6 perguntas sobre o “Bestiário Maçónico”, o último livro de Luis de Matos

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De onde surgiu a ideia de fazer uma compilação dos animais simbólicos presentes nos ritos Maçónicos?

Já foi há uns anos. Estava a estudar o simbolismo do Leão, porque faz parte central do Rito Escocês Rectificado, que me interessa especialmente. Há muitos dicionários maçónicos e simbólicos, mas a maioria das vezes não ajudam muito. Por exemplo, em quase todos os casos, relativamente ao Leão, referiam que estava num quadro do 4º grau do Rito Escocês Rectificado, junto a uma legenda em latim. Ora, isso já eu sabia. Era por isso que procurava o significado… Era como ir a um guichet de informações perguntar como chegar ao Rossio e dizerem que fica na Praça D. Pedro IV, também conhecido como Rossio, bastando para tal dirigir-me ao Rossio!… Outros dicionários entravam na vertente alquímica, com a relação entre o Leão e os ácidos. Certo, certo. Mas é na Maçonaria? De onde aparece. O que significa? Que motivo levou a que fosse ali colocado? O livro surge então numa tentativa de responder a esta questão. Aos poucos começaram a aparecer outros animais e, puxando pelo fio, fui encontrando mais e mais. No início ainda pensei que já haveriam Bestiários Maçónicos publicados. Há uma sólida tradição de Bestiários Medievais muito interessantes, quer do ponto de vista lendário, quer iconográfico. Mas não encontrei, quer em Portugal, quer nos estrangeiro, nenhum que fizesse a lista dos animais que aparecem nos rituais da Maçonaria e o seu significado. Isso tornou o projecto ainda mais aliciante. Depois falei com o pintor Pedro Espanhol, desafiando-o a criar uma sequência de quadros sobre o mesmo assunto, visto da sua perspectiva muito única. A capa do livro faz parte dessa sequência. No fundo é um contributo muito simples e muito inicial para uma área de estudo ainda não sistematizada. Espero que o livro inspire outros autores a ampliarem não só a lista de animais, como o seu significado. Fica o convite.

Os rituais maçónicos referem assim tantos animais, que cheguem para um livro?

Sim. De facto inicialmente pensei em fazer apenas um artigo de fundo para alguma das publicações em que colaboro. Mas este trabalho obrigou-me a voltar à sequência de graus dos muitos sistemas de ritos e altos graus da Maçonaria. Muitos não são praticados em Portugal. Outros já não estão em uso em nenhum lugar do mundo. Foram muitos meses a decifrar rituais, imagens, esquemas simbólicos, catecismos de graus, manuscritos. Aos poucos apareciam os animais. O livro refere 32 diferentes, a que se acrescentam 3 ordens de seres sagrados, além de fazer um estudo acerca da evolução dos Altos Graus maçónicos e do uso de animais como artifício simbólico. Quando dei por mim, estavam escritas quase 300 páginas. Tivemos de usar um formato de livro maior, não apenas por causa das ilustrações, como pelo texto, conseguindo reduzir assim a 250 páginas. Durante os últimos anos trabalhei para uma empresa americana de videojogos e as longas viagens de avião sobre o Atlântico e na Europa foram uma constante. Uma porção significativa do livro foi escrita em aeroportos à espera do voo e no ar! A revisão final foi feita em tempo de retiro próximo de Tomar.  Ainda assim é o livro mais volumosos que escrevi até agora.

Quais são os animais mais conhecidos usados simbolicamente nos graus maçónicos?

O Rito Escocês Antigo e Aceite apresenta dois que quase todos leitores reconhecerão de imediato: o Pelicano e a Águia Bicéfala. São símbolos tão antigos e tão polissémicos que os encontramos em muitos outros contextos. O Pelicano, por exemplo, é o símbolo do Montepio Geral, instituição criada por maçons no século XIX. Já a Águia Bicéfala aparece como símbolo proeminente na Igreja Ortodoxa, sendo frequente vê-la coroando cúpulas na Rússia. O símbolo tem um significado arquetípico, que é o seu eixo simbólico. Depois tem um significado contextual, dependendo de como é usado relativamente a outros símbolos. Os ritos maçónicos tomam muitas vezes o significado arquetípico e depois expressam mensagens simbólicas própria nos diversos graus. Um exemplo é o Cordeiro, usado frequentemente. Em alguns casos, como no Rito Escocês Antigo e Aceite, aparece como o animal que repousa sobre o livro lacrado com os Sete Selos, tal como referido no Apocalipse. Noutros, como no caso do Rito Escocês Rectificado, aparece em glória, com o estandarte da Jerusalém Celeste. O Rito de Mamphis-Mizraim, de inspiração Egípcia, vai igualmente buscar vários animais, entre eles a Fénix, símbolo da imortalidade. Já referi o Leão, podia ainda referir a Abelha com o a sua colmeia e a Serpente, que encontramos muitas vezes na rica iconografia de aventais setecentistas, em quadros de Loja e outras fontes mais efémeras, como convocatórias aos trabalhos, circulares, diplomas, jóias distintivas, etc.

Sendo o simbolismo maçónico essencialmente geométrico, porque recorreram os maçons ao simbolismo animal?

