Também a Propósito da Reportagem “Segredos Maçónicos” da RTP1

1. O HORROR

Não tenho recordação de nenhuma reportagem feita por uma televisão nacional que tenha tido o impacto de “Segredos Maçónicos” exibida pela RTP1 no seu Linha da Frente a 6 de Fevereiro de 2020. O meu telefone não descansa, o meu mail está cheio, os serviços de messenger estão em overload. Os meus amigos e muitos dos meus leitores querem saber como é que apareci na reportagem e muitos se perguntam o que faço na Nova Maçonaria Portuguesa (assim se apresenta a Soberana, a Grande Loja que abriu as portas às câmaras). Tenham lá calma. Estive no ar 20 segundos!

Talvez seja boa hora de colocar alguns assuntos em dia.

De facto a reportagem é controversa. Mesmo o Grão Mestre da Grande Loja Soberana publicou no site da Obediência uma mensagem de fundamentação de algumas das opções seguidas ao abrir a sua sede, porque mais vale esclarecer e enquadrar do que deixar à imaginação de cada um o que terá a RTP filmado de uma sociedade tão secreta como a Maçonaria! E chamo-lhe controversa pelas reacções, adversas na sua maioria pela parte de Maçons e favoráveis pela parte do público, especialmente do meu público leitor que já está habituado a saber que pouco do que é maçónico fica hoje escondido. Mais sobre isto adiante.

E as reacções surpreenderam-me porque, em quase 30 anos de Maçonaria, já vi reportagens portuguesas dentro de rituais maçónicos, totalmente filmados de ponta aponta (a célebre reportagem da RTP em 1992 no Hotel Estoril Sol em reunião magna da então Grande Loja Regular de Portugal), várias reportagens nos Congressos que por cá se realizaram com acesso à parte litúrgica, até uma reportagem para um canal privado novamente no Estoril Sol em 1996 por ocasião da tomada de posse do Grão Mestre da GLRP. Lá fora então, recordo-me de tudo, desde a reportagem completa da comemoração dos 275 anos da United Grand Lodge of England em 1992 em Earls Court até à mais recente comemoração dos 300 anos com um ritual que teve lugar no Royal Albert Hall em 2017 – tudo filmado, é procurar no Youtube.

Ou seja, a internet veio colocar uma lupa sobre Maçonaria. Não apenas no que respeita às fotografias, livros, rituais, informação verdadeira e falsa, mas igualmente nas plataforma de vídeo como o Youtube ou Netflix e nas redes sociais.

Assim, podemos dizer que há dois tipos de Maçonaria no mundo hoje: as que estão em negação e pensam que podem viver à parte, sem escrutínio, sem que a curiosidade que incentivam com um secretismo mal explicado exija uma abertura à sociedade que dizem querer mudar e as que fizeram uma longa introspecção e, não desejando ser varridas para debaixo do tapete das irrelevâncias históricas e curiosidade museológicas, abraçam o novo mundo e a revolução digital sem comprometer os valores e o direito à privacidade que essa revolução veio por na ordem do dia. E destas, seguramente que a Grande Loja Unida de Inglaterra e algumas Grandes Lojas Americanas têm tomado uma dianteira que iria chocar 90% dos que se me têm manifestado nos últimos dias por causa do Linha da Frente. Quem ficou na estação e viu o comboio partir é capaz de ficar abalado com o título do Irmão David Staples da United Grande Lodge of England.

Um exemplo curto:

Há uma enorme falta de informação e ligação à actualidade. Estamos a ficar para trás. A marcar passo. Outro exemplo do que se faz lá fora:

Então e Portugal? Tem a Maçonaria conseguido fechar portas e manter os Templos e os rituais escondidos?

Como autor, tenho a obrigação de dar aos meus leitores informação fidedigna. Reclinem-se nas vossas cadeiras ou deixem o que se segue para ouvir a caminho do trabalho no vosso telemóvel. É extenso. Não é a primeira vez que a Maçonaria “abre as portas”. A presente Reportagem deve ser comparada com o que já foi feito.

Querem fazer comigo uma viagem à avenida das memórias?

Cá vai:

Avivou a memória? Abrem-se Templos, explicam-se símbolos, fala-se de história, fala-se paramentado, vê-se tudo, mesmo o que devia ficar reservado, vêem-se cadeias de união, rituais, deambulações na Loja, a música é grave e taciturna, tictacteia-se à volta do segredo (Segredo? Não há segredo! Discrição…), há várias organizações e muita gente diferente. Nem tudo é mau. Mas tudo é meio obscuro, fechado e pretérito.

Atenção que isto é um assunto sério! Até hoje a Maçonaria não percebeu que, se quer fazer parte da Sociedade, tem de fazer a sua parte para que a Sociedade a perceba. E a comunicação é chave. Deve ser positiva, diferenciadora e não deve esperar pelo ruído mediático dos escândalos nem ser feita à custa das rivalidades entre Obediências (que o público em geral, naturalmente, não distingue). Assim tem sido a comunicação maçónica nos meios informativos em Portugal.

Quem conhece estes e outros vídeos, como pode estar a mandar-me, logo a mim, mensagens sobre eu aparecer no Linha da Frente durante 20 segundos? Será que há algo mais subversivo no Linha da Frente, que os não-maçons não apanham?

Será, talvez, que haja quem tenha preferência por isto?

Ou mesmo, isto…

É que, caros leitores, na era digital, do Facebook e do Youtube, não são as Obediências Maçónicas que fazem a agenda. O conteúdo sobre elas é criado livremente por quem precisa de vender clicks. E por gente com a mania da perseguição. E por fanáticos. E até, imagine-se, por membros das Lojas! E é por isso que a revolução digital não se pode ignorar, porque não se vai embora. Veio para ficar.

