Pérolas aos Poucos – Crise? Que Crise?

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TEMPORADA 2 – EPISÓDIO VI – CRISE? QUE CRISE?

Já não estamos (ou ainda não estamos) numa crise. A crise é o momento da mudança, em que o paciente morre ou começa o caminho para a recuperação. É curta por definição. É a diferença entre “Houston, we have a problem” [“Houston, temos um problema”] e “Houston, WE ARE a problem” [“Houston, SOMOS um problema”].

Vivemos uma Crise, ou estamos só a distender uma situação?

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Pérolas aos Poucos – Chama-me Nomes

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TEMPORADA 2 – EPISÓDIO V – CHAMA-ME NOMES

(excerto)

Luis de Matos (LM): Um outro fenómeno que tem acontecido em diversos países, mas que é mais visível nos nomes americanos e na comunidade afro-americana, é procurar inventar nomes muito criativos e muito diferentes [do habitual]. Lembro-me de Beyoncée, Jamilia, por exemplo. Quando ouvimos alguns nomes na televisão ficamos muito surpreendidos. São nomes especificamente da comunidade negra. E porquê? Porque os seus pais e avós tinham nomes de escravo e eles estão a procurar deixar [para trás] esses nomes. Os Jackson, os Jefferson eram nomes normais da comunidade negra há 50 ou 60 anos atrás. Cada vez mais os vão deixando para outros nomes que vão criando. São muito inventivos. E isto é interessante porque a sua consciência social mudou completamente. Eles não renegam a sua ancestralidade, aquilo que os seus pais ou avós foram, mas como se sentem pessoas diferentes e têm outro papel na sociedade, mudam o nome. No nome se reflecte a mudança interior.

Alexandre Honrado (AH): O papel da religião [na atribuição de nome] também é importante. Há uma fase da história do mundo que é condicionada por algumas religiões e essas religiões impõem alguns nomes, até para as pessoas poderem dizer “eu sou desta religião”, ou também para dizer “eu agora escolhi um nome diferente para o meu filho para esconder que sou desta religião”, depende do momento que estás a viver.

LM: Sim.

AH: Em Portugal é nítida a quantidade de José e de Maria, o que não é em vão e que em certas zonas do mundo [essa influência ainda] é importante.

LM: É um impacto importante. Mas é mais importante, por exemplo, o nome de família. Enquanto que, com o nome – quando dizes o nome próprio – de facto esse nome define-te como pessoa, o teu apelido define ainda mais, porque fala sobre o teu passado. Conforme eu te dou um nome… Tu disseste-me logo: “Matos? Está ligado a judeus.” Não poderias saber, por exemplo, que o meu avô se chamava Isaac.

AH: Não podia saber…

LM: Claramente que isso se reflecte.

AH: Podia deitar-me a adivinhar, o que era uma coisa linda!

LM: Podias tentar!

(…continua)

Pérolas aos Poucos – O Objecto

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Temporada 2 – Episódio III – O Objecto

(excerto)

Luis de Matos (LM): [A noção de objecto] que vem do filósofo George Berkley, leva ao extremo a ideia de que o objecto em si é indissociável da ideia do objecto. Quando falamos do [Santo] Graal e dizemos que está em Léon; ou não, está em Glastonburry; ou não, está em Monserrate; ou não, está em Valência, ou noutra parte qualquer da Europa; ou até poderia estar em Portugal, quem sabe; nós estamos a falar de ideias do Graal. Estamos a falar daquilo que são as tais formas de pensamento que criamos à volta de um objecto específico. O que George Berkley defende é que o objecto e a ideia são uma única coisa, não são coisas distintas. Não consegues ter a ideia sobre o objecto sem a existência do objecto.

Alexandre Honrado (AH): Estás perante o objecto. Tens consciência dele e o reconhecimento do objecto.

LM: Se não estivesses perante ele e não tivesses a percepção empírica de que ele está à tua frente, não conseguias conceber o objecto. Sem um motivador externo, não conseguias criar a ideia. A partir desse momento, o objecto e a ideia tornaram-se iguais. [O objecto é a ideia que fazes dele e deixa de existir por si mesmo].

