O Sal e a Pimenta

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Episódio VI – O sal e a pimenta

(excerto)

Alexandre Honrado (AH): Quem gosta de estudos bíblicos terá com certeza tido contacto com o Levítico. Nele há uma parte que nos interessa muito para este programa de hoje, que é a parte onde se diz que Deus não pode romper uma aliança feita com sal. Pois de sal e de pimenta se vai fazer este programa. Sal, por um lado tão saboroso e que pode distinguir tanto os sabores e a pimenta que, às vezes, pode levar-nos a coisas um bocadinho mais provocantes. Pimenta e sal. Está lançado o desafio, Luis…

Luis de Matos (LM): As duas colunas dos condimentos alimentícios.

AH: Começo pela pimenta, já agora. Depois vamos ao sal e o sal tem, para mim, muito mais potencialidades… Desculpa fazer a opção.

LM: (ri-se).

AH: A pimenta que, na velha linguagem, vem de “pigmento”. De alguma forma vem dar cor às coisas. Cor, sabor… Estão muito próximos. Aqui há uma ponte nítida entre as duas coisas, não é?

LM: Claro que há. A pimenta sempre foi conhecida e sempre veio do Oriente.Durante o tempo do Império Romano ela era trazida da região que hoje chamamos o Médio Oriente, e adornava as mesas dos mais poderosos.

AH: Que eram capazes de matar por ela.

LM: Exactamente.

AH: Isso foi uma descoberta fantástica para o prato.

LM: Tanto pelo sal como pela pimenta matou-se muita gente.

AH: Até porque o sal era “salário”, nalguns casos e nalguns tempos.

LM: Era. Porque o sal era fundamental à economia. Já lá vamos. Já vamos perceber até porquê. No caso da pimenta, ela era um condimento. O sal fazia falta para a conservação dos alimentos. A pimenta não. Mas chamava-se pimenta a um conjunto muito vasto de condimentos que davam outro sabor à comida, ou complementavam o seu sabor. Esta pimenta não é tão fundamental como o sal. Nós não podemos viver sem sal. O sódio do sal é como que a bateria da vida humana. Ele ajuda a decompor aquilo que é necessário para a vida e sem sal morremos. Mas não temos a sensação de falta de sal. Quando não bebemos água temos sede. Quando não comemos temos fome. Mas não temos nenhuma sensação de privação de sal. Contudo, desde o princípio da história da Humanidade sempre procurámos meios de obter sal, ainda que de forma completamente inconsciente. O que é estranho. E muito interessante.

(…)

[Acerca da Pimenta, das Descobertas e do Caminho Marítimo para a Índia:]

LM: Temos uma língua marcada pela nossa história. Todos os povos têm uma língua que é marcada pela sua história. Às vezes usamos expressões sem nos apercebermos de como a gesta marítima nos impressionou de tal forma, que ainda hoje subsistem. Dois ou três exemplos: dizemos que “há mais marés que marinheiros”; quando um projecto corre bem, dizemos que “vai de vento em popa” – mantemos essa expressão -; quando estamos numa área estranha dizemos que “atravessamos águas profundas”; quando um projecto não avança está “encalhado”…

AH: A minha filha, do Algarve, dizia-me “Faz-te ao largo”.

LM: Faz-te homem. Vai andando…

AH: “Faz-te ao largo”…

LM: Quando enfrentamos dificuldades, estamos a enfrentar “tempestades”; vamos “embarcar”, como nós fizemos, que “embarcámos” neste projecto…

AH: A própria expressão da “bonança e da tempestade”, que usamos tantas vezes.

LM: Evidentemente.

AH: Depois da tempestade vem a bonança. Não sei o Governo nos está a ouvir…

LM: Não, não… O Governo não está a ouvir porque nos falta um “timoneiro”…

AH: Pois…

LM: Não há timoneiro.

AH: Faz-nos subir ao cesto da gávea, mais aquele bocadinho do pau que está por cima da gávea, que tem um nome terrível, que eu não vou dizer mas as pessoas podem pesquisar…

LM: Mas está associado aquela árvore, o Carvalho.

AH: Exactamente. “Vai para o «carvalho»” é uma expressão muito náutica.

LM: É.

AH: É aquele pauzinho que está no fim [do mastro].

LM: Mandar alguém para “o cesto da gávea”, que tinha este nome florestal de «carvalho», ou muito próximo, era mandar alguém para o topo [do mastro] e ficar lá, a passar o frio e a passar o [pior], imagino! Com a tempestade aquilo é o lugar [que mais balança], o lugar do castigo, onde mais se sofre. Mandar alguém para esse lugar era de facto muito mau. De tal modo que ficou no vernáculo, numa expressão popular.

AH: Sim, sim.

LM: Mas não nos falta só timoneiro. Em Portugal as medidas são tomadas de uma forma por vezes desproporcionada. “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, costumamos dizer.

AH: Exactamente.

LM: E há tantas outras [expressões]…

AH: Vem daí o “enjoo”, não é? O “mal de mer”, um “mal do mar” com dizem os franceses.

LM: Olhamos para alguns políticos e dizemos que estão “emproados”

AH: As “figuras de proa” da nossa sociedade.

LM: (ri-se).

AH: Por aí, por aí.

LM: Sim. Nós não devemos é ser “velhos do Restelo”… Isso é que é importante…

(continua…)

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