E ficar! Uma história num jornal online fica para sempre e pode sempre encontrar-se googlando. Boa ou má. Certo, certo, encontram-se mais histórias más do que boas. Mas isso acontece porque é aos Maçons que compete divulgar as boas. E eles não o fazem com frequência. A desinformação online sobre a Maçonaria diz muito da formação dos Maçons e da sua incapacidade para enfrentar a realidade. Coloca-se tudo no Facebook. Há milhares de imagens de cerimónias, templos, Lojas em sessão, paramentadas e em pleno ritual. Partilha-se tudo. E mais uma vez a Grande Loja Inglesa vais à frente. É ver aqui e é só seguir o bom exemplo. Mas não… Vamos fechar os olhos a ver se passa…

Suspeito que o HORROR de que falo acima, o que chocou os muitos Irmãos e Irmãs que me enviaram mensagens, mas também o que agradou aos não-maçons, não foi a abertura dos Templos, nem as entrevistas com avental, nem deixar falar os Aprendizes, nem ver-se uma Loja por dentro. O HORROR foi a tal atitude de “Nova Maçonaria”. Foi o perceber-se que a Reportagem não é uma peça orientada, que o que se vê é genuíno, não é preparado, não é um infomercial, não falam só os chefes, há muitas caras desconhecidas e correntes, gente que se cruza connosco na rua e igual a nós. Foi o assumir-se um preço elevado pela iniciação (tabu bem conhecido), deixar explícito que sem dinheiro não há meios (todos sabem disso, mas fica sempre nas entrelinhas – dinheiro?! Que horror!), mostrar-se um leilão solidário (que muitos também fazem à porta fechada), ver-se que não há pudor em convidar um sem-abrigo a jantar e falar, dizer que impacto as acções solidárias tiveram (muitos também as fazem, mas a sandezinha não é transformadora e iniciativas não são obra), foi a falta na Reportagem de Gestores Públicos, autarcas, políticos, deputados, Secretários de Estado, gente emproada que tem por profissão gerir o nosso pecúlio.

Essa nova atitude, corte radical com as imagens históricas que vemos acima e que eram muito boas no seu tempo, é a realização de que de futuro a Maçonaria tem de estar mais próxima do mundo sem comprometer a sua missão espiritual e transformadora, constituída por gente excepcional pelas suas inquietações e leaders no seu metier, mas não comprometidas com lobbies obscuros ou interesses desfasados dos valores Maçónicos e capazes – repito: CAPAZES – de dar a cara e se fazer conhecer como Maçons. A ruptura com o passado pela celebração da história. Isso é o que instiga o HORROR.

Os tempos andaram para a frente mais de 100 anos nos últimos 15. Já nada é igual e quem não evolui, perde-se na irrelevância.

2 – MAS TU ESTÁS NA SOBERANA?

E apesar da defesa intransigente da Reportagem, não, não sou membro da Soberana. Sou autor de vários livros onde tenho publicada a minha filiação de várias décadas ao Rito Escocês Rectificado e, na última década, à Loja Adhuc Stat!, nº5 do Grão Priorado Rectificado de Hispania.

A resposta é não. Basta ver como sou apresentado.

Foi durante as gravações do Podcast “Assunto Sério” da Soberana, para o qual fui amavelmente convidado para falar sobre assuntos como o Quinto Império, a Geometria Sagrada, o Rito Rectificado, etc., como autor (ver aqui, aqui e aqui) que me pediram para dizer umas palavras sobre Maçonaria. Colaborei com todo o gosto, porque sou neutral em absoluto relativamente à Maçonaria Portuguesa, querendo apenas que ela prospere.

Já colaborei em eventos e iniciativas diversas (debates, palestras, cursos, visitas guiadas, apresentações, etc.) com a maioria das cerca de 20 Obediências Portuguesas, designadamente a Grande Loja Regular de Portugal (de que fui um dos fundadores)/GLLP, Grande Oriente Lusitano, Grande Loja Simbólica (ambas), Grande Loja Unida de Portugal, etc. Sou de fora, equidistante, “igualmente amigo do rico e do pobre desde que sejam boas pessoas”, tenho leitores em todas a Obediências, não me meto em assuntos internos, não comento sobre questões litúrgicas. Único desígnio: que a Ordem prospere. SOU INDEPENDENTE. Para quem sabe ler, está tudo dito.

Ora, isso é visível no forma como fui titulado “Escritor/Maçon” face aos outros intervenientes, com os seus aventais, graus e funções bem explícitos:

Finalmente há um plano em que apareço em modo casual, de polo, frente à mesa de som do Podcast, em claro contraste com todos os outros intervenientes.

Parece-me evidente que é implícito que sou um convidado e não falo em nome de ninguém a não ser eu mesmo.

E o que foi que eu disse nos meus 20 segundos de antena?

“Cada vez que um Maçon, de qualquer lado, se mete em negócios escuros, está a meter todo o nome da Maçonaria em negócios escuros. Portanto ele deve ser punido por isso”.

E ainda:

“Nenhuma organização – nenhuma – de nenhum tipo, associativa por exemplo, [como] os Bombeiros de Sintra ou seja quem for, pode assegurar-se que aqueles que são sócios se portam bem. É muito raro – dos casos todos que nós conhecemos – é muito raro haver um conjunto de Maçons que se juntou [com o propósito de] fazer qualquer coisa que é ilegal; porque se tivesse sido assim, teriam sido presos por associação criminosa”.

Ora, esta posição está já expressa no meu livro “Maçonaria Desvendada – Reconquistar a Tradição”, de 2011. Veja-se o que publiquei aqui sobre o caso Loja Mozart a seu tempo. Por isso nada de novo. No mais não tive intervenção.

3 – MAS TU ESTÁS COM A SOBERANA?

Essa é outra questão. Não sou da Soberana, mas estou com a Soberana como sempre estive com todos os ramos da Ordem Maçónica que trabalham para o seu progresso. Sei que há poucos como eu. Não tenho a pele em nenhuma contenda e comparto o pão à mesma mesa com irmãos e irmãs de todas as tendências maçónicas. Quem achar que me tem, desengana-se depressa. Sou livre. Não participo de nenhuma estrutura de poder em Portugal, por isso nada tenho a ganhar ou a perder nas rivalidades. Não são minhas. Onde houver bom e seguro trabalho Maçónico, se o GADU assim entender, eu estarei lá. Assim, estou com a Soberana.

Maçonicamente filiei-me há anos à família Rectificada espanhola por afinidades espirituais e por ter trabalhado como CEO de uma companhia em Madrid muito tempo. Não desejo deixar essa filiação num Regime que me agrada e que entendo como uma jóia excepcional. Mas é esse meu compromisso que me leva a aceitar os diversos pedidos de ajuda e informação, conselho e apoio que me vão chegando de todos os amigos que fui fazendo na Ordem. E por isso, quem estranhe que a minha amizade fraternal com o Grão Mestre João Pestana Dias me leve a acompanhar de perto o seu trabalho e o que a Soberana está a fazer, apenas me deve contactar e convidar-me para os seus debates, Podcasts, visitas guiadas e o mais, que eu lá estarei igualmente com prazer. Não faço descriminações. Sou Independente. Sou largo e pesado e chego para todos! Não vale a pena cenas de ciúmes.

A esta minha atitude fraternal para todas as Obediências, adiciona-se o facto de o Grão Priorado a que pertenço ter assinado um Tratado de Amizade com a Soberana há poucos meses, por iniciativa do seu Grão Mestre Diego Cerrato, que é muito judicioso e prudente nestas coisas e que escrutinou em detalhe a Obediência antes de nos permitir (à Loja a que pertenço) usar as instalações desta para reunir. Já reunimos em outras instalações e nunca tive as perguntas e reacções de surpresa que recebi agora!