AH: Estavas cá no início do programa, quando eu disse para a câmara – logo no início – “sem o objecto não podemos ser objectivos”. Uma sala vazia, nua, sem qualquer objecto, não nos trás objectividade. Perante esse reconhecimento não somos nada.

LM: Não. Contudo, tu podes criar a ideia do objecto – “o Santo Graal é uma taça”, dizes tu – e agora a ideia em si ganha vida. Mesmo sendo distinta do objecto. Ela passa a ser em si [mesma] algo que é, que posso comunicar às pessoas, que posso fazer crescer, que posso colorir à volta e criar toda uma “ideologia” à volta [da ideia] de algo que [já não] é sequer objectivo.

AH: É mais uma imagética, às vezes, nem é propriamente uma ideologia.

LM: Completamente. Isto faz com que o objecto tenha evoluído. Quando perguntas “o Graal não seria uma taça”? [Sim,] é uma taça. Na ideia das pessoas é uma taça. Portanto, é também uma taça.

AH: Em alguns textos mais antigos dizem que é um prato de cobre. Que na tradução mais directa…

LM: Pelo que, também é um prato.

AH: Pelo que também é um prato…

LM: Ou seja, se o objecto e a ideia que tens do objecto são a mesma coisa, cada objecto vai adquirindo sucessivamente diversas formas ideais [a partir] daquilo que ele é, que o vão qualificando e o vão transmutando ao longo do tempo. O objecto muda ao longo do tempo.

AH: Exactamente.

LM: Havia um objecto específico e físico, que pudesses tocar, que fosse o Graal? Isso é o que nós não sabemos. Porque a ideia já adquiriu tal força entretanto, já se expandiu de tal maneira e já ressoou de tal modo com as pessoas, que lhe atribuíram toda uma série de significações que são muito profundas para elas, que o objecto em si já perdeu a importância.

AH: Mas o significado não deixa de ser aquilo que é o teu imaginário para o tornares no teu imaginário interior. E portanto já não discutes se havia ou não [o objecto original]. Há um Santo Graal qualquer em cada uma das pessoas que acreditam nele.

LM: E por isso tu dizes assim: “o Santo Graal é a perfeição da alma”. Pois. É uma ideia que decorre de uma idealização daquele objecto.

AH: É uma transposição, diríamos.

LM: Completamente. Portanto objectos como o Santo Graal, ou a espada Excalibur, ou, ou … (ri-se), ou por exemplo a Batalha de Ourique e o milagre que se deu quando D. Afonso Henriques viu Jesus Cristo nas nuvens que lhe disse “toma esta chagas para símbolo da tua nação” e [hoje] aqui estão as cinco chagas nas cinco quinas de Portugal, etc.; tudo isso são questões objectivas ou são ideias que depois evoluem? Houve objecto? Houve um Jesus Cristo pregado numa cruz, visto no céu [de Ourique], ou isso foi uma ideia criada a partir de uma impressão que pode ter sido perfeitamente metafísica, ou pode até ter sido ilusória? Mas a ideia em si passou a existir.

AH: Há um Santo Lenho quase em cada igreja. Há milhões de Santos Lenhos, há milhões de objectos…

LM: Se [a ideia] passou a existir e se temos as cinco quinas na nossa bandeira, a ideia passou a ser em si própria o objecto. Não há que discutir se houve Ourique ou não. Agora [a ideia] já teve a sua influência na história. Agora criaste o mito.

(continua…)

 

Pérolas de Segunda Época

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O “Pérolas aos Poucos” voltou à TVL. Começámos a nossa Segunda Temporada com alguma saudade. E alguma nostalgia. De facto, está já disponível o episódio intitulado “Que Saudades da Nostalgia”, onde exploramos o modo com designamos os sentimentos.

Talvez muitos não saibam, mas a nostalgia começou por ser identificada como uma doença melancólica, que atacava os soldados Suíços em serviço fora da sua terra. E só foi designada no século 17!

Já a nossa saudade é anterior e aparece escrita pela primeira vez nas Cantigas de D. Dinis. No programa exploramos um pouco as diferenças entre uma e outra e procuramos entender por que motivo o sentimento resistiu a ser designado, bem como o significado etimológico de ambas as palavras.

