e olhando AH)] Qual era a pergunta? Tu desculpa..

AH: Ah! Não estás cá!

LM: Desculpa…

AH: Tens mesmo de te sintonizar…

LM: Tenho de me sintonizar.

AH: Vou tentar repetir. Agora o [cartão] “sim” está bloqueado [(mexe no menu do seu telemóvel)]. Sabes o que é o “sim”? Agora eu vou desbloqueá-lo. Sabes que se eu não te fotografar neste momento [(levanta o telemóvel para fazer uma foto)] a maior parte das pessoas dirá que não estivemos juntos e portanto, eu para ter a prova fotografar-te-ei. Mas a a verdade é esta, hoje as pessoas estão a ver um incêndio e fotografam-no mesmo que estejam com os pés a queimar. As pessoas estão a ver um tsunami, deixam-se afogar, mas estão a filmar com a sua pequena câmara. As pessoas têm necessidade de ser mais do que elas são. Portanto há uma presença ausente, diria eu.

LM: É, as pessoas têm a necessidade de ver, através de um outro meio, que é o meio virtual, aquilo que está a acontecer na realidade. É muito interessante porque, desde há uns anos para cá, a presença de tudo o que é virtual tornou-se central à nossa vida. Eu há pouco tempo estive a analisar duas fotografias, infelizmente não as pude trazer, mas prometo que depois colocamos no nosso site. Prometo que depois colocamos no nosso site. [(PING!)] Olha! Tenho um comentário no nosso Facebook. Só um segundo [(Vira-se para o laptop para ver a página do Facebook)]…

AH: Ah! Sim. Devíamos interromper imediatamente. Devíamos estar a fazer esta entrevista pelo Facebook. E o comentário, espero que seja positivo…

LM: [(olhando de novo AH depois de deixar de ler o écran do seu computador)] É. É positivo. É de uma pessoa amiga.

AH: No site do Pérolas com porcos… Pérolas aos Poucos!

LM: (Ri-se) No nosso Facebook depois colamos a fotografia, que foi…

AH: (interrompendo) Aí está. “Facebook”!… Aí está mais uma palavra importada.

LM: O “livro das faces”, não é?

AH: Exactamente. Há muitas faces nisto que poderíamos discutir…

LM: (Ri-se)

AH: (regressando ao tema) Falávamos do virtual. Falávamos do virtual.

LM: Foi uma fotografia de quando foi eleito o Papa Bento XVI em que nós víamos [(PING!)]… Desculpa, recebi uma mensagem [(pegando no telemóvel para a ler)]

AH: Mas nós vamos estar [assim] o programa todo[?!]… Eu tenho várias [mensagens], não tenho é o som ligado…

LM: Desculpa. Deixa-me explicar uma coisa que é importante. Eu acho que isto é uma experiência importante. Nós habitualmente, quando começamos este programa, desligamos tudo e passamos a ser outras pessoas. Somos as pessoas que somos, aqui neste programa.

AH: Exactamente.

LM: Eu hoje quis fazer uma experiência diferente. Quando a gente sai daqui, liga os telemóveis, liga os computadores e estamos ligad[(PING!)]… Olha! Outro comentário! [(vira-se para o computador para o ler)]

AH: Estás a ver? Não vamos conseguir fazer esta…

LM: Era de um amigo meu. Eu depois vou-te contar…

AH: Não vamos conseguir fazer este programa…

LM: Não, fazemos! Eu achei que era uma experiência interessante não desconectar do mundo. Repara, a realidade está a acontecer lá fora. Está tudo a acontecer ao mesmo tempo. Temos que estar ligados. Eu sei lá se agora acontece, por exemplo, um tsunami outra vez? No Japão há aquele problema todo das centrais nucleares – eu tenho visto no Facebook! – e portanto eu preciso…

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AH: Mas isso não é um excesso de informação? Não há uma falta de comunicação?

LM: Eu não sei se há excesso de informação. A gente precisa de viver o momento. “A gente vive apenas uma vez”, não é? Tem que estar ligado a tudo. Quando nós desligamos…

AH: Estás muito entusiasmado.

LM: É da cafeína. Estou só a dizer que quando nos desligamos do mundo, passamos a não viver. Deixamos a experiência toda da realidade desaparecer. Estamos só aqui nós [os dois]. E não é muito interessante. Desculpa lá, que às vezes não é muito interessante.

AH: Então deixa-me só colocar umas questões que é só para esclarecer. Deixa-me ser esclarecido por ti, que também é para isso que cá estás. No meio estava a virtude e agora está o virtual. Tem virtudes o virtual? Onde é que está a virtude que havia antigamente e que desapareceu em nome do virtual?

LM: Eu não sei se o virtual… Virtudes tem, obviamente.

AH: Utilitárias.

LM: Não só. Não é só uma questão utilitária. Faz-me sentir muito melhor se eu estiver conectado. Se eu for passar um fim de semana a um lugar onde não tenho rede, é um drama. De repente deixei de estar [conectado]. Estou apenas a contar-te como é que eu me sinto. É assim. Fico nervoso. Não sei o que fazer e já nem sei o que fazer com os dedos.

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(…)

LM: A fotografia de que eu queria falar há pouco (…) foi [tirada] quando o Papa Bento XVI aparece no balcão, naquela janela do Vaticano e a multidão o recebe e vê pela primeira vez quem é o Papa, há uma fotografia – há várias – isto foi quando?; já não me recordo, há 5 anos atrás, 6 anos, 7 anos atrás quando isto ocorreu? O que tu vês é uma multidão de gente, a janela ao fundo e o novo Papa, contudo, há menos de um ano, (…) com o novo Papa, já vês uma multidão de gente cheia de luzinhas e toda a gente de mão no ar…

AH: A fotografar. Sim, sim.

LM: Há uma mudança extraordinária entre uma coisa e outra. A pergunta é: quem é que estava mais ligado aquela realidade? Os da primeira fotografia, que estavam a ver aquela realidade e a experimentá-la e a olhá-la, pendentes de cada palavra que aquele homem ia dizer (…), ou os outros que estão com o telemóvel a ver e a tirar fotografias, a enviá-las para os amigos e a dizer “eu estou aqui”, “eu existo, atenção!”, “eu estou cá”.

(…)

AH: Estamos no final do programa. É tempo de fazer um auto-retrato.

LM: Vamos fazer o “selfie”?

AH: Desculpa, não é um auto-retrato, é um “selfie”. Vamos aqui então…

LM: É para por no Facebook.

AH: Vamos fazer… [(preparam ambos os seus telemóveis)]. Não estou mal de todo. Acho que estou penteado.

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LM: Depois os programas de manipulação de imagem ajudam.

AH: Não é assim que se diz. Diz-se “photoshop”.

LM: Mas isso é uma marca. Há vários.

AH: Eu não sei se consigo daqui fotografar a regie…

LM: Mas, espera aí. Um “selfie” que não seja pateta é um “selfie”?

AH: Não. Vamos deitar a língua de fora por favor.

LM: Tem de ser.

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AH: Vamos acabar em grande. Espero que as câmaras apanhem isto. E fiquei muito bem…

LM: Olha, isso foi precisamente aquilo que eu pensei durante estas férias [de Natal].

AH: Deitar a língua de fora?

LM: Não, não. Quando vi o lixo em Lisboa: “espero que a as Câmaras apanhem isto”.

(continua…)

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