Ou seja, não pertenço à Soberana. A Loja – estrangeira – a que pertenço reúnem em espaço gentilmente cedido por esta. Em outras organizações de carácter fraternal em que estou, tenho uma relação próxima com muitas outras Ordens e Obediências que prezo muito. Nas Jornadas Templárias em Lagos do ano passado esteve a meu convite um Grão Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano e o Grande Conselheiro da maior organização Rosacruciana Portuguesa. Templos e lugares de reunião têm sido gentilmente cedidos por Lojas e Associações que têm Irmãos na sua composição em todo o país para um largo leque de actividades. É ver a minha agenda para ter noção das que são públicas.

4 – A NOVA MAÇONARIA PORTUGUESA

Pois, aqui é que está o nó.

Tal como em todas as situações em que a hábito se sobrepõe à finalidade, há vários incumbentes que vão repetindo padrões de comportamento que os isolam do ambiente em que vivem e os alheiam do desígnio, até que uma formulação disruptiva apareça e venha actualizar os meios e os métodos, repondo a finalidade. Historicamente, os gigantes que não se adaptam encontram a irrelevância e definham lentamente. Em geral os incumbentes combatem os disruptivos em vez de fazerem uma auto-análise e darem um passo em frente. Foi assim que a Igreja acendeu as fogueiras da Inquisição na sua Contra-Reforma em resposta às questões levantadas por Lutero e outros. Quem quer manter o status nem sempre saber reagir e crescer quando muda o “quo”. Mas há notáveis excepções.

Ora, o mundo Maçónico Português é essencialmente composto de incumbentes e cisões de incumbentes por motivos ligados ao hábito (em raros casos, à finalidade), os quais hábitos são transportados para as novas organizações (que rapidamente têm resultados idênticos às antigas).

Na nova edição que estou a prepara do meu livro “Quero Saber – Maçonaria” onde faço uma análise da Maçonaria Portuguesa actual na sua totalidade (fui o primeiro a listar os contactos e dados das 15 Obediências a trabalhar em Portugal à época da 1ª Edição [2013] – hoje devem ser mais de 20), falo das três principais novidades que emergiram nos últimos 7 anos:

  1. O surgimento do Rito Português e a sua história (não confundir com o Rito Eclético Lusitano do século XIX)
  2. A tendência de redução do tempo de mandato dos Grão Mestres
  3. A presença da Maçonaria no mundo Digital, incluindo Redes Sociais

Não vou de momento desenvolver os pontos 1. e 2., anotando apenas que até ao momento, desde o século XVIII, a Maçonaria Portuguesa alinhou-se sempre por dois eixos – divergentes desde o final do século XIX – o eixo Francês, especialmente através das relações fraternais com o Grand Orient de France, ainda hoje uma referência mundial na Maçonaria laica e adogmática, cujo principal exemplo é o Grande Oriente Lusitano; e o eixo Inglês, através das relações fraternais com a United Grand Lodge of England, representado na Grande Loja Legal de Portugal/GLRP. Ainda assim, mesmo movimentos mais recentes como as Obediências que praticam o Rito de Memphis-Mizraim, bem como a Grande Loja Feminina de Portugal, o Direito-Humano, entro outras, mantêm laços fortíssimos com as suas congéneres francesas. Ou seja, até à criação do Rito Português na Grande Loja Legal de Portugal/GLRP (que já não o pratica), toda a Maçonaria Portuguesa era… estrangeira…

No que toca ao ponto 3., a evolução deu-se em três períodos e vertentes. Desde logo houve uma desconfiança absoluta das Obediências face aos novos meios e, à parte os entediantes sites institucionais, houve sempre uma presença ausente ou monolítica. Com o surgimento do Facebook e a popularização do Youtube, foram os Maçons (e não as Obediências) que começaram a partilhar conteúdo, muitas vezes de forma indecorosa, mal informada, devassando o direito ao anonimato e à revelia de todos os juramentos ou da simples prudência, não obstante de forma entusiasta e frequente!

Irmãos das mais distintas Lojas e Obediências trocam hoje informação, fotografias, coscuvilhice interna no Whatsapp, Messenger e outros, sem respeito pelas egrégias determinações superiores de “estes são reconhecidos mas aqueles não”. Só mesmo a cegueira voluntária pode explicar que a “lepra maçónica” que está implícita em declarações do tipo “esses não são regulares” ou “esses estão proibidos de ter relações connosco” possa ter qualquer eficácia real no mundo digital de hoje…

Domage! Não há maçon ou Maçona que não tenha amigos e amigas, irmãos e irmãs, em múltiplas Obediências que se degladeiam entre si e fomentam zangas de anos, mas com os quais têm uma amizade sã, fraterna e profícua. Não é infrequente encontrarem-se “profanamente” e cultivarem a fraternidade maçónica fora do mundo institucional, não compreendendo (porque não é de fácil explicação!) porque motivo não podem encontrar-se lado a lado no Templo da Fraternidade Universal. É que hoje reconhecem-se online. Estão em contacto o tempo todo. Têm afinidades maiores do que as diferenças e entendimentos muito próximos sobres os assuntos que lhes interessam. Ou seja, em conclusão, há um mudo ilusório, de convenções e ufania, segregado, isolado, controlado pelas Obediências com os seus Decretos que nem os seus Grão Mestres, em muitos casos, seguem à risca; e depois há o mundo real (com base na comunicação virtual digital) em que a fraternidade global se corporiza, trabalha, age no mundo, se associa e vive, que escapa ao controlo das Lojas.

É este estado de coisas que leva a que, numa terceira fase, algumas Obediências começassem a pensar este assunto muito a sério. Recordo-me de trabalho muito avançado que conheci na Grande Loja de Filadélfia e na Grande Loja de Nova Iorque já em 2009, quando os templos começaram a esvaziar-se e o interesse na reunião cara a cara e depois mais um jantar dispendioso começou a diminuir. Na Europa foi a Grande Loja Unida de Inglaterra que liderou a mudança. Fez estudos profundos e abriu discussões aglutinadoras. Numa visita a uma Loja em Great Queen Street em 2010, habitualmente preocupada com a avançada idade da maioria dos membros, ouvi uma excelente comunicação acerca da renovação dos meios e métodos sem comprometer a integridade do Ritual e da Maçonaria, no sentido de apelar a membros mais novos da comunidade.