O simbolismo geométrico e arquitectónico é a base de todo o simbolismo maçónico. Ele é usado para expressar as leis que governam o Universo e enquadrar o Homem na criação como um ser que participa de uma dada ordem das coisas. “Ordo ab Caos”, motto presente no Rito Escocês Antigo e Aceite, reafirma essa noção. Deste modo, a geometria, imutável e baseada em princípios verificáveis e constantes, dá um vislumbre sobre o Universo. Mas o processo iniciático, de aperfeiçoamento e melhoramento interior, tem como objecto o Homem. E ele é totalmente fluido e volátil. Está em permanente mudança, mimetizando-se em “pessoas” distintas ao longo da sua vida e enfrentando dentro de si versões rebeldes e desobedientes de si mesmo. Quem já tentou deixar de fumar sabe que é assim. Quem já se deu por si em situações – boas ou más – sem que percebesse como ali chegou, sabe que há camadas ou níveis de consciência de si mesmo e das decisões sobre si mesmo que variam com o tempo, o lugar e o contexto. Umas vezes esse “eu consciente” é suficientemente capaz de tomar decisões racionais. Outras vezes é obscurecido, num processo de eclipse, por um outro “eu”, menos racional, que tendencialmente toma decisões ligadas à herança animal que carregamos em virtude da evolução que levamos neste planeta. São decisões instintivas, que fazem um by-pass à racionalidade. E em geral são essas que nos conduzem a intermináveis problemas. Ora, desde há muitas gerações que essa natureza animal, inconsciente e maioritariamente instintiva, é simbolizada por animais. Todos sabemos que Ricardo Coração de Leão não era um cobarde. Todos sabemos que Cristo é “o Cordeiro de Deus”. Todos queremos que o nosso jogador de futebol favorito seja “uma fera”, mas sabemos bem que, quando as coisas correm mal, “os ratos são sempre os primeiros a abandonar o navio”. A tradição de usar os animais como metáforas e, em seu redor, construir alegorias sobre o comportamento humano, é longa e antiga e a Maçonaria foi beber a essa fonte tradicional.

Houve algum animal que o surpreendesse?

Sim. Eu sabia que o simbolismo da Serpente era muito versátil e muito usado em todo o tipo de contextos. Contudo não esperava encontrar tanto material simbólico à minha disposição. A imagem que transparece da maneira como a Serpente  foi usada simbolicamente surpreendeu-me. Bastará dizer que ela, ao mesmo tempo, é temida pelo veneno mortal e usada como símbolo da farmácia… Doença, morte e cura ao mesmo tempo. É o animal que acompanha os sábios e que é esmagado como o mal absoluto pelos santos. Essa contradição aparente é muito interessante. Surpreendeu-me também o uso da Borboleta no 5º grau do Rito Escocês Antigo e Aceite. É associada ao sopro vital que é exalado pelo Mestre Hiram ao morrer. A imagem é muito poética e em algumas jurisdições – em Portugal este grau é comunicado e não praticado – é cantado um Hino Fúnebre muito inspirador, que publico no livro.

 

O que pode o leitor aprender com este Bestiário?

O leitor em geral pode perceber como e porquê os animais foram usados como símbolo desde tempos imemoriais para transmitir alegorias sobre o comportamento humano inconsciente. Todos os que se interessam por simbolismo, em qualquer vertente, têm aqui muito que explorar. Quem se interessa pela condição humana e pelos seus desafios civilizacionais, culturais, religiosos ou espirituais, poderá enquadrar muitos deles pelo modo como os animais foram usados para os melhor definir. A superação de cada indivíduo, a busca da consciência universal, o domínio de si mesmo, a ligação à natureza cada vez mais afastada e perdida, a responsabilidade da espécie humana no contexto de todas as outras espécies como um cuidador, entre outros temas, encontram no Bestiário Maçónico amplo material de estudo. Para o leitor que, além de se interessar por simbolismo, seja maçon, o livro é um guia acerca de uma categoria simbólica particularmente ignorada e, embora presente nos rituais e profundamente importante para a compreensão da Ordem, raramente abordada no seu todo. Nem tudo são compassos e esquadros!…

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“Bestiário Maçónico”, por Luis C. Matos

Edições Nihil Obstat

Preço: 24,50€  19,95 € (até 30 de Novembro 2015)

Mais informações e encomenda de exemplares: Emial para ihshi@mail.com

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Sintra fecha o ciclo – O que vale a Pena

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Aos poucos, puxado pelos amigos que se iam inscrevendo e, por um motivo ou outro, não conseguiam estar presentes, fui acrescentando datas ao Calendário de Visitas das Aulas Livres. “Não conseguir ir à Pena! Quando é que vais repetir?”, diziam. “E a Regaleira?”, insistiam. Como não devo ter disponibilidade para repetir algo deste género nos próximos tempos, lá fui aceitando os desafios, semana após semana. Esta semana irá chegar ao fim o ciclo actual de Visitas e Aulas e já abordámos tantos temas e usámos os locais e edifícios históricos como pretexto para tanta filosofia que parece que estou a regressar a casa de uma longa viagem ao regressar à Pena! De Dante a Platão, de Pessoa a Lima de Freitas, de Percival a Galaaz, de lugar em lugar, ideia em ideia, questão em questão, enquadrando os lugares, as doutrinas, as perplexidades. Muito ficou por dizer e muito por observar. Mas a paixão pelos lugares ficou patente. E feliz fui ao ver a paixão compartilhada por tantos.

A eles, obrigado!

 

Eis o jardim de Klingsor e o Castelo do Santo Graal

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Em pleno dia de Pentecostes acompanhámos o autor e ensaísta Luis de Matos, editor chefe do Templar Globe, numa visita guiada ao Palácio da Pena em Sintra. Terminada a visita pudemos trocar algumas impressões e fazer a entrevista que reproduzimos de seguida.

Templar Globe (TG) – Luis, dia de Pentecostes e visita à Pena. Coincidência?

Luis de Matos (LM) – Diz-me tu.

TG – Falou-se muito das Lendas do Santo Graal. Será por isso?