Pérolas aos Poucos V – O Segredo

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Episódio V – O Segredo

(excerto)

Luis de Matos (LM): O “segredo” tem aqui duas fases. Em primeiro lugar a noção de que há uma realidade e que algo se esconde por trás dessa realidade. Podemos apreciá-la se pudermos, a partir daquilo que é esotérico – daquilo que não é aparente – chegar a algo de mais profundo, que é a existência das coisas para lá da sua aparência. Mas isso parte de um princípio [anterior] muito interessante: é que elas antes de serem coisas, também já tinham uma existência que era invisível. E todo o visível é produto da precipitação desse invisível. Ou seja, tudo o que é material, já foi imaterial antes de poder ter sido material.

Alexandre Honrado (AH): E aos poucos vai-se descobrindo?

LM: Aos poucos vai-se materializando. Portanto essa essência que o criou está lá. Faz parte do tecido de toda a coisa existente. Estudando a coisa existente, encontram-se as causas da coisa existente. O esoterismo é isso.

AH: Então o mistério é uma metáfora do segredo.

LM: O mistério é uma metáfora do segredo. O mistério está em tudo, podes a partir dele, chegar ao segredo. E o segredo é a causa. O segredo é sempre a causa. Falamos da relação entre a palavra “segredo” e a palavra “arcano”. Alguma coisa que é “arcana”, de facto é um segredo. Mas “arcano” vem do [grego] “arquê”, o “princípio”. É o princípio gerador de todas as coisas.

AH: Utilizamos muito o “arcaico” por causa disso.

LM: Precisamente. A noção de segredo tem sempre que ver com “o que é que causou isto?” Vivemos num mundo de causas e efeitos mas muitas vezes não nos perguntamos, na nossa vida, porque é que qualquer coisa ocorre. Quando paramos e perguntamos o “porquê?”, estamos a indagar qual é que é a causa. É um mundo de efeitos. Se encontrarmos a causa e mudarmos a causa – e muitas vezes a causa é o nosso mau comportamento, muitas vezes a causa é como reagimos mal a determinadas situações, muitas vezes a causa são as nossas inclinações naturais, que nem sempre são as melhores, ou até inclinações culturais que nos obrigam a agir de determinada forma que não é consistente com os valores morais que temos…

AH: E exigências do foro esotérico…

LM: … quantas vezes… o que nos leva a produzir um mundo, a criar um mundo à nossa volta, connosco, com os nossos amigos, com a nossa família, no nosso emprego, que é totalmente condicionado pelas nossas reacções.

AH: Tu acreditas que, para o verdadeiro amigo, não há segredos?

LM: (ri-se).

AH. Nós somos muito amigos, mas teremos alguns segredos um para o outro?

LM: E quem é o verdadeiro amigo?

AH: Quem é o verdadeiro amigo?

LM: Sim, quem é o verdadeiro amigo? O único fiel amigo que há é o bacalhau. Esse é o único fiel amigo. Tirando esse…

AH: A proximidade do Natal faz-te dizer coisas absurdas…

LM: Faz, faz…

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AH: Não sou só eu hoje a dizer coisas absurdas…

LM: É que colocamos o fiel amigo no plano da refeição. Haverá um fiel amigo? Quem é que é fiel a si próprio, quanto mais ao outro, durante toda uma vida? Quantas vezes nos traímos a nós mesmos? É que temos dentro de nós duas tendências: temos sempre a possibilidade de fazer o bem e o mal. Mas enquanto não nos descobrirmos, enquanto não encontrarmos uma bússola interior que indica o caminho que devemos seguir, estamos sempre a mudar. Somos voláteis. Somos aquáticos.

AH: Luz e trevas também.

LM: Completamente. Mas seremos sempre luz e trevas. A questão é que muitas vezes as trevas sobrepõem-se de forma inconsciente. Nós nem o percebemos. E somos inconsistentes connosco próprios. Hoje defendemos uma coisa, daqui por uma semana defendemos outra completamente distinta, achando que somos consistentes.

AH: As respostas às vezes estão dentro de nós e por isso é que estão tão distantes, porque temos segredos para  nós próprios. Não queremos admitir… Chegamos lá, tocamos e voltamos atrás. “Não quero descer tão baixo para conhecer o meu íntimo”.

LM: Precisamente, precisamente. Eu falo por ti.

AH: E eu falo por ti!

(continua…)