Todos este esforços deram resultados. Podem ser consultados nos websites das respectivas Grandes Lojas e uma pesquisa atenta mostrará múltiplas iniciativas de ligação ao mundo através das plataformas digitais, sempre sem comprometer o que é, sempre foi e será a Maçonaria. Do mesmo modo, podem encontrar-se diversos exemplo de referência no âmbito da multimedia, seja no Netflix ou em canais cabo (veja-se Lodge 49 na AMC americana). O Supremo Conselho Americano Jurisdição Sul em Washington deixou de ser monolítico e tem convidado canais de televisão de referência assim como produtoras de longas metragens, autores como Dan Brown e outros, a usarem os seus Templos, Museus, Bibliotecas e Auditórios para eventos. A Grande Loja Inglesa decidiu que a sua sede em Londres, no bairro contíguo ao dos teatros, deveria ser o maior e mais ilustrativo cartão de visita da Maçonaria. Vejam-se alguns exemplos em que o espaço foi cedido a título comercial, abrindo portas.

(Click to download: páginas 18 e seguintes)

Ou:

Mas mesmo os mais conservadores não poderão deixar de admirar a grandiosidade e a segurança nos seus valores – porque é preciso estar-se muito seguro do que se é – da Grande Loja Inglesa ao ceder os seus Templos à Maçonaria Feminina Inglesa – com a qual não tem relações litúrgicas!

Ai se fosse cá!

Notaram seguramente que é o Grande Templo em Londres e que há câmaras a filmarem.

Em todas as críticas que ouvi, a vasta maioria vinda de meios Maçónicos que se sentem ultrapassados por uma Obediência que a reportagem caracteriza como “pequena”, “recente” e “não reconhecida”, ressalvam questões (questiúnculas) irrelevantes e já tratadas há muito, como fica demonstrado acima: imagens dos Templos, Maçons de avental, teatralização de passagens rituais (que até estão disponíveis na net), dar acesso aos meios de comunicação, eventos brancos, etc. Nada de novo e nada que Obediência nacional alguma possa objectar em face da prática que tem sido recorrente. Alguma coisa do que constitui o âmago da Ordem foi exposto ou profanado? Não creio.

O que está em causa é uma sensação de ultrapassagem por quem não é um incumbente. Tão só isso.

Não sou da Grande Loja Soberana. Estou com ela, como estou com todas. Convidem-me que eu apareço. Peçam-me que trabalhe para vós, e lá estarei. Sem favoritos.

Agora, meus caros, está na hora de ir trabalhar e mostrar que o Nova Maçonaria Portuguesa se estende por muitas Lojas e Obediências, tirando o simbólico chapéu à Reportagem da RTP. O que é, é.

Trabalhinho de casa bem feito e chega-se longe. Abrir as janelas, deixar sair o ar bolorento e começar um novo dia. Se os incumbentes olharem para a frente sem erguer tapumes e barreiras artificiais onde os seus membros só vêem campo aberto, num instante a Maçonaria Portuguesa recupera o lugar que é seu na sociedade.

Até lá, este é o novo standard.

Basta perguntar ao google.

Assunto Sério

O GM da Grande Loja Soberana convidou-me para o Podcast “Assunto Sério”, com o mote inspirado no primeiro capítulo do meu livro “A Maçonaria Desvendada”. Com muito gosto participei na emissão, mas ficou muito por dizer! Faz sentido haver Maçonaria no século XXI? É ouvir.

Tratado de Amizade entre Grande Loja Soberana de Portugal e Grão Priorado Rectificado de Espanha assinado em Lisboa

Após cerca de 3 anos de actividade sem templo fixo, a JPL Adhuc Stat!, nº 5 do Grão Priorado Rectificado de Espanha (GPRDH) retoma as suas reuniões regulares no Templo Portugal gentilmente cedido pela Grande Loja Soberana de Portugal, ao abrigo do recente e histórico Tratado de Amizade celebrado entre ambas as Potências, solenemente assinado em Lisboa, no solstício de Verão de 2019.

Em cerimónia memorável, o Sereníssimo Grão Mestre do GPRDH, Diego Cerrato Barragan, acompanhado pela sua comitiva, foi recebido pelo Muito Respeitável Grão Mestre João Pestana Dias em Sessão de Grande Loja que teve lugar num dos mais emblemáticos espaços museológicos portugueses – a antiga sala do Picadeiro Real e Museu dos Coches, parte do complexo do Palácio de Belém – procedendo-se à assinatura do Tratado. Este documento, reproduzido adiante, além do seu valor artístico já que, segundo a antiga Tradição Maçónica, foi devidamente desenhado à mão, caligrafado e folheado a ouro sendo exemplar único, do qual duas reproduções foram impressas e assinadas, tem um valor simbólico extraordinário, já que consubstancia o apoio e a amizade mútua entre dois dos projectos mais inovadores e ao mesmo tempo tradicionalistas da Maçonaria universal em terras Ibéricas.

A Loja Adhuc Stat!, nº5, a Oriente de Sintra, viu as suas colunas erguidas em Outubro de 2011 e tem sido um lugar de trabalho e união fraternal na mais estrita prática do Regime Escocês Rectificado, sendo a única em Portugal que segue com rigor e exactidão o Código das Lojas Reunidas e Rectificadas de 1778, o qual sistematiza um sistema de 4 graus e a Ordem Interior, num sistema integral e coerente, sob uma mesma orientação. Outros legítimos herdeiros deste Rito, nomeadamente em Portugal, em consequência da organização da Maçonaria Regular, partem o Rito Rectificado em 3 partes, com as Lojas Azuis de 3 graus, as Lojas Verdes de Santo André e a Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa. Ambas as formas de organização subsistem no mundo, particularmente em países de expressão portuguesa, francesa e espanhola, embora haja outros exemplos mais além.

Os interessados neste antigo Rito Maçónico, a que estiveram ligadas figuras incontornáveis da espiritualidade europeia setecentista como Jean-Baptiste Willermoz, Louis-Claude de Saint Martin e outros, podem pedir mais informações e uma cópia do estudo “Rito Escocês Rectificado – Noções Básicas” enviando um email para:

jpladhucstat@gmail.com

Os interessados em conhecer as actividades da Grande Loja Soberana de Portugal poderão visitar a sua página aqui: https://www.glsp.com.pt/ e subscrever o canal de youtube aqui: https://www.youtube.com/watch?v=T2NG853wIzQ&t=7s

Quando os vigilantes não vigiam

Vejam só o que encontrei numa sala de arrumos na igreja de São João Baptista em Tomar. Mandaram-nos lá arrumar uns aquecedores e uma botijas de gás e lá estava, a atrapalhar, um triptico renascentista! Ali, na sala de arrumos. E depois dizem que as coberturas ardem e é estranho… Não vejo nada de estranho se aquilo arder.