LM – Não. E sim. Há uma relação entre a Demanda do Santo Graal e o Pentecostes. De facto, a versão da Vulgata inicia-se com a celebração do Pentecostes no reino de Artur, data em que tradicionalmente se lançava tavolado e se armavam cavaleiros. Nesse dias esperavam-se sempre milagres e maravilhas. E o romance começa precisamente com alguns acontecimento que maravilham todos e com a armação de Galaaz, filho de Lancelot. Mas não é por isso que escolhemos a Pena.

TG – Outros motivos?

LM – Sim. Como sabes os meus deveres profissionais afastam-me muitas vezes de Portugal. Sou director de uma empresa na área da Digital Media e Tecnologias da Informação e, embora viva há mais de 30 anos na zona de Sintra, estou mais ou menos entre 1/3 e 2/3 dos dias do ano longe de casa. Poder regressar aos lugares que formaram uma ideia que tenho do mundo – e Sintra é um deles – é um privilégio. Por isso fui desenvolvendo alguns hábitos que tento manter religiosamente. Entre eles está fazer uma espécie de Peregrinação a lugares especiais do nosso país, mais longe de Lisboa, lá pela pausa de Julho. Não sei porquê, mas um mês antes das grandes feiras de videojogos como o Gamescom onde tenho de ir, há sempre ali uma ou duas semanas mais livres. Mantenho o hábito de aproveitar para conhecer melhor Portugal há uns anos. Quase sempre há amigos que acabam por ser arrastados e fazemos uma autêntica comitiva. Outras vezes aproveito para visitar amigos que estão longe e só comunicamos pelo Facebook. Já fiz passeios em estudo nessa época do ano a Braga, Lamego, São João de Tarouca, Carrazeda de Ansiães e uma boa parte das Beiras e Trás-os-Montes…

TG – Tu és de lá de cima.

LM – Sim, fiz a escola primária em Mirandela. Conheço bem Bragança, Chaves, Miranda, Mogadouro, Macedo de Cavaleiros… Enfim, estar em Trás-os-Montes é estar em casa. Mas como o meu pai era da zona de Moimenta da Beira, a região de Lamego, Tabuaço, Douro e mesmo Viseu são lugares também enraizados na memória que gosto de revisitar. Durante algum tempo andei por ali todos os anos à procura das memórias das famílias que fundaram a nacionalidade. O Vale do Sousa é muito especial, com uma herança românica única. A cidade do Porto também tem muito que se lhe diga.

TG – És tripeiro…

LM – Sou. Não do ponto de vista futebolístico. Não tenho clube. Mas sou do Bonfim, ali sobre Campanhã onde tinha nascido o Mestre Agostinho [da Silva].

TG – Mas essas visitas são em Julho. Ainda estamos em Maio…

LM – Estou a desviar-me! Outro hábito que tenho é comemorar as Luas Cheias de Carneiro – que coincide com a Páscoa, de Touro e de Gémeos. Não é uma questão astrológica, mas sim tradicional. São três momentos muito particulares no ciclo anual. A última coincide muitas vezes com o Pentecostes. Como tenho responsabilidades em algumas organizações de matriz religiosa, a Páscoa é quase sempre comemorada seguindo a liturgia Cristã. E por ser Chanceler Internacional de uma Ordem de inspiração Templária, o Pentecostes é sempre marcado por algum tipo de actividade. Ora, este ano, devido a uma questão de calendário pessoal, que se definiu muito tarde para Maio e tendo-se dado a feliz coincidência de ter terminado o Curso Livre na Universidade Lusófona sobre Templários e Templarismo há poucas semanas e os meus alunos me terem desafiado para lhes guiar uma visita a Tomar, decidi juntar o útil ao muito agradável e, com eles, com o apoio do Instituto Hermético na divulgação e da OSMTHU, fazer um curto ciclo de visitas como costumo fazer em Maio/Junho.

TG – Então esta não é a primeira.

LM – Não. Começámos em Tomar em Abril, apenas para alunos do Curso. Depois aproveitei então o bom tempo e os Domingos, porque estou sempre em Lisboa ao Domingo e marquei uma visita ao Mosteiro dos Jerónimos, esta ao Palácio da Pena e no próximo Domingo à Quinta da Regaleira, com o Luis Fonseca.

TG – E vai haver mais?

LM – De momento penso que não. Não podemos abusar da paciência das pessoas! Penso em associar-me à festa de São João, que também costumamos fazer em Santa Eufêmea, em Sintra em Junho e talvez mais próximo da tal pausa de Julho (se houver este ano!), logo se vê o que programa. Mas não há mais planos de momento.

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TG – Qual é a relação destas visitas com a Ordem dos Templários a que pertences.