Máscaras, Demónios e Deuses

Lugares limitados. Inscrição obrigatória por mensagem por Facebook ou para incursoeshermeticas@gmail.com

Máscaras, Demónios e Deuses
Tradições Iniciáticas Populares no Império das Descobertas
Local: Museu Nacional de Etnologia
Avenida Ilha da Madeira, Restelo, 1400-203 Lisboa
Data: Domingo, 26 de Novembro de 2017
Início da Visita: 10:30
Final previsto: 13:00
Preço da visita: 10 € (15 € para casais); gratuito para crianças com menos de 12 anos. Entrada no Museu é gratuita ao Domingo.

DESCRIÇÃO
Na sua incessante demanda, as Descobertas levaram os Portugueses ao contacto com tradições populares muito ricas em todas as latitudes. Em algumas terão reconhecido o eco de uma Tradição Primordial também presente no Portugal Ancestral.

De Trás-os-Montes a Timor, pelos Açores, pelo Mali, por Angola, Java e Bali, uma viagem ao âmago do medo, da imaginação, das trevas e da luz.

Luis de Matos

Mensagem em Pessoa

Lugares limitados. Inscrição obrigatória por mensagem por Facebook ou para incursoeshermeticas@gmail.com

Mensagem em Pessoa – Brasão | Castelos
Local: Sé de Lisboa
Data: Domingo, 17 de Setembro de 2017
Início da Visita: 10:00
Final previsto: 13:00
Preço da visita: 15 € (25 € para casais); gratuito para crianças com menos de 12 anos. Entrada na Sé não incluída. Supõe-se gratuita ao Domingo.

Descrição:

Série de visitas guiadas com leitura e explicações ao redor da “Mensagem” de Fernando Pessoa. As perguntas, as chaves, os simais e os símbolos.

São 6 Visitas a 6 Lugares Mágicos ao redor das palavras de Pessoa

Setembro 10
Palácio Nacional de Sintra – Brasão | Campos

Setembro 17
Sé Catedral de Lisboa – Brasão | Castelos

Setembro 24
Quinta da Regaleira – Brasão | Quinas, Coroa e Timbre

Outubro 1
Mosteiro dos Jerónimos – Mar Português | Possessio Maris

Outubro 8
Convento dos Capuchos de Sintra – Encoberto | Symbolos

Outubro 15
Palácio da Pena de Sintra – Encoberto | Avisos e Tempos


Excertos das visitas:

Mensagem em Pessoa – Primeira Visita

Ordem de São Miguel da Ala – Maio em Belmonte

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Há uns quantos anos o Nuno da Câmara Pereira convidou-me a dar-lhe uma ajuda na Ordem de São Miguel da Ala, de que era Comendador-Mor, porque havia que reabilitar o Colégio do Menino Jesus em Carnide, uma instituição de solidariedade social apadrinhada pela Ordem há muitas décadas, que tinha caído no descrédito junto às autoridades de tutela, estando em vias de fechar, sem alunos, sem dinheiro e com funcionários com salários em atraso.

Maus anos de gestão, más decisões, pouca atenção ao propósito real (Real diria..) de uma Ordem com as características da Ala, muita mágoa, levavam então o Nuno a retomar com muita paixão a liderança da Ordem depois de se ter afastado na maré de uma carreira musical intensa. O seu regresso era crucial, contando com a totalidade dos fundadores originais da Ordem ainda vivos, da qual tinha sido um ele mesmo, ainda um jovem desconhecido do mundo do espectáculo, no dia longínquo em que assinara a escritura, entre pares, entre augustos valentes com um propósito.

Associei-me com gosto. Relembro a cerimónia na Igreja de São Miguel, junto ao Castelo em Lisboa. Como poderia esquecer? Seguiram-se meses de luta pelo legado, em perigo, colégio, ASA e tudo. De um momento para o outro os sinais da Ordem caíam na rua, apareciam como adesivos colados em faiança, disfarçados de verdadeiros não eram reais, como num jogo de espelhos havia Alas de São Miguel desde Sagres até Bragança… Havia que por ordem (diria “por Ordem”) na fancaria como se punha já no colégio. Em pouco tempo o colégio já não precisava de fechar. Devido às muitas horas de dedicação de muitos, deu-se a reviravolta. Limparam-se contas, motivou-se a equipa, enfrentaram-se os problemas, criaram-se soluções, planeou-se e executou-se com as crianças e as famílias em mente. Hoje o resultado é pouco menos que prodigioso. Abrem-se as portas sem vergonha.

 

Em paralelo apareceram algumas polémicas. A Ordem, relutantemente, viu-se forçada a recorrer à justiça. É que, enquanto no colégio se reparava o estrago com trabalho e suor, foi necessário fazer prevalecer a verdade acima da ambição e da fantasia com recurso a instâncias oficias. Desde muito cedo que a media apanhou o fio do que viria a ser um longo processo. Instância sobre instância, em serena cadência que caracteriza os que confiam na indiscutível vitória da verdade, a Ordem foi vendo a sua identidade reforçada e o seu direito defendido por sentenças sistemáticas a seu favor. A atribuição de indemnizações e a execução de penhoras a quem havia ultrapassado as fronteiras da lei só se deu em consequência de uma teimosia mal informada e da noção incorrecta de que a lei poderia, de algum modo, proteger uns em face de outros pelo simples facto de serem qualquer outra coisa que não homens comuns e todos por igual sujeitos à mesma lei. É meu desejo que o futuro seja de paz e com menos títulos de jornal, agora que tudo é bem claro.

O saldo que faço destes anos de trabalho com os meus confrades é positivo. Vale a pena acreditar quando se tem a lucidez e a razão, quando a elas se adiciona a Fé e se labora na obra humana, colectiva e disciplinada de uma Ordem. Muitos há que preferem ser o resultado do passado a ser a causa do futuro. Por isso vamos ao futuro que se faz tarde.

BELMONTE

Escrevo sobre a Ordem de São Miguel da Ala porque, em todos estes anos em que aqui vou publicando, poucas vezes lhe fiz referência.

Ora, dá-se o caso de que no passado dia 7 de Maio tive o prazer de ver dois distintos amigos brasileiros serem armados Cavaleiro e Dama de Ordem numa cerimónia em Belmonte. Tratou-se de Alexandre e Chaia Figueiredo, advogados do Rio de Janeiro, residentes no nosso país desde o ano passado.

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Porquê o dia 7 de Maio?

A Ordem de São Miguel tem uma fundação mítica justificada pela lenda da conquista de Santarém. Naquela tarde de Março de 1147 conta-se que as nuvens ao sol poente desenhavam uma grande asa colorida nos céus, de ocidente para oriente. Este efeito, como um mau agoiro, atemorizou a guarnição moura que defendia a fortaleza da cidade que, em vão, vigiava as planícies infindas às sua frente a sul. Não seria dessa direcção que a sua segurança seria ameaçada.

Já noite escura pouco mais de duas dezenas de soldados liderados por Afonso Henriques, chegados pelo norte, dominaram os vigias e sentinelas, entrando no castelo e surpreendendo a guarda. Santarém caiu definitivamente em mãos cristãs. A Asa no céu não foi esquecida. Corria a voz que, durante as escaramuças, havia quem tivesse visto a mão de Afonso Henriques coberta por uma mão luminosa e alada, que, dizia-se, só podia ser do Arcanjo seu protector. A lenda termina com o agradecimento de Dom Afonso, decidindo conferir a alguns dos seus mais privados a Ordem de São Miguel da Ala no São Miguel de Maio, a dia 8.

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A história não tem documentos que possam suportar a lenda. Sabe-se no entanto que a Ordem teve a sua presença, ainda que diminuta – e talvez por isso, constituída por particular escol – na história, sendo ocasionalmente referenciada como tributária da Ordem de Cister. Já no século XIX D. Miguel terá constituído um grupo nela inspirado, com características quasi maçónicas e imbuída de total secretismo, cujos objectivos puramente políticos a afastam da tradição mais antiga. Essa tradição antiga é a que São Miguel da Ala de hoje retoma.

Porquê Belmonte?

Belmonte está indissocialvelmente ligada à família dos Cabrais. Pedro Álvares Cabral foi o achador do Brasil. Tal como muitos dos Almirantes da época das Descobertas, a sua origem não era próxima do mar. São exemplos Pêro da Covilhã, Antão Gonçalves (Oliveira do Hospital), Diogo Cão (Monção), Afonso de Paiva (Castelo Branco), Bartolomeu Dias (Mirandela), Nicolau Coelho (Vale do Sousa), etc. A ligação de Belmonte a Cabral e do legado desta família a São Miguel da Ala é mais do que simplesmente simbólica. Bastará recordar o papel que o Brasil representa em toda a nossa história, até aos dias de hoje. De como a língua e a cultura de ambas as nações as irmanam. Basta consultar a obra e biografia de Vieira, Anchieta, Pessoa ou Agostinho da Silva para sublinhar a origem e destino comum do Portugal e Brasil. Belmonte é, assim, um lugar que simboliza de modo muito visível a unidade espiritual que entrelaça os dois lados do Atlântico.

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Acresce que o Comendador-Mor da Ordem, o Nuno, se chama de facto Nuno Cabral da Câmara Pereira e que esse Cabral lhe chega por via directa, como descendente do pretérito Pedro. Isso mesmo teve oportunidade de sublinhar, com bastante mais detalhe que aqui não cabe, durante a cerimónia oficial de abertura do dia de São Miguel em Belmonte.

Finalmente, a Ordem e Belmonte reforçam a sua estreita relação com a celebração de um acordo histórico que se resume em poucas palavras: por iniciativa conjunta, a sede oficial da Ordem será o Castelo de Belmonte, atribuição confirmada e anunciada pelo Presidente do Município, António Rocha, entusiástico anfitrião das celebrações. A ele se deve a vontade expressa por muitos dos visitantes em regressar para melhor desfrutar da paisagem, património e gastronomia da região, que superou as expectativas dos que não a conheciam. E eram muitos.

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Para estas cerimónias fizeram-se presentes Irmãos de várias Ordens de Cavalaria, destacando-se o Duque de Maqueda, Grande de Espanha, com uma numerosa delegação, bem como muitos Irmãos de França, Espanha, Itália e Brasil. A festa incluiu a visita ao magnífico Museu (interactivo) das Descobertas, ao Castelo de Belmonte, ao Cellium, bem como um desfile da Cavalaria pelas ruas principais em direcção à igreja onde, de portas abertas à população, teve lugar a cerimónia de armação de novos Cavaleiros e Damas e a tradicional missa. Nem a chuva persistente e os ventos fortes detiveram os Cavaleiros. Dizia um visitante: “chuva civil não molha militares”! E lá foram ao castelo!

As poucas fotos que pude tirar não ilustram com justiça os procedimentos do dia. Tentarei por isso complementá-las com um curto texto.

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A CERIMÓNIA

A cerimónia começou com o desfile de Cavaleiros e Damas pelas ruas de Belmonte precedidos pela banda filarmónica, em marcha firme, terminando no adro da igreja, lugar onde se dá a entrada ordenada e em modo militar na igreja. Os dignitários ocupam os seus lugares. SAR Dom Pedro de Loulé preside, sentado à esquerda. Junto ao altar está o Capelão, Padre Delmar e dois sacerdotes espanhóis que acompanham os visitantes. Os Oficiais da ordem estão nas primeiras filas, dirigidos pelo Comendador-Mor e Marquês de Castelo Rodrigo, Nuno da Câmara Pereira. Atrás, em várias linhas de assentos, todos os Irmãos e Irmãs nos seus mantos brancos. Ainda mais atrás o grupo de postulantes que serão armados de seguida. A igreja está cheia, mas ainda tem espaço para um conjunto muito grande de habitantes de Belmonte, que seguem cada momento da cerimónia com grande interesse, muitos de telemóvel na mão a fotografar.

O Reverendo Cavaleiro Pinto Coelho aproxima-se do ambão e inicia a Exortação à Cavalaria. Explica em palavras certeiras, numa voz de comando pausada e bem colocada, o que é a Cavalaria e o que se espera de cada um dos postulantes uma vez assumidos os compromissos de São Miguel. Recorda-se a nossa história, fala-se do fundador mítico, Afonso Henriques e dos feitos de Santarém. Sublinha-se o serviço e a causa.

O Kyrie e o Gloria in Excelsis são cantados por uma intérprete de assinaláveis dotes vocais, acompanhada ao piano e violino.

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Os postulantes aproximam-se do altar. A espada é benzida e preparada para a sua função sacra. Ajoelham-se postulantes um a um diante da dupla autoridade representada pelo Comendador-Mor (em nome do Ordem) e do Capelão-Mor (a Igreja). Em posição de súplica ouvem as palavras de ambos. A espada, pesada, reluzente, ergue-se ao céu imponente. É o momento. O postulante baixa a cabeça e o Comendador-Mor consagra o Cavaleiro. O Capelão-Mor, pela bênção, sela o laço fechado. Ajoelhou-se postulante, mas levanta-se Cavaleiro, inteiro, vertical, coberto pelo manto alvo e puro, uniforme entre todos os companheiros da Cavalaria, capa de protecção e sinal de confraternidade.