LM – Como sabes o Templar Globe é o órgão de divulgação principal da Ordem Internacional. Fui eu que o fundei e é um lugar de troca e publicação de informação credível sobre os Templários – antigos e modernos. Ultrapassámos há muito o milhão e meio de visitas. Por isso faz parte integrante do modo de comunicar da Ordem. Em geral, tudo o que eu faço pessoalmente relacionado com o tema Templários tem a cobertura do Templar Globe que o divulga através dos grupos do Facebook e internacionalmente. As Comendadorias de Sintra e de Lisboa são importantes bases de apoio ao estudo e actividades da Ordem. Deste modo, o que eu faço, divulgo ou publico sobre os Templários é coerente com o que a Ordem faz. Não confessional nem prosélito, no sentido em que não uso publicações e visitas para cooptar ninguém para a Ordem. Pelo contrário. Há sempre pessoas que me perguntam sobre como entrar na Ordem e eu recomendo-lhes sempre que visitem o site oficial e escrevam um mail para lá. O tema não é a Ordem em que eu estou e onde me sinto bem e onde gosto de trabalhar, mas sim os Templários como Ordem histórica e ideário já muito preenchido de mitos e lendas. Não é uma questão de aumentar fileiras. Bem pelo contrário! O que faço – isso sim – é usar os eventos, publicações e visitas para procurar entusiasmar os que as procuram, a estudar por si mesmos, pensar por si mesmos e concluir por si mesmos. E isso é instrução vital para quem esteja numa Ordem Templária, moderna ou antiga. Mas é também fundamental para quem não esteja em Ordem nenhuma! Ou seja, as actividades públicas que faço são coerentes com o que defendo sobre o mundo iniciático e, nesse sentido, são apropriadas para membros das Ordens a que pertenço, das Ordens a que não pertenço e dos que não querem ser membros de Ordem ou Religião alguma. Há momentos para tudo na vida. Seria matar o propósito das visitas fechá-las a um ramo da grande família fraternal ou usá-las para cooptar gente. Sei que os membros da Ordem Templária aproveitam as visitas para aprender. Mas não se esgota aí. O Curso Livre da Lusófona é outra coisa bem diferente.

TG – Não está afiliado à Ordem?

LM – Absolutamente não. Enquanto na Ordem a aproximação ao tema Templário é na perspectiva da Cavalaria Espiritual como um modelo de comportamento e estudo pessoal, com os seus temas, paradoxos, meditações, objectivos, desafios e imperativos de compromisso interior e com o próximo, o Curso na Universidade é académico. Explora a história da Cavalaria, na qual os Templários se inserem, todo o contexto religioso e depois a história dos diversos movimentos que se foram inspirando nos Templários desde o século XIV ao século XX.

TG – Qual é a diferença?

LM – No primeiro caso estuda-se a doutrina com o objectivo de adoptar as ideias e integrá-las num modelo de comportamento pessoal como via de relação com o divino. No segundo estudam-se as ideias, a suas evolução, de onde surgem e que impacto tiveram na história, na arte, na religião. No primeiro caso vivem-se os Mitos. No segundo conhecem-se os Mitos, as suas origens, o seu arquétipo e o modo como Mito é usado para impulsionar vontades e acontecimentos, sem necessidade de os viver ou acreditar no seu “nada que é tudo”.

TG – E os alunos do Curso da Universidade Lusófona não têm expectativas diferentes de cada visita?

LM – O tema é o tema. Cada um percepciona-o como entende. Creio que as expectativas não são goradas, porque nas visitas estão todo o tipo de pessoas. Os meus livros têm leitores de todo o género. Não sou um autor para apenas um grupo como muitos dos meus colegas autores. Alguns só são lidos nos círculos Maçónicos. Outros só são lidos nos círculos de Nova Era. Outros só são lidos entre duas paragens em bombas de gasolina. Outros só são lidos por académicos. Outros por leitores que não se filiam em nada. Eu tenho uma base de leitores que abarca todos estes grupos e grupo nenhum. O mesmo se pode dizer dos que vão às minhas visitas ou conferências. Procuro não ter uma linguagem “confessional” e proselitista. Não estou a recrutar. Não estou mesmo. Deixem-me em paz. Já tenho muito que fazer. Por isso, ao não ter uma “agenda”, ao não querer promover mais do que o livre pensamento e despertar nos outros a mesma paixão sobres os temas ou lugares que eu mesmo tenho, sem ataduras ou molduras doutrinais, tomo os assuntos de modo que cada um que me ouça ou leia possa tirar o que melhor lhe parecer para a sua busca livre. É seguir as palavras que ouvi ao Mestre Agostinho: “o que importa é gostar do que se faz e ser-se contagioso no entusiasmo”. Por isso, creio que os meus alunos não poderão dizer que lhes tentei impingir doutrinas ou códigos e por isso não creio que as expectativas que tivessem possam ter sido goradas. Espero, isso sim, que os tenha motivado e lerem-me e a deitarem fora os meus livros, trocando-os por coisas ainda melhores.

TG – Mas ao seleccionar um tema como a Demanda do Santo Graal para a Pena já é dar um mote doutrinal.

LM – De modo algum. Foi Strauss que disse “Eis o jardim de Klingsor e o Castelo do Santo Graal” quando esteve em Sintra. Isso acontece porque reconheceu o cenário no qual as óperas de Wagner se desenrolam. Curiosamente Parzival de Wagner é de 1882 e o Palácio da Pena de 1840. Quem inspirou o quê? Quem é percursor do quê? Neste caso o que é evidente é que o mesmo tipo de imaginário que inspirou Wagner tinha já inspirado D. Fernando II.  O facto de ambos terem tido contacto com círculos iniciáticos muito próximos pode ajudar a explicar a coincidência. Mas a associação da Demanda à Pena não é uma questão doutrinal. É uma questão de facto.

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TG – Então onde é que o Luis traça a linha limite.

LM – Traço a linha limite na interpretação desses factos. Ao fazer uma visita destas procuro dar aos meus companheiros de tarde uma boa história. Como se nos juntássemos à volta de uma fogueira e partilhássemos aventuras. Nas visitas tento não falar só eu. Também quero ouvir e aprender. Estão ali muitos pares de olhos que conseguem ver o que eu não vejo e sabem o que eu não sei. O que já aprendi nestas visitas! Ui! Eu o que posso dar é o referencial que não se encontra logo disponível. Interesso-me por estes assuntos, sempre os mesmos, há tanto tempo que algumas coisas foram ficando consolidadas. Lá diz o ditado “O Diabo sabe tanto, mais por ser velho do que por ser Diabo”. Ao manter sempre a mesma linha, acabo por ir construindo uma mundividência só minha, concreta e definida, consistente. É essa experiência que devo partilhar, poupando tempo a quem me acompanha, para que disponham logo de dados relevantes para que façam a sua mundividência eles mesmos. Saber, por exemplo, que D. Fernando II era maçon ajuda a entender algumas coisas. Mas saber que ele se filiava numa Maçonaria alemã de raiz ligada à antiga Estrita Observância Templária reformada, ajuda a perceber o seu interesse pelo pintor Nicolas Poussin e as particularidades que se encontram nos pratos de Cifka. A interpretação desses elementos já são outros “quinhentos”, por assim dizer. É aí que eu traço a linha. Se me fizerem perguntas sobre a interpretação, não deixarei de responder, sublinhando que é a minha interpretação. Mas o que encorajo é a que cada um procure saber mais. Toca a “googlar” Cifka, Estrita Observância e Nicolas Poussin. Não me perguntem o que quer dizer. Descubram! O mais difícil está feito.

TG – Foi assim no Mosteiro dos Jerónimos?

LM – Claro. Um livro incontornável é “A História Secreta de Portugal” do António Telmo, onde se faz um primeiro exercício de interpretação de muitos dos elementos iconográficos. Mas eu não vou aos Jerónimos explicar António Telmo. Ele é auto-explicativo. Compra-se o livro, lê-se, até se pode fazer a visita com o livro na mão e temos lá o que pensava António Telmo. O que importa é dizer que não foi só António Telmo que pensou os Jerónimos. Importa chamar a atenção para o trabalho sobre o simbolismo do Manuelino do Paulo Pereira, para o célebre programa que a RTP passou da autoria do Manuel J. Gandra e do António Carlos de Carvalho nos idos dos anos 80, para algumas linhas escritas e particularmente os painéis do Rossio do Mestre Lima de Freitas e, já noutro plano, para todo um acervo mais recente de autores como Eduardo Amarante, Paulo Loução, entre muitos outros. Assim sim. Assim já temos uma base para “navegar” os claustros. Há informação de qualidade, há especulação, há teses distintas. É isso que serve o visitante. Serve-lhe saber onde há-de ir procurar para fazer a sua própria visita e a sua construção simbólica sobre os Jerónimos.

TG – Então não se ficou a saber o que o Luis pensa?

LM – O que o Luis pensa é muito útil ao Luis. Mas é pouco útil a quem quer compreender – no sentido bíblico de circunscrever e apreender – por si. Não quero que venham ver-me fazer sapatos, que eu não sou sapateiro. Quero que, ao explicar os sapatos, alguns saiam das visitas a querer ir experimentar fazer um par! Uma vez ou outra, lá vou dando a minha orientação temática, porque o tema está lá e fala-se pouco dele. Por exemplo, um tema fascinante nos Jerónimos é o dos túmulos vazios. Até D. Sebastião lá está! Eu tenho opinião e conto algumas histórias. Mas o essencial é apontar por onde procurar mais informação e pontos de vista inusitados ou inabituais. Acho que é disso que as pessoas mais gostam. Uma história bem contada é um apontador.

TG – E no Palácio da Pena, que temas costumam passar despercebidos.

LM – Muitos. Mesmo muitos. Tal como com os Jerónimos há uma visão mais ou menos consagrada da Pena que ignora muitos detalhes. E é no detalhe que está o tesouro. Sim, Parque e Palácio estão relacionados com a Demanda do Graal. Mas que Demanda? Há várias versões, várias linhas tradicionais. Qual delas? Que elementos estão ali expressos? E que outras correntes são determinantes para a Pena tal como a conhecemos hoje? Passa-se ao lado de quase tudo. Um tema fulcral, por exemplo, é o de saber se havia ali um Convento ou um Mosteiro. Não é tudo a mesma coisa… Outro tema é conhecer a Ordem Hieronimita, o que poderá surpreender os mais desatentos. Outro ainda, sobre o qual nos debruçámos nesta última visita, é o dos vitrais. Os da Capela são de tal modo importantes que foram feitos logo em 1840, ano do início das obras. Fazem, portanto, parte dos planos iniciais e aquilo que neles se expressa será fundamental – no sentido mesmo de fundação. Mas mesmo a colecção de esparsos reunida no Salão Nobre não é aleatória e apresenta bastas razões para uma reflexão cuidada. É mais um apontador pouco referenciado.

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TG – O que podemos esperar para a Quinta da Regaleira.

LM – Tudo.

TG – Tudo?

LM – Apontadores. O 515 pode ser logo tratado. Basta 1 minuto e está. A questão Maçónica já foi muito bem ponderada pelo José Anes. Mais um par de minutos e fica o apontador. Quase todos os que vão ou já leram, ou podem vir a ler em breve o livro. Outro apontador é o do Manuel Gandra que publicou informação relevante sobre a colecção camoniana de Carvalho Monteiro, agora em Washington. Isso toma mais uns minutos. Noutro plano, naquele espaço não se pode ignorar o trabalho do Victor Adrião, que já estuda a Quinta desde há muitos, muitos anos. Trabalho extenso, documentado e detalhado. Mais um par de minutos. Como é costume não direi nada sobre o autor, mesmo sabendo que não é recíproco! Em menos de 20 minutos os apontadores mais conhecidos estarão dados. Perfeito. Será então hora de por isso tudo numa pastinha, fechar e ver em casa. Porque chegou a hora de, isso sim, fazer o que se deve fazer naquele jardim: passear. Deixar-se levar. Deixar-se encantar. Viver a tarde. Olhar o detalhe, deixar a evocação surgir à superfície do consciente. É um jardim iniciático. Comece-se a iniciação.

Fotos: Sunana Ferreira (c) 2015

Texto: TG (c) 2015

Aula Livre – Quinta da Regaleira

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A Quinta da Regaleira e os seus Jardins Iniciáticos e Palácio, está situada na encosta da Serra de Sintra e a escassa distância do Centro Histórico. O seu construtor, Carvalho Monteiro, pelo traço do arquitecto italiano Luigi Manini, deu à quinta de 4 hectares, o palácio, rodeado de luxuriantes jardins, lagos, grutas e construções enigmáticas, lugares estes que ocultam significados alquímicos, como os evocados pela Maçonaria, Templários e Rosa-cruz. Modelou o espaço em traçados mistos, que evocam a arquitectura românica, gótica, renascentista e manuelina.

Homem de grande cultura clássica, Carvalho Monteiro era dono de uma excepcional colecção camoniana. A mitologia greco-romana, as visões infernais de Dante e os ecos de um passado distante de misticismo e deslumbre acompanham o visitante que queira decifrar os mistérios de jardins e cavernas, num viagem ao interior da alma.

A visita terá lugar no dia 31 de Maio, iniciando-se pelas 14h30 e terminando 19.00h, sendo guiada por Luis de Matos e Luis Fonseca* (ver: universatil.wordpress.com).

As inscrições são limitadas e devem estar concluídas até dois dias antes da visita por imposições logísticas da própria Quinta.

A visita tem um custo de 10€ por pessoa + entrada no monumento** (ver preços de admissão ao monumento em: regaleira.pt)

Inscrições prévias: ihshi@mail.com

* Luis de Matos é autor, entre outros de “A Maçonaria Desvendada – Reconquitar a Tradição”, “Quero Saber – Alquimia” e “Breve Memória sobre a Ordem do Templo e Portugal”; Luis Fonseca é autor de, entre outros, de “Perit ut Vivat” e “A Doutrina Cristã Esotérica”.

** para alunos do Curso Livre Templários e Templarismo da Universidade Lusófona, bem como membros da OSMTHU a visita é gratuita e apenas devem pagar a entrada no monumento, contudo DEVEM INSCREVER-SE de modo a garantir a participação.

Praxes Académicas e Ritos de Passagem

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Esta Segunda-Feira a TVI-24 teve a gentileza de me convidar para o Programa “Discurso Directo” no qual se abordou o tema das Praxes Académicas à luz das últimas informações sobre a tragédia da Praia do Meco. O meu obrigado à Paula Magalhães e à TVI-24 pelo convite.

Antes de mais convém ressalvar que, não somente a minha intervenção na televisão como este texto, como ainda o Programa que se seguirá na série “Pérolas aos Poucos”, procuram abordar o tema na sua forma genérica e não expressamente o que aconteceu na Praia do Meco há pouco mais de um mês, não apenas porque a informação é escassa e pouco fiável, mas particularmente porque a dor dos pais e familiares de todos os envolvidos deve ser respeitada acima de qualquer outro facto, empalidecendo por isso todas as explicações e opiniões que pudessem ser emitidas e que deixa, assim, de fazer sentido.

Contudo, genericamente falando, as Praxes, a sua história, o seu fundamento e prática ao longo dos anos merece um estudo atento e uma reflexão profunda. Nos últimos anos tem sido trazida recorrentemente para os jornais e televisão pelos piores motivos e os abusos sucederam-se no passado, pelo que as opiniões no pressente são largamente desfavoráveis e facilmente manipuladas no sentido de pedir o seu fim imediato e sem apelo. Mas tal atitude é fruto de uma irracionalidade tão grande como muitos dos abusos que procura resolver, sendo por isso um posicionamento que, longe de resolver o problema, apenas o pode empolar ainda mais.

Dito isto, desejaria abrir o debate pela partilha do vídeo do Programa da TVI-24 “Discurso Directo”, de 27 de Janeiro de 2014, que vos convido a ver. Depois, se assim for do vosso agrado, poderão seguir-nos pela TVL já na Quinta-Feira e mais tarde complementar com um artigo mais circunstanciado onde poderei dar alguns dos links para que cada um possa seguir a pesquisa por si mesmo.

Assim e para já, aqui fica um resumo curto do “Discurso Directo” (3 minutos):

http://www.tvi.iol.pt/videos/14071410

E aqui de seguida fica a versão completa (48 minutos) com as chamadas telefónicas e reportagem:

Reconstituição do Ritual de Praxe de praia feita pela TVI-24 baseada na “Hora do Diabo” de Fernando Pessoa.

http://www.tvi24.iol.pt/…/meco-praxe…/1533037-4071.html

E ainda um documentário do Hugo Almeida que vê a Praxe por dentro. Está muito bem feito e recomenda-se vivamente. Ver o tema, agora por dentro, sem mediatismos nem embelezamentos. Recomendo:

II Jornadas de Estudo da Maçonaria Cristã – Sintra

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No passado dia 30 de Novembro de 2013 tive o prazer de participar nas II Jornadas de Estudo da Maçonaria Cristã, organizadas pela JPL “Adhuc Stat!”, nº5 do GPRDH, a Oriente de Sintra. A Loja, que trabalha no Regime Escocês Rectificado, comemorou recentemente o seu segundo ano de vida e, como vem sendo habitual, assinala o dia de Santo André – padroeiro do Rito que pratica – com um dia de estudo e divulgação dos fundamentos da Maçonaria Cristã aberto aos maçons de todos os Ritos e Obediências, bem como ao público em geral. A iniciativa tem o apoio do In Hoc Signo – Hermetic Institute e da Akademia Maçónica de Sintra.

Como Presidente do In Hoc Signo e durante muitos anos membro do Rito Escocês Rectificado, fui honrado com o convite para apresentar um trabalho que vem antecipar o meu livro (a sair em 2014 pela Zéfiro), que aborda a rica simbologia maçónica. Deste modo, apresentei uma curta comunicação intitulada “O Leão no Simbolismo Maçónico do Regime Escocês rectificado”.

Deixo um pequeno extracto:

“O Leão é um dos símbolos mais usados pelas religiões e pela tradição para representar a força do animal solar por excelência, divindade absoluta da vida e da morte e mediador de toda a Criação. Representa o poder soberano, a ordem e a sabedoria. Sendo o Rei dos Animais incorpora todas as qualidades e defeitos do seu lugar régio, incluindo a autoridade, a nobreza e a magnificência, mas também a cólera e a violência. É a luz manifestada na sua maior potência, o Ouro esplendoroso, sendo por isso o protector e o que cuida, ao mesmo tempo o Pai e o Mestre, mas igualmente o tirano e opressor se for consumido pelo orgulho e se ficar cego pela própria luz. Na Bíblia o Leão é o portador da destruição ordenada pela divindade, como é igualmente o símbolo do poder dos monarcas sobre o povo e o seu rugido é considerado tão poderoso quanto a Voz de Deus. Energia pura, é a destruição e a construção. O Rigor, a Justiça e a Síntese ao mesmo tempo. Na Árvore da Vida está representado na esfera do Esplendor, Tiphereth, a esfera central. O Leão aparece igualmente na visão de Daniel, como um dos animais proféticos, que os comentadores têm associado ao Império Babilónico. É ainda o símbolo da Justiça e da Clemência, estando associado a inúmeras lendas onde despedaça os iníquos e poupa os justos.

Tradicionalmente diz-se que o Leão habita um covil ou cova. É um habitante do interior da Terra, lugar que domina com o seu aspecto duplo de Sol Exterior e Sol Interior. O Leão em hebraico é Ari , cujo valor na Gematria é 211, relacionando-o com palavras como Herói, Acesso e Vista e dando-lhe a letra Dalet como atributo. Dalet assemelha-se a uma porta, com um alpendre ou cobertura. Por esta associação o Leão guarda a porta para a Caverna. É assim que vemos a inocência de Daniel provada na Caverna dos Leões. Estes não lhe tocam pois está inocente. É numa cova que Hércules deve matar o Leão de Nemeia. É assim que vemos os Leões que guardam o acesso a locais de poder, como Castelos, Palácios Reais e, na literatura medieval, encontramo-los à entrada do Castelo do Santo Graal.

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O Leão domina o poder de dar a vida e é vitorioso sobre a morte. Os Bestiários medievais perpetuavam a lenda que terão recolhido de Aristóteles e Plínio, a qual afirmava que a leoa dava à luz as suas crias mortas, mas que as acarinhava por três dias e lhes dava a vida através do seu alento. A associação à morte e ressurreição de Cristo ajudou à propagação do mito, marcando o carácter Crístico e de senhor da vida e da morte do Leão.

Os Alquimistas chamavam Leão Verde ao primeiro agente magnético empregado para a preparação do Alakest, ou Dissolvente Universal. Este é um tema amplamente explorado pelos Rituais Alquímicos do Barão de Tschoudy e de Dom Pernety. Alguns grandes Adeptos deram-lhe nomes diferentes para despistar os curiosos. Basile Valentin chama-lhe Vitriol Verde, expressando a sua natureza quente e ardente, outros chamaram-no Esmeralda dos Filósofos, Orvalho de Maio ou Pedra Vegetal.

No contexto Maçónico devemos separar o Leão genericamente usado como símbolo solar, a que se atribui a Força, a Sabedoria e a Beleza como expressão de uma trinuidade criadora, igualmente emblema da Tribo de Judá tal como nos aparece nos graus de Arco Real e do Rito Escocês Antigo e Aceite, do seu simbolismo particular tal como aparece no Rito Escocês Rectificado, que iremos analisar à parte. O trono de Salomão tinha dois Leões em ouro, que se perpetuaram na sua associação aos mais nobres entre os nobres, sendo usado nos tronos de monarcas e Papas ao longo de milénios. É o animal emblemático da Tribo de Judá, a tribo que viria a gerar a linhagem sagrada dos monarcas de Israel, incluindo David, Salomão e o futuro Messias. O Leão é o emblema heráldico mais usado em todos os tempos. Os Evangelhos de Mateus e Lucas dão a genealogia de Jesus, colocando-o como um príncipe da Tribo de Judá.

A realização da Obra do Leão é a realização da perfeição da obra física. O Leão é o símbolo da genealogia do Mestre, pelo que representa a transmissão imemorial e ininterrupta do Conhecimento de Mestre a Discípulo. A esta segue-se a Obra da Águia, contraparte imortal da matéria realizada representada pelo Leão (Ouro, luz manifestada, Sol, etc.). Deste modo, os graus simbólicos estão associados ao Leão e os graus filosóficos estão ligados à Águia.

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No Rito Escocês Rectificado o Leão aparece no 4º grau, o de Mestre Escocês de Santo André, como emblema do grau. A descrição dos rituais originais de 1778, manuscritos por Willermoz, diz: “Um Leão sob um céu tormentoso e carregado de nuvens, repousando ao abrigo de uma rocha e brincando tranquilamente com alguns instrumentos de matemática e estas duas palavras por divisa: MELIORA PRAESUMO, que significam ‘entrevejo coisas melhores’”. Não iremos desmontar aqui a simbólica de tal emblema, trabalho que Willermoz convida todos os Mestres Escoceses a fazer frequentemente, mas apenas referir alguns pontos mais salientes do seu estudo que podem abrir interessantes avenidas de pesquisa simbólica.

O Leão do Rito Escocês Rectificado (RER) está a coberto de uma rocha, protegido da tormenta que se desenrola à sua volta mas que não o afecta, já que está imperturbável, brincando com “instrumentos de matemática”. Já vimos anteriormente que o Leão (Ari em hebraico) se relaciona com a letra Dalet. Esta prefigura a imagem da rocha que vemos nas diversas representações do emblema maçónico, com uma cobertura protectora. Contudo, é também associada à porta, pelo que o Leão que brinca com instrumentos de matemática está a guardar uma porta ou entrada (papel que lhe é atribuído tradicionalmente, à entrada de fortificações e palácios em todo o mundo), acesso a uma caverna subterrânea, a arquetípica Caverna do Leão. René Guénon atribui à caverna o significado de “centro” e relaciona-a com o coração designando-a como “caverna do coração” . O Leão na sua Caverna é uma imagem clara do Homem que despertou a centelha no seu coração, a Presença que se manifestava na Arca no seu Sanctum Santorum, figurada no RER pela construção do Templo Místico de Salomão, objectivo último do Maçon Rectificado.

Por outro lado a Caverna refere-se ainda ao que está oculto, invisível, desconhecido. Este aspecto pode ser lido a muitos níveis simbólicos, já que do ponto de vista universal o Leão na caverna é a representação do Rex Mundi na sua cidade oculta interior, sendo igualmente a referência à Ordem Interior (uma Ordem de Cavalaria) que rege o Regime Rectificado, expressão da uma Ordem Invisível de que tivemos já oportunidade de falar.

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Uma última referência aos instrumentos de matemática com que o Leão brinca no emblema Rectificado. A Matemática é a antiga Aritmética. Ora, a palavra Aritmética vem do Latim Arithmetica, que encontra raiz no grego Aritmetiké Tekhné (ou “arte numérica”), em que número é Arithmos. Ora, Arithmos deriva da raiz indo-europeia “Ar”, que dará palavras como Arte, Ara, Ordem e o hebraico Ari (Leão). Assim, o Leão que brinca com instrumentos de Aritemética é a personificação da própria essência da Matemática. O Logos, veículo da Criação e destino da Reintegração. A medida de todas as coisas começa no Leão e termina no Leão. Ele é não só o que detém a Palavra Perdida, mas detém igualmente a Dimensão Perdida.

No RER, então, o Leão na sua Cova ou a coberto do seu Penhasco está protegido, está no seu lugar, imperturbável, detendo a plenitude do conhecimento aritmético e a medida de todas as coisas. Nenhuma tempestade o distrai ou atemoriza. É a imagem do Templo Místico de Salomão reedificado no Maçon. Ao entrever coisas melhores, segundo a sua divisa, exorta todos os que estão a passar por maus momentos a ancorarem a sua Esperança no futuro. Alude à coragem extraordinária de Santo André, discípulo de São João Baptista que, reconhecendo o Leão de Judá (Cristo), não hesitou em deixar para trás a sua existência anterior, incompleta, passada, para se reunir ao trabalho da construção do Novo Templo com o Cristo. Para fazer essa transição entre toda uma vida dedicada a um Mestre pela do Mestre dos Mestre, André personificou o MELIORA PRAESUMO, passando ele mesmo da Antiga Lei à Nova Lei. Até ali o Templo era exterior (Tabernáculo no Deserto, depois Templo de Salomão, depois Templo dedicado por Zorobabel), mas com Cristo a construção do Templo é mística e interior.

O Leão, forte, soberano, em majestade é uma das mais poderosas imagens simbólicas usadas pela humanidade em todos os tempos. No seu aspecto sereno e imperturbável é a representação do Homem realizado.”

Resta-me mais uma vez agradecer à JPL “Adhuc Stat!” o convite e a oportunidade, desejando as maiores felicidades e êxitos no trabalho Rectificado.

Que a Ordem prospere.

Quero Saber – Maçonaria

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O segundo volume da colecção “Quero Saber” debruça-se sobre a Maçonaria. A Ordem Maçónica tem sido muito discutida na imprensa e é muitas vezes envolvida nas mais estranhas teorias da conspiração. Há muitos livros que nos falam do ocultismo por detrás da Maçonaria, dos rituais exóticos, dos segredos e dos símbolos. No entanto, há pouco material de referência que explique claramente o modo como a Ordem Maçónica se tem desenvolvido e a sua presença no mundo actual. Afinal porque é que alguns se dizem “regulares” e outros “agnósticos”? A Maçonaria é exclusivamente masculina? Quais são as diferenças entre cada uma das correntes, quer na sua filosofia de base, quer na sua acção na sociedade? Quantos são os Maçons? Quais são a mais de uma dezena de Obediências diferentes que trabalham em Portugal nos dias de hoje? O que é uma Loja? O que se passa numa Loja? O que é um Rito? É verdade que o basquetebolista da NBA Shaquille O’Neal e Michael Richards, o Kramer de Seinfield, são Maçons?

Este guia ajuda-nos a conhecer a história da Maçonaria e das suas várias correntes, desde o tempo das guildas medievais até às múltiplas Obediências modernas. Pela primeira vez toda a Maçonaria Portuguesa é listada e colocada no seu contexto, com diagramas simples e claros.

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