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Segue-se a celebração da missa. A igreja, até ali cheia de olhares curiosos, diferenciada entre os Cavaleiros e os crentes que os observam, transforma-se. Com o Capelão-Mor, concelebrando com os outros sacerdotes, a igreja converte-se na sala de visitas de Deus. Passa a ser um lugar onde todos celebram em festa a Fé que lhes é comum. Já não há distinções. Todos são parte da mesma comunidade que deseja celebrar a Eucaristia.

A Ordem de São Miguel da Ala tem sentido a Asa protectora em muitos momentos. Mas é nas inspiradas homilias do Padre Delmar, na sua oratória que ordena palavras e imagens vivas sem esforço, que toda a cintilante luz do Arcanjo se vai espargindo pelos presentes. Desta vez quis-nos deliciar com uma breve exposição sobre a Palavra como Espada, recordando São Paulo. Sem esforço, foi acompanhado por uma atenta audiência, cativa de cada uma das suas palavras. Como uma delícia breve e que pede por mais, o momento pareceu rápido. Passou à liturgia eucarística e à comunhão.

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A cerimónia terminou de forma emotiva com uma oração à Virgem Mãe pelo Nuno, num registo diferente daquele que se lhe conhece do fado, a capella, que fez ressoar cada pedra viva daquela igreja.

Seguiu-se a ceia de gala, degustação muito apreciada das especialidades da região. Num ápice era hora de regressar a casa. Ficou o agradecimento ao novo amigo António Rocha, Presidente da Câmara, a SAR Dom Pedro de Loulé, que nos agraciou com a sua imprescindível presença, ao Capelão-Mor Padre Delmar que é sempre um exemplo excelso e inspirador, a todos os Cavaleiros e Damas da Ordem que trabalharam de forma árdua para que tudo corresse de maneira digna e no cumprimento e estrita observância da Tradição e sobretudo ao Comendador-Mor, Nuno da Câmara Pereira que, em tão inspirada hora, há tantos anos, me convidou a partilhar da sua árdua tarefa e como, com o seu entusiasmo, o seu alento e a sua liderança, leves se fizeram os fardos que aqui nos trouxeram. Obrigado Nuno.

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Fica para último a referência a três amigos que saíram de Lisboa como Postulantes e voltara como confrades. Alexandre e Chaia, que escolheram o meu país para morar, tomem esta cerimónia como um sinal das boas-vindas. Ao Fernando Coelho, providencial ajuda para que se proporcionasse a minha presença em Belmonte, um grande abraço de instantânea amizade. Fomos desconhecidos um do outro. Voltámos Irmãos. É isto a Cavalaria, não é Fernando?

Tarot – Mistério e Caminho

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“Poucas ferramentas de auto-conhecimento têm o potencial iluminador do Tarot, exibindo ao mesmo tempo um sistema coerente e intuitivo ao alcance de todos. Talvez por isso seja das ferramentas mais vulgarizadas e, por isso, muitas vezes afastada da sua real função e propósito. Seguindo o método dos Builders of the Adytum, sistematizado por Paul Foster Case a partir do sistema de Arthur Edward Waite, com uma ligação íntima à Árvore da Vida, o Curso está pensado para quem nunca estudou o Tarot, bem como para todos aqueles que, já o conhecendo e o usando, procuram saber um pouco mais. O Curso de Tarot não se destina a quem queira aprender a ler o futuro nas cartas. Destina-se a quem queira conhecer-se e, por isso, construir conscientemente o seu caminho. Não se destina a quem procure um meio de deslumbrar os amigos com truques. Destina-se a quem queira, sem truques, descobrir o assombro interior. Conjunto de sinais e ideaogramas iniciáticos, dispersos mistérios reunidos num só baralho, o Tarot é um propiciador de meditações e transformação, um sereno auxílio a quem não tem receio de mergulhar no mais profundo de si mesmo, sem bússola nem vieira, sem companhia nem destino. Como um louco.

Lugares Limitados
Informações e Inscrições:
geral@towards-the-rainbow.pt

Preços:
60 € todo o Curso presencial
50 € todo o Curso em aula Online simultânea
15 € aula avulsa presencial
15 € aula avulsa online

LOCAL
Towards The Rainbow
R. João da Silva, 14A
Areeiro 1900-271
LISBOA
geral@towards-the-rainbow.pt

6 aulas inicio dia 20 de Abril

PROGRAMA

Ao longo das 6 aulas serão abordados os seguintes assuntos:

– O que é o Tarot
– Origens míticas do Tarot / Origens históricas do Tarot
– Conceitos Simbólicos e Iniciáticos do Hermetismo que Fundamentam o Tarot
– O Tarot como agregado de Conhecimento e Experiência directa do Inconsciente
– O TAROT como Rota
– O TAROT como Tora(h)
– O TAROT e o A(c)tor
– O TAROT como Jogo/ Ioga
– Influência do Século XIX no Tarot: Eliphas Levi, Golden Dawn, Papus
– Da Árvore da Vida ao Tarot – Fundamentos e Explanação
– Tarot: Orgânica – Uma visão do Mundo, 10 Emanações e 4 Mundos em 4 Naipes
– Tarot: Orgânica – O Piloto da Onda Viva: os Arcanos Maiores
– Tarot: Simbolismo – Estudo de cada Naipe
– Taror: Simbolismo – Estudo de cada Arcano Maior
– Tarot: Prática – Métodos de estudo pessoal – O oratório e o Espaço Sagrado
– Tarot: Prática – Métodos de estudo pessoal – A Rota Pessoal
– Tarot: Prática – Métodos de estudo pessoal – A Viagem ao Inconsciente
– Tarot: Prática – Métodos de estudo pessoal – A Chegada
– Tarot: Exercícios

I Shot The Sheriff

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O vídeo é indescritível e por isso impossível de recomendar com um link. No entanto mais de 1 milhão de pessoas ao redor do mundo o viram. A partilha do terror não conta com a minha conivência. A comodificação das emoções não me agrada. Por isso não recomendo o vídeo de horror. Cito-o porque é tempo de falar dessa comodificação, fenómeno novo que a internet exponencía.

Voltando ao vídeo. Sinaloa, México, um grupo de polícias regressa ao carro e fecha as portas deixando o local a alta velocidade. O local é o de um desacato, onde um grupo de homens arrasta um outro pelo chão. A polícia já lá não está. Esteve. Viu. Retirou-se. O homem é arrastado para trás de um carro, entre os gritos de uma mulher e empurrões. A testemunha com o telemóvel é um familiar, desesperado. Escondido da vista, o grupo agride e depois, com um tiro, mata o homem que implora no chão. A polícia já está longe. Soube-se depois que o vídeo retrata o grupo de El Chapo a executar um membro dos rivais Los Zetas, em 2011. Só agora foi divulgado por uma organização clandestina e secreta de jornalistas, os Reporteros Asociados de Sinaloa. A polícia investigou agora e, perante a exposição viral do vídeo, não pode ignorar o que ignorou há 5 anos. Em menos de uma semana a investigação concluiu que foram os polícias que identificaram a vítima na rua e chamaram os assassinos, abandonado então o local. Seis deles estão presos, acusados de homicídio e conivência. Um deles é o xerife.

Mas por que motivo este vídeo se destaca de tantos outros que correm a net com semelhantes actos, especialmente num país como o México, onde a guerra de cartéis de droga já provocou mais de 150.000 mortos? Por que motivo deu já origem a movimentos de indignação, partilhas nas redes sociais, protestos nas ruas e uma investigação rápida e certeira das autoridades? Porquê esta vítima entre 150.000?

A resposta é simples. O efeito viral fez com que ele chegasse a nós através de múltiplos canais, fazendo com que não o pudéssemos ignorar. Impôs-se. Desviamos o olhar, mas ele lá estava, no Twitter, no Facebook, no Jornal das 9. Como o Charlie Hebdo, os atentados de Paris, a foto de Alan Kurdi, o rapaz Sírio que morreu nas praias da Europa grega. O choque. O terror. Não deixando desviar o olhar.

Ora, há muito que sabemos que a media (incluindo a social, como o Facebook e o Twitter) vive de alimentar as emoções dos destinatários da mensagem. Todas as emoções, boas e más. O carinho pelos gatinhos, tal como o horror pelas decapitações do DAESH. Quando os criadores da mensagem são igualmente os destinatários e não há um editor intermediário (como num órgão de informação tradicional), o editor passa a ser cada um de nós, sem filtros. E por isso, o medo de um repercute-se e espalha-se como um virus (por isso de maneira viral), alimentando-se do medo de outros. O horror de um faz ricochete na indignação de outros. Cresce a onda viral, que contamina tudo, à medida que partilhamos e lhe damos força, à medida que contaminamos os que estão na nossa lista de amigos. Todas as semanas há uma imagem de horror. Todas as semanas há um vídeo, uma foto, um cadáver, um motivo de alarme, uma imagem do medo, um gatilho para a indignação.

Há hoje mais violência no mundo?

Reformulando a pergunta: matar à queima roupa um membro de um clã rival de criminosos é coisa nova? Decapitar vítimas de sequestro com uma cimitarra afiada é invenção recente? Lançar o caos e a morte numa capital europeia é acto nunca antes visto na história deste pacífico e calmo continente? Ver as autoridades serem coniventes com assassinos nunca aconteceu antes? É coisa rara? Inaudita? Que crianças morram em travessias criminosas, em embarcações impróprias, num perverso acto de tráfico humano é facto ignorado até há poucos meses? A corrupção de políticos, as fraquezas de carácter de muitas figuras públicas, os impostos por pagar e as contas nas Ilhas Caimão são coisa de hoje? Apareceram hoje? Há mais hoje do que antes?

Não.

O que acontece hoje, é que todas estar coisas e muitas mais, que nos induzem um sentido de injustiça, desordem, medo e terror (que alimentam as nossas emoções mais instintivas de sobrevivência pela anulação do outro, herança de um cérebro animal), tudo isso aparece no nosso feed. Em tempos aparecia da televisão, mas dessa nós desligávamos e mudávamos de canal. O nosso feed não. É o “alimento” que nos alimenta.

Ora, para o feed – output da media que o gera – o conteúdo é uma commodity. Uma simples mercadoria. Que nós geramos de livre vontade e a preço zero.

As emoções que adicionamos ao conteúdo que criamos têm um valor para nós. Não para a media. Geramos o conteúdo gratuitamente porque investimos emocionalmente nele. Sentimos o seu valor. Partilhamos o que nos “diz” alguma coisa e está de acordo com o que sentimos. É este investimento emocional que dá valor às commodities “medo”, “terror” e “indignação”. Comodificamos assim as emoções. Este é um fenómeno novo.

É um fenómeno novo porque nunca antes as nossas emoções tiveram um meio de alimentarem as emoções em massa de maneira tão automática e inconsciente, de modo instantâneo, ao serviço de um media que as distribui em massa.

Devemos saber, contudo, que há regras gerais que se verificam no valor das commodities. Quanto mais escassas (como o ouro, ou a platina, ou o trigo fora de estação), mais valiosas são. Quanto mais vulgares e abundantes, mais o seu valor deprecia.

Comodificar as emoções e particularmente as que são suscitadas por imagens de horror ou medo, como o crime em todo o seu detalhe, ou a miséria humana e o desespero, levará inevitavelmente à indiferença e ao adormecimento do sentimento. A partilha instintiva do “boneco” do terror é, para todos os efeitos práticos e deontológicos, a colaboração involuntária no objectivo do perpetrador do acto. A utilização até à exaustão de imagens de sangue, lágrimas, violência, injustiça, insegurança ou medo é o caminho certo para que a sua eficácia (ou seja, o valor da commodity) se reduza a nada com o passar do tempo. Por este motivo, é um acto insensato.

Insensato porquê? Porque o medo, o horror e a sensação de injustiça são os geradores da indignação, mecanismo que pode produzir a mudança. São fundamentais à dinâmico social. Ao depreciar cada uma dessas emoções, tornamo-nos, como sociedade, cada vez mais adormecidos, menos capazes de intervir e mudar. Tudo parece normal. Aceitável. Tornamo-nos manipuláveis. Ficamos vulneráveis. Aos poucos, os maiores actos de barbárie parecerão coisas normais e correntes, próprias do tempo e da natureza humana. Quando assumimos que “todos os políticos são corruptos” deixamos de ir votar e damos um golpe na democracia. Quando achamos que “todos os Muçulmanos são terroristas”, deixamos de ver o outro como ele é e passamos a vê-lo como o medo o pinta. Quando somos todos “Charlie”, ninguém é Charlie.

Por isso, da próxima vez que uma foto ou um vídeo lhe cause horror, lhe mostre a violência em close-up em carne viva, ou desumanize o outro e o torne em objecto abjecto, pense duas vezes antes de o partilhar. Pense duas vezes antes de se tornar viral. Não deixe que o feed o alimente de veneno.

A prova pode tirá-la agora: clicou na imagem com que inicia o post na esperança de ver o vídeo?

Desejo que não. Mas se o fez, já viu que não há link.

Agora a prova final: consegue não ir procurar o vídeo para o ver?

Pois eu desejo